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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

“Falta de sentido de Estado”: Socialistas lamentam palavras de Cavaco

Jornal Económico com agências
17:34
Susana Amador considerou a intervenção do ex-presidente da República, na escola de Verão do PSD, "grave".

O PS já reagiu à intervenção de Cavaco Silva e acusou o ex-presidente da República de ter falta de sentido de Estado.

“Eu gostaria que durante o tempo em que esteve na Presidência da República tivesse piado mais, ou seja, tivesse agido mais na defesa dos portugueses”, disse a deputada socialista Susana Amador, em declarações aos jornalistas, citada pela Lusa.

A socialista frisou que “o PS não podia deixar de lamentar estas intervenções, pela falta de sentido de Estado que as mesmas revelam, pela gravidade das mesmas e por não corresponderem à realidade”.

“O professor Cavaco Silva ao longo das políticas do Governo PSD e CDS, que foram as políticas de retirada de direitos, de compressão das garantias dos portugueses, fez uma gestão de silêncios”, acrescentou, realçando que esses “silêncios ensurdecedores” valeu a intervenção do Tribunal Constitucional na defesa da Lei Fundamental e dos direitos dos portugueses.

Para Susana Amador, o ex-presidente falou “de censura, quando ela tem uma grande carga histórica tão negativa para tantos portugueses, e no contexto atual, que é um contexto de democracia, de liberdades e de defesa da Constituição”, é “uma posição que surpreende pela falta de sentido, pela gravidade”.

Cavaco diz que "perderam o pio" os que quiseram realizar a revolução socialista nos governos

POLÍTICA
RTP 30 Ago, 2017, 11:47 / atualiz 30 Ago, 2017, 13:29

O ex-Presidente da República Cavaco Silva defendeu hoje que, na zona euro, "a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia" e os que, nos governos, querem realizar a revolução socialista "acabam por perder o pio ou fingem que piam".

Numa aula na Universidade de Verão do PSD, Cavaco Silva afirmou que hoje "é corrente apresentarem-se três casos" de países onde a realidade tirou o tapete à ideologia, enumerando França e Grécia mas sem se referir explicitamente ao caso de Portugal.

"Os governos dos países da zona euro, ao chegarem ao poder, podem começar com alguns devaneios revolucionários mas acabam por perceber que a realidade tem uma tal força que, ou através do aumento de impostos indiretos que anestesiam os cidadãos, cortes nas despesas públicas de investimento, medidas pontuais extraordinárias e cativações das despesas correntes e consequente deterioração serviços públicos ou contabilidade criativa, acabam sempre por conformar-se com as regras europeias de disciplina orçamental", afirmou.

Para o ex-chefe de Estado, esta projeção da realidade "tem uma tal força contra a retórica dos que, no governo, querem realizar a revolução socialista, que eles acabam por perder o pio ou fingem apenas que piam, mas são pios que não têm qualquer realidade e refletem meras jogadas partidárias".

"Aqueles que ainda piam, fingem que piam mas não atribuam a esses pios qualquer credibilidade porque não são mais do que jogadas partidárias", defendeu.
Cavaco critica "verborreia frenética" da maioria dos políticos e fala em regresso da censura
O ex-Presidente da República criticou hoje "verborreia frenética" da maioria dos políticos europeus, elogiando a exceção de Macron, e pediu aos jovens "força e coragem para combaterem o regresso da censura".

Cavaco dedicou uma parte da sua intervenção de 50 minutos a elogiar a estratégia comunicacional do atual chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, dizendo ver semelhanças com a que adotou quando exerceu cargos de poder e que passa por recusar qualquer "promiscuidade com jornalistas".

"Em França, não passa pela cabeça de ninguém que Macron telefone a um jornalista para lhe passar uma notícia ou uma informação", afirmou.


Cavaco destacou que Macron entende que "a palavra presidencial deve ser escassa", uma estratégia que "contrasta com a verborreia frenética da maioria dos políticos europeus dos nossos dias, ainda que não digam nada de relevante".
"Eu continuo a pensar que a independência em relação aos jornalistas é um principio básico. A atitude que melhor serve o interesse do país e também o interesse pessoal dos políticos é o respeito pelos profissionais de comunicação social mas mantendo distanciamento e não negociando o que publicam ou deixam de publicar", defendeu.

