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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

Revolução Russa
Carlos Santos Pereira
07 DE NOVEMBRO DE 2017 00:09
Vladimir Ilyich Ulyanov, conhecido como Lenine (1870-1924), durante um discurso em Moscovo |

O centenário da revolução que teve tão grande impacto na Rússia e no mundo parece ter colocado um dilema sério à Rússia de Vladimir Putin. 
Outubro e o passado soviético continuam ainda a dividir a sociedade russa.

John Reed chamou-lhe, numa reportagem célebre, "os dez dias que mudaram o mundo". 
E o historiador Eric Hobsbawm faz data da tomada do poder pelos bolcheviques, a 7 de outubro de 1917, um momento fundador, tão crucial para os destinos do séc. XX como o foi 1789 para o séc. XIX.

Por todo o mundo historiadores, académicos, políticos e militantes de todas as causas continuam a debater apaixonadamente os mais diversos ângulos dos acontecimentos de 1917 - da efémera experiência de fevereiro ao sonho libertário dos sovietes, das condições e do alcance da tomada do poder pelos bolcheviques ao papel do próprio leninismo, da guerra civil e da intervenção estrangeira na deriva estalinista - e dos seus efeitos nos destinos da União Soviética, do comunismo e do sonho da Revolução.

E, no entanto, na pátria da Revolução, o 100.º aniversário de Outubro está a ser assinalado de uma forma surpreendentemente discreta. 
Numa Rússia em que a história é convocada a um papel político de primeira linha, os responsáveis do Kremlin abstiveram-se de formular uma versão oficial dos acontecimentos de 1917. 
O debate público sobre a memória de 1917 tem-se limitado aos círculos intelectuais. 
A nível dos media, os cem anos da revolução apenas inspiraram algumas iniciativas como uma polémica série transmitida no Canal 1 da televisão oficial russa e centrada na figura de Leon Trotski ou uma série de montagens num portal online organizadas pelo jornalista Mikhail Zygar que dá vida a políticos, artistas e intelectuais do período da revolução. 
A própria televisão de Estado tem dedicado pouco espaço à memória e ao debate do significado e da herança do ano de 1917.

O 100.º aniversário da Revolução será um dia discreto quanto a manifestações públicas. Só o Partido Comunista Russo dará largo destaque ao aniversário assumindo a bandeira e a herança da revolução numa série de comícios e manifestações em Moscovo e por toda a Rússia.

A memória de Outubro

O Dia da Revolução era das datas mais assinaladas no calendário soviético. 
O impulso revolucionário de Outubro era já um eco, longínquo mas, num plano meramente retórico e iconográfico que fosse, os ideais da revolução continuavam a inspirar o discurso oficial. 
Para os soviéticos era o mais popular feriado do ano, o dia em que todos se saudavam com Sprazdnikom! (boa festa!).

Um quarto de século depois do colapso da URSS, a memória de Outubro continua muito presente na paisagem russa, mas com expressões por vezes desconcertantes. 
O último czar e a sua família foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa em 2000, mas uma estação de metro de Moscovo continua a ter o nome de Piotr Voikov, o responsável pela execução da família imperial. 
Em 1991, o monumento a Felix Dzerjinski, o fundador da Tcheka, foi apeado do seu pedestal em Moscovo e Leninegrado recuperou o seu nome imperial, São Petersburgo. Mas continua a haver ruas Lenin, Marx, Komsomol (Juventude Soviética), e Ditadura do Proletariado por toda a Rússia. 
Moscovo tem um cinema Outubro e uma Praça da Revolução.

Na sociedade russa, as opiniões sobre os acontecimentos de Outubro de 1917 dividem-se. Uma sondagem conduzida pelo instituto Levada Centre em abril último apurou que 48% dos russos viam a Revolução de Outubro como um acontecimento positivo, enquanto 31% a avaliavam de forma negativa e 21% hesitavam na resposta. 
O papel de Lenine na história merece uma apreciação positiva de 53% dos russos, contra apenas 27% com uma visão desfavorável.

Mas numa sondagem de dezembro de 2016 da radio Ekho Moskvy sobre a revolução de fevereiro de 1917, apenas 47% dos inquiridos aprovaram o derrube de Nicolau II, contra 53%. 
Outras sondagens revelam ao mesmo tempo que o número dos que acreditam que os primeiros anos após 1917 trouxeram "mais mal do que bem" aumenta consistentemente, crescendo dez pontos percentuais ente 1984 (38%) e 2016 (48%).

As gerações de cidadãos que alimentam ainda uma memória romântica da revolução ou alguma nostalgia do período soviético vão sendo vencidas pelos anos, e, para os mais jovens, Outubro é uma memória longínqua.

A "história milenar" da Rússia

A história, a interpretação do passado e a manipulação da memória transformaram-se numa arma política na Rússia de Putin. 
O regime elaborou uma narrativa oficial da história pátria que celebra séculos de grandeza da Rússia ao sabor das grandes campanhas bélicas do passado (incluindo a ocupação da Crimeia em 2014), das biografias de líderes políticos e militares, e em que os russos são convidados a reconhecer um destino nacional e um motivo de identidade, de coesão e de orgulho.

O próprio Putin teve um papel crucial na elaboração desta visão oficial da "história milenar" da Rússia. 
Foi ele que determinou como os russos deviam ver acontecimentos como a transferência da Crimeia para a Ucrânia por Nikita Krutchov, o Pacto Molotov-Ribbentrop ou a importância de figuras como Piotr Stolypin, primeiro-ministro do império no início do séc. XX (1906-1911) que procurou conter o impulso revolucionário através de uma série de reformas.

Mesmo figuras de um passado distante foram convocadas para esta narrativa, como Vladimir, o Grande, o príncipe de Kiev que adotou o cristianismo em 988, a quem foi erguido uma estátua junto ao Kremlin em 2016 - o que gerou polémica com a Ucrânia. 
Foi mesmo erigido um monumento a Ivan, o Terrível, uma figura cruel mas que marca a expansão do território russo no séc. XVI.

Uma narrativa em que não há lugar para derrotas, dúvidas ou episódios críticos. 
Aspetos dramáticos, e que continuam a dividir a sociedade russa, como as purgas de Estaline ou o Gulag. 
O regime permitiu a construção no centro de Moscovo de um monumento para comemorar as vítimas da repressão estalinista, mas parece apostado em dissuadir formas mais vigorosas de desestalinização. 
O Memorial, organização que perpetua a memória das vítimas do estalinismo, foi chamada "agente estrangeiro" pelo governo russo.

A vitória na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi é cada vez mais o momento eleito pelo regime para celebrar a grandeza da Rússia e a unidade. 
O 7 de Novembro de 2016 foi assinalado com uma recriação da parada militar realizada na Praça Vermelha em novembro de 1941, após a qual as tropas marcharam diretamente para a frente.

"A elite russa nacionalizou a memória histórica" - diz Andrei Kolesnikov, do Carnegie Center Moscow. 
"E instalou a ideia de que quem põe em causa o sistema político russo está a minar a vitória partilhada do país."

Putin e a Revolução

O centenário da Revolução parece ter colocado um problema dilemático ao regime de Vladimir Putin: como enquadrar a Revolução de Outubro nesta narrativa oficial da história russa. 
A Revolução de Outubro foi o berço da URSS, garantiu de algum modo o espaço do defunto império russo e lançou os alicerces das conquistas sociais, militares e científicas soviéticas que o país continua a reivindicar. 
Mas a própria ideia de "revolução" joga mal com um regime que faz da estabilidade política e coesão social um dos seus baluartes.

As poucas ocasiões em que Putin se referiu especificamente à Revolução de Outubro sugerem que o presidente russo olha para os acontecimentos de 1917 com marcada reserva. 
No discurso sobre o Estado da Federação, de dezembro, o presidente russo alertou contra os perigos dos levantamentos políticos. 
"Conhecemos bem as consequências que essas grandes convulsões trazem. 
Infelizmente, o nosso país passou por muitas dessas convulsões e as suas consequências no século XX", disse Putin.

"Quando olhamos para as lições de há um século, vemos quão ambíguos foram os resultados e como houve consequências tanto negativas como positivas desses acontecimentos" - afirmou. 
"Temos de nos perguntar se não teria sido possível avançar, não através da revolução mas de uma evolução, sem destruir o Estado e arruinar o destino de milhões, através de um progresso passo a passo." 
Numa palavra, a Rússia "não necessitava de uma revolução global".

Pontos nos ii, Putin considerou que o 100.º aniversário das revoluções de fevereiro e de outubro de 1917 "será um grande momento para olhar para trás e rever as causas e a natureza dessas revoluções na Rússia", mas lembrando sempre ao mesmo tempo que "somos um só povo e temos apenas uma Rússia".

Numa palavra, o presidente apelou a uma atitude de "respeito" e a "uma análise objetiva e honesta" da "história comum do pais", mas abstendo-se de formular uma leitura definitiva dos acontecimentos de 1917. 
O Kremlin remeteu a questão do centenário à esfera académica nomeando um comité oficial com a missão de organizar seminários, conferências e outros eventos.

Os fantasmas de 1917
De algum modo 1917 destoa da versão da história russa do Kremlin como uma longa e unificada marcha para um estatuto e um lugar no mundo que Putin tanto se tem esforçado para devolver ao país. 
Por outro lado, assinalava o The Guardian, há uma incómoda falta de figuras "heroicas" na revolução - nem o czar deposto, Nicolau II, nem Kerenski, a figura central no governo provisório, nem o próprio Lenine reúnem condições de cumprir o papel de alguém com quem a atual liderança se possa identificar.

Mas o embaraço mais sério que o centenário de Outubro terá colocado ao Kremlin passará ainda pelo potencial de discórdia que a memória de 1917 encerra ainda. 
Andrei Kolesnikov recorda que a própria ideia de devolver a propriedade da Catedral de Santo Isaac à Igreja Ortodoxa, avançada pelo Estado em janeiro deste ano, como gesto de reconciliação a posteriori entre Vermelhos e Brancos, deparou com viva resistência em São Petersburgo, acabando por gerar mais divisões do que o almejado pedrão mútuo.

As divisões acerca de Outubro de 1917 e do passado soviético poderão assim explicar a relutância do regime em assumir uma posição clara sobre o centenário e terão desaconselhado grandes celebrações. 
Curiosamente, o Kremlin decretou há dez anos um novo feriado, o Dia da Unidade Nacional, a 4 de novembro - apenas a três dias do aniversário da Revolução -, que jogará decerto melhor com a narrativa oficial.

Historiadores como Orlando Figes insistem no carácter especificamente russo da tomada do poder pelos bolcheviques e veem uma linha de continuidade - uma "herança de séculos de escravatura e poder autocrático que manteve o povo comum impotente e passivo" - nos regimes que atravessaram a história russa até ao presente.

Uma forma, polémica sem dúvida, de sublinhar a importância que a Revolução de Outubro continua a ter para compreender o presente e muitos dilemas da Rússia. 
Em Moscovo, há mesmo quem arrisque que Putin e os seus devem estar impacientes para ver este centenário pelas costas.

A Revolução de Outubro e as suas consequências continuarão ainda durante muito tempo a alimentar apaixonada polémica. 
Se, para uns, Outubro representa ainda a própria essência da utopia revolucionária, o centenário da Revolução tem inspirado a outros análises que insistem em extrair de 1917 uma grelha de leitura do presente, e em particular da Rússia de Putin. 
Para uns e outros, Outubro continua a ser uma referência absoluta. 
Como diria ainda Figes, "os fantasmas de 1917 ainda não dormiram o seu último sono".

Bem-vindo à Sputnik, um reino de meias-verdades

REPORTAGEM
JOÃO RUELA RIBEIRO
em Moscovo 7 de Novembro de 2017, 7:02
Será que o Kremlin continua a controlar a mensagem como fazia durante a época soviética?

Na era soviética, a propaganda destinava-se a disciplinar um povo inteiro para seguir os seus líderes. A Rússia de hoje abraçou a evolução tecnológica e quer disputar com o Ocidente a luta pela verdade. O PÚBLICO passou três dias numa das suas armas.

Nos últimos anos, a forma de se fazerem notícias na Rússia tornou-se notícia. 
Os canais de televisão estatais como a RT (anteriormente conhecida como Russia Today) e as agências noticiosas como a Sputnik são acusados pelos serviços de informações norte-americanos de terem manipulado a percepção de milhões de eleitores durante as eleições presidenciais, em favor de Donald Trump. 
Recentemente, o Twitter decidiu proibir a compra de publicidade na rede social por parte dos dois órgãos de comunicação russos. 
Acusações semelhantes têm sido afloradas sempre que se aproximam ciclos eleitorais na União Europeia, como aconteceu em França ou na Alemanha.

A guerra de informação entre a Rússia e o Ocidente é apenas uma das faces do clima de desconfiança que se abateu nos últimos anos entre os dois blocos, com vários responsáveis políticos a falarem de uma nova Guerra Fria. 
A partir daí, as comparações entre a Rússia governada por Vladimir Putin desde o início do milénio – com uma curta interrupção para trocar de lugar com o primeiro-ministro Dmitri Medvedev, entre 2008 e 2012 – e o regime soviético que nasceu há precisamente cem anos regressaram em força. 
Será que o Kremlin continua a controlar a mensagem como fazia durante a época soviética?

O historiador Oleg Lekmanov diz, em resposta ao PÚBLICO por email, que as “analogias entre as duas épocas são extremamente simplistas”. 
Durante o período soviético, “os meios de comunicação não eram apenas usados para exercer pressão sobre os cidadãos, mas também havia pressão directa”, diz o professor da Escola Superior de Economia de Moscovo, dando o exemplo das prisões de “personalidades indesejáveis do meio cultural”.

Hoje, o sentimento dominante é de que existe uma “campanha global anti-russa”, como disse o director-adjunto do Departamento de Imprensa e Informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Alexander Bikantov, durante um encontro com jornalistas estrangeiros na semana passada. 
O papel dos meios de comunicação estatais é mostrar a “perspectiva russa” dos acontecimentos diários e disputar aquilo que dizem ser uma imagem parcial apresentada pelos media mainstream. 
Mais do que a sociedade russa, onde o apoio ao regime parece inabalável a poucos meses das eleições presidenciais (Março de 2018), é para o mundo globalizado construído sobre as ruínas da União Soviética que os canais e websites estatais russos se têm direccionado.

Agenda russa
Durante quatro dias, um grupo de 39 jornalistas de todo o mundo, incluindo do PÚBLICO, participou numa série de seminários e workshops organizados pela Sputnik, em colaboração com a agência federal que promove as relações com os países da Comunidade de Estados Independentes (que reúne antigas repúblicas soviéticas).

A agência é apresentada como um baluarte de sucesso e de boa capacidade de adaptação ao mundo da Internet e das redes sociais. 
“É a agência mais citada dentro e fora da Rússia”, começa por dizer o director-adjunto, Anton Anisimov. 
A Sputnik surgiu em 2014 como uma versão modernizada da agência RIA Novosti, e hoje tem serviços em mais de 30 línguas, incluindo português, e redacções em todos os continentes, de Pequim ao Cairo, passando pelo Rio de Janeiro.

Os seus responsáveis editoriais e técnicos utilizam o mesmo jargão que é ouvido nas redacções de todo o mundo: “evolução tecnológica”, “engagement”, “alerta de última hora”, “visualizações”, “efeito uau”. 
Tal como em qualquer site noticioso, uma das prioridades é a expansão da base de leitores – actualmente, o grupo Sputnik tem 14 milhões de seguidores nas diferentes plataformas de redes sociais.

Mas há outro factor que entra nos cálculos das chefias – e que ninguém tenta ocultar. “Estamos a promover a agenda da Rússia, somos financiados pelo Governo russo, haveríamos de estar a promover a agenda americana?”, questiona Anisimov. 
O director-adjunto da Sputnik é franco e directo, e parece não ter tempo para semear grandes dúvidas. 
Garante que “há padrões que não podem ser quebrados”. 
“Já despedi muita gente este ano por terem cometido erros factuais”, garante.

Este tipo de prática é generalizada e as palavras de Anisimov mostram que é assim que é compreendido o jornalismo por aqui. 
“Todos os media são dependentes das suas fontes de financiamento. 
Se um jornal é propriedade de um fabricante de automóveis, não vai publicar notícias a dizer que os carros da marca são uma merda.” 
Apesar de contar com algum rendimento proveniente da subscrição dos seus serviços noticiosos, o financiamento da Sputnik é essencialmente público – 93 milhões de euros por ano, diz Anisimov.

O jornalismo torna-se, assim, num jogo de soma zero, mais um tabuleiro de confronto entre visões contrárias, tal como a diplomacia ou até o desporto. 
“Acredito que todos os outros media apoiam agendas dos seus países ou das empresas que os financiam”, defende o responsável editorial.

Resolver "um problema"
Esta lógica está subjacente ao lema da agência, presente um pouco por toda a redacção – “Dizer o que não é dito”. 
Para o director de projectos internacionais, Vassili Puchkov, o lema “não é tão agressivo como parece”. 
Tudo começou depois de ser detectado “um problema” com a cobertura noticiosa realizada pelas “quatro grandes” – a Agência France Presse, a Associated Press, a Reuters e a Deutsche Presse-Agentur – as principais agências de informação mundiais. 
“A imagem que apresentam é igual em todas elas e o nosso objectivo é dar a informação alternativa, dizer o que não é dito”, explica Puchkov.

“Dizer o que não é dito” pode abranger muita coisa, como dar eco a declarações de um deputado francês que dava a entender que Emmanuel Macron, então candidato às eleições presidenciais, seria homossexual. 
Depois de ver a sua cobertura das eleições francesas descrita como “propaganda”, a Sputnik acabou por ser impedida de acompanhar a campanha de Macron. 
Anisimov diz que a agência não alimentou qualquer boato nem propagou notícias falsas, apenas dando voz a um deputado, e que o caso acabou por ter uma projecção “exagerada”.

A parcialidade da informação fornecida pela Sputnik é prontamente reconhecida pelo director-adjunto. 
Por aqui, ninguém pode acusar os editores e jornalistas de ambicionarem ser donos da verdade. 
“Não mostramos tudo”, admite Anisimov, “mas nunca acusámos a BBC ou a CNN de serem propaganda, nem dissemos às pessoas para não as verem, é preciso ver a imagem completa”.

Da Reuters para a Sputnik
Chegar a essa “imagem completa” pode ser um exercício tortuoso, praticamente impossível. 
O último dia passado no edifício da Sputnik foi dedicado a um workshop com um título prometedor – “Digging out the truth” (“À procura da verdade”). 
São formados vários grupos com a tarefa de analisar a cobertura mainstream e a dos media russos a certos acontecimentos, tais como a do veto russo no Conselho de Segurança da ONU ao prolongamento da missão que monitoriza o arsenal químico na Síria.

“No final, irão ver que a verdade está algures no meio.” 
Oleg Schechdrov traz consigo uma aura de cinismo e ironia. 
Fala um inglês perfeito, de forma pausada e levemente arrastada, com uma predilecção para atirar frases lapidares a quem o ouve e aguardar uma reacção. 
Hoje, trabalha na formação dos jornalistas que integram a Sputnik, mas tem uma carreira longa, iniciada na cobertura dos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980. 
Passou os loucos anos 1990 ao serviço da Reuters, onde permaneceu “enquanto ainda era uma agência de notícias”.

Trava uma cruzada contra a utilização daquilo que diz ser “palavras emotivas”. 
“A maioria da cobertura da guerra da Síria parte do pressuposto de que Assad é mau, logo é responsável por tudo de mau que acontece. 
Por isso se utilizam expressões como ‘regime bárbaro de Assad’”, observa.

Schechdrov não acredita que o jornalismo na Rússia seja melhor que o do Ocidente. 
“Em teoria”, diz, “um jornalista russo pode tentar fazer uma cobertura equilibrada sobre a Crimeia, tentar ouvir a outra parte”. 
“Mas o feedback seria muito negativo”, alerta.

Na semana anterior, uma editora da rádio Eco de Moscovo, um dos poucos órgãos de comunicação que dá voz à oposição ao Kremlin, foi esfaqueada na própria redacção. 
A polícia disse que o autor do ataque mostra indícios de desequilíbrio mental, mas persiste um sentimento de insegurança entre os jornalistas locais. 
Semanas antes, um canal de televisão tinha acusado a rádio e a própria editora de apoiarem “interesses estrangeiros” e de serem uma ameaça à estabilidade da Rússia semelhante ao grupo radical islâmico Daesh.

Seria este o tipo de feedback negativo a que Schechdrov se referia? 
“Não creio que andem a tentar matar jornalistas”, responde. 
A verdade estará algures no meio.

O jornalista viajou a convite da Rossotrudnichestvo – Agência Federal para a Comunidade de Estados Independentes

O que sobrou do comunismo

100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA
WILL ENGLUND
7 de Novembro de 2017, 7:01
Fidel Castro sobe ao poder em Cuba a 1 de Janeiro de 1959 

Partindo da “Revolução de Outubro” de 1917, o comunismo varreu o globo. Hoje, a Coreia do Norte apresenta-se como o único verdadeiro sobrevivente.

Passou um século desde que os comunistas subiram ao poder pela primeira vez. Aconteceu na Rússia, cambaleante após três anos de guerra mundial e oito meses decorridos da deposição do czar Nicolau II. 
Fora da Rússia, poucos achavam que o governo comunista conseguiria durar muito tempo. Mas o facto é que a Revolução de Outubro esteve na vanguarda – para usar uma palavra querida ao comunismo – de um movimento à escala mundial, que inspirou milhões de pessoas e repeliu ainda mais.

Em teoria, o comunismo puro implicaria a propriedade comum dos meios de produção e um enfraquecimento do Estado. 
Pouco surpreendentemente, tal nunca foi alcançado. 
Mas a ideologia que prometia derrubar o poder do capital e as distorções que a acumulação de capital provocava na sociedade atraiu seguidores por todo o mundo, desde Cuba à Coreia. 
Os seus adeptos convenceram-se de que a construção do comunismo implicava o desenraizamento dos ideais capitalistas e a purga dos que se mantinham fiéis a um pensamento burguês ou contra-revolucionário. 
Na demanda pela construção de um futuro comunista, milhões de pessoas foram feitas prisioneiras, e milhões mais morreram de fome ou executadas.

Até que tudo começou a desmoronar-se, pela mão do cinismo, da exaustão e das inevitáveis comparações com as prósperas economias de mercado do Ocidente. 
O comunismo à escala mundial foi o inimigo mais temível da América nas décadas centrais do século XX. 
Mas desde 1989 os países, um após o outro, foram ou abandonando inteiramente o comunismo ou empurrando-o discretamente para o lado, em busca dos mercados. 
Hoje, existe apenas nas suas formas mais ténues. 
Entre os países comunistas que restam, a Coreia do Norte é o único resistente feroz, mas até mesmo aí os mercados têm vindo a mudar a natureza da economia.

Apresentamos aqui uma linha temporal com os momentos marcantes na história centenária do comunismo no poder, um registo de um movimento que procurava a revolução mundial, a industrialização em grande escala e a criação de uma nova forma de sociedade. 
Cresceu a partir de uma revolta urbana no noroeste da Rússia, espalhou-se por todo o mundo, entrou em putrefacção e, finalmente, foi desaparecendo como o gelo dos rios durante o degelo da primavera.

7 de Novembro de 1917
A Grande Revolução de Outubro

Os bolcheviques, uma facção revolucionária marxista liderada por Vladimir Lenine, tomam o poder na Rússia (o golpe deu-se a 25 de Outubro, no antigo calendário russo, daí o nome). 
Após uma guerra civil brutal, os bolcheviques estabeleceram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o primeiro governo comunista do mundo. 
Os soviéticos tinham como objectivo exportar o comunismo para outras grandes nações industriais, o que fez deles párias entre os países capitalistas.

30 de Junho de 1929
Fundação de Magnitogorsk

O líder soviético Estaline ordenou a construção de uma nova cidade que abrigasse as maiores indústrias de ferro e de aço da União Soviética. 
A medida fazia parte de um plano de cinco anos para libertar a Rússia da economia feudal e agrícola, transformando-a num gigante industrial. 
Magnitogorsk, nos Montes Urais, foi construída com a ajuda de engenheiros americanos e inspirada em Gary, no estado norte-americano do Indiana. 
Tornou-se um ícone das conquistas económicas soviéticas. 
Mas a economia soviética tinha um lado negro: uma grande fome atingiu a Ucrânia, e milhões de homens e mulheres desapareceram nos gulags. 
O trabalho forçado dos prisioneiros foi usado para construir canais, cortar madeira e extrair carvão.
Tropas soviéticas sinalizam a vitória na batalha de Estalinegrado, em finais de Janeiro princípios de Fevereiro de 1943

9 de Maio de 1945
Vitória sobre a Alemanha nazi
Os soviéticos foram quem mais sofreu com a II Guerra Mundial na Europa. 
O seu triunfo final foi desde então explorado como um momento de glorificação e legitimação da URSS – e da Rússia que lhe sucedeu. 
No final da guerra, Moscovo estabeleceu regimes comunistas amigáveis em toda a Europa Oriental, criando aquilo a que Winston Churchill chamou de Cortina de Ferro, e dando início à Guerra Fria.

1 de Outubro de 1949
Mao declara a vitória comunista na China
O longo conflito entre nacionalistas e comunistas acabou com uma quase total vitória comunista. 
Mao Tsetung, líder do Partido Comunista, foi recebido em Moscovo como o tribuno do comunismo asiático. 
Mas não passou muito tempo até que as tensões levassem a uma ruptura, separando os dois países mais importantes do comunismo. 
Ao longo das décadas seguintes, milhões de chineses viriam a morrer de fome e em campos de trabalho.
Mao Tsetung proclama a criação da República Popular da China a 1 de Outubro de 1949

27 de Julho de 1953
Guerra da Coreia termina num impasse
Com a derrota do Japão na II Guerra Mundial, a Coreia tinha sido dividida entre o Norte Comunista, sob a alçada da União Soviética, e o Sul, aliado dos países ocidentais. 
A Guerra da Coreia estalou em 1950, colocando os coreanos uns contra os outros e arrastando consigo os Estados Unidos e seus aliados de um lado, e a China comunista do outro. 
A guerra terminou num impasse, embora até hoje a Coreia do Norte declare ter saído vitoriosa.

4 de Novembro de 1956
União Soviética esmaga a revolta na Hungria
Após a morte de Estaline em 1953, a ascensão de Nikita Khrushchev a líder soviético parecia anunciar uma diminuição da repressão. 
Resistentes húngaros, ansiosos para se libertarem do domínio de Moscovo, lideraram uma revolta que levou ao colapso do seu governo. 
O presidente Dwight Eisenhower elogiou-os, mas os Estados Unidos assistiram impávidos quando o exército soviético entrou no país e esmagou a rebelião.

1 de Janeiro de 1959
Fidel Castro sobe ao poder em Cuba
Castro e os seus revolucionários desceram das montanhas e derrubaram o regime corrupto de Fulgêncio Batista, que tinha fortes ligações ao crime organizado americano. 
No início, Castro estava disposto a lidar com os Estados Unidos, mas confrontado com a hostilidade americana, rapidamente procurou apoio em Moscovo. 
Foi um choque para os líderes americanos o estabelecimento de um regime comunista no hemisfério ocidental.

30 de Abril de 1975
A queda de Saigão
A guerra sangrenta e prolongada no Vietname, que tinha destruído a presidência de Lyndon Johnson e contribuído para a queda de Richard Nixon, terminou com uma vitória comunista. 
Saigão foi rebaptizada, passando a chamar-se Ho Chi Minh. 
O comunismo global estava no seu ponto mais alto da História, embora na época poucos suspeitassem disso.

31 de Agosto de 1980
Na Polónia, surge a Solidariedade
O primeiro sindicato independente na Europa Oriental do pós-guerra foi criado num estaleiro em Gdansk, e liderado pelo electricista Lech Walesa, entre outros. 
No início, o governo de Varsóvia tentou negociar com o sindicato, mas pouco depois a união sindical foi ilegalizada. 
Mas nunca chegou a desaparecer, e viria a ressurgir no ano fundamental de 1989.

4 de Junho de 1989
Protestos na Praça da Tiananmen esmagados
Os manifestantes pró-democracia ocuparam a praça central de Pequim, inspirados por um programa de mudanças que os líderes chineses vinham cautelosamente a implementar. Mas revelou-se uma provocação demasiado grande para o governo comunista, que enviou tropas e tanques para controlar a praça. 
Centenas de pessoas, talvez milhares, perderam a vida. 
A lição foi aprendida, e desde então não voltou a acontecer nada parecido na China.
Protestos na Praça Tiananmen em Junho de 1989

9 de Novembro de 1989
Queda do Muro de Berlim
Cinco meses depois, o líder soviético Mikhail Gorbachev comunicou ao governo comunista da Alemanha de Leste que Moscovo - preocupado com o declínio económico e o esvaziamento do fervor ideológico - não viria em sua ajuda para fazer frente aos crescentes protestos populares. 
A Solidariedade já estava presente no governo da Polónia, e na Hungria assistia-se a um êxodo para a fronteira com a Áustria. 
Mas quando o Muro caiu e os berlinenses se reuniram em alegres manifestações, ficou claro para o mundo que a era comunista na Europa Oriental tinha acabado.

19 de Agosto de 1991
O golpe falhado em Moscovo assinala o fim da URSS
Os soviéticos da “linha dura” tentam derrubar Mikhail Gorbachev, por medo de que suas políticas de glasnost e perestroika - abertura e reestruturação - colocassem o país em risco de se desmoronar. 
O seu fracasso deu um grande impulso ao principal político anti-comunista russo, Boris Yeltsin, e levou à ilegalização do Partido Comunista algumas semanas depois. Efectivamente, a União Soviética desmoronou-se, e deixou de existir a 25 de dezembro de 1991.
Queda do Muro de Berlim em Novembro de 1989

16 de Agosto de 2010
Economia chinesa ultrapassa a do Japão
Os resultados apresentados neste dia pelo governo chinês mostraram que a China tinha ultrapassado o Japão, tornando-se a segunda maior economia do mundo. 
O progressivo afastamento de Pequim do marxismo, em favor de um capitalismo centrado no estado, estava em andamento já há duas décadas, e apresentava agora resultados incríveis.

3 de Setembro de 2017
Pyongyang diz que pode atacar EUA com bomba de hidrogénio
Três gerações de liderança da família Kim transformaram a Coreia do Norte num estado-pária, mais parecido com uma monarquia do que com uma nação verdadeiramente comunista. 
A introdução de algumas reformas - embora em menor escala do que na China ou no Vietname - ajudou a economia. 
Mas a hostilidade em relação ao Ocidente, nomeadamente aos Estados Unidos, tem vindo a acentuar-se. 
A Coreia do Norte vê as armas nucleares como o único meio de manutenção da sua soberania, diante do que chama de agressão americana. 
Cem anos depois de Lenine ter chegado ao poder na Rússia, é o reduto mais problemático do comunismo.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

O dia mais longo da curta memória de Petrogrado

100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA
MANUEL CARVALHO
em São Petersburgo 7 de Novembro de 2017, 7:00
Lenine não era um homem de combate de rua, mas tinha uma ousadia e uma intuição imbatíveis. O seu radicalismo estava nas palavras

No dia 7 de Novembro de 1917 São Petersburgo entrou em sobressalto e acordou a viver sob a promessa de algo novo no mundo: uma ditadura do proletariado. Um século depois, a cidade esforça-se por apagar a Revolução. Mas as suas marcas foram tão fundas que prometem resistir ainda por muito tempo.

Na curva da estrada que antecede o Palácio de Inverno, uma mota passa a baixa velocidade e faz desviar os olhares da horda de turistas que se dirigiam ao Museu Hermitage. 
Não era o modelo que suscitava interesse, nem o condutor, nem a ousadia de andar de mota na tarde gelada desta segunda-feira. 
Era uma enorme bandeira da União Soviética que flutuava na sua traseira. 
Os que atravessaram a estrada para a praça do museu puderam ainda ver operários a desmontar as telas do espectáculo multimédia que nas duas últimas noites comemorou os 100 anos da Revolução Russa. 
Mas, quer os cinco milhões de habitantes da segunda maior cidade da Rússia, quer os milhares de turistas que recebe todos os dias tiveram poucas oportunidades para constatar que, naquele belíssimo palácio barroco habitado pela família imperial depois de 1732, ocorreu há um século um assalto que se tornaria um dos mais emblemáticos episódios da História do século XX.

Na tarde de 25 de Outubro (do calendário juliano, 7 de Novembro no nosso calendário), uma pequena multidão de soldados e operários foi-se acumulando em frente à enorme praça em frente do Palácio. 
No rio Neva, a canhoeira Aurora, comandada pelos marinheiros da base de Kronstad, aguardava instruções. 
Mais longe, da fortaleza de Paulo e Maria, uma prisão que simbolizava a opressão do regime czarista, ocupada pelos bolcheviques dois dias antes, haveria de se acender uma luz vermelha que daria início ao assalto. 
A barafunda entre os revolucionários era enorme – não havia sequer uma luz vermelha para acender. 
A expectativa também.

A escassos quilómetros de distância, no Instituto Smolny que era o quartel dos bolcheviques, Lenine ardia em fúria com os atrasos. 
“Parecia um leão numa jaula”, recordaria um dos presentes. 
Finalmente, às seis e meia da tarde, a operação foi lançada com um ultimato para que os ministros do Governo Provisório se rendessem. 
Não se renderam e o palácio foi tomado de assalto. 
Dez anos mais tarde, o cineasta Serguei Einsenstein recriaria a operação com actos de abnegação, de coragem e de heroísmo. 
A verdade histórica, porém, é bem mais cínica. 
Boa parte dos soldados que defendiam o Governo começaram a desertar à hora do almoço por falta de comida. 
Para lá de alguns disparos, o Governo de Alexander Kerensky instalado no Palácio caiu como, meses antes, em Março, tinha caído o regime dos Romanov: por inércia. 
“Faltou tudo a Kerensky. 
Faltou força de vontade, faltou apoio público, faltou profissionalismo”, diz o historiador Konstantin Mogilevskiy, da Sociedade Histórica da Rússia.

Quem andar por estes dias nas ruas de São Petersburgo tem dificuldade em fazer a ponte entre a normalidade festiva dos fins de tarde e a memória vazia de uma revolução que deixou a cidade em estado de sítio. 
Ainda mais do que em Moscovo, a capital da Rússia em 1917, que na altura se chamava Petrogrado, esforça-se por apagar o que foi e viveu há um século e, ainda mais, o significado dessa existência e dessa experiência. 
O Hermitage tem duas exposições dedicadas à revolução, os teatros recriam episódios da época. 
Mas, nas ruas não há um, um só sinal de que ali germinou um sonho de uma sociedade sem classes que mobilizou milhões de seres humanos em toda a Europa e um pesadelo que condenou países inteiros a regimes totalitários e dezenas de milhões de pessoas à perseguição política, ao Gulag ou às fomes forçadas. 
“No início deste ano ainda esperei que houvesse mais conferências, mais programas de televisão ou mais debates. 
Não houve, e é pena. 
Porque é importante que fôssemos capazes de voltar a discutir todos os pontos de vista sobre o que aconteceu”, lamenta Irina Dmitrieva, uma estudante da Universidade de São Petersburgo.

O silêncio tende a apagar a memória e a rotina leva os habitantes da cidade que entre 1924 e 1991 se chamou Leninegrado a não pensar no sentido dos nomes das suas estações de metro, dos seus bairros, das suas avenidas ou sequer a proliferação de estátuas e monumentos que resistem como que a provar que, o que aconteceu ali há 100 anos, não se apaga por omissão. 
Durante oito meses, entre 8 de Março e 8 de Novembro, a cidade que na altura tinha 2,4 milhões de habitantes (era a quinta maior cidade da Europa), viveu em permanente estado de sítio. 
A Primeira Guerra Mundial agravara as condições de vida de uma classe operária recentemente atraída pela industrialização, a fome alastrara, em cada divisão viviam três pessoas. 
Depois de Fevereiro, as donas de casa, os operários e os soldados responderam aos seus problemas tomando o poder da rua para daí assaltarem o poder dos palácios. 
O czar resignaria em Março (Nicolau II e a sua família seriam barbaramente assassinados a 17 de Julho de 1918 pelos bolcheviques) e desde então a governabilidade oscilava entre a rua entregue às “massas” e o poder formal entregue a mencheviques, socialistas radicais e, transitoriamente, constitucionalistas democratas mais à direita.
O Palácio Tauride, a escassa distância da Avenida Nevsky que serve de espinha dorsal ao corpo da cidade, tornou-se o exemplo dessa divisão de poderes. 
Essa casa senhorial onde hoje funciona a Assembleia da CEI (Comunidade de Estados Independentes, que reúne alguns dos antigos países da União Soviética) estava inicialmente ocupada na sua ala direita pelos representantes da velha Duma do regime czarista e pelos membros do Governo Provisório liderado até Julho pelo príncipe Lvov, uma figura que o historiador britânico Orlando Figes diz ser “um dos numerosos personagens da história da Rússia que parece ter escapado de um romance de Gogol ou de Dostoyevsky”; e na ala esquerda o Soviete dos Operários e Soldados de Petrogrado, que decreta como a sua primeira “ordem” a obediência dos militares ao Soviete e não ao Governo.

O vazio de poder foi um ecossistema ideal para o florescimento do radicalismo bolchevique. Enquanto as outras forças de esquerda esperavam o desgaste de um governo burguês para depois avançar para o socialismo, Lenine escolhia como modelo para a transição a tomada do poder e destruição da ordem burguesa através de uma ditadura do proletariado. Quando chega do seu longo exílio de 17 anos, proclama: “Todo o poder aos Sovietes”. Ninguém o levou a sério. 
Com a passagem do tempo, com a instabilidade na economia e a degradação da moral e disciplina do Exército na frente a tornarem-se ingeríveis, o Governo de Lvov perdeu o pé. No caos de São Petersburgo, não se sabia quem mandava em quem e no quê. 
Nos dias 3 e 4 de Julho, grupos militares associados aos bolcheviques instalaram metralhadoras na avenida Nevsky, deram ordem de prisão a ministros e ameaçaram o Soviete de Petrogrado. 
Os líderes bolcheviques recearam ser esmagados pelo Exército e recuaram.

