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domingo, 9 de setembro de 2018

Nem as promessas de Putin estancam descontentamento dos russos face às pensões

RÚSSIA
Público
2 de Setembro de 2018, 16:03 

Manifestação em Moscovo juntou dez mil pessoas em protesto contra a subida da idade da reforma. 
Protestos estenderam-se a outras cidades.

Milhares de russos voltaram a sair à rua em várias cidades do país em protesto contra a reforma do sistema de pensões apresentada pelo Governo. 
O descontentamento ameaça a popularidade estratosférica do Presidente Vladimir Putin como poucos acontecimentos desde que chegou ao Kremlin.

Não muito longe da Praça Vermelha, cerca de dez mil pessoas concentraram-se este domingo para pedir o abandono dos planos governamentais de aumentar a idade da reforma, numa manifestação organizada pelo Partido Comunista, de acordo com dados da White Counter, uma organização que contabiliza participantes em manifestações – o balanço da polícia apontava para seis mil pessoas.

Houve acções de protesto em várias outras cidades russas, como São Petersburgo, Novosibirsk e Vladivostok, embora atraindo menos pessoas do que na capital.

O descontentamento com a reforma das pensões mantém-se apesar das promessas de Putin em suavizar algumas medidas. 
Na quarta-feira, o Presidente prometeu que a idade da reforma das mulheres iria subir apenas cinco anos (para os 60), e não oito como inicialmente previsto. 
No seu discurso, Putin pediu compreensão para a importância da reforma, considerada vital para evitar uma queda profunda da economia.

Porém, a medida continua a ser muito impopular entre os russos e nem Putin – considerado uma figura acima do sistema político e imune às críticas – escapa aos protestos. 
A taxa de aprovação do Presidente, que desde 2014 nunca esteve abaixo do patamar dos 80%, caiu para pouco mais de 60% desde que a medida foi anunciada.

Em Junho, o Governo revelou a intenção de aumentar a idade de reforma para os 65 anos – actualmente, os homens podem reformar-se aos 60 e as mulheres aos 55 anos. 
A iniciativa foi recebida com enorme descontentamento, com os críticos a lembrarem que a esperança média de vida dos homens russos é de apenas 66 anos.

Actualmente, a média das pensões russas é de 13 mil rublos (170 euros) e, segundo o Governo, a concretização da medida poderia levar a uma subida do valor para 14.400 rublos (183 euros) no final do ano.

Putin anuncia subida mais suave para idade da reforma das mulheres

RÚSSIA
João Ruela Ribeiro
29 de Agosto de 2018, 15:49 

A braços com uma queda de popularidade sem precedentes, o Presidente russo veio a público defender a subida da idade da reforma e fez algumas promessas.

O Presidente russo, Vladimir Putin, veio a público defender a necessidade de aumentar a idade da reforma, uma das medidas mais contestadas pelo eleitorado e que lhe valeram uma queda acentuada nos índices de popularidade. 
Embora não abdique da legislação, Putin prometeu que o aumento da idade da reforma para as mulheres será mais reduzido.

Em 2014, a anexação da Crimeia valeu ao líder russo uma popularidade na ordem dos 80%, que praticamente não desceu desse patamar desde então, sobrevivendo ao isolamento internacional, à desvalorização do rublo, à queda do preço do petróleo e até às revelações de casos de corrupção no seio do Governo.

Porém, o consenso em torno de Putin, no poder desde 2000, sofreu um abalo sem precedentes após o anúncio da intenção do Governo de aumentar a idade da reforma para os 65 anos.

A medida foi anunciada no dia em que o Campeonato do Mundo se iniciava em Moscovo, mas mesmo assim as ruas das principais cidades russas encheram-se de protestos poucas vezes vistos contra o Governo. 
Os opositores da medida mostraram-se revoltados contra uma subida que consideram injusta – a esperança média de vida para os homens russos é 66 anos.

Para além da contestação nas ruas, a popularidade do próprio Putin caiu de 82% em Abril para 67% em Julho, de acordo com os dados recolhidos pelo Centro Levada.

Num aguardado discurso televisivo nesta quarta-feira, Putin veio justificar publicamente a necessidade da medida, acenando com profundas dificuldades económicas e aumento generalizado da pobreza se nada for feito.

“O desenvolvimento demográfico, as tendências do mercado de trabalho e uma análise objectiva da situação mostram que não podemos adiar isto por mais tempo”, afirmou o Presidente russo, que sublinhou ter sido sempre contra aumentos da idade da reforma.

Para tentar conter a onda de críticas, Putin anunciou algumas alterações para suavizar a medida, incluindo um aumento da idade da reforma das mulheres para os 60 anos, e não 63 como estava planeado inicialmente. 
“Temos uma atitude especial e carinhosa para as mulheres neste país”, afirmou Putin.

O Presidente prometeu ainda que as alterações à idade da reforma vão permitir a manutenção do valor das pensões (em média 14 mil rublos, cerca de 180 euros) e até algumas subidas no futuro.

joao.ruela@publico.pt

Protestos em mais de 80 cidades russas em dia de teste eleitoral a Putin

RÚSSIA
Sofia Lorena
9 de Setembro de 2018, 17:23

Dezenas de milhares de pessoas voltaram a manifestar-se contra o aumento da idade da reforma na Rússia. Em simultâneo, vota-se para eleger 26 presidentes e 16 parlamentos regionais, mais quatro presidentes de câmara, incluindo Moscovo.

Alexander Navalni, o único rosto da oposição a Vladimir Putin, não pôde encabeçar a manifestação de Moscovo, como tinha planeado. 
Mas mesmo a partir da prisão o seu apelo chegou a mais de 80 cidades da Rússia, com os primeiros manifestantes a saírem à rua em Vladivostok e noutros centros urbanos do extremo Leste do país.

As deste domingo foram propositadamente marcadas para coincidirem com uma jornada eleitoral em que os candidatos leais ao Kremlin esperavam bons resultados: a votos vão as presidências de 26 regiões e os parlamentos de 16, as assembleias municipais de 12 cidades e as presidências de quatro autarquias, incluindo a capital, para além da renovação de mandatos individuais na Duma (Parlamento) nacional.

Umas eleições com importância suficiente para poderem valer como teste ao poder. 
Putin permanece claramente incontestável, mas desde que o aumento da idade da reforma foi conhecido viu a sua popularidade baixar dos 87% (Abril) para os 67% (Julho), de acordo com dados do Centro Levada, o principal instituto de sondagens independente da Rússia.

“As campanhas eleitorais do partido no poder, o Rússia Unida, enfrentam sérias dificuldades”, escreveu a revista económica Expert, próxima das posições do Governo russo. 
“Os resultados destes escrutínios não reservam grandes surpresas, mas os números irão constituir um aviso para o Kremlin, partidos políticos e administração.”

A contestação à reforma das pensões, que reúne gente de diferentes áreas políticas, faz antecipar um primeiro efeito muito concreto: o renascimento da oposição parlamentar. Alexander Pozhalov, analista entrevistado pela Expert, enumera os partidos com assento da Duma que voltarão a fazer oposição, do Partido Comunista ao Rússia Justa (centro-esquerda), passado pelo Partido Liberal-Democrata, do ultranacionalista Vladimir Jirinovski.

A oposição possível
Esta é a oposição possível – os partidos realmente fora do sistema não conseguem entrar na Duma. 
“No fundo, os eleitores que desejam manifestar o seu descontentamento não terão outra hipótese que não seja votar num destes três partidos, isso ou absterem-se”, diz o director de investigação da Fundação ISEPI (um instituto de estudos socioeconómicos e políticos).

Navalni foi condenado a 30 dias de prisão em Agosto. 
Como habitualmente, entra e sai da cadeia às ordens de juízes e a sua detenção agora foi justificada por violação das leis que regulamentam os protestos. 
O activista político anticorrupção transformado na única figura reconhecida da oposição diz que estas sucessivas condenações por curtos períodos se destinam a minar a sua actividade – em Março, foi impedido de se candidatar contra Vladimir Putin nas presidenciais em que este foi reeleito com mais de 70% dos votos.

A reforma das pensões, discretamente anunciada no arranque do Mundial de Futebol, que se realizou na Rússia, desencadeou uma contestação a que Putin já não estava habituado.

Viver para receber
Mantém-se a intenção de subir a dos homens dos actuais 60 para os 65. 
Tendo em conta que esperança média de vida das mulheres na Rússia é de 77 anos e a dos homens de 66 (dados da Organização Mundial de Saúde), percebe-se que muitos russos não chegarão a gozar descanso nem pensão – de acordo com o Banco Mundial, só 57% dos russos deverão viver para lá dos 65 anos.

Os sindicatos já avisaram que muitos não chegarão a viver para reclamar a sua pensão mas Putin insiste que adiar mais a medida, cuja entrada em vigor está agora prevista para 2019, ameaça a “estabilidade e segurança da sociedade russa”. 
“Mais adiamentos seriam irresponsáveis”, afirmou. 
“As nossas decisões devem ser justas e equilibradas.”

“Putin e o seu Governo pilharam o orçamento durante os últimos 18 anos”, acusou a equipa de Navalni num comunicado divulgado em antecipação dos protestos deste domingo. “Durante todo esse tempo asseguraram-nos que a idade da reforma não seria mudada em nenhuma circunstância. 
E agora estão a aumentá-la. 
As autoridades não estão a ouvir as pessoas e isso significa que é tempo de tomar as ruas.”

sloren@publico.pt