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terça-feira, 17 de julho de 2018

Putin tem medo da chuva

OPINIÃO
Rui Tavares
16 de Julho de 2018, 7:00
Quer gostemos ou não deles, os presidentes democráticos sabem que quem anda à chuva molha-se.

Para escrever esta crónica tive de ir procurar o nome completo da presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic. 
E ao preencher as palavras “presidente d...” no motor de pesquisa da internet reparei que a sugestão automática era logo “...da Croácia”. 
Ainda antes de “Presidente de Portugal” ou “Presidente dos EUA”. 
Se bem entendo como funcionam estas coisas, isto quer dizer que à mesma hora milhões de pessoas procuravam o nome da presidente da Croácia.

Tal facto é testemunho da força que tem um acontecimento como uma final de um campeonato mundial de futebol como a de ontem, na qual a França se sagrou campeã por 4-2 contra a Croácia. 
Ambas as equipas fizeram um percurso extraordinário, a França tornou-se bicampeã com um futebol emocionante, a Croácia foi finalista pela primeira vez com uma incrível capacidade de resistência, nada disso está evidentemente em questão. 
Mas depois há o mundo para lá do futebol, e nesse mundo não é todos os dias que um país como a Croácia, com quatro milhões de habitantes, está sob os olhares globais como esteve ontem, num campeonato de visibilidade planetária a que a França está mais do que habituada.

Quem viu a alegria dos dois presidentes da república, da França e da Croácia, abraçando cada jogador de ambas as seleções — a sua e a dos adversários — viu também outra coisa. 

A certa altura começou a chover. 
Muito. 
E tanto Emmanuel Macron como Kolinda Grabar-Kitarovic ficaram imediatamente encharcados. 
Só que ali mesmo ao lado estava Vladimir Putin, o presidente da Rússia, que como anfitrião entregava as medalhas aos jogadores, e muito rapidamente se providenciou um chapéu de chuva para proteger Vladimir Putin. 
A diferença de tratamento entre os presidentes durou um minuto e meio, mas mesmo quando trouxeram chapéus de chuva para Emmanuel Macron e Kolinda Grabar-Kitarovic, estes lá continuaram alegremente encharcados, saindo de debaixo dos guarda-chuvas e abraçando cada um dos jogadores que encharcados estavam também. 
Putin, por sua vez, cumprimentava cada jogador com um aperto de mão e assim evitava molhar-se com mais contacto humano.

É fácil ceder à tentação de fazer interpretações políticas a partir do futebol. 
E como é fácil ceder, eu às vezes — confesso — cedo. 
Uma vez o eurofóbico britânico Nigel Farage disse que “a Bélgica nem é uma nação a sério, é uma criação artificial”. 
E eu ontem fui recuperar essas declarações, depois de ver a Bélgica derrotar a Inglaterra, e acrescentei: “pois é artificial, mas ganhou dois-zero”. 
Sei que é pecado, e eu não deveria pecar, mas não resisto.

Encharcada mas sorridente, a presidente croata ganhou a admiração do mundo

CROÁCIA
Reuters  
16 de Julho de 2018, 11:23 
Kitarovic, que envergava as cores do seu país, numa T-shirt aos quadrados brancos e vermelhos, estava no pódio com os presidentes russo e francês.

A Presidente croata Kolinda Grabar Kitarovic conquistou admiradores pelo mundo inteiro no final do campeonato de futebol, em Moscovo, neste domingo, quando começou a chover e continuou a sua tarefa de felicitar e abraçar cada um dos jogadores. 
Justiça seja feita e dizer que com Macron aconteceu exactamente o mesmo. 
Já Putin, o anfitrião da prova, manteve-se seco, debaixo de um chapéu-de-chuva. 

Kitarovic, que envergava as cores do seu país, numa T-shirt aos quadrados brancos e vermelhos, estava no pódio com os presidentes russo e francês. 
Enquanto Putin recebeu um guarda-chuva, ela e Macron ficaram encharcados enquanto não eram também protegidos da chuva, mas a governante esteve sempre sorridente e claramente encantada com a exibição do seu país (ver fotogaleria em cima).

As redes sociais ficaram rendidas à croata. 
"Melhor cena no Campeonato do Mundo. 
A chover a cântaros e sem guarda-chuva, Kolinda Grabar Kitarovic abraça todos os jogadores da Croácia e da França, mesmo que a Croácia tenha sofrido uma derrota. 
Isto é emocionante e caloroso, sem política, apenas desporto! 
Parabéns às duas selecções!", escreveu um internauta, citado pela Reuters. 

"Um coração partido na Croácia. 
A Presidente parece graciosa na derrota, abraçando todos os jogadores!", declarou outro. "Deixou os fãs muito emocionados", acrescentou outro.

Grabar Kitarovic mostrou grande paixão durante o campeonato, tendo acompanhado a equipa em todos os jogos após a fase de grupos, faltando apenas à semifinal contra a Inglaterra, devido à reunião da NATO, em Bruxelas.

A presidente, que foi embaixadora do seu país nos EUA e eleita pelo partido conservador União Democrática Croata, pagou as viagens do seu próprio bolso, tendo viajado em económica para a Rússia e tirado dias de folga para assistir aos jogos. 
Também, por isso, tem sido elogiada e considerada um exemplo a seguir pelos seus congéneres masculinos. 
"A Presidente croata sai como uma verdadeira vencedora. 
Camisola do futebol, chuva, choro, cabelo estragado, não dá a mínima", resume outro dos comentários, citado pela Reuters.

Nesta tarde, em Zagreb haverá uma festa de boas-vindas à selecção de futebol que alcançou o maior sucesso na história da modalidade naquele país, superando o seu desempenho, há 20 anos, quando conquistou o terceiro lugar no campeonato que decorreu em França.

A Croácia perdeu o mundial, mas a presidente do país apaixonou o mundo


Croácia 
Sónia Salgueiro Silva 15 Julho 2018  22:12
Para apoiar a sua equipa, Kolinda Grabar-Kitarovic viajou em económica e pagou os bilhetes do seu bolso. É já apontada como um exemplo a seguir

Kolinda Grabar-Kitarovic tem 50 anos, é loira e bonita, e a primeira mulher a assumir o cargo de presidente da Croácia. 
Para além disso, é uma adepta fervorosa de futebol, tendo acompanhado in loco todo o percurso da seleção do seu país, que este domingo ficou em segundo lugar no Mundial da Rússia 2018, depois de ter perdido por 4 a 2 a final frente à França.

A viagem fê-la a título particular, por isso meteu folgas, descontou os dias fora do trabalho do seu ordenado e ainda viajou num voo comercial, tendo pago os bilhetes do seu bolso, como conta a BBC Brasil.

Kolinda partilhou a imagem em que aparece no avião ao lado de vários adeptos, com a legenda "vamos para a vitória". 
Na altura, a presidente deslocava-se para Nizhny Novgorod onde iria ser disputada a partida entre a Croácia e a Dinamarca, a 1 de julho.

Um dos adeptos que seguia no mesmo voo comentou à agência de notícias Tass, da Rússia: "Ela gosta do desporto, e o que ela está a fazer é algo normal para um presidente. 
Ela apanhou um voo com pessoas comuns e cumprimentou todos. 
Eu gosto disso. 
Somos um país pequeno, mas é como uma equipa."

Não foi só este adepto que gostou da atitude da presidente, que está a encantar várias pessoas em diversas localizações. 
Por exemplo, no Brasil ela é já apontada na imprensa brasileira  como um exemplo daquilo que deviam ser os líderes brasileiros.

Este domingo voltou a dar nas vistas, apesar da derrota da seleção croata. 
Nem a chuva que caiu torrencialmente na altura da entrega das medalhas e da taça lhe apagou o sorriso da cara.

Aliás, foi precisamente o facto de ter ficado debaixo de chuva intensa, a rir, enquanto não chegava um chapéu-de-chuva para a cobrir - note-se que o primeiro a ser protegido foi Vladimir Putin, depois Emmanuel Macron e só a seguir chegou um chapéu para Kolinda -, que a colocou ainda mais em evidência.

Quem é Kolinda Grabar-Kitarovic

Conservadora, Kolinda Grabar-Kitarovic, do partido União Democrática Croata (HDZ), foi eleita a primeira presidente mulher do país em 2015, com 50,54% dos votos.

Antes de se tornar presidente, Kolinda seguia carreira diplomática, tendo sido embaixadora da Croácia em Washington entre 2008 e 2011, ministra para Integração Europeia e ministra das Relações Exteriores.

Considerada da ala moderada do partido, ela surpreendeu ao declarar, durante a campanha de 2014, que apoiaria os filhos caso assumissem ser homossexuais. 
Também disse autorizar o uso medicinal de canábis e que a decisão de abortar cabia à mulher.

A presidente é casada e tem um casal de filhos - Katarina, 17 anos, e Luka, de 15. Filha de um talhante, Kolinda tem raízes humildes, o que pode justificar a atitude com que está a seduzir o mundo.

"A UE é um dos projetos mais bem-sucedidos da humanidade"

Croácia
Leonídio Paulo Ferreira  13 Maio 2018 01:40

A presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic 

Presidente da Croácia desde 2015, Kolinda Grabar-Kitarovic preferiu dar esta entrevista ao DN em inglês apesar de saber português, língua que usou no discurso que fez no Palácio da Ajuda, no jantar oferecido pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa


Nesse discurso falou dos 26 anos de relações diplomáticas e de como a Expo"98 de Lisboa foi importante para a afirmação internacional do país (pavilhão croata foi da responsabilidade do arquiteto Ivica Maricic, atual embaixador em Portugal). 
A presidente lembrou ainda os laços de Dubrovnik, a antiga Ragusa, com o Portugal dos Descobrimentos e a poetisa luso-croata Antónia Pusich.

Como presidente do mais recente dos 28 membros da UE, continua a acreditar que este projeto de união é aliciante para países como a Croácia?

Absolutamente.
A UE é um dos projetos mais bem-sucedidos da humanidade.
Temos uma união de democracias que partilham os valores que definem as nossas sociedades.
E é isso que temos de continuar a defender.
Quando o referendo sobre o brexit aconteceu, muita gente previu que a UE estaria à beira de dissipar-se e muitas forças centrífugas fizeram-se notar.
Mas recuperámos bem como união mesmo que tenhamos pela frente muitos desafios e um deles é o orçamento plurianual que está a ser negociado.
Outro é manter a união próxima dos cidadãos e sublinhar o que é.
Não se trata de uma união criada apenas para projetos económicos, foi primeiro que tudo um processo de paz.
E penso que na Croácia, o último país até ao momento a juntar-se à UE e o único membro a ter tido uma guerra no seu território depois da Segunda Guerra Mundial, sentimos como forte essa ideia de paz.
Ainda nos lembramos dos tempos dos muros e arames farpados a dividir a Europa e por isso queremos prosseguir neste espírito de solidariedade e construir uma ainda mais forte união, que se afirme também como uma potência global.

Como avalia a evolução croata nestes 26 anos, construindo uma sociedade pós-jugoslava e pós-comunista?

Em contraste com os chamados países do antigo bloco de leste, a Croácia teve de atravessar uma mais complexa transição: primeiro foi a de um sistema não democrático para uma sociedade democrática; depois foi a transição de uma economia planeada para uma de mercado.
Os outros também países as tiveram.
Mas nós tivemos de lidar com a transição de um país que esteve em guerra, que foi ocupado e teve de libertar e reintegrar as áreas ocupadas, que teve de reconstruir tudo o que foi destruído na guerra, incluindo casas e infraestruturas, que teve de fazer desminagem, etc.
Não foram tempos fáceis.
Por causa da guerra nos anos 1990 perdemos o período de altos investimentos nos países em transição.
Perdemos a primeira vaga e foram poucos os que se atreveram a investir num país que era vítima de agressão.
Mas conseguimos cuidar de centenas de milhares de pessoas deslocadas da Croácia e refugiados da Bósnia e reconstruímos o país.
Estivemos em recessão, mas recuperámos e nos últimos três anos tivemos indicadores positivos e estou otimista sobre o caminho que o país está a percorrer, ainda que necessitemos de fazer mais para atrair investimento estrangeiro e promover o empreendedorismo e desenvolver novos laços comerciais e económicos com os países amigos como Portugal.

Receia que o atual clima de regresso da Guerra Fria possa afetar os Balcãs?

A situação está já a afetar a região, a que prefiro chamar de Europa de Sudeste.
Não gosto do termo Balcãs por causa da conotação com guerra, instabilidade e fragmentação.
Há sem dúvida interesse da Rússia em influenciar a Europa de Sudeste.
Através de investimentos, fazendo negócios, etc.
Contudo, quando se trata da relação com a Federação Russa mantemos a mesma posição que a UE e a NATO, apoiando a aplicação dos Acordos de Minsk [sobre a Ucrânia] e os princípios do direito internacional no que diz respeito à soberania e ao direito de qualquer país decidir sobre o seu próprio futuro.
Mas também mantemos o diálogo com a Rússia em assuntos como a segurança internacional.
Para nós é também importante a cooperação com a Rússia no campo económico e dependemos, no que se trata de fontes de energia, da Rússia, pelo que procuramos diversificar por razões geopolíticas.
Creio que temos de ser muito cautelosos para não alimentar uma escalada da situação.
E espero que se possa encontrar uma linguagem comum com a Rússia que permita ultrapassar essas diferenças, porque tanto no resto do mundo depende do diálogo, como a paz na Síria ou resolver a questão dos refugiados e migrantes vindos do norte de África e do Médio Oriente.
Claro, também enfrentamos ameaças comuns como o terrorismo e por isso temos de trabalhar juntos para eliminar as causas.

Considera que as relações luso-croatas vivem um bom momento depois da visita no ano passado do nosso Presidente a Zagreb e agora esta sua a Lisboa?

As nossas relações vivem um momento muito positivo, mas podem ser ainda melhores. Como disse o vosso Presidente, nestes 26 anos de relações diplomáticas não tivemos um único diferendo.
Além do campo económico, há muito espaço para cooperação na educação, na cultura, no turismo, e fico satisfeita de ter assinado um programa de cooperação educativa e cultural. A língua portuguesa é popular na Croácia, com dois leitorados, um em Zagreb e outro em Zadar.
Há muitos alunos interessados.

Fala português. Como aprendeu?

Eu estava na Universidade de Zagreb a estudar inglês e espanhol e havia um curso de português que escolhi e frequentei durante três anos.
Até traduzi um livro de português para croata.
Infelizmente nunca tive oportunidade de passar mais do que uns dias num país de língua portuguesa.
Precisava de mais para mergulhar na cultura local.
Hoje tento ler o máximo possível em português, mas falta-me o contacto humano e as conversas.

Quando está com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa tenta conversar em português?

Sim, um pouco.
E o meu brinde no jantar oficial será em português, pois prometi-lhe isso em Zagreb no ano passado, que falaria umas frases em Lisboa.