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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

“Se insistirmos em cortar nas pensões estamos agravar o problema da economia”


RAQUEL MARTINS 20/01/2014 – 07:33


José Vieira da Silva, ex-ministro do PS e o rosto da reforma da Segurança Social de 2006, critica a estratégia seguida pelo Governo e diz que “poucas medidas têm uma natureza tão recessiva como o corte de pensões”

José Vieira da Silva deputado do PS defende que a única forma de resolver os problemas de sustentabilidade passa pelo crescimento da economia e do emprego. E considera que o aumento da idade da reforma para os 66 anos, tal como foi tomada, “é uma medida puramente orçamental de curto prazo”.

A primeira vez que se aprovou um corte nas pensões em pagamento, por via da Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), foi num governo do PS. Foi o primeiro passo para as medidas que se seguiram, nomeadamente a convergência chumbada pelo Tribunal Constitucional (TC)?
Não estamos a falar das mesmas coisas. O que estava previsto em 2011 tinha a ver com uma contribuição excepcional aos rendimentos, incluindo os das pensões. Uma coisa bem diferente era a chamada lei da convergência, que implicava uma alteração da fórmula de cálculo de pensões que já tinham sido atribuídas.

Considera aceitáveis as alterações à CES que o Governo agora propôs em alternativa?
Com esta alteração o Governo está a tentar fazer passar a ideia de que também os pensionistas deveriam ser incluídos no esforço de consolidação das contas públicas, como se não estivessem. É difícil encontrar um grupo social em Portugal que tenha sido atingido de forma mais significativa. Esta política está a gerar uma degradação, com uma dureza e uma intensidade que nunca existiu no nosso país, das condições de vida num sector com menos capacidade de adaptação.

Neste momento temos mais prestações para pagar, mais desemprego e menos pessoas a contribuir. Neste que também contribua para a sustentabilidade, como defende o Governo, ou isso pode alcançar-se sem atingir os actuais pensionistas?
Há um esforço por parte do Governo e dos seus apoiantes para reforçar a ideia de que a raiz do problema está nas pensões. As questões da sustentabilidade do sistema de pensões não são muito diferentes da sustentabilidade do sistema de saúde, de educação, de segurança. O que acontece, em particular com o sistema de pensões, tem a ver com o facto de hoje termos uma economia que está a produzir aos níveis de há dez anos atrás. Ora é difícil uma economia a produzir, criar riqueza e a gerar emprego ao nível de há dez anos atrás, responder às necessidades de hoje. Depois temos as questões demográficas: a natalidade decresceu e, com consequências mais imediatas, temos a emigração. Não creio que exista nenhuma solução para os problemas agudizados por este recuo histórico, que não passe pelo crescimento económico. Sem que se volte a criar riqueza e emprego, dificilmente nos poderemos aproximar do reequilíbrio das contas da Segurança Social. Claro que isso não acontece num estalar de dedos.

Ao cortar nas pensões não se está também a comprometer o relançamento da economia?
Poucas medidas têm uma natureza tão recessiva como o corte das pensões. Não apenas porque muitos dos pensionistas têm uma elevada propensão ao consumo, como num quadro de desagregação do nosso potencial produtivo, as pensões compensam os rendimentos que se perdem no mercado de trabalho. Se insistirmos em encontrar aí uma receita fácil estamos a agravar o problema da economia. Não há aqui um milagre de alternativas. O esforço que está a ser feito pelos empresários e pelos trabalhadores e por todos os que se mobilizam para explorar as oportunidades dos mercados externos, tem limitações.

Mas entre o momento em que estamos e o momento em que a economia há-de retomar, é necessário fazer ajustamentos no sistema de pensões?
A medida do aumento da idade da reforma para os 66 anos, tal como foi tomada, é uma medida puramente orçamental de curto prazo. Em 2006, mudou-se estruturalmente algumas componentes do sistema e criou-se o factor de sustentabilidade a partir daí. Não nego que este aumento da idade da reforma possa ter uma espécie de despacho: não se pagam pensões novas em 2014 e para isso mexe-se no factor de sustentabilidade e impede-se as pessoas de saírem, suportando o custo do aumento da idade da reforma. Tudo isto é feito com uma enorme precipitação. Esta medida acrescenta pouco e os custos em termos de credibilidade e de credibilização do sistema serão maiores do que os ganhos.

