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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A Grécia terminou o resgate. Mas não parece /premium

GRÉCIA
Nuno André Martins   20 Agosto 2018

A Grécia teve de aprovar cortes nas pensões e mais impostos para 2019 o ano passado, será submetida a revisões trimestrais e tem que aplicar medidas até 2022. 
O resgate acabou, mas pouco mudará.

Quase 10 anos depois, a Grécia terminou com sucesso o terceiro resgate à sua economia entre felicitações e avisos e com o anúncio de uma nova era, na qual os gregos recuperaram o controlo sobre o seu destino. 
Mas depois dos dois primeiros resgates falhados, os credores impuseram restrições de tal ordem que a margem de manobra de Alexis Tsipras para escolher as suas políticas é tão limitada que até pode vir a custar-lhe a liderança.

“A Grécia recuperou o controlo pelo qual lutou”, anunciou o ministro das Finanças português e presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, num vídeo publicado esta segunda-feira, para marcar o final oficial do terceiro resgate, dizendo ainda que os benefícios das reformas (que tanto criticou antes das eleições e depois de se tornar ministro das Finanças) ainda não chegaram a todos, mas que irão chegar.

Pierre Moscovici, o comissário europeu para os Assuntos Económicos, alinhou pela mesma nota otimista: “O Governo vai ter mais margem de manobra para adaptar as políticas às preferências do povo grego”. 
Em entrevista, Moscovici salientou que os gregos tinham recuperado a sua liberdade. 
Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças do Syriza, e figura pouca querida na Grécia (inclusivamente dentro do próprio Syriza) assemelha estas declarações de Centeno a propaganda norte-coreana. 
Quem tem razão?

A Grécia terminou esta segunda-feira o terceiro programa de resgate, o único com sucesso depois de pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional e aos países do euro em maio de 2010. 
Foi o primeiro país do euro a fazê-lo. 
Seguiram-se a Irlanda e Portugal, depois a Espanha (apenas para os bancos) e o Chipre.

A Irlanda foi a primeira a recuperar. 
A Espanha nem precisou do dinheiro todo que havia pedido para reestruturar o setor bancário. 
Portugal conseguiu a sua saída no verão de 2014. 
Seguiu-se o Chipre.

No caso grego, foram precisos quase 10 anos, seis primeiros-ministros (dois deles interinos), a imposição de controlos de capitais, a reestruturação da dívida e muitas peripécias para finalmente chegar a uma posição em que irá finalmente sobreviver (quase) sem ter de pedir ajuda financeira aos seus parceiros do euro.

Mas a ‘saída limpa’ que o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, decidiu para o seu país (com um forte empurrão dos países da linha dura do Eurogrupo) não podia ser mais diferente das outras. 
Visitas da troika a cada três meses, pagamentos condicionados à aplicação de medidas pré-acordadas até 2022, medidas já legisladas e que entram em vigor nos próximos anos e a condição de que continua a cumprir todas as condições que lhe foram impostas para que em 2032 os parceiros europeus aceitem discutir mais medidas para aliviar a sua dívida. Tudo isto enquanto a economia grega é das que menos cresce na zona euro, o desemprego ainda está perto dos 20% (dos quais metade são desempregados de longa duração) e com a dívida pública superior a 180% do PIB.

Um programa forçado, mas sem empréstimos

Os resgates falhados e as medidas por concretizar do passado levaram os credores europeus a exigirem mais garantias desta vez.

Alexis Tsipras chegou ao governo em janeiro de 2015 prometendo um novo rumo e uma Grécia que não se iria submeter aos credores. 
Mas rapidamente percebeu que não seria assim tão fácil. 
Os primeiros seis meses não podiam ser mais atribulados. 
Neste período a Grécia teve de aguentar uma quebra nas negociações, um referendo a uma proposta dos credores europeus que os gregos rejeitaram (mas que já nem sequer estava em cima da mesa…) e a imposição de controlos de capitais por parte de Atenas. 
Um dia depois do referendo, Tsipras despediu o seu ministro das Finanças e cedeu de tal forma aos credores, que aceitou um programa ainda mais duro do que aquele que o que os gregos haviam rejeitado pouco tempo antes nas urnas.

Nesse programa, o Eurogrupo exigiu garantias e essas garantias vieram em forma de leis que ficariam muito além do final do resgate. 
Em 2017, o governo grego viu-se obrigado a aprovar cortes nas pensões na ordem dos mil milhões de euros, o 14.º corte desde 2010, mas que entram em vigor apenas em janeiro do próximo ano. 
Caso não aceitasse esta condição, a Grécia não receberia o dinheiro do resgate. 
Houve votações de mais de mil páginas de legislação no Parlamento, de uma só vez, tudo medidas que os credores exigiam à Grécia.

“Não é uma saída limpa. 
Na prática continuamos com um programa forçado, mas sem o dinheiro”, afirma George Pagoulatos, ex-diretor de estratégia do governo de Lucas Papademos e do governo interino de Panagiotis Pikrammenos.

Outra das medidas que o Governo já aprovou e vai ter de aplicar no próximo ano é a redução do valor do chamado mínimo de existência, a parte dos rendimentos que está isento do pagamento de impostos. 
Com isto, o governo grego vai colocar todos os gregos a pagar mais impostos e em troca tem de conseguir poupanças na ordem dos mil milhões de euros.

O Governo está ainda obrigado a avançar com uma lista de privatizações e as receitas têm de ser colocadas num fundo, para abater à dívida pública grega.

Com o fim do resgate, em teoria o governo grego teria nas suas mãos o poder para, juntamente com o Parlamento, decidir sobre esta matéria sem sequer ter de consultar as autoridades europeias. 
Bastaria alterar a lei que aprovou. 
No entanto, a questão está longe de ser tão simples.

Um incentivo recauchutado

Apesar de já não haver lugar ao pagamento de partes de um empréstimo, o Eurogrupo conseguiu garantir que tem incentivos suficientemente fortes para que a Grécia cumpra o que prometeu.

O primeiro deles é o pagamento dos lucros do Banco Central Europeu com a compra de dívida grega. 
Em maio de 2010, o BCE criou um programa para comprar títulos de dívida pública dos países do euro no mercado secundário como forma de aliviar a pressão sobre estes países e estabilizar as taxas de juro que estavam a ser exigidas pelos investidores nos novos leilões de dívida.

Essa dívida foi comprada a preço de mercado, ou seja, a desconto face ao que vale, e permaneceu no balanço do BCE até vencer, o que significa que, para além do lucro que tinha com a compra mais barata daquela dívida, o BCE também encaixava os juros que essa dívida rende todos os anos até vencer. 
Os lucros são, por sua vez, distribuídos aos bancos centrais nacionais.

Os países acordaram em 2012 abdicar destes lucros, que receberiam via dividendos dos bancos centrais, a favor da Grécia. 
Foi o único caso em que tal aconteceu. 
Mas para isto acontecer, a Grécia tinha de continuar a cumprir todas as revisões trimestrais com sucesso. 
O acordo expirou com o segundo resgate em 2015.

O novo acordo entre o governo grego e os credores é de que estes lucros vão voltar a ser distribuídos ao governo grego, entre 2018 e o junho de 2022, e só podem ser usados para reduzir as necessidades de financiamento gregas ou financiar investimentos que os credores aprovem previamente. 
Mas para isto, a Grécia tem de cumprir e implementar as medidas que ficaram acordadas no Eurogrupo de 22 de junho.

A lista é longa e estende-se a quase todos os sectores da economia, desde a reforma do sistema de pensões, das prestações sociais, à garantia de um saldo primário de 3,5% do PIB anualmente e à atualização de vários impostos todos os anos, como o imposto sobre a propriedade, que passou a ser cobrado anualmente e que rende aos cofres do Estado grego mais de 3 mil milhões de euros por ano.

Uma dívida praticamente para a vida

Outra das formas que os credores encontraram de garantir que a Grécia cumpre os seus compromissos foi empurrando com a barriga o problema da dívida grega.

As regras europeias exigem que a dívida pública, em percentagem do PIB, seja inferior a 60%. 
Quando a dívida supera os 100%, começam a colocar-se dívidas sobre a sua sustentabilidade. 
No caso da Grécia, a dívida pública já supera os 180% do PIB.

Durante os últimos nove anos de resgate, e graças à reestruturação da dívida pública detida por privados em 2012, 90% da dívida grega é detida pelos credores oficiais, ou seja, os países do euro, o Fundo Monetário Internacional e o BCE.

No primeiro resgate, a Grécia recebeu 73 mil milhões de euros. 
No segundo outros 153,8 mil milhões. 
No terceiro, mais 61,9 mil milhões de euros. 
Ou seja, um total de 288,7 mil milhões de euros que os países do euro e o FMI, que não entrou no terceiro resgate, emprestaram à Grécia.

A Grécia já pagou mais de metade do que devia ao FMI, mais de 20 mil milhões dos 32,1 mil milhões que devia. 
Aos 266,7 mil milhões de euros que ainda deve aos parceiros europeus e aos 12 mil milhões de euros que ainda deve ao FMI, a Grécia ainda deve outros 13 mil milhões de euros ao BCE, pela dívida que a instituição liderada por Mario Draghi comprou no mercado. 
Ou seja, só aos credores oficiais, a Grécia deve 291,7 mil milhões de euros, 90% de toda a sua dívida pública.

No entanto, as condições da dívida pública também são muito diferentes das dos restantes países do euro.

A Grécia só tem de começar a pagar os empréstimos bilaterais que recebeu dos países do euro no primeiro resgate em 2041. 
Os empréstimos restantes só começam a ser pagos ao Mecanismo Europeu de Estabilidade em 2034. 
Os primeiros pagamentos de juros só terão de começar em 2022. 
Mesmo os juros que estavam já contratualizados foram reduzidos e as margens financeiras do Mecanismo foram abolidas a favor da Grécia.

De acordo com o Mecanismo Europeu de Estabilidade, isto deve reduzir o rácio da dívida pública grega em 25 pontos percentuais do PIB até 2060.

No entanto, mesmo com estas mudanças, a dívida pública é considerada insustentável. 
Por essa razão, o FMI recusou entrar no terceiro resgate, participando apenas como consultor técnico.

“Já todos concordam que a dívida não é sustentável. 
Por isso [as autoridades] também encontraram um conceito mais viável de sustentabilidade de dívida pública” e começaram a centrar-se mais nas necessidades de financiamento, explica George Pagoulatos.

O acordo no Eurogrupo estipula já algumas medidas para entrarem em vigor e aliviarem o peso da dívida grega caso algum cenário inesperado se concretize.