A ameaça ficaria como aviso, apesar do custo para Lenine e seus pares. 
Uma vaga de repressão foi lançada pelo Governo com forte apoio das classes médias. 
Até Máximo Gorky, uma celebridade internacional na época e insuspeito de ser conservador, escreveria: “O bolchevismo das emoções, que jogou com os instintos sombrios das massas, feriu-se a si próprio mortalmente”. 
Lenine é forçado a fugir, de novo, desta vez para a Finlândia. 
Cerca de 800 bolcheviques, entre os quais Leon Trotsky, que aderira há pouco ao partido, foram presos. 
Lvov concluíra, entretanto, não ser homem para aquele cargo. 
Resignou. 
Numa carta a um amigo, escreveu “A única maneira de salvar o país é fechar o Soviete e matar toda a gente. 
Eu não posso fazer isso. 
Mas Kerensky pode”. 
Kerensky sobe ao poder e, se fazia parte dos Socialistas Radicais, ensaiou uma guinada à direita. 
Chegou a tentar envolver o comandante-chefe do Exército, August Kornilov, numa solução mais musculada. 
A meio tirou o tapete ao general, que respondeu com o avanço do Exército. 
A revolução em curso seria salva pelas forças populares.

A Organização Militar Bolchevique, que se transformaria no Comité Militar Revolucionário, ajuda a salvar Kerensky e ao fazê-lo salva os bolcheviques. 
Trotsky assume a presidência do Soviete de Petrogrado. 
A militância não pára de crescer: de Fevereiro para Outubro o partido passa de 14 para 350 mil habitantes. 
O bairro industrial de Vyborg estava nas suas mãos. 
A base de Kronstad também. 
Em Outubro, Lenine pressente que as suas teses estão perto de poder vingar. 
Não era um homem de combate de rua, mas tinha uma ousadia e uma intuição imbatíveis. Vestia o mesmo casaco de cabedal preto com que os bolchevistas cultivavam um ar másculo e rufia, mas era um intelectual. 
Nikolai Valentinov, que o conhecera no exílio na Suíça, escreveria nas suas memórias que “ele nunca teria ido para as ruas combater nas barricadas”. 
O seu radicalismo estava nas palavras. 
Os bolcheviques “podem e devem tomar o poder do estado nas suas mãos”, escrevia desde a Finlândia. 
Se o não fizerem, “a história não nos perdoará”.

Máximo Gorky escreveu que “a vida em toda a sua complexidade é desconhecida para Lenine”. 
O que poderia ser verdade, desde que se excluísse a política da vida. 
Elena Makeeva é professora de Economia em São Petersburgo e diz que numa das salas da sua faculdade foi colocada “uma velha fotografia de Lenine” pelo seu reconhecimento como um “grande organizador, um grande manager”. 
Se uma parte do seu partido, com Lev Kamenev destacado, continuava a preferir uma aliança de todo o campo socialista no Governo provisório, Lenine, e Trotsky, advogavam a imediata tomada do poder pelas “massas”. 
Em Outubro, já depois de regressar clandestino a Petrogrado, vai jogando as suas peças. O congresso dos Sovietes de toda a Rússia está prestes a reunir-se e, quando essa reunião se fizer, os bolcheviques terão de ter já o poder na mão para depois o sufragarem numa assembleia popular que, finalmente, controlavam.

Assim foi. 
Depois do dia 5 de Novembro, o Comité Militar Revolucionário vai ocupando posições. Alexander Kerensky, não reage e, quando tenta reagir, indo procurar aliados no Exército, é tarde de mais. 
Às dez da noite do dia 6, Lenine sai do esconderijo e disfarçado com um fato de operário e uma peruca viaja para o Smolni para acelerar as operações. 
As ruas estão nas mãos dos soviéticos, o Palácio de Inverno é tomado de assalto na tarde seguinte, as massas prendem os membros do governo e saqueiam a preciosa garrafeira do czar - o château d’Yquem de 1847 era a sua colheita favorita. 
No Soviete, a notícia da tomada de poder é dada e a saída da sala em protesto dos delegados próximos dos Socialistas Revolucionários ou dos Mencheviques não abala quem começa a sentir segurança no poder. 
Quando se ensaia a possibilidade de uma coligação para governar, Trotsky deixa no ar uma das suas frases famosas: “Sois uns falidos miseráveis, o vosso papel já foi desempenhado; ides para onde mereceis – para o caixote de lixo da História”.
Konstantin Mogilevskiy “afirma que a Revolução é mais uma etapa do processo de destruição do poder antigo”. 
Mas é uma etapa feita por um processo que, não sendo novo (a Revolução Francesa ou a Comuna de Paris já o tinham tentado), desta vez provou ser suficiente duro para resistir. 
As suas marcas existem hoje ainda nas ideias, nas ideologias revolucionárias que subsistem, na arte ou na História. 
Particularmente na de São Petersburgo. 
A cidade que se quis afastar da revolução precisa talvez de outra revolução para apagar tantas estátuas, tanta toponímia, tantas estrelas incrustadas nas casas, nas pontes ou nas estações de metro. 
A crença na utopia de 1917 ainda deixa saudades, principalmente aos russos mais velhos. Mas também aos jovens. 
Como aquele que, de mota, se fazia passear pelas ruas da cidade sugerindo que a revolução que defende, por ser permanente, continua na curva seguinte da História.

manuel.carvalho@publico.pt