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quarta-feira, 21 de março de 2018

Como a grande eleição de Putin "ganha" encoraja a Rússia a continuar empurrando políticas anti-ocidentais agressivas

 Angela Charlton, Associated Press
  19 de março de 2018, 5:26 da manhã 
O presidente russo Vladimir Putin pronuncia um discurso durante uma manifestação para apoiar sua candidatura nas próximas eleições presidenciais no Estádio Luzhniki em Moscou, Rússia, 3 de março de 2018. REUTERS / Maxim Shemetov

  • Vladimir Putin agora tem uma posse mais forte na Rússia - e lugar mais forte no mundo - graças a um mandato irresistível para mais um mandato como presidente.
  • As relações entre a Rússia e o Ocidente já estão em seu nível mais baixo desde o colapso da União Soviética há 26 anos.
  • A Rússia é improvável que puxe para fora da Síria, onde constantemente butts as cabeças com o Ocidente, tão cedo. Ele provavelmente continuará com suas políticas estrangeiras agressivas.
  • Mas Putin enfrenta uma questão difícil de como se afastar do poder, à medida que envelhece e não tem nenhum sucessor aparente.

MOSCOU (AP) - Vladimir Putin agora tem uma posse mais forte na Rússia - e lugar mais forte no mundo - graças a um mandato irresistível para mais um mandato como presidente.

Seus oponentes domésticos são em grande parte conformado com mais seis anos nas sombras.
Seus inimigos estrangeiros estão atolados em seus próprios problemas, desde a saída desordenada da Grã-Bretanha da União Européia até o caos e a contradição na administração Trump.

Mesmo as violações de votação generalizadas não são susceptíveis de prejudicar a armadura de Putin.
E as acusações de que ele se intrometeu na eleição dos EUA e patrocinaram um ataque de agente nervoso na Grã-Bretanha só reforçaram sua posição em casa.


Aqui está um olhar sobre o que esperar dos próximos seis anos de Putin no poder, para os rivais russos, vizinhos e seus próprios 147 milhões de cidadãos.

Nova Guerra Fria?
As relações entre a Rússia e o Ocidente já estão em seu nível mais baixo desde o colapso da União Soviética há 26 anos.

Apesar de um relacionamento amistoso com o presidente Donald Trump, o novo mandato de Putin lhe dá pouco incentivo para buscar entente com Washington, especialmente porque a investigação da suposta interferência russa na eleição dos EUA de 2016 se intensifica.

Líderes Putin-amigáveis tiveram ganhos nas eleições italianas e alemãs recentes.
Os países ocidentais provavelmente verão mais hacking e propaganda ligados à Rússia, visando interromper as eleições ou desacreditar a democracia, incluindo as eleições de meio período de novembro em novembro.

Uma vez que a popularidade doméstica de Putin se solta sempre que ele resiste ao Ocidente, espera conversas mais duras de Putin na próxima vez que ele enfrenta ameaças em casa e vetores russos mais ousados no Conselho de Segurança da U.N. de qualquer coisa considerada ameaçadora dos interesses de Moscou.

Sua reivindicação há várias semanas que a Rússia desenvolveu novas armas nucleares que podem iludir as defesas contra mísseis mostrou claramente a determinação inflexível de Putin para aumentar a potência da Rússia para intimidar.

Síria e a ameaça extremista
A Rússia anunciou que vai retirar o grosso das suas tropas da Síria a partir de março 15, em um processo que pode levar até 5 meses. (Ministério da Defesa da Federação Russa)

Forças sírias apoiadas pela Rússia ajudou a derrotar o grupo Estado Islâmico da Síria, e Putin afirma que a Rússia salvou o dia em um conflito que tinha confundido as forças lideradas pelos EUA lutando contra IS.

Agora, essas forças sírias apoiadas pela Rússia estão se fechando sobre os últimos redutos de forças rebeldes apoiados pelo ocidente.

Observando isso como uma vitória geopolítica e militar sobre uma intervenção ilegal de origem ocidental, é improvável que a Rússia se retire da Síria em breve.

Um empobrecido Putin poderia posicionar o ressurgimento do exército russo como pacificador em outros conflitos regionais - por exemplo, na Líbia, onde a Rússia tem interesses petrolíferos e onde uma desastrosa invasão ocidental, há sete anos, deixou um estado sem lei agora fervendo com extremistas.

Vizinhos da Rússia
Soldados que estavam entre várias centenas que assumiram posições em torno de uma base militar ucraniana andando na periferia da base na Criméia em 2 de março de 2014 em Perevalne, Ucrânia

Para os russos, a maior vitória de Putin em 18 anos no poder foi anexar Crimea e esmagar as ambições da Ucrânia para aproximar-se da UE e da OTAN.

Putin está frustrado com as sanções resultantes dos EUA e da UE, mas parece não querer fazer concessões que os levariam ao fim.
A Ucrânia é dividida entre um governo volátil em Kiev e uma região separatista apoiada pela Rússia, presa em um conflito congelado, mas ainda mortal, que serve os interesses de Putin.

As ações de Moscou na Ucrânia enviaram um sinal de alerta para outros países da órbita russa que chegar ao oeste é perigoso.
E os antigos estados do bloco soviético na UE estão voltando cada vez mais para Moscovo, da Hungria e da Polônia para a República Tcheca e a Eslováquia.

Companheiros russos
As pessoas participam de uma reunião marcando o quarto aniversário da anexação da Rússia da região da Crimeia na Ucrânia no porto do Mar Negro de Sevastopol, na Criméia.

O novo mandato de Putin poderia, teoricamente, entregar-lhe o poder de fazer reformas ousadas que a Rússia precisava há muito tempo para elevar o padrão de vida e se libertar de sua dependência de petróleo.

Mas Putin convenceu os eleitores russos de que a mudança drástica é perigosa e que proteger o país das ameaças tem precedência sobre a melhoria da vida diária.


Os especialistas prevêem que ele pode promulgar algumas mudanças como a expansão habitação acessível e combate à corrupção a nível local.

Mas menos provável são maiores mudanças, como a reforma do sistema de pensões, que é impopular entre uma forte base de votação Putin, ou cortes de gastos no sector da segurança, impopulares entre os amigos ex-KGB em comitiva de Putin.

Rússia tem resistido uma recessão de dois anos, e a inflação eo déficit são baixos.
Mas os rendimentos pessoais estagnaram, o sistema de saúde está desmoronando e a corrupção é abundante.

Seu próprio futuro
O presidente russo, Vladimir Putin, chega para participar de uma manifestação para apoiar sua candidatura nas próximas eleições presidenciais, no Estádio Luzhniki em Moscou, Rússia, 3 de março de 2018.

A maior questão para os russos nos próximos seis anos é o que acontece depois disso.

Putin é constitucionalmente obrigado a demitir-se em 2024, mas ele poderia mudar as regras para eliminar os limites de mