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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Gregos ‘portugueses’. Um mês depois, Tsipras está entre o louco e o herói

Alexis Tsipras: primeiro-ministro grego está num momento decisivo
20/2/2015, 7:22
Fábio Monteiro
FUTURO DA GRÉCIA
Um mês depois das eleições, fomos ouvir de novo os gregos que moram em Portugal. 
"E agora? 
Que lhe parece Alexis Tsipras? 
E estas negociações". 
As reações são hoje mais extremadas do que antes.

Ainda não passou um mês desde que Alexis Tsipras foi eleito primeiro-ministro da Grécia, mas não é por isso que o “Olimpo” está mais calmo. 
Na segunda-feira, a Grécia afirmou que não aceita o ultimato do Eurogrupo “nem com uma pistola apontada à cabeça”. 
“Não vamos ceder”, garantiu Tsipras. 
Passados três dias, contudo, já foi feito um pedido de prolongamento por seis meses do acordo do empréstimo, aceitando dialogar com cada uma das “instituições” da troika. Incongruências?

Dias antes da ida a votos, o Observador falou com alguns gregos que vivem em Portugal – ao todo são cerca de 200-, para saber o que é que eles esperavam das eleições. 
Agora, nesta quinta-feira, o Observador volta a falar com eles, para saber se as expectativas estão a corresponder à realidade.

“Uma loucura”. Ou não?

Há algumas semanas, George Daskaloulis estava muito cético quanto às capacidades do líder do Syriza, Alexis Tsipras. 
Descreveu-o como um líder sem “formação”, “incongruente”, e afirmou o Syriza parecia-lhe um “partido Frankenstein”, devido a ter acolhido membros de vários partidos “antagónicos”. A opinião não era boa. 
E isto foi antes de o Syriza formar uma Governo de coligação com os Gregos Independentes, partido de direita nacionalista, cujo líder, atual ministro da Defesa, já esteve envolvido em polémica por declarações homofóbicas.

George Daskaloulis

“Uma loucura”, resume George, quando questionado sobre como tem visto o que se está a passar na Grécia, sob o novo regime. 
Para o gestor na empresa naval Starport, em Lisboa, todas as negociações que estão a decorrer com o Eurogrupo e as exigências que estão a ser feitas são só “para terem uma desculpa para sair do euro”. 
“Aqueles académicos do Bloco de Esquerda da Grécia [Syriza] não devem perceber nada de direito”, afirma.

Nem o ministro das Finanças, Yanis Vourafakis, o nome mais falado depois das eleições que deram a vitória ao Syriza, pelo estilo como se veste ou pelo tipo de recuperação económica que defende, parece ter conquistado a confiança do gestor grego. 
“É maluco”, diz George. 
“Viu como ele, na segunda-feira, falou depois da reunião do Eurogrupo com os colarinhos levantados? 
E o sotaque dele, como naquele filme V de Vingança?”


O acordo, nessa segunda-feira, falhou. 
Yanis Varoufakis, em declarações aos jornalistas, disse que estava pronto para assinar uma proposta de comunicado conjunto que lhe foi apresentada antes da reunião do Eurogrupo, em Bruxelas, na segunda-feira, pelo comissário europeu dos Assuntos Económicos Pierre Moscovici. 
Mas esse documento, que, segundo uma televisão pública grega, terá sido uma iniciativa de Jean-Claude Juncker (presidente da Comissão Europeia), seria trocado por um outro documento elaborado pelo líder do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, escudado pelos ministros das Finanças da zona euro. 
Um dos problemas centrais estava na definição de “flexibilidade”, que Varoufakis quis aclarar e que, diz, ninguém lhe explicou.

Esta quinta-feira, o Governo grego já entregou ao Eurogrupo o pedido formal de uma extensão do empréstimo europeu ao Estado grego. 
“Flexibilidade” voltou a ser a palavra central. 
A carta grega pede para que se use a “flexibilidade possível no acordo atual”, aproximando-se do discurso de Jeroen Dijsselbloem, para “concluir com sucesso o acordo existente”. Mas isto “com base em propostas do governo grego e das instituições”. 
Duncker pareceu estender a mão, numa reação inicial, mas de Berlim veio um “nein” poucos minutos depois.

“Não se pode emagrecer uma vaca e tirar-lhe o leite”

A opinião de Elias Soukiadis, professor de economia na Universidade de Coimbra, não podia ser mais diferente da de George, quanto ao novo ministro das Finanças grego. 
Elias conhece pessoalmente Varoufakis e “até já o tinha convidado para vir dar umas palestras cá a Portugal”, algo que não se chegou a concretizar “por acaso”. 
Descreve-o como alguém íntegro, com ideias e que estudou. 
“Não chegou ao Governo através de uma carreira política”, afirma, lembrando o caso de alguns políticos portugueses.

Yanis Vourafakis 

Elias, juntamente com o professor Stuart Holland da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, colaborou com Yanis Vourafakis durante alguns anos num projeto de “procura de soluções para resolver o problema da dívida”.

Para o economista grego, “as eleições deram à população uma certa esperança de que algo mude”. 
As políticas de austeridade foram desastrosas, “arruinaram o país”, e o Syriza surgiu como uma “alternativa” à tradicional alternância do poder entre o PASOK e o Nova Democracia, diz. 
Os gregos estão “muito eufóricos” com a forma como o Governo do Syriza está a enfrentar os problemas do país. 
Veem-se representados, conclui.

Elias Soukiadis

Tal como Varoufakis, Elias Soukiadis quer uma renegociação da dívida “igual à que foi feita com a Alemanha em 1953”, onde metade desta foi perdoada e o período de restituição do valor foi prolongado. 
Para defender esta visão, Elias opta por usar uma metáfora: “Não se pode emagrecer uma vaca e tirar-lhe o leite. 
Tem de se engordar primeiro e só depois é que podemos tirar o leite.” 
Por outras palavras, “só com crescimento é que se consegue pagar a dívida”, a mesma perspetiva do ministro das Finanças grego.

Relativamente à posição do Eurogrupo na passada segunda-feira, Elias afirma que “era uma coisa esperada”. 
“A Europa é a 28, mas é a Alemanha que está a mandar”, afirma. 
De um ponto de vista económico, Elias defende que a Alemanha não quer ajudar, para não ter que abandonar a “hegemonia da Europa”. 
E, ao mesmo tempo, a Alemanha parece querer prolongar a perspetiva de que “os gregos são uns paralíticos”, afirma.

“Agrada a gregos e a troianos”

A médica grega Zacharoula Sidiropoulou não tem problemas em afirmar que “os gregos estão convencidos de que votaram bem”. 
Um exemplo disso, explica, são as manifestações a favor das posições do Governo grego no Eurogrupo. 
“É raro ver-se uma coisa dessas.” 
E é ainda mais raro encontrar um Governo que “agrada a gregos e a troianos”, diz ela, lembrando que os partidos políticos gregos estão a viver um momento de convergência.

Há um mês, Zacharoula já tinha contado ao Observador que é a família que lhe serve de barómetro quanto aquilo que se passa no país.
”Se as eleições fossem agora, contou-me o meu irmão, o Syriza iria ganhar por uma maioria brutalmente absoluta”, diz. 
Para Zacharoula, no plano externo, o Syriza está a empenhar-se para melhorar e representar o país, está a mostrar “energia”. 
Essa energia também se reflete no plano interno com aquilo a que chama de “alívio da pressão sob as pessoas” – leia-se, com os projetos de lei que estão a ser discutidos para simplificar a situação de pessoas com dívidas.

Devido a toda a informação, todas as diferentes perspetivas que os meios de comunicação internacionais passam, Zacharoula diz estar com a sensação que “a União Europeia não está disposta, de maneira nenhuma, a deixar a Grécia sair [do euro]”. 
“Faz impressão”, contudo, a posição de alguns países do sul, face ao que o Governo grego está a exigir, comenta. 
Um exemplo: “O Presidente da República português falou num tom mais crítico do que muitos ministros alemães.” 
E isto vai de encontro com outro ponto que Zacharoula defende: “Muitos países estão solidários com a causa grega. 
Não os Governos. 
Mas pessoas estão.”

Grécia entrega pedido de extensão e aproxima-se das exigências do Eurogrupo

ATUALIZADO223 PARTILHAS
Edgar Caetano
Nuno André Martins
FUTURO DA GRÉCIA


Governo já pediu prolongamento do acordo de empréstimo. Eurogrupo reúne-se sexta-feira. Na carta, Grécia pede para que se use "flexibilidade". Juncker diz que pode ser um passo para o compromisso.

O governo grego já entregou ao Eurogrupo o pedido formal de uma extensão do empréstimo europeu ao Estado grego. 
A informação foi adiantada pelas agências noticiosas internacionais, citando fonte do governo da Grécia e, entretanto, o Eurogrupo já confirmou a informação. 
A carta grega pede para que se use a “flexibilidade possível no acordo atual”, aproximando-se do discurso de Jeroen Dijsselbloem, para “concluir com sucesso o acordo existente”. Mas isto “com base em propostas do governo grego e das instituições”.

A Comissão Europeia, liderada por Jean-Claude Juncker, já reagiu à carta. 
Diz que é “um sinal positivo que pode abrir caminho para um compromisso razoável para a proteção da estabilidade financeira na zona euro como um todo”, afirmou um porta-voz da Comissão Europeia. 
O Eurogrupo irá “analisar de forma detalhada” a carta e dará uma resposta, diz a mesma fonte.

O pedido visa um prolongamento por seis meses do acordo de empréstimo, como rapidamente confirmou, aliás, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, através da rede social Twitter.

Jeroen Dijsselbloem
@J_Dijsselbloem
Received Greek request for six months extension.

09: 30 - 19 fev 2015



A bolsa de Atenas está, pelas 12h00 desta quinta-feira, a subir mais de 3,5%, segundo a Bloomberg, destacando-se da tendência mista que predomina nos outros mercados europeus. 
Entretanto, Jeroen Dijsselboem já agendou uma reunião extraordinária do Eurogrupo para amanhã, sexta-feira, às 15h em Bruxelas (14h em Lisboa).

A carta enviada ao Eurogrupo

Na carta enviada ao Eurogrupo, o governo grego diz que durante esta extensão “iremos trabalhar em conjunto, e aproveitar a flexibilidade possível dentro do atual acordo, com o objetivo de ter conclusão bem sucedida [para este acordo] e da avaliação com base em propostas feitas, por um lado, pelo governo grego e, por outro, pelas instituições”. 
São estas as palavras, cuidadosamente medidas, que constam da carta que transcrevemos na íntegra no final deste texto.

A carta pede, também, que o Banco Central Europeu (BCE) volte a introduzir o regime de exceção (waiver) que permitia aos bancos usarem dívida grega como garantia para obter financiamento em Frankfurt apesar do rating de lixo. 
O BCE retirou esse waiver, obrigando a que os bancos gregos não tivessem alternativa para o seu financiamento além da plataforma de emergência do BCE, com o banco central nacional como intermediário.

A Grécia pede, também, a continuação da disponibilidade dos fundos do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e que possam equacionar-se medidas de alívio do fardo da dívida – medidas que já eram contempladas no acordo de empréstimo (cuja extensão está a ser pedida) mas que dependiam da “aplicação integral” do Memorando de Entendimento subjacente.

A carta promete, ainda, que uma das grandes prioridades do governo grego será – como já tem vindo a ser dado como entendido – o combate à corrupção e à evasão fiscal. 
Como? 
A carta não inclui metas concretas sobre esta matéria.

“Para início de conversa, não é mau”

Fonte do Eurogrupo citada pela agência Dow Jones disse, confrontada com a carta, que após esta carta, “as partes continuam um pouco afastadas”. 
Mas diz que “para início de conversa, não é mau”, afirma a fonte, numa alusão à posição assumida pelo governo grego.

A confirmação de que a Grécia já entregou formalmente este pedido de extensão do acordo de empréstimo (não do programa de resgate), tentando passar a bola para o Eurogrupo, surge no dia em que o Banco Central Europeu (BCE) desmentiu uma notícia do alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) de que a autoridade monetária gostaria de ver o país a impor controlos de capitais para estancar a fuga de depósitos que continua a verificar-se na banca grega.

Nos documentos relacionados, pode consultar o ficheiro PDF do “Master Financial Assistance Facility Agreement”. 
Um documento que em troca da assistência financeira deixava claro que seria necessário promover as políticas determinadas com o Memorando de Entendimento com a troika.

Aqui está a carta enviada por Yanis Varoufakis, na versão original:

Dear President of the Eurogroup,
Over the last five years, the people of Greece have exerted remarkable efforts in economic adjustment. The new government is committed to a broader and deeper reform process aimed at durably improving growth and employment prospects, achieving debt sustainability and financial stability, enhancing social fairness and mitigating the significant social cost of the ongoing crisis.

The Greek authorities recognise that the procedures agreed by the previous governments were interrupted by the recent presidential and general elections and that, as a result, several of the technical arrangements have been invalidated. The Greek authorities honour Greece’s financial obligations to all its creditors as well as state our intention to cooperate with our partners in order to avert technical impediments in the context of the Master Facility Agreement which we recognise as binding vis-a-vis its financial and procedural content.

In this context, the Greek authorities are now applying for the extension of the Master Financial Assistance Facility Agreement for a period of six months from its termination during which period we shall proceed jointly, and making best use of given flexibility in the current arrangement, toward its successful conclusion and review on the basis of the proposals of, on the one hand, the Greek government and, on the other, the institutions.

The purpose of the requested six-month extension of the Agreement’s duration is:
(a) To agree the mutually acceptable financial and administrative terms the implementation of which, in collaboration with the institutions, will stabilise Greece’s fiscal position, attain appropriate primary fiscal surpluses, guarantee debt stability and assist in the attainment of fiscal targets for 2015 that take into account the present economic situation.
(b) To ensure, working closely with our European and international partners, that any new measures be fully funded while refraining from unilateral action that would undermine the fiscal targets, economic recovery and financial stability.
(c) To allow the European Central Bank to re-introduce the waiver in accordance with its procedures and regulations.
(d) To extend the availability of the EFSF bonds held by the HFSF for the duration of the Agreement.
(e) To commence work between the technical teams on a possible new Contract for Recovery and Growth that the Greek authorities envisage between Greece, Europe and the International Monetary Fund which could follow the current Agreement.
(f) To agree on supervision under the EU and ECB framework and, in the same spirit, with the International Monetary Fund for the duration of the extended Agreement.
(G) To discuss means of enacting the November 2012 Eurogroup decision regarding possible further debt measures and assistance for implementation after the completion of the extended Agreement and as part of the follow-up Contract.
With the above in mind, the Greek government expresses its determination to cooperate closely with the European Union’s institutions and with the International Monetary Fund in order: (a) to attain fiscal and financial stability and (b) to enable the Greek government to introduce the substantive, far-reaching reforms that are needed to restore the living standards of millions of Greek citizens through sustainable economic growth, gainful employment and social cohesion.
Sincerely,
Yanis Varoufakis
Minister of Finance

Hellenic Republic

Varoufakis. O que mudou antes e depois da reunião?

17/2/2015, 12:05294 PARTILHAS
Hugo Tavares da Silva
FUTURO DA GRÉCIA

Ministro das Finanças grego disse que assinava um documento apresentado antes da reunião do Eurogrupo. Depois, terão chegado mais 2 versões, a última com o cunho de Dijsselbloem. Varoufakis rejeitou.

O acordo terá estado perto, mas falhou. 
Yanis Varoufakis, ministro das Finanças da Grécia, disse que estava pronto para assinar uma proposta de comunicado conjunto que lhe foi apresentada antes da reunião do Eurogrupo, em Bruxelas, na segunda-feira, pelo comissário europeu dos Assuntos Económicos Pierre Moscovici. 
Mas esse documento, que, segundo uma televisão pública grega, terá sido uma iniciativa de Jean-Claude Juncker (presidente da Comissão Europeia), seria trocado por um outro documento elaborado pelo líder do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, escudado pelos ministros das Finanças da zona euro.

O problema estava na definição de “flexibilidade”, que Varoufakis quis aclarar e, diz, ninguém lhe explicou. 
Na reunião, Varoufakis também voltou não apresentar nenhuma proposta concreta nem nenhum documento em que detalhasse as medidas com que o seu governo pretende conseguir manter as finanças equilibradas – os seus 30% de medidas fora do programa anteriormente acordado e ainda em vigor. 
Entre números, cedências e políticas, o futuro da Grécia parece estar agora colado a uma questão de semântica. 
Um exemplo claro disso é a divergência nos termos “extensão do programa” vs. “extensão do empréstimo”.

“Antes da reunião [Pierre] Moscovici apresentou-me um documento que a Grécia estaria contente por assinar”, disse o ministro das Finanças grego, em conferência de imprensa após o encontro. 
“Depois deram-me outro documento para assinar, que era inaceitável. 
Não poderíamos assinar uma extensão do programa”. 
Varoufakis referiu que houve um “desacordo substancial” nas duas versões, até porque, defende, o Syriza foi eleito precisamente “para desafiar” o programa da troika, por isso não faria sentido assinar uma extensão.


Paul Mason
@paulmasonnews
This is the draft @yanisvaroufakis  claimed  @pierremoscovici  presented then withdrew.
23:10 - 16 fev 2015

Vamos por partes. 
O que oferecia Moscovici, pela Comissão Europeia? 
O documento, publicado pelo jornalista Paul Mason no Twitter (ver em cima), tinha como principal ponto (para Varoufakis) “uma extensão do acordo de empréstimo” e não a tão contestada extensão do programa, estando em cima da mesa uma extensão do empréstimo por seis meses, período esse que seria como uma ponte, “um passo intermédio para um novo acordo”. 
A proposta de comunicado conjunto dava conta ainda da possibilidade de flexibilização do atual programa piscando o olho a um novo. 
O documento referia também as prioridades do novo Governo grego, falando na necessidade de solidificar e implementar de uma forma eficaz o programa de assistência financeira, medidas essas que poderiam ser as bases para um novo acordo.

Os planos da Grécia são diferentes. 
O Governo grego pedia um prolongamento do empréstimo por apenas quatro meses, até junho, para depois definir um novo caminho — o atual programa das instituições europeias termina no final de fevereiro; já o programa do FMI, independente dos anteriores, termina apenas em 2016. 
Varoufakis disse que aceitaria a proposta da Comissão Europeia.

Quarenta minutos depois, Paul Mason publicou uma alegada versão atualizada do documento. 
O que levou à atualização do documento não é claro, nem se Varoufakis aceitaria. 
No entanto, a voz da Comissão Europeia é relativamente fraca nesta negociação, por isso prevaleceria sempre a posição do Eurogrupo. 
E assim foi.


Paul Mason
@paulmasonnews
For transparency: i was sent 18:40 version by trusted source to show it existed, but this one superseded it: 
23: 50 - 16 fev 2015


Esta segunda versão, chamemos-lhe assim, sofrera uma ligeira mudança no tom. Escreveu-se, repetindo a ideia que estava presente no anterior documento, que os gregos cumpririam o acordo para “assegurar a sustentabilidade das finanças públicas”. 
Basta descer umas linhas e vê-se mais uma vez outro sinal de promessas de cumprimento, digamos. 
“As autoridades gregas reiteram o seu compromisso inequívoco para com as obrigações financeiras com todos os seus credores.” 
A palavra “flexibilidade” esfumou-se nesta segunda versão, publicada às 00h50 de segunda-feira para terça-feira. 
Enquanto a narrativa mudou, como moeda de troca, a Europa ofereceu uma extensão do empréstimo por quatro meses, classificando-o de “programa intermédio, como uma fase transitória para um novo contrato de crescimento da Grécia”.

Depois chegou a palavra de quem controla as rédeas da negociação: Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo, que falava em nome dos países do euro. 
Neste documento definitivo, que Varoufakis classificaria, na conferência de imprensa, de “inaceitável”, foi oferecido ao Executivo grego uma “extensão técnica do atual programa” por seis meses (lá está, a semântica).

A seguir volta a ler-se que a Grécia teria uma série de estratégias futuras que culminariam “no compromisso inequívoco” de pagar o que aquele país deve a todos os seus credores. Há uma frase pelo meio que está riscada que pode ajudar a explicar a rejeição grega: “As autoridades gregas indicaram que pretendem concluir o programa com sucesso, levando em linha de conta os planos do novo governo”. 
Mais uma vez, se a ideia do Syriza era colocar um ponto final no programa da troika, seria improvável que o Governo helénico aceitasse uma proposta de comunicado conjunto com esta narrativa. 
Foi isso mesmo que Varoufakis explicou no final. 
O Governo foi eleito para desafiar a lógica do programa, não poderia prometer que concluiria com sucesso algo que considera um falhanço.



Aqui volta a falar-se novamente de “flexibilidade no atual programa”. 
Varoufakis torceu o nariz, questionando as diferentes dimensões da palavra “flexibilidade”, temendo que as políticas do país continuassem sob controlo dos parceiros europeus.

O ministro das Finanças grego disse que até chegou disposto a oferecer medidas aos países do euro como sinal de boa fé para os parceiros europeus, mas estas cobririam apenas o período até ao final da extensão do programa e não podiam ser medidas com impacto recessivo, em especial aumentos do IVA e cortes nas pensões mais baixas, mas não explicou se chegou a ter esta discussão com os parceiros.

“As autoridades gregas garantiram o seu compromisso para refrear a ação unilateral e trabalharão de perto com os parceiros europeus e internacionais, especialmente nos campos da política fiscal, privatização, reformas no mercado de trabalho, setor financeiro e pensões”, pode ler-se na última versão. 
Ficou também previsto uma extensão do empréstimo do “programa atual” por seis meses”, pode ainda ler-se no documento apresentado pelo líder do Eurogrupo.

“Os ultimatos nunca resultaram em nada de bom”, disse Varoufakis

“A minha preferência é que haja uma extensão do programa, e eu acho que ainda é viável”, disse Dijsselbloem em conferência de imprensa após as negociações falhadas. 
Mais uma vez: extensão do programa é a terminologia usada.

Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, mostrou-se cético quanto ao desfecho da reunião, ainda antes dela começar: “Sinto muito pelos gregos. 
Elegeram um Governo que de momento se comporta de maneira bastante irresponsável.” O ministro alemão insistiu que, para receber ajuda dos outros países da zona euro, a Grécia tem de mostrar como no futuro vai assegurar os meios suficientes para financiar as suas próprias pretensões, ou seja, os gregos terão de cumprir alguns requisitos mínimos para continuarem no euro.

Não houve acordo e a situação agudizou-se, pois houve uma espécie de “sim ou sopas”. Foi comunicado à Grécia, pelo presidente do Eurogrupo, que teria um prazo de quatro dias [até sexta-feira] para pedir uma extensão do programa de ajustamento. 
Varoufakis criticou a postura e prometeu um acordo: “Na história da União Europeia os ultimatos nunca resultaram em nada de bom. 
Não tenho dúvidas de que o ultimato será retirado nos próximos dias. 
Estamos dispostos a fazer tudo o que for preciso para chegar a um acordo nos próximos dois dias.”

Banco Central Europeu pode voltar a financiar banca grega

Jens Weidmann: cumprimento do programa de reformas poderia dar acesso ao regime vantajoso de financiamento da banca grega
19/2/2015, 21:33
Agência Lusa
FUTURO DA GRÉCIA


BCE poderia reinstalar o financiamento de que beneficiavam os bancos gregos, se Atenas concordasse em prosseguir com o seu programa de reformas, afirmou Jens Weidmann, líder do Bundesbank.

O Banco Central Europeu (BCE) poderia reinstalar o regime vantajoso de financiamento de que beneficiavam os bancos gregos, se Atenas concordasse em prosseguir com o seu programa reformas, explicou nesta quinta-feira o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann. 
A Grécia pediu hoje formalmente aos seus credores o prolongamento do plano de assistência financeira por mais seis meses.

Na carta enviada a Bruxelas, o governo grego assumiu que desejava que o BCE recomeçasse a financiar os bancos gregos, com as mesmas condições que estiveram em vigor até ao início de fevereiro. 
Os bancos helénicos têm beneficiado de um regime de exceção, que lhes permitia obter empréstimos dando como garantia a dívida pública grega. 
Depois do fim do regime de exceção os bancos gregos têm mantido a cabeça fora de água graças aos fornecimentos urgentes assegurados pelo Banco Nacional Grego, aos quais o BCE pode igualmente pôr fim.

O presidente do Bundesbank referiu, numa conferência numa universidade alemã, que este plano de apoio contava com condições particulares, claramente definidas, e que se estas forem cumpridas o plano pode ser aplicado de novo. 
As negociações europeias sobre a situação da Grécia deverão ser retomadas sexta-feira em Bruxelas.

Falar com a Grécia? Sim, mas sobre “atual programa”, diz Maria Luís Albuquerque

Maria Luís Albuquerque deu uma entrevista ao jornal alemão Handelsblatt
20/2/2015, 11:28
Hugo Tavares da Silva
Ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, deu uma entrevista ao Handelsblatt para dizer que o Eurogrupo só quer "um cenário" para a Grécia: o atual programa. 
Até porque "resultou em Portugal".

A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, disse esta sexta-feira ao jornal alemão Handelsblatt que o Eurogrupo está disposto a discutir com o governo grego sobre o futuro, que passará pelo prolongamento do atual programa. 
Até porque, diz, resultou em Portugal.

“Há um cenário no qual estamos preparados para discutir com o governo grego. 
Esse cenário é o atual programa de ajuda, que necessita de um prolongamento”, garantiu a ministra. 
“Resultou em Portugal, completámos o nosso programa com sucesso. 
Não estamos, no entanto, preparados para discutir [com os gregos] sob outras condições. Nesta matéria, os outros 18 Estados do euro concordam, assim como o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.”

Maria Luís Albuquerque garantiu ainda que não discutir a questão grega não é uma possibilidade. 
“Se eu pedir um crédito a um banco, eu tenho de reconhecer a obrigação de pagar o dinheiro de volta. 
Tenho também de oferecer garantias. 
Não funciona de outra forma”, explicou, assegurando depois que é do interesse de todos que as regras sejam cumpridas. 
Se assim for, “são bem-vindos no clube”.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Varoufakis: O grego que está a provocar a ira dos parceiros europeus

A distância entre Varoufakis e Schäuble, mas também os outros ministros europeus, parece cada vez maior
HÁ 2 HORAS (15:27) 18 Fevereiro 2015
Miguel Santos
FUTURO DA GRÉCIA
Radical e inconstante, não apenas diferente: o estilo do ministro das Finanças grego está a frustrar os parceiros e ajudou ao colapso das negociações no Eurogrupo, revelam fontes de Bruxelas.

Um verdadeiro barril de pólvora prestes a explodir. 
É este o ambiente que se vive em Bruxelas, numa altura em que as sucessivas reuniões entre os ministros das Finanças europeus falharam o objetivo principal: encontrar uma solução de compromisso entre os gregos e os restantes parceiros. 
E há quem aponte Yanis Varoufakis como o principal responsável pelo colapso das negociações: demasiado volátil, demasiado radical e demasiado diferente, o ministro das Finanças grego está provocar um “choque cultural” no seio do Eurogrupo, não estabelece pontes e, assim, está a contribuir para o braço-de-ferro que até ao momento se mantém por quebrar.

O estilo e a posição radical e às vezes professoral de Yanis Varoufakis estão a provocar a rutura, garantem fontes oficiais que estiveram nas reuniões em Bruxelas, citadas pela Bloomberg. 
“São 18 ministros das finanças sentados com um economista-académico radical e funky, que nunca tinha estado num Governo antes”.

Yanis Varoufakis, o “marxista errático” como se descreveu no Festival Subversivo de Zagreb, tem transportado o discurso contra a “repugnante crise europeia” não apenas para o interior das reuniões ministeriais, mas para todas as ocasiões mediáticas, o que lhe tem valido duras críticas, mesmo entre os seus eventuais apoiantes.

Puxão de orelhas de Mario Draghi

Um deles foi Mario Draghi. 
Depois de Varoufakis ter dito em diversas ocasiões que a Grécia estava “insolvente” e tinha atingido a “bancarrota”, o presidente do Banco Central Europeu avisou-o que esse discurso iria acelerar a fuga de depósitos da Grécia e pediu-lhe para ser mais cuidadoso. 
“Uma comunicação descuidada não é boa para o sistema financeiro”, terá alertado Draghi, segundo uma fonte que esteve presente nas reuniões, citada pela Bloomberg.

Na reunião da semana passada em Bruxelas, Pier Carlo Padoan, o ministro das Finanças italiano, terá mesmo implorado a Varoufakis que moderasse a retórica, relatou o Wall Street Journal. 
“Este não é um exercício sobre o ‘dilema do prisioneiro'”, sublinhou Padoan, referindo-se a um problema da teoria dos jogos, que explica como, numa situação em que dois jogadores procuram apenas obter vantagem sobre o adversário em vez de cooperaram entre si, o resultado acaba por ser pior para ambos.

Aliás, a teoria dos jogos é uma das áreas de estudo de Varoufakis, que a ensinou nas suas aulas de Economia em universidades da Austrália, Estados Unidos e Grécia. 
E até isso parece separá-lo dos outros ministros das Finanças europeus: esta é a primeira vez que Varoufakis integra um Governo, ao contrário dos restantes que já ocuparam cargos em anteriores Executivos e, por isso, têm experiência de negociações europeias.

A diferença entre Varoufakis e os restantes ministros das Finanças europeus é uma evidência até para o próprio. 
“Estou a ser tratado como uma ave rara porque falo de macroeconomia. 
É surpreendente como um discussão quase-sofisticada sobre economia é quase considerada como más maneiras”, revelou o ministro grego numa entrevista.

A própria forma de vestir de Varoufakis é vista com desconfiança aos olhos dos tradicionalmente engravatados e formais representantes europeus. 
Por muito que o ministro das Finanças grego garanta que as diferenças entre ele e os restantes parceiros não são uma questão de estilo, mas sim de ideologia, a forma como Varoufakis rapidamente se transformou numa estrela mediática está a acentuar a divergência no seio do Eurogrupo.

20 minutos atrasado, e com uma televisão atrás

Um episódio que ilustra bem o desconforto existente foi a forma como entrou na reunião do Eurogrupo de segunda-feira passada. 
O grego chegou com 20 minutos de atraso, para mais seguido por uma câmara de televisão e entrou na sala com o jornalista atrás numa altura em que discursava Mario Draghi. 
Segundo fontes oficiais, a reação do ministro das Finanças holandês, que lidera as reuniões do Eurogrupo, foi dura: Jeroen Dijsselbloem interrompeu Draghi e exigiu que o repórter abandonasse imediatamente a sala.

E se a entrada de Varoufakis não ajudou a acalmar os ânimos, o discurso que proferiu a seguir elevou a tensão numa altura em que as negociações já estavam difíceis. 
De acordo com fontes próximas dos ministros Finanças europeus, sempre citadas pelo Wall Street Journal, o grego não apresentou qualquer proposta concreta e limitou-se a repetir algumas ideias vagas que tinha defendido em discursos anteriores.

A atitude do braço direito de Aléxis Tsipras irritou os outros parceiros, já frustrados com o decorrer das negociações. 
O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble – desde o início, um dos maiores críticos do Governo Syriza – atacou publicamente a posição grega: “Nenhum dos meus colegas percebeu até agora o que a Grécia quer. 
Nem sequer é claro se a própria Grécia sabe”.

Fugas de informação a meio da reunião

A machadada final num mínimo clima de confiança e cooperação terá acontecido na mesma reunião de segunda-feira do Eurogrupo. 
Antes dela começar, o ministro das Finanças holandês entregou a Varoufakis um rascunho do comunicado que deveria ser discutido para ser divulgado no final da reunião. 
No documento, podia ler-se que a Grécia iria aceitar a extensão do programa de assistência financeira e cumprir um conjunto de medidas já acordado.

Descontente com as cláusulas do “contrato”, Varoufakis violou todas as regras de uma negociação. 
Assim, quando a reunião ainda estava a decorrer e a maioria dos ministros nem sequer sabia o que constava no comunicado, já vários jornalistas começaram a escrever no Twitter que as negociações tinham falhado, a revelar partes do comunicado e a dizer que os gregos rejeitavam as condições do acordo. 
O sigilo das conversações fora quebrado.

A fonte dessa informação? 
O próprio Governo de Tsipras. 
Uma atitude que precipitou o fim das negociações, com vários ministros furiosos com o comportamento de Varoufakis. 
Os próximos tempos serão decisivos para o futuro da Grécia, mas tudo aponta que a distância entre a “ave rara” do Eurogrupo e os parceiros europeus seja, neste momento, aparentemente insuperável.