O tema da censura foi introduzido por Cavaco Silva na parte final da sua intervenção na Universidade de Verão do PSD e quando falava das eleições autárquicas que se realizam a 01 de outubro, onde pediu inspiração para os candidatos do PSD.

"Apesar das coisas estranhas que têm acontecido no nosso país, apesar de vozes credíveis afirmarem que censura está de volta, estou convencido que portugueses ainda valorizam a verdade, a honestidade, a competência, o trabalho sério, a dedicação a servirem as populações", disse.

O ex-Presidente e antigo primeiro-ministro terminou a sua aula com um apelo direto aos jovens participantes nesta iniciativa para não lhes falte "a força e a coragem para combaterem o regresso da censura", sem explicitar a que se referia e aconselhando-os a ler um artigo que Maria João Avillez escreveu na segunda-feira no Observador.

Nesse artigo, a jornalista defende, entre outras ideias, que "desde 1974 que a media ignora, despreza ou suporta mal a ideia de direita ou mesmo de centro-direita, troçando ou destruindo os seus líderes e ajudando a acabar com eles, mesmo que o voto os legitime".

(Com Lusa)

PS gostava que Cavaco Silva tivesse "piado mais" em defesa dos portugueses

POLÍTICA
RTP 30 Ago, 2017, 17:16 / atualiz 30 Ago, 2017, 17:42  
O PS acusou esta quarta-feira o ex-Presidente da República, Cavaco Silva, de falta de sentido de Estado e lamentou que quando estava em Belém não tivesse "piado mais" na defesa dos portugueses. É a resposta socialista à aula proferida pelo ex-Presidente da República na Universidade de Verão do PSD.

"Eu gostaria que durante o tempo em que esteve na Presidência da República tivesse piado mais, ou seja, tivesse agido mais na defesa dos portugueses", afirmou a deputada e dirigente socialista Susana Amador.

Em declarações aos jornalistas no parlamento, Susana Amador sublinhou que "o PS não podia deixar de lamentar estas intervenções, pela falta de sentido de Estado que as mesmas revelam, pela gravidade das mesmas e por não corresponderem de todo à realidade".

Para o PS, a "aula" dada por Cavaco Silva na Universidade de Verão da PSD demonstra "desconforto com a política de devolver rendimentos e a repor às pessoas mais qualidade de vida, bem-estar, e coesão social" do atual executivo.

"O professor Cavaco Silva ao longo das políticas do Governo PSD e CDS, que foram as políticas de retirada de direitos, de compressão das garantias dos portugueses, fez uma gestão de silêncios", argumentou, considerando que, contra esses "silêncios ensurdecedores" valeu a intervenção do Tribunal Constitucional na defesa da Lei Fundamental e dos direitos dos portugueses.

Por outro lado, Susana Amador defendeu que na mesma intervenção do ex-Presidente "falar de censura, quando ela tem uma grande carga histórica tão negativa para tantos portugueses, e no contexto atual, que é um contexto de democracia, de liberdades e de defesa da Constituição", é "uma posição que surpreende pela falta de sentido, pela gravidade".
O ex-Presidente da República, Cavaco Silva, defendeu esta quarta-feira que, na zona euro, "a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia" e os que, nos governos, querem realizar a revolução socialista "acabam por perder o pio ou fingem que piam".

Na aula que proferiu na Universidade de Verão do PSD, Cavaco Silva afirmou que hoje "é corrente apresentarem-se três casos" de países onde a realidade tirou o tapete à ideologia, enumerando França e Grécia mas sem se referir explicitamente ao caso de Portugal.

c/ Lusa

Cavaco arrasa Governo e faz críticas veladas a Marcelo

CONFERÊNCIA
30 DE AGOSTO DE 2017 11:36
João Pedro Henriques

O antigo Presidente da República voltou hoje à política com uma intervenção de fundo na Universidade de Verão do PSD

A forma como o Governo vetou três indicações do Banco de Portugal e do Tribunal de Contas para o Conselho de Finanças Públicas (CFP) foi esta manhã um dos aspectos sublinhados por Cavaco Silva numa conferência devastadora, em vários ângulos, para com António Costa, a esquerda anti-euro - mas também, implicitamente, com Marcelo Rebelo de Sousa.

No caso do CFP, está em causa, disse, um "retrocesso da transparência da nossa democracia" se "o poder político conseguir controlar estas entidadades" - e até já há "vozes credíveis" que dizem que "a censura está de volta".

Ou seja, "a qualidade da nossa democracia depende muito do respeito do Governo pela independência" entidades como o CFP, a CRESAP, o Conselho Nacional de Educação, o Banco de Portugal e, em geral, organismos de supervisão e regulação, sendo que ele, Cavaco, sempre pensou que "o Governo, qualquer que ele fosse, não quereria ser acusado de pôr em causa a independência" destes órgãos.

Na questão da CFP - cujas análises económicas reputou serem de qualidade (como as do Banco de Portugal e as da Universidade Católica) - Cavaco Silva recordou ter sido por proposta sua que o Governo de Passos Coelho acolheu a ideia de os dirigentes daquele organismo serem nomeados pelo Conselho de Ministro por proposta do Banco de Portugal e do Tribunal de Contas e não por estes dois organismos diretamente, como tinha sido acordado com o PS.

Daí a surpresa com o veto do atual Governo aos nomes propostos por estas duas entidades: "Confesso que nunca imaginei que as propostas do Banco de Portugal e do Tribunal de Contas pudessem não ser aceites pelo Governo de Portugal."

O Governo foi alvo de Cavaco mas não só. Embora sem o nomear, o atual Presidente da República também esteve na mira do seu antecessor. Para isso, Cavaco Silva recorreu a fortes elogios à política de comunicação do Presidente francês, Emanuel Macron.

Ele, explicou, "cortou o acesso generosos dos jornalistas políticos ao Eliseu", disse "não à promiscuidade no relacionamento com jornalistas", recusando fazer deles os seus "confessores".
A nota que Cavaco Silva escreveu no livro de honra do Hotel Sol e Serra, em Castelo de Vide, onde foi participar na conferência da Universidade de Verão do PSD

Naquilo que pode ser visto como um autorretrato da forma como ele próprio exerceu o cargo de Presidente - Cavaco Silva disse que num Chefe do Estado a palavra deve ser "rara" - deve comportar-se como Júpiter, "um Deus de palavra rara no seu Olimpo".

"A sua estratégia [de Macron] contrasta com a verborreia frenética da maioria dos políticos europeus dos nossos dias, ainda que não digam nada de relevante"; disse ainda, recordando que o Presidente francês já afirmou que quando fala é só sobre os assuntos que ele escolhe e não "sobre a atividade política". "Quantos em Portugal teriam coragem para coragem para dizer isto?", perguntou.

Numa frase que só pode ser entendida como dirigida a Marcelo, acrescentou que "não passa pela cabeça de ninguém que Macron telefone a um jornalista para lhe passar uma notícia ou uma informação". A frase surgiu vários parágrafos depois de ter teorizado sobre as "fakenews" - fenómeno que afirmou também existir em Portugal - e denunciado ele próprio já foi "vítima" dessas notícias falsas, quando um "jornal de referência" noticiou que ele, Cavaco, num Conselho de Estado já na presidência de Marcelo, tinha "estragado" a "unanimidade sobre sanções da UE" a Portugal, matéria sobre a qual, segundo garantiu, "não pronunciara uma única palavra" nessa reunião.

O tema geral da intervenção do ex-PR foi sobre como a realidade trata de desfazer a retórica ideológica. "De facto, meus caros jovens, a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia."

Cavaco Silva começou por dar o exemplo grego: "Alexis Tsipras, depois de uma certa bazófia inicial, correu com Varoufakis [o seu primeiro ministro das Finanças], pôs a ideologia na gaveta e aceitou negociar um terceiro resgate ainda mais duro" do que os anteriores.

Isto é: "Quando Alexis Tsipras ascendeu a primeiro-ministro surgiram noticias a dizer que as políticas de contenção iriam desaparecer" e nessa altura "o nível de ignorância patente no que foi escrito ou dito ultrapassou tudo o que se poderia imaginar" porque "se cada um dos 19 países do euro conduzisse a sua política orçamental isso teria uma grande efeito desestabilizador". "A indisciplina orçamental de um Estado influencia negativamente os outros" e "um país que deixa derrapar as suas contas públicas, mais cedo ou mais tarde terá de as pôr em ordem, e com custos." Até França, concluiu, "não teve outro remédio senão curvar-se".

Daqui passou ao Executivo português e a solução política que o apoia (chamando-lhe "coligação"): "Os governos podem começar a sua vida com alguns devaneios revolucionários". Mas depois, medidas como "aumento de impostos indiretos", "cortes nas despesas públicas de investimento", "cativações" ou mesmo "contabilidade criativa" tornam-se "exemplos em que a realidade tirou o tapete à ideologia" e provam que estes governos "acabam sempre por conformar-se com regras europeias de contenção orçamental". "Aqueles que no Governo querem têm a retórica da revolução socialista acabam por perder o pio ou fingem apenas que piam" e "aqueles que piam não têm credibilidade porque são apenas jogos partidários", "não atribuam a esses pios importância".

O ex-PR aproveitou ainda para aconselhar os jovens que o ouviam a que "não percam tempo com a conversa da saída de Portugal do euro". "Acontecem coisas esquisitas em Portugal mas não prevejo que Portugal enlouqueça", ironizou. "Portugal nunca sairá do euro enquanto houver euro."

Traçando um retrato hiper negro do que aconteceria a Portugal caso saísse do euro - "falências em muitas centenas de empresas, brutal delapidação da riqueza nacional, perda das poupanças, corrida aos bancos, fuga de capitais, provável colapso do sistema financeiro, falta de moeda externa para fazer a importações dos produtos que Portugal precisa" - Cavaco disse ser esta "a realidade que derrota a ignorância e o delírio dos que defendem a saída do euro".

Falando explicitamente do BE e do PCP, concluiu: "Se vocês perguntassem aos partidos da coligação que defendem a saída de Portugal do euro para qual galáxia iria Portugal depois, eles provavelmente responderiam que seria para a galáxia onde se encontra, agora, a Venezuela."

Deu também conselhos à sua audiência sobre carreiras políticas ("é um erro um jovem abandonar os estudos em troca de um lugar político" porque isso lhe condiciona a independência e nunca se deve esperar "gratidão") e falou na necessidade imperiosa de se saber "identificar o que é relevante na informação". "Há muita coisa melhor na vida para fazer do que perder tempo com informação inútil" e é decisivo saber-se distinguir-se informação relevante de "informação política irrelevante" e "efémera". Já quanto aos "comentadores" tem uma certeza: "Os que valem a pena não esgotam os dedos de uma mão."

Depois analisou a questão do peso do Estado na despesa pública, dizendo que "é muito provável" que "seja excessiva". "O Estado português não só é indisciplinado como também demasiado gordo" e "a redução do monstro requer de um Governo muita vontade reformista".

Para o problema do Estado, disse ainda, contribui, no seu entender, um "sistema fiscal que perdeu lógica e coerência", com mudanças a serem "feitas sem qualquer estudo sobre a sua incidência", com a "exceção", salientou, da reforma do IRC conduzida pelo Governo de Passos Coelho. Fora isso, reforçou, "o que domina é a arbitrariedade e não a equidade ou a eficiência" e, além do mais, "Portugal não é competitivo na UE em termos fiscais".

Sorrindo, Cavaco encerrou esta sua conferência - à qual compareceu, de surpresa, Pedro Passos Coelho - recomendando um artigo recente de Maria João Avillez no Observador (intitulado "O meu mundo não é deste reino"). E despediu-se: "Fico-me por aqui. Não vos quero maçar mais."