A única garantia que o governo grego tem em relação à sua dívida é que as instituições europeias vão fazer uma nova avaliação da sustentabilidade dessa dívida em 2032, daqui a 15 anos, altura em que os empréstimos terão de começar a ser pagos. 
Nessa altura, o Eurogrupo pode vir a tomar mais medidas para reduzir a dívida grega, mas só se o governo grego cumprir as regras orçamentais europeias e os compromissos que assumiu para com os credores.

Controlo mais apertado sem fim à vista

Para além dos incentivos financeiros e das medidas que já conseguiram que a Grécia aprovasse, os credores europeus têm ainda à disposição outros mecanismos de controlo, mais apertados do que os que aplicaram a Portugal e à Irlanda.

Quando um país termina com sucesso um resgate, até pagar 75% do empréstimo, fica sujeito a missões de supervisão a cada seis meses. 
É o caso de Portugal, Irlanda, Chipre e Espanha.

No entanto, com a Grécia, a Comissão Europeia aprovou um regime mais restritivo, a Enhanced Surveillance Framework, que implica que as missões sejam a cada três meses – tal como acontecia durante o resgate –, e mais intrusivas.

O sistema permite assim às instituições europeias um maior controlo e monitorização da economia grega, em todas as suas dimensões. 
Esta é a primeira vez que a Comissão Europeia ativa este sistema desde que ele foi criado em 2013.

A Grécia estará também abrangida pelo Early Warning System do Mecanismo Europeu de Estabilidade, que implica o controlo dos técnicos do fundo enquanto a Grécia não pagar a totalidade dos empréstimos que deve ao fundo de resgate do euro.

Esta avaliação poderia ser mais pro-forma ou política, se não houvesse incentivos associados, como é o caso de Portugal. 
Mas no caso da Grécia, esta é outra pré-condição para que possa vir a beneficiar de medidas de alívio da dívida quando a situação voltar a ser revista em 2032.

Que margem para o futuro?

As medidas já aprovadas e as restrições que ficam do resgate colocam também questões importantes ao nível político.

Alexis Tsipras conseguiu sobreviver a vários contratempos e adaptar o seu partido às novas circunstâncias. 
Em 2015, deu uma volta de 180 graus e aceitou condições mais restritas do que as que havia rejeitado, e mesmo assim conseguiu vencer as eleições e limpar o seu partido das alas mais radicais, lideradas por Panagiotis Lafazanis, o ministro da Energia que tinha um plano para se apropriar das reservas de euros do banco central e retirar o país do euro), Yanis Varoufakis, o seu ministro das Finanças, e Zoe Konstantopoulou, a presidente do Parlamento grego.

Mas a vitória que conseguiu nessas eleições parece agora muito mais longe. 
Com eleições legislativas a acontecer, no máximo, até setembro do ano que vem, Alexis Tsipras não tem a vida facilitada. 
Depois de vários anos a tomar medidas impopulares, como os cortes de pensões que sempre rejeitou, os incêndios na zona balnear de Attica que levaram à morte de pelo menos 93 pessoas, estão a ter impacto na popularidade do líder do Syriza, tal como o acordo sobre a questão da Macedónia, que chegou a fazer cair um governo da Nova Demoracia.

A popularidade que Alexis Tsipras poderia conseguir com a saída do resgate, algo que o PASOK e a Nova Democracia não conseguiram, também pode ser afetada a partir de janeiro, quando o governo cortar novamente as pensões e aumentar os impostos, como resultado das medidas já aprovadas.

Ainda antes dos fogos e da questão da Macedónia, a Nova Democracia de Kyriakos Mitotakis já liderava nas sondagens por vários pontos. 
Em alguns casos, por mais de 10 pontos.


As sondagens mais recentes ainda não têm em conta os incêndios em Attica e o acordo sobre o nome da Macedónia, mas já colocam o Syriza em grande desvantagem face à Nova Democracia.

As sondagens mais recentes ainda não levam em conta os incêndios em Attica e o acordo sobre o nome da Macedónia, mas já colocam o Syriza em grande desvantagem face à Nova Democracia. 
O corte nas pensões é um tema sensível para Alexis Tsipras, e que afeta uma parte importante do seu eleitorado. 
“O governo tem tentado muito encontrar formas de adiar esse corte, é uma das suas principais prioridades, mas as autoridades europeias já disseram que não vão rever o que já está acordado”, explica George Pagoulatos.

“Tsipras tem vindo a ‘flirtar’ com a possibilidade de tomar uma decisão unilateral no caso das pensões, mas os credores conseguiram garantias de que isso não acontecerá assim tão facilmente”, explicou este especialista.

Com as opções limitadas, Alexis Tsipras arrisca-se a sair do poder por tomar as decisões que tanto criticou e que lhe permitiram ganhar as eleições em 2015, apesar de fazer o que nenhum dos outros cinco primeiros-ministros conseguiram antes dele: acabar com o programa de resgate. 
Pelo menos no papel.

Varoufakis: vídeo de Centeno “parece da máquina de propaganda da Coreia do Norte”

YANIS VAROUFAKIS
Mariana Fernandes  20/8/2018, 13:00
Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças grego, criticou o vídeo partilhado por Mário Centeno para assinalar o fim do resgate à Grécia. 
"Parece propaganda norte-coreana", disse Varoufakis.

Vários líderes e chefes de Estado da União Europeia recorreram ao Twitter para assinalar o final do terceiro programa de assistência financeira solicitado pela Grécia, num dia que também marca o fim de oito anos de resgates na Europa. 
António Costa, Álvaro Santos Pereira e Jean-Claude Juncker foram algumas das personalidades que assinalaram a data na rede social, para além de Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, que partilhou um vídeo (entre várias outras mensagens) onde congratula o povo grego pela “reconquista do controlo pelo qual lutou”.


O vídeo, que se prolonga durante mais de um minuto, sublinha que o “crescimento económico melhorou, estão a ser criados novos postos de trabalho, regista-se um excedente orçamental e comercial e a economia foi reformada e modernizada”. 
Mas a declaração do ministro das Finanças não agradou a todos. 
E o principal crítico é precisamente um grego, o antigo ministro das Finanças do Governo de Alexis Tsipras, Yanis Varoufakis.


No Twitter, Varoufakis escreveu que “a Comissão Europeia insulta a insuportável miséria da Grécia com um vídeo que tem a estética/imoralidade da máquina de propaganda da Coreia do Norte”.

Já depois do tweet de Varoufakis, Mário Centeno regressou à rede social para partilhar que telefonou ao atual ministro das Finanças grego, Euclid Tsakalotos, para o congratular pelo fim do resgate financeiro.


A Grécia concretiza esta segunda-feira a saída do seu terceiro programa de assistência, numa data histórica para o país e para a zona euro, que vira a página sobre oito anos de resgates. 
O país europeu, o mais atingido pela crise económica e financeira, foi o primeiro e último a pedir assistência financeira — e o único “reincidente” –, e a conclusão do seu terceiro programa assinala também o fim do ciclo de resgates a países do euro iniciado em 2010, e que abrangeu também Portugal (2011-2014), Irlanda, Espanha e Chipre.

“Lamentável”, “ridículo” e “insultuoso”. Vídeo de Centeno incomodou partidos da geringonça

MÁRIO CENTENO
Helena Cristina Helena e Rita Dinis
20/8/2018, 15:22

João Galamba diz que vídeo de Centeno sobre fim do resgate à Grécia é "lamentável". Mariana Mortágua diz que discurso é "perigoso". 
Já Ascenso Simões ataca Galamba com "cheiro Syriza pré-histórico".

Depois de Varoufakis, a voz crítica sobre o vídeo de Mário Centeno a saudar o fim de oito anos de assistência financeira na Grécia é do socialista João Galamba. “Um vídeo lamentável que apaga o desastre que foi o programa de ajustamento grego e branqueia todo o comportamento das instituições europeias“, escreveu o deputado e antigo porta-voz do PS na sua conta de Twitter. Uma reação que suscitou muitos aplausos naquela rede social, incluindo por parte de dirigentes do Bloco de Esquerda, que não gostaram de ouvir o ministro das Finanças português defender a receita de austeridade aplicada por Bruxelas.

O ataque feroz de João Galamba incide sobre o vídeo que Mário Centeno, na condição de presidente do Eurogrupo, divulgou esta segunda-feira na mesma rede social, junto com mais mensagens, a saudar o fim da assistência financeira na Grécia e o regresso do país ao estatuto de pleno membro da União Europeia sem mais restrições.

Se o comentário de João Galamba foi, por um lado, aplaudido por várias personalidades, incluindo os bloquistas José Gusmão ou Fabian Figueiredo, também foi criticado duramente por parte de outros socialistas. 
Foi o caso do deputado Ascenso Simões, que saiu em defesa de Mário Centeno no Facebook, e que partiu ao ataque ao colega de bancada, que acusa de “radicalismo barato”. “Pensei que João Galamba já tinha esgotado as duas doses de radicalismo barato. 
Enganei-me! 
Bem, estamos na época estival e até um cheiro Syriza pré-histórico fica bem no bronzeado burguês de Galamba”, lê-se.


PSD e BE juntam-se às críticas a Centeno, PCP prefere criticar “pacto de agressão”

Críticas a que se juntam as reações de outros elementos dos partidos nacionais. 
Do lado do PSD, começam a surgir reações e comentários duros ao discurso de Mário Centeno sobre o fim do resgate grego. 
É o caso de Miguel Morgado, que acusa o presidente do Eurogrupo de ter “duas faces“: “passou 3 anos a apoucar a saída limpa portuguesa de 2014” e agora “desfaz-se em palavras doces para um país que sai devorado por problemas após 8 anos de bailout”, escreveu o deputado social-democrata.


Ou o caso de Duarte Marques, deputado social-democrata, que evidencia as contradições entre o que Centeno e Costa diziam da austeridade aplicada em Portugal entre 2011 e 2015 e o que dizem agora da austeridade aplicada na Grécia no mesmo período até ao dia de hoje. 
A primeira, segundo o deputado social-democrata, foi “desnecessária e imposta pelo governo PSD/CDS”, e a segunda foi “um programa de reformas estruturais bem conseguido, coordenado mas não imposto por Bruxelas, e mais eficaz”.


Também José Gusmão, do Bloco de Esquerda, não foi nada subtil nos comentários às mensagens de Mário Centeno. 
“Um vídeo ridículo“, “insultuoso para os gregos” e “esclarecedor para os portugueses“, escreveu o deputado bloquista num tweet.

Já Mariana Mortágua, a porta-voz bloquista para os assuntos financeiros, afirmou em declarações ao jornal Público que o que as palavras do ministro das Finanças em relação à saída da Grécia do programa de ajustamento são “perigosas” e revelam que há uma necessidade de se analisar criticamente as políticas da União Europeia. 
“É perigoso para o futuro de Portugal e da Europa porque ter um presidente do Eurogrupo que considera que a culpa da crise é dos gregos e não das políticas europeias, é sinal que está disposto a manter [a linha de rumo] das instituições europeias e as políticas de chantagem”, diz a deputada em declarações aquele jornal.

Instado a comentar as declarações de Mário Centeno sobre a saída da Grécia do programa de ajustamento financeiro da troika, fonte oficial do PCP preferiu criticar aquilo a que chama de “pactos de agressão contra Estados e povos” revestidos de planos de assistência financeira, deixando Mário Centeno de fora. 
“A propalada ‘saída’ dos países, seja apontada como ‘limpa’ ou não, é um embuste como a experiência do nosso país mostra. 
As limitações à soberania que decorrem da ‘vigilância’ a que se mantém submetido pelo FMI e a UE, e sobretudo a submissão às imposições orçamentais que impedem o desenvolvimento do país, e a resposta aos problemas nacionais comprovam-no”, lê-se na declaração dos comunistas.

“Tanta ironia neste vídeo”, escreve correspondente do Wall Street Journal

As redes sociais estão a ser inundadas com os mais diversos comentários ao discurso de Mário Centeno, mesmo a nível internacional. 
Uma das reações é assinada por uma correspondente do Wall Street Journal, Patricia Kowsmann, que encontra muita “ironia” no vídeo protagonizado pelo presidente do Eurogrupo. 
A jornalista, que já trabalhou a partir de Lisboa, Londres, Singapura e Washington, recorda que “o ministro das Finanças de um governo que criticou ferozmente a troika e denunciou a austeridade, pelo menos no papel, fala agora sobre os benefícios de tudo isso. 
E de como a Grécia pode inverter a sua marcha”. escreveu num tweet.


O ministro das Finanças português e presidente do Eurogrupo está a ser o alvo dos ataques de várias frentes desde o início desta segunda-feira, dia que marca o fim dos programas de assistência à Grécia. 
Para assinalar a data, Centeno apontou que, ao fim de oito ano, o país “reconquistou o controlo pelo qual lutou”, mas advertindo que tal também acarreta “responsabilidade” acrescida. 
Em várias mensagens publicadas na sua conta na rede social Twitter, e também no sítio de Internet do Conselho da União Europeia, no dia em que a Grécia sai formalmente do seu terceiro programa de ajuda externa, Centeno começa por sublinhar que “hoje é um dia especial para a Grécia”, pois chega ao fim “um trajeto longo e sinuoso”.

Uma das primeiras críticas públicas a estas declarações e ao posicionamento do governante português partiu do ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis, que acusou o vídeo de Centeno de parecer “máquina de propaganda norte-coreana”.

Propaganda? O vídeo de Centeno em 4 pontos

FUTURO DA GRÉCIA
Nuno Vinha e Edgar Caetano
20 de Agosto de 2018

O polémico vídeo de Mário Centeno em 4 pontos. 
Simplista ou propaganda norte-coreana?

O que está certo e o que faltou dizer no vídeo em que Mário Centeno dá as "boas-vindas" à Grécia? 
Análise à mensagem do presidente do Eurogrupo que irritou a esquerda e a direita.

O vídeo tem apenas 1 minuto e 10 segundos, mas esse tempo foi mais do que suficiente para Mário Centeno, enquanto presidente do Eurogrupo, se tornar no destinatário do tiro ao alvo à esquerda e à direita. 
Nele, Centeno dá as “boas-vindas” à Grécia enquanto “membro pleno” da zona euro, sem medidas impostas pela troika mas, também, sem desembolsos de ajudas financeiras. 
O vídeo, publicado no dia em que a Grécia terminou formalmente o terceiro resgate, causou polémica, com ataques de deputados do PSD (Miguel Morgado), do BE (Mariana Mortágua) e até do PS (João Galamba, ex-porta-voz do partido) — e ainda de Yanis Varoufakis, ministro das Finanças da Grécia por alguns conturbados meses em 2015.

Centeno fez um retrato cor-de-rosa da economia grega, sublinhando, também, a necessidade de o governo manter o rumo. 
Em que medida é que o relato corresponde à realidade? 
Centeno foi sério na análise? 
Foi “lamentável”, como disse Galamba? 
Ou o ministro português, como defendeu Varoufakis, falou como se fosse a “máquina de propaganda da Coreia do Norte”?

1 - Crescimento a que preço?

“Hoje, o crescimento económico recuperou. Existe um superávit nas contas públicas e na balança comercial”

A Grécia deixa de estar sob resgate mas continua a estar ao abrigo de uma “Vigilância Reforçada” para garantir que cumpre os objetivos orçamentais definidos até 2022. 
Esses objetivos implicam um aperto orçamental de tal ordem que, na opinião do chefe da missão do FMI na Grécia, Peter Dolman, pode estrangular qualquer chance que Atenas tenha de um crescimento económico saudável nos próximos anos.

O objetivo é que, excluindo os gastos com juros de dívida, a Grécia obtenha mais 3,5% de receitas do que de despesas públicas. 
Essa é a meta para o chamado “saldo primário” até 2022 — depois, esse valor passa para um superávit menos ambicioso de 2,2%. 
Estes valores, diz Peter Dolman, “vão limitar a capacidade do governo para promover o crescimento”, seja pela incapacidade de fazer mais investimento público seja pela necessidade de taxar as pessoas e as empresas.

Numa visão que contrasta claramente com a de Mário Centeno, enquanto presidente do Eurogrupo, o responsável do FMI defende que, “como membro da zona euro, a Grécia perdeu a capacidade de definir uma política independente. 
As limitações orçamentais [que foram acordadas na cimeira de 21 de junho] significam que existem muito poucas ferramentas ao dispor, para estimular a atividade económica”.

A economia grega perdeu 27% do produto económico com a crise, fruto da austeridade no Estado e dos aumentos de impostos. 
Desde o ponto mais baixo — o primeiro trimestre de 2013 –, apenas recuperou 3%. Comparando com o momento do início da crise financeira, em 2008 (ano do colapso do Lehman Brothers), a economia grega só cresceu 3%, ao passo que Portugal recuperou já cerca de 10%, Espanha 14% e a Irlanda 48%. 
Neste momento, a economia grega está a crescer a cerca de 2% ao ano (com o turismo a contribuir com cerca de 20% dessa criação de riqueza).

Já no que diz respeito à balança comercial positiva que Centeno refere (“trade surplus“, enquanto a imagem mostra contentores a serem descarregados num porto), os dados contradizem-no. 
É verdade que as exportações gregas aumentaram o seu peso no PIB, passando de 24% em 2008 para 34% em 2017 (números da OCDE). 
No entanto, não só esta percentagem está muito distante da média europeia (que é de 46%) como da percentagem do último país europeu a sair de um resgate antes da Grécia, Portugal (42%). 
Mais importante: o saldo entre as exportações e as importações gregas é negativo há muitos anos.

Em junho, o défice da balança comercial agravou-se para 1,97 mil milhões de euros (quando estava em 1,51 mil milhões no mesmo mês do ano passado). 
É certo que no mesmo mês as exportações gregas registaram um valor recorde (3,01 mil milhões de euros), mas as importações ascenderam a 4,98 mil milhões de euros (com um crescimento, sobretudo, das compras fora da UE). 
O melhor saldo da balança comercial grega desde 2009 foi em julho de 2015 (ainda assim com um défice de 634 milhões), enquanto o pior registo no mesmo período foi em janeiro de 2016, quando o saldo negativo era superior a 2,5 mil milhões de euros.


2 - Que tipo de emprego há na Grécia?

“Novos empregos estão a ser criados. A economia foi reformada e modernizada”
Mário Centeno diz que estão a ser criados novos empregos. 
É indesmentível. 
Mas o que diz, por exemplo, a OCDE sobre a criação de emprego na Grécia? 
Há, de facto, uma diminuição da taxa de desemprego: dos 24,9% em 2015, passou-se para 21,5% em 2017. 
Atualmente está nos 20,2% (ainda que seja de 42,3% entre os menores de 25 anos). 
Para 2019, a organização prevê 19,4%. 
E que tipo de emprego existe hoje na Grécia? 
No seguimento das reformas laborais (que incluíram a redução do salário mínimo, a introdução de um salário abaixo do mínimo para jovens ou a suspensão de acordos coletivos de trabalho, entre outras medidas), “o emprego começou a recuperar” — diz a OCDE — e “os salários começaram a ajustar-se”. 
Sobretudo no sentido da descida.
As mudanças no mercado laboral levaram a cortes salariais severos, mas que restauraram rapidamente a competitividade da Grécia. No entanto, uma percentagem cada vez maior de empregos são temporários ou em part-time e pagos com salário mínimo”, escreve a organização.  
O ministro das Finanças português também diz que a economia grega foi “reformada e modernizada. 
De acordo com o banco de investimento alemão Berenberg, há muito por fazer: 
“São precisas mais reformas que favoreçam o crescimento para melhorar o potencial da economia no longo prazo e para tornar mais eficiente o sector público”. 
E dá exemplos: a corrupção na Grécia ainda é um problema sério, os serviços do Estado continuam a funcionar de forma demasiado burocrática e a resistir à digitalização. 
A Grécia, sintetiza a consultora, “precisa de facilitar o acesso aos seus mercados, abolir os monopólios/oligopólios e eliminar barreiras [no acesso a vários] setores”, a exemplo do setor do táxi ou das farmácias.
Os investidores parecem querer dar um voto de confiança ao país, um dos poucos na zona euro onde as taxas de juro, acima de 4% a 10 anos, ainda oferecem um rendimento apetecível na era de juros ultra-baixos. 
“Apesar da recuperação económica lenta na Grécia, o país aplicou mudanças importantes no longo prazo e que tornam a economia mais dinâmica”, escreve Carsten Hesse, economista do Berenberg em nota de análise enviada aos clientes.

 3 - Um terço da população em risco de pobreza

“Eu sei que estas melhorias ainda não são sentidas por todos os segmentos da população mas, gradualmente, passarão a ser”

36,5%. 
Pelo menos um em cada três gregos, dos 18 aos 64 anos, está em risco de pobreza ou de exclusão social, indica o próprio governo grego num relatório de junho. 
E 20% dos gregos, um em cada cinco, está em risco de não conseguir fazer frente a despesas básicas, como pagar a renda, a conta da luz ou os empréstimos que tem junto do banco. 
É pelo menos esta fatia da população grega (no total, cerca de 10 milhões) que precisa de começar a sentir as melhorias referidas por Mário Centeno.

Mas esta é a taxa de risco. 
Depois disto existe a “taxa de privação material severa” real, ou seja, outra forma de quantificar quem está mesmo na pobreza. 
Segundo a OCDE e o Eurostat, esta taxa está em valores recorde na Grécia: perto dos 25% nos 18 aos 64 anos. 
Em 2009 esta taxa estava nos 10% e desde então tem vindo sempre a subir.

Por outro lado, mesmo quem tem trabalho na Grécia (uma em cada três famílias tem um dos seus elementos desempregado) está a receber salários cada vez mais próximos da linha de pobreza. 
Segundo a OCDE, “quase metade dos salários dos trabalhadores está abaixo da linha de pobreza de uma família de quatro”, que é de 656 euros brutos. 
Atualmente, o salário mínimo na Grécia está nos 585 euros. 
A linha de pobreza individual está nos 313 euros.

O emprego é uma das áreas onde existe maior confiança, pelo menos por parte de quem olha de fora para a Grécia na perspetiva de investir. 
Como está a acontecer em Portugal, a expectativa é que a retoma anime a contratação, depois das reformas laborais que foram aplicadas, que o turismo dê uma (valiosa) ajuda e que o aumento dos fundos estruturais que vão chegar de Bruxelas contribua para baixar a taxa de desemprego.

Por outro lado, ao contrário do que diz Centeno, há uma área onde os gregos continuam a não ser exatamente membros plenos da zona euro: ainda estão em vigor controlos de capitais (iniciados em 2015). 
À medida que os controlos de capitais forem levantados, se tudo correr como previsto, esse é mais um fator capaz de dinamizar a economia, o investimento e a contratação.


4 - Grécia reganhou controlo, mas continua sob pressão

“A Grécia reconquistou o controlo pelo qual lutou. Com o controlo vem a responsabilidade. A Grécia pagou caro pelas políticas erradas do passado, portanto voltar atrás seria um erro grave”

Uma área onde a Grécia vai continuar sob pressão é a banca, entupida de créditos tóxicos como nenhum outro país da zona euro. 
Cerca de 45% dos empréstimos que a banca grega tem concedidos são problemáticos. 
Em simultâneo, a banca grega continua a ter mais empréstimos do que depósitos (um “rácio de transformação” de 120%), algo que também era um problema em Portugal mas que foi corrigido.

Estes são dois grandes travões à capacidade dos bancos para emprestarem à economia. 
A solução passa por incentivar (ou obrigar?) os bancos gregos a fazerem vendas de lotes de créditos, o que necessariamente vai envolver o reconhecimento de perdas em relação ao valor que está contabilizado nos seus balanços — e, com os rácios de capital ainda titubeantes, a última coisa de que os bancos querem ouvir falar é de acelerar vendas de ativos, ao “desbarato”, que eles acreditam poderem vir a valer mais caso a economia continue a crescer.

Quando, no vídeo, Mário Centeno lê no teleponto que “com o controlo vem a responsabilidade” aparece, na imagem, uma fotografia de Alexis Tsipras, o primeiro-ministro grego. 
Este poderá ser um sinal de que o presidente do Eurogrupo sente a necessidade de lembrar Tsipras que as políticas têm de ser mantidas — isto é, não estará 100% seguro de que assim será.

O primeiro incentivo para que a Grécia mantenha o rumo é financeiro. 
Apesar de deixar de receber desembolsos, a Grécia vai receber transferências relacionadas com os lucros do Banco Central Europeu e dos bancos centrais nacionais com a dívida pública grega que compraram no mercado, a preços mais baixos (e, portanto, juros mais altos, nas alturas de maior incerteza) e que estão a ser reembolsadas a 100% do seu valor.

Grécia e zona euro celebram hoje fim de oito anos de resgates

GRÉCIA
Agência Lusa   20/8/2018, 7:57
A Grécia assinala esta segunda-feira o fim do terceiro resgate financeiro. 
Mário Centeno assinalou a data através de um vídeo partilhado nas redes sociais.

A Grécia concretiza esta segunda-feira a saída do seu terceiro programa de assistência, numa data histórica para o país e para a zona euro, que vira a página sobre oito anos de resgates. 
O país europeu, o mais atingido pela crise económica e financeira, foi o primeiro e último a pedir assistência financeira — e o único “reincidente” –, e a conclusão do seu terceiro programa assinala também o fim do ciclo de resgates a países do euro iniciado em 2010, e que abrangeu também Portugal (2011-2014), Irlanda, Espanha e Chipre.

O presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, saudou esta segunda-feira o fim dos programas de assistência à Grécia, apontando que, ao fim de oito ano, o país “reconquistou o controlo pelo qual lutou”, mas advertindo que tal também acarreta “responsabilidade” acrescida. 
Em várias mensagens publicadas na sua conta na rede social Twitter, e também no sítio de Internet do Conselho da União Europeia, no dia em que a Grécia sai formalmente do seu terceiro programa de ajuda externa, Centeno começa por sublinhar que “hoje é um dia especial para a Grécia”, pois chega ao fim “um trajeto longo e sinuoso”.
Mas isso agora é História. Hoje, o crescimento económico melhorou, estão a ser criados novos postos de trabalho, regista-se um excedente orçamental e comercial, e a economia foi reformada e modernizada”, afirma Centeno, acrescentando ter noção de que “estes benefícios ainda não são sentidos em todos os quadrantes da população”, mas garantindo que, “gradualmente, serão”.
Segundo Centeno, “a Grécia enfrenta agora uma nova realidade”, em que “não há mais ações prévias” (as medidas de ajustamento que Atenas tinha que honrar perante os credores para receber os empréstimos), “mas também não há mais desembolsos”.