Acha que há uma estratégia por parte do Governo de descredibilizar o sistema?
Não sei se é estratégia ou incompetência. Que o têm conseguido, têm.

Fala-se muito que o sistema é pouco equitativo? É verdade?
Muito se diz sobre o nosso sistema de pensões... A ideia de que as pessoas contribuíram, com as regras que o Estado fixou, para a sua pensão é uma ideia elementar, certa e correcta. Há aqui um contrato, as pessoas contribuíram com o que o Estado lhes pediu e estavam a receber aquilo que o Estado definiu. Essa é uma ideia absolutamente essencial. Se há mérito no acórdão do TC [que chumbou o corte de 10% nas pensões acima de 600 euros em pagamento] é ter tomado uma decisão com base no princípio da confiança. O TC fez mais pela defesa do estado de direito com aquela decisão do que muitas declarações nesse sentido. A defesa do valor das pensões, já depois de terem sido sujeitas a uma forte pressão fiscal, deveria ser um aspecto central na condução da política portuguesa neste processo de ajustamento. Devia ser uma trincheira pelo seu valor civilizacional, mas também pelo seu impacto económico. Quando cortamos as pensões, estamos a abdicar de toda a ambição de contribuir para uma sociedade equilibrada. Tem sido demasiado fácil a tentação de utilizar aquela despesa.

Reconhece que é preciso repensar estruturalmente o sistema ou ele é adequado e temos de resolver o problema de outra forma?
Não creio que seja razoável ou viável pensar em grandes mudanças estruturais num momento em que temos necessidades de emergência. A única coisa de que se houve falar é do plafonamento. As pessoas deviam pensar porque é que, estando o plafonamento há tantos anos na agenda política portuguesa, ele nunca foi concretizado. Uma reforma desta natureza não pode ser feita com para isso e não há condições financeiras para reduzir as receitas da Segurança Social.

Vários especialistas e até alguns sindicatos falam na necessidade de diversificar as fontes de financiamento do sistema. Como é que isso se faz?
Sou conservador nesse domínio. Temos que distinguir o sistema na dimensão contributiva e não contributiva. Há quem fale noutras variáveis que não o salário, eu próprio já defendi essa ideia. O que se ouve mais vezes falar é que as empresas devem pagar não sobre os salários, mas pela riqueza que criam. Não creio que seja um bom sinal dizer que paga mais a empresa que cria mais riqueza. Se cria mais riqueza tem um papel de arrastamento na economia que vai gerar salários noutros sítios. Pode haver melhorias e o PS chegou a propor que a taxa social única fosse distinta em função da natureza dos contratos. É uma medida justa, mas difícil de aplicar na situação de crise actual.

Falou na necessidade de distinguir as prestações contributivas das não contributivas. As não contributivas deviam estar sujeitas a uma condição de recursos?
Para o futuro não tenho nada contra isso. Seria vantajoso que tivéssemos todas as prestações não contributivas sujeitas a condição de recursos, que sejam pagas a quem delas necessita. Mas isso também pressupõe que elas sejam utilizadas de forma activa e não deixadas mais ou menos esquecidas. O Governo dá como exemplo da sua sensibilidade social o aumento das pensões mínimas, mas nada faz para valorizar os instrumentos eficazes na redução da pobreza extrema. Se há instrumento que é eficaz a reduzir a pobreza entre os idosos é o complemento solidário para os idosos. Quantas vezes ouviu o Governo promover esse direito? Vez nenhuma, ela lá continua cada vez com menos recursos.

O Governo vai criar um grupo de trabalho para propor uma reforma do sistema de pensões. Qual a sua expectativa?
O memorando não fala em nenhuma reforma da Segurança Social. E não fala porque na altura era reconhecido que era um sistema mais sólido do que a maioria dos que existiam no espaço da União Europeia. Agora, para responder a uma decisão do TC, vai-se apresentar uma reforma. Tenho pouca expectativa.

Comissão de inquérito do Parlamento Europeu (PE). Por que razão não foi convidado o ex-ministro das Finanças, Teixeira dos Santos?
Não faço ideia.

Qual a sua expectativa em relação a esta auditoria?
A minha principal expectativa já foi cumprida. É a primeira vez que o PE se envolve neste tema. Julgo que era muito importante que o PE desse conta do que é hoje uma evidência: estão-se a aprofundar assimetrias na União Europeia e o grupo que está a sofrer mais duramente com isso é o grupo dos países sujeitos a processos de ajustamento, seja com resgate ou sem resgate.

Esta auditoria poderá dar um contributo para o eventual programa cautelar?
Os relatórios do PE são sempre muito marcados pela sua concepção política. Talvez seja útil para o chamado pôs-troika.

Portugal terá um programa cautelar?
A situação de Portugal é ainda de grande fragilidade e com muitas incertezas. Todos os países sob stress financeiro têm visto baixar as taxas de juro nos mercados secundários. Um conhecido economista, Paul Krugman, chamou a isso o efeito [Mário] Draghi. Quer isto dizer que é da acção, da palavra e da intervenção do Banco Central Europeu que têm resultado os ganhos mais significativos na credibilização da dívida pública.

Isso é positivo?
É bom, no sentido em que aponta o caminho. A Europa caracterizou-se por chegar sempre tarde e com poucos meios às crises que se foram sucedendo a partir de 2010. Com a excepção das contas externas, todos os outros indicadores pioraram e ainda assim as taxas de juro têm vindo a baixar. A explicação é o efeito Draghi. É aí que continuará a estar a explicação de muito do que irá acontecer. Sem uma intervenção das autoridades europeias será muito difícil o regresso de Portugal aos mercados.

O PS está a preparar o programa eleitoral. O que é possível fazer de diferente?

Várias coisas são possíveis. Uma delas é ter uma posição em relação à Europa diferente da que o Governo português tem tido, de alinhamento com a posição dos credores absolutamente

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Governo diz que não haverá "medidas alternativas" se a CES derrapar

A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque ENRIC VIVES-RUBIO


 Executivo afirma que a nova CES e aumento das contribuições para ADSE permitem cumprir o défice para este ano

O Governo garante que não irá recorrer a “medidas alternativa” para compensar “eventuais diferenças” entre as receitas que espera arrecadar com a nova contribuição extraordinária de solidariedade (CES) e aquilo que efectivamente conseguirá obter no final do ano. As metas do défice, assegura o executivo, serão cumpridas com as novas regras da CES e com o aumento dos descontos para os subsistemas de saúde da função pública.

“Em sede de execução orçamental, eventuais - diferenças serão geridas dentro dos programas orçamentais respectivos, não sendo necessário recorrer a medidas alternativas para cumprir eventuais gaps”, destacou fonte oficial do Ministério das Finanças, reagindo às dúvidas que surgiram sobre o impacto orçamental das medidas aprovadas na semana passada para fazer face ao buraco de 388 milhões deixado em aberto pelo chumbo da convergência nas pensões.

Estas medidas permitem cumprir os 4% do défice em 2014”, garantiu ao PÚBLICO fonte oficial.

O Governo decidiu aumentar os descontos para a ADSE de 2,5% para 3,5%, esperando com isso arrecadar à volta de 160 milhões de euros. O valor “remanescente”, como avançou na altura o ministro da Presidência, Luís Marques Guedes, viria da CES, que manterá as taxas de redução de 3,5% a 10%, mas baixa para 1000 euros o valor a partir do qual os cortes começam a ter efeito. As taxas marginais também passam a aplicar-se a valores mais baixos.

Contas feitas seriam abrangidos mais 137 mil pensionistas do Estado e da Segurança Social, cerca de 10 mil com rendimentos superiores a 4611 euros, além de cerca de 16 mil que estão entre os 1350 e os 1397 euros e que até agora tinham cortes muito pequenos. Contas feitas e aplicando as taxas máximas para cada escalão de rendimentos, durante 14 meses (algo que não irá acontecer porque as novas regras só estrarão em vigor lá para Março), a receita da CES equivaleria a 120,7 milhões de euros, abaixo dos 228 milhões esperados.

Ontem, fonte oficial alertou que as contas não têm em conta o universo de pensionistas que recebem pensões pagas por fundos. Além disso, lembram que desde o início do ano, a CES já incidia sobre os que acumulavam pensões de reforma com pensões de sobrevivência, o que aumentava o universo de afectados face a 2013. Tanto para um caso como para o outro, o Governo não disponibiliza dados, ficando sem se saber se estes universos permitem encaixar o valor que falta nas contas do PÚBLICO.

A CES está prevista no Orçamento do Estado, mas o aumento dos descontos para a ADSE e para os subsistemas de saúde dos militares e forças de segurança (ADM e SAD) começa a ser discutido com os sindicatos na próxima semana.

A convocatória enviada aos sindicatos da função pública pelo gabinete do secretário de Estado da Administração Pública agenda as negociações para 20 de Janeiro. Em cima da mesa estará o aumento de 2,5% para 3,5% dos descontos exigidos aos beneficiários dos subsistemas de saúde para poderem usufruir do sistema. Mas o diploma nada diz sobre a transformação da ADM e da SAD em sistemas voluntários como é o compromisso do Governo.

Desde Agosto do ano passado, esta será a terceira vez que o Governo aumenta os encargos dos trabalhadores e aposentados com estes sistemas. Em Agosto, os descontos subiram de 1,5% para 2,25%.
Em Janeiro, foram confrontados com novo aumento, de 2,25% para 2,5%.

Agora, e de acordo com a proposta a que o PÚBLICO teve acesso, a proposta em cima da mesa aumenta os descontos para 3,5%, O dobro do exigido há menos de um ano. Assim, a remuneração base e as pensões de aposentação e reforma dos beneficiários titulares ficam sujeitas ao desconto de 3,5%. Medida semelhante à aplicada a quem está na reserva ou em regime de pré-aposentação.

Na introdução da proposta de decreto-lei, o Governo sublinha que o objectivo das alterações é permitir que os subsistemas de cuidados de saúde sejam financiados pelas contribuições dos seus beneficiários. “A orientação ao consagrar no plano dos subsistemas de saúde deve passar pelo autofinanciamento assente de forma consistente nas contribuições a efectuar pelos seus beneficiários”, lê-se no documento.

Nesse sentido, tal como a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, adiantou na quinta-feira passada quando a medida foi aprovada, os descontos dos beneficiários deverão chegar aos 3,75%, enquanto as contribuições das entidades empregadoras (neste caso, do Estado) deverão reduzir-se de forma proporcional.


PS considera inconstitucional alargamento da CES


LUSA  13/01/2014  - 17:03

A presidente do PS admitiu que os socialistas poderão solicitar a fiscalização sucessiva junto do Tribunal Constitucional

A presidente do PS considerou esta segunda-feira "inconstitucional" a medida do Governo que alarga a base de incidência da contribuição extraordinária de solidariedade (CES) e admitiu que os socialistas poderão solicitar a fiscalização sucessiva junto do Tribunal Constitucional.

A posição de Maria de Belém foi transmitida em conferência de imprensa na sede nacional, depois de considerar que o alargamento da CES proposto pelo executivo PSD/CDS é "inconstitucional, intolerável, injusto e revoltante”.

"No quadro da legalidade democrática, o PS avançará as medidas ao seu alcance para se opor”, advertiu a presidente do PS, referindo que já anteriormente o Tribunal Constitucional tinha deixado um aviso ao Governo em matéria de aplicação da CES aos pensionistas.

"O Tribunal Constitucional disse que só aceitaria a CES [no Orçamento para 2013] se fosse por um período transitório e progressivo. Neste momento assiste-se a uma tentativa de transformar em definitivo algo que era provisório e transitório, agravando ainda mais as condições já de si muitos difíceis da maioria dos pensionistas", sustentou a ex-ministra dos governos de António Guterres.

Para Maria de Belém, perante o alargamento da CES a cidadãos com pensões mensais acima dos mil euros ilíquidos, "o PS avançará com todas as medidas que o quadro da democracia e da legalidade democrática permitirem contra o que considera algo absolutamente intolerável, inaceitável e diria mesmo revoltante".

"Entre as medidas poderá estar incluído um pedido de fiscalização sucessiva [junto do Tribunal Constitucional], especificou logo a seguir a presidente do PS.

Na conferência de impressa, Maria de Belém apontou razões sociais, económicas, fiscais, políticas e de cidadania para os socialistas se oporem às medidas do Governo que pretendem contornar o chumbo pelo Tribunal Constitucional da convergência das pensões da Caixa Geral de Aposentações (CGA) com as da Segurança Social.

Maria de Belém disse mesmo que os pensionistas poderão estar confrontados, agora, na sequência do alargamento da CES, com "um esbulho", com "uma monstruosidade" e com uma "nacionalização de um direito privado [o das pensões] por parte de um Governo de direita".

A presidente do PS defendeu que, no plano social, o alargamento da base de incidência da CES coloca em causa "um direito de propriedade - assim o define o Tribunal Constitucional alemão".

"O Governo não é o titular nem o dono desses descontos, sendo antes o seu mero gestor, um gestor fiduciário, sendo gestor porque merece a confiança de quem descontou. O Governo está portanto obrigado a respeitar essa confiança", advogou a ex-ministra socialista.

Por outro lado, o Governo, ao pretender introduzir um agravamento dos impostos sobre os pensionistas, Maria de Belém disse que, dessa forma, o Estado está "a isentar-se do cumprimento de regras que ele próprio impõe - e bem - ao setor segurador privado, porque os descontos sociais obrigatórios são um seguro social gerido pelo Estado".

"A conjugação da CES com o aumento dos descontos para a ADSE (para além da questão da autossustentabilidade deste subsistema de saúde) significa que os pensionistas são considerados pelo Governo como um peso para o Estado, e que os pensionistas do setor da administração pública ainda são mais pesados. Com uma medida dessa natureza, o Governo abala a confiança no sistema público de segurança social, o que é gravíssimo", frisou.

Maria de Belém insurgiu-se ainda contra estes cortes nas pensões "quando o Governo procedeu a um perdão fiscal", o que, na sua perspetiva, coloca "uma questão de cidadania".

"Essa mensagem é errada e grave, porque dá a entender que mais vale não se pagar aquilo que devemos porque seremos perdoados. Mas aqueles que pagam são castigados", acrescentou a presidente do PS.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Polícias em “revolta” contra cortes admitem nova manifestação e “fazer de tudo” contra o Governo

Os polícias reúnem-se esta sexta-feira para decidir que medidas tomar PEDRO CUNHA
PEDRO SALES DIAS  10/01/2014 – 07:39
Agentes acusam o Governo de querer “destuir as polícias” com cortes médioos de 200 euros nos salários.

Os cortes detectados ontem nos recibos dos vencimentos a pagar este mês estão a revoltar os polícias. “Em média cada um vai receber menos 200 euros, num salário de mil. Ultrapassaram-se os limites. Governo quer destruir as polícias e, por isso, há um clima de revolta. Os polícias estão agora, como não estavam há anos, disponíveis para fazer de tudo”, disse o secretário da Comissão Coordenadora Permanente (CCP) dos Sindicatos e Associações dos profissionais das Forças e Serviços de Segurança, Paulo Rodrigues, numa alusão a redução salarial decretada pelo Governo para toda a função pública.

A CCP, que integra os principais sindicatos da GNR, PSP, SEF, Poli Marítima, Guardas Prisionais e ASAE, reúne esta sexta-feira para decidir que medidas tomar contra os cortes e o aumento da comparticipação para o subsistema de saúde.

“Outra manifestação igual à de 21 de Novembro é possível. Não queremos incitar a nada, mas já não é possível reprimir a revolta. Poderão vir a ser decididas ainda outras formas de luta”, explicou o também presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia que culpa o primeiro-ministro por não ter aceitado reunir-se com os sindicatos.

Paulo Rodrigues explicou que “muitos dos agentes sentem-se atacados na sua dignidade por virem a não ter dinheiro para pagar as casas. Vamos chegar ao cúmulo de ter polícias incumpridores obrigados a fazer biscates como antigamente para terem dinheiro suficiente”, disse.


Os cortes atingem todos os funcionários públicos, mas o sindicalista lembra que “os polícias têm ordenados mais baixos e uma missão importante na garantia da segurança”. O Governo aprovou ontem uma proposta de aumento de 2,5 por cento para 3,5 por cento dos descontos para o subsistema de saúde dos polícias.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Nova CES afecta mais 136 mil pensionistas do Estado e da Segurança Social



Enric Vives Rubio
RAQUEL MARTINS 10/01/2014 -14:02
Ministério das Finanças esclareceu que os cerca de 80 mil a mais, referidos na quinta-feira, dizem respeito apenas à Caixa Geral de Aposentações

A reformulação da contribuição extraordinária de solidariedade (CES), aprovada na quinta-feira pelo Governo, vai afectar mais 136.296 pensionistas da Caixa Geral de Aposentações (CGA) e da Segurança Social, que recebem pensões entre mil e 1350 euros e que até agora eram poupados aos cortes.

Na quinta-feira, a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque tinha deixado a indicação, no final do Conselho de Ministros, que o universo de novos afectados andaria próximo dos 80 mil. Mas afinal este número apenas diz respeito aos aposentados da CGA.

“O total de pensionistas abrangidos pela CES no universo CGA são, de facto, os 262.577 que constam do comunicado de ontem. A 31 de Dezembro de 2013 o total de abrangidos pela CES eram 182.715, a que acresce os 79.862 com a descida para os mil euros”, esclareceu esta sexta-feira fonte oficial das Finanças.

No comunicado explica-se ainda que o universo de aplicação da CES ainda em vigor (sem contar com as alterações agora aprovadas) se altera com a aplicação do Orçamento do Estado para 2014, que “retirou a referência à natureza das pensões, passando a CES a incidir, desde 1 de Janeiro de 2014, sobre o total de pensões recebidas”, quando em 2013 “tal não acontecia”.
As Finanças exemplificam com um pensionista a receber mil euros de pensão de velhice e 500 euros de pensão de viuvez em 2013 não era afectado.

5% do total dos pensionistas afectado
Na Segurança Social, o ministro Pedro Mota Soares garantiu que são afectados pelo alargamento da base de incidência da CES, 5% do total de pensionistas, quando no ano passado era apenas 2,8%. Tendo como referência um universo total de 2,5 milhões de pensionistas na Segurança Social, a nova CES irá abranger mais 56.433 do que em 2013. Ao todo serão abrangidos 128.258 reformados no sector privado.

Até agora, a CES era aplicada às reformas acima dos 1350 euros brutos mensais. As taxas começavam nos 3,5% e iam até aos 10% nas pensões de 3750 euros. Na quinta-feira, o Executivo decidiu manter as taxas, mas iniciar a aplicação da CES nos mil euros e alterar também o limite a partir do qual se aplicam as taxas marginais de 15% e 40%.

O resultado é que o esforço para tapar o buraco deixado em aberto pelo chumbo da convergência das pensões será exigido a quem recebe entre os 1000 e 1350 euros que terá um corte na sua pensão que pode chegar aos 47 euros. Quem recebe entre 1350 e 4611 euros não é afectado pela revisão da CES. As pensões acima de 4611 euros verão o corte agravar-se, mas em termos relativos, o esforço pedido é maior a quem até agora era poupado.

O Governo publicou esta sexta-feira um simulador na sua página oficial e uma explicação da CES. Se quiser conhecer o corte a que ficará sujeita a sua pensão, consulte o simulador do PÚBLICO


domingo, 29 de dezembro de 2013

2014, CAVEAT EMPTOR

2014, CAVEAT EMPTOR

2014, o risco é do comprador. É a tradução literal do título acima e a introdução possível ao texto abaixo. 2014 será o ano do fim de muitas coisas e do princípio de outras. Mas a transição será muito lenta.


Caveat emptor. O novo ano devia aparecer-nos assim, com esta frase em latim bem visível.
O risco é do comprador, o comprador que se cuide, toma cuidado comprador.
As traduções são várias, a ideia é a mesma.
Uma ideia que não devemos de esquecer tão depressa.
Dívida. Se tudo correr bem, em Janeiro Portugal emite títulos de longo prazo. É o primeiro passo para o regresso aos mercados, Será um sucesso e ainda bem. Mas, cuidado, será um sucesso com ‘respiração boca a boca’ e, acima de tudo, um sucesso. Porque não podemos falhar.
Desgraças. A oposição vai agarrar todas as falhas e artificialidades (dívida sindicada, bancos portugueses a ajudar, etc.) de percurso. Mas, cuidado, nestas coisas nunca há saídas limpas. O regresso aos mercados é um processo político. E o regresso será uma vitória política.
Sucessos. O Governo vai cantar vitória só porque a bola vai a caminho da baliza. Vão chover estatísticas, indicadores, variações homólogas e em cadeia. Uma vez mais, cuidado, O ‘truque’ estatístico da mensagem de Natal do primeiro-ministro vais ser muito usado. Mas atenção, que a oposição faz o mesmo truque ao contrário.
Promessas. Faz parte da política. Sempre que se aproxima o fim de um ciclo, as promessas brotam do chão e caem do céu. Tenham cuidado, o fim do resgate garante soberania e restaura o orgulho. Mas deixa-nos entregues a nós próprios e sem financiamento garantido. É assunto que a oposição faz por esquecer e que o Governo (ou parte dele) começa a tentar esquecer;
Eleições. Em França ou no Reino Unido os antieuropeístas podem vencer. Por cá, não se espera nada disso. Mas a alta abstenção, o voto de protesto, o desgaste do ‘centrão’ e algumas novidades vão agitar as águas. O PS deve ganhar e o Governo (lista conjunta PSD-CDS) tem um teste de fogo. Cuidado com os resultados. Um parlamento em Bruxelas com antieuropeístas em quantidade será um problema grave para os países sob resgate e para o futuro da Europa.
Economia. Vamos oscilar entre a euforia do crescimento e a depressão dos números dramáticos. A verdade andará entre uns e outros. Há uma nova economia que surge. Mas a velha ainda está de rastos e o lastro de destruição é enorme.
Saída da troika. Não vale a pena ir festejar para o Marquês de Pombal ou para os Aliadas. O dia seguinte será parecido e com responsabilidade acrescida.
Maioria. Aguenta até ao fim. E depois vem outro governo de maioria. Cavaco ainda se vai rir antes do fim do mandato.

RICARDO COSTA ESCREVE À 3.ª E 5.ª FEIRA

      Em www.expresso.sapo.pt

Plano B Ainda não há alternativa à convergência de pensões. Mas ninguém está muito preocupado



Plano B Ainda não há alternativa à convergência de pensões. Mas ninguém está muito preocupado
Foram seis horas de reu­nião do último Conselho de Ministros, ocupada so­bretudo com a alternativa a apresentar pelo Governo ao chumbo da con­vergência de pensões pelo Tribunal Constitucio­nal. «É uma decisão polí­tica, mais do que técnica», disse uma fonte oficial. O objectivo é blindar a no­va solução de “todos os riscos constitu­cionais’’. Mas, na verdade, apesar das horas de reunião, não foi escolhida a fórmula para responder com novos cor­tes – ou com mais impostos - ao ‘buraco' de €400 milhões deixado nas con­tas públicas. A decisão, garantem vá­rios membros do Executivo, poderá ser tomada na próxima semana ou já na segunda semana de Janeiro. Até lá, para não azedar a passagem de ano, a or­dem é para “evitar especulações” e pa­ra garantir que “não há pressa na res­posta», tanto mais que a décima avalia­ção da troika só fecha em Fevereiro. Além disso, o Governo quer tréguas com o Tribuna! Constitucional.
«Estão colocadas várias hipóteses em cima da mesa» ou «há vários cenários em estudo». Não passam daqui as decla­rações de alguns dos membros do Con­selho de Ministros contactados peio Ex­presso sobre a saída para mais um chumbo do TC a uma das “reformas essenciais do Governo”. Sem por agora “fechar uma solução”, as hipóteses de colmatar o ‘buraco’ de €740 milhões (a que equivalia a convergência das pen­sões) passa desde já pela recuperação da Contribuição Extraordinária de Solidariedade, que já vigorou em 2013 passou no crivo do Constitucional. Com a retoma da CES são €322 milhões que o Governo ‘abate’ ao problema das contas públicas. Mas não chega.
«Não há pressão para uma decisão», disse um dos membros do Executivo, para quem a discussão em Conselho de Ministros foi “pacífica” e unânime «a necessidade de ser encontrada urna saí­da consistente “que reduza ao mínimo os riscos constitucionais existentes». Na verdade, todos reconhecem que outro pacote inscrito no OE-20Í4 - a tabela salarial única da função publica — “tem grandes riscos” de um novo chumbo do TC, pelo que a estratégia passa por evitar retomar confrontos com os juízes do Palácio Ratton sobre um te­ma sobre o qual já se pronunciaram.
O mote para reduzir a pressão ganhou um novo argumento, a 10.º avaliação da troika só fecha formalmente em meados de Fevereiro, altura em que tanto o board do FMI como Comissão Europeia têm o programa de rebate português na agenda. Por isso, o Governo pode agua­rdar umas semanas para encontrar uma solução sólida. E se é verdade que o IGCP, instituto que gere a dívida pública, tem prevista uma emissão de dívida (de 5 e 10 anos) já em Janeiro, absolutamen­te fundamental para o fim do programa de assistência financeira, o certo é que não existem prognósticos para próximas turbulências nos mercados.


MILHÕES DE EUROS

740
Quanto o Estado pouparia caso regime de convergência de pensões tivesse passado no Tribunal Constitucional

322
Quanto o Estado arrecadará ao repor a Contribuição Extraordinária de Solidariedade, que corresponde a 3,5% de corte nas pensões acima de 1.300 euros

400
O valor (aproximado) de receitas que o Governo obterá com o aumento de 23 para 24% da taxa máxima do IVA, caso opte em avançar por aqui


A próxima semana ainda é de acalmia nos mercados financeiros, onde as transações com divida pública quase param entre o Natal e os Reis. Além disse, vá­rias fornes governamentais convergem na ideia de que “os investidores já ti­nham assimilado os riscos constitucionais da convergência das pensões” nas taxas a que transacionam os títulos de dívida portuguesa. O problema “não é se os juros vão subir. É ver como conse­guimos que desçam”, acrescenta uma fonte do executivo.

Solução suave e mista
Sem adiantar detalhes, a alternativa pa­ra compensar a convergência das pen­sões devem passar por uma solução mista e suavizada. Há quem defenda que a CRES pode ser alargada - à imagem do que aconteceu com o corte dos salários dos funcionários públicos — passando a abranger pensionistas com reformas abaixo dos €1.300. O valor exacto sobre o qual cairá a guilhotina está a ser estuda­do. Em simultâneo, o Governo pondera mexer nas tabelas de IVA, admitindo-se um novo aumento do escalão máximo para os 24%, deixando-se cair a hipótese de um aumento generalizado de todos os escalões deste imposto. Ambas as medidas seriam de carácter provisório — pata satisfazer os requisitos do TC – e davam tempo ao Governo para preparar uma verdadeira reforma estrutural dos sistemas de segurança social, público e privado — uma porta que, segundo Passos Coelho, os juízes constitucionais deixaram aberta para o Governo entrar.
ROSA PEDROSO LIMA
Com RICARDO COSTA
rlima@expresso.impresa.pt


Remodelação (ainda) sem data nem nomes
Há três secretários de Estado para sair e outros tantos para entrar. Mas nem eles nem a Presidência sabem quem são nem quando tomam posse
Três secretários de Estado estão demis­sionários há mais de uma semana, mas ainda não se sabe nem quando nem por quem vão ser substituídos. Hélder Rosalino, secretário de Estado da Administração Pública, acertou com a ministra das Finanças que sairia até ao final do ano, mas até à hora de fecho desta edi­ção ainda não havia qualquer indicação de remodelação, nem qualquer cerimónia de tomada de posse marcada em Be­lém, Além de Rosalino, deixam o Exe­cutivo Filipe Lobo D’Ávila, secretário de Estado da Administração Interna, e Fernando Santo, secretário de Estado da Justiça. Nos bastidores ministeriais vão correndo alguns nomes, mas sem quaisquer confirmações pelas respetivas tutelas; Joana Ramos, diretora-geral do Emprego e Administração Pública, é falada como a possível substituta de Rosalino, para a Administração Interna - uma das pastas que, pelo acor­do de coligação, pertencem ao CDS —, surgiram os nomes dos deputados João Almeida ou Teresa Anjinho.
A passar para 2014, como tudo parece indicar, esta será a primeira remodelação do ano. Em 2013, foram nada menos do que sete as vezes em que Passos Coelho teve de mudar a composi­ção da sua equipa. No total, substituiu três ministros (Miguel Relvas, Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira) e 18 secretários de Estado (Paulo Júlio, Pe­dro Silva Martins. Nuno Oliveira, Cecília Meireles, Daniel Campelo, Pedro Afonso de Paulo, Henrique Gomes, Al­meida Henriques, Rita Barosa, Luís Morais Sarmento, Manuel Rodrigues, Franquelim Alves, Marco António Costa, Pedro Roque, Filipe Queiró, Fran­cisco Almeida Leite, Morais Leitão e Joaquim Pais Jorge).
CRISTINA FIGUEIREDO
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