A Grécia reconquistou o controlo pelo qual lutou. 
Com controlo, vem a responsabilidade. 
Os gregos pagaram caro as más políticas do passado, pelo que voltar atrás seria um erro prejudicial”, sublinhou então o presidente do Eurogrupo.
A concluir, Centeno lembra que “a Grécia está agora numa posição na qual pode gozar plenamente a pertença à zona euro, sujeita às mesmas regras dos restantes membros da área do euro”. 
“Nesse sentido, a Grécia regressou hoje à normalidade. 
Por isso, bem-vindos de volta”, conclui.

Council os EU - Newsroom
Presidente do Eurogrupo sobre o programa de resgate da Grécia chegando ao fim
Mário CENTENO, Presidente do Eurogrupo, felicita a Grécia pelo final do programa de salvamento em 20 de agosto de 2018.

Face às características únicas da (tripla) assistência prestada ao país, e às fragilidades que a sua economia ainda revela, a Grécia será alvo de uma “vigilância pós-programa reforçada”, com missões de três em três meses, para garantir que Atenas prossegue, nesta nova era pós-resgates, uma “política orçamental prudente”.

Grécia, mais uma “história de êxito” inesperado
No sábado, o diretor do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), Klaus Regling, congratulou-se com a recuperação da autonomia da Grécia, na saída do último programa de resgate, apontando que o país será “uma história de êxito”.

“Há algum tempo nada faria crer que Portugal, Espanha, Irlanda e Chipre seriam histórias de êxito. 
Refiro-me sempre a estes países como as nossas quatro histórias de sucesso. 
Agora poderei incluir a Grécia neste grupo”, seguindo sempre as reformas acordadas, disse, na altura, Klaus Regling ao diário grego News247. 
Lembrou ainda a importância de a Grécia continuar as reformas realizadas e concretizar os compromissos firmados com as instituições credoras.

Há algum tempo nada faria crer que Portugal, Espanha, Irlanda e Chipre seriam histórias de êxito. 
Refiro-me sempre a estes países como as nossas quatro histórias de sucesso. 
Agora poderei incluir a Grécia neste grupo”, seguindo sempre as reformas acordadas, disse, na altura, Klaus Regling ao diário grego News247. 
Klaus Regling lembrou ainda a importância de a Grécia continuar as reformas realizadas e concretizar os compromissos firmados com as instituições credoras.

No início de julho, o ministro das Finanças português e presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, disse, perante o Parlamento Europeu, em Estrasburgo, poucos dias após o fórum de ministros das Finanças da zona euro ter acordado a conclusão do terceiro resgate à Grécia, lançado em agosto de 2015, que “o dia 20 de agosto de 2018 é para marcar no calendário e celebrar”.

O histórico da crise grega e da zona euro recua, no entanto, pelo menos, a 2010, altura em que tem lugar a primeira cimeira extraordinária de líderes da UE para discutir o “problema grego”, à luz das revelações de que as autoridades gregas haviam ocultado os verdadeiros dados macroeconómicos do país e manipulado os números do défice público, que era afinal, na altura, de 12,5%, mais do dobro do valor anunciado.

Em maio desse ano, e ultrapassadas as reticências iniciais da Alemanha, é aprovado o primeiro resgate para a Grécia, no valor de 110 mil milhões de euros, naquele que seria o início de uma série de resgates a países da zona euro — com participação também do Fundo Monetário Internacional (FMI) –, em plena crise da dívida soberana, incluindo, precisamente um ano depois, em maio de 2011, Portugal.

Em março de 2012, é aprovado um segundo resgate à Grécia, no valor de 130 mil milhões de euros, mas Atenas tarda em conseguir o “ajustamento” das suas contas públicas, e a crise mais profunda tem lugar em 2015, quando o partido de extrema-esquerda Syriza de Alexis Tsipras sobe ao poder e enfrenta os credores, a “‘troika’, nas negociações para a conclusão desse segundo programa de assistência, ficando famoso o confronto entre os então ministros das Finanças grego, Yanis Varoufakis, e alemão, Wolfgang Schäuble.

Numa altura em que Portugal já tinha concluído o seu programa de assistência, Bruxelas conhece então dos momentos mais agitados da sua história, com uma “maratona” de cimeiras extraordinárias, ao nível de ministros das Finanças mas também de chefes de Estado e de Governo, durante as quais chegou a pairar a ameaça de uma “expulsão” da Grécia da zona euro. 
Finalmente, em agosto de 2015, e já com Varoufakis afastado do governo de Tsipras, é alcançado um acordo entre Atenas e os seus credores para um terceiro e derradeiro programa de assistência (num montante máximo de 86 mil milhões de euros), que chega então agora ao fim, com uma “saída limpa” da Grécia, que continuará todavia a ser alvo de uma vigilância reforçada.

Na sua intervenção em 4 de julho perante o Parlamento Europeu, Centeno, que assumiu a presidência do Eurogrupo em janeiro deste ano, advertiu que as autoridades de Atenas devem imperiosamente prosseguir uma “política orçamental prudente” e reformas estruturais, recordando que haverá lugar a uma “vigilância pós-programa reforçada”. 
Esta vigilância reforçada — como missões de três em três meses — não significa todavia que a Grécia continue de alguma forma sob programa, asseverou Centeno: “Deixem-se ser claro: «fora do programa» para a Grécia significa “fora do programa”, disse, acrescentando que “a Grécia deve participar no euro como qualquer outro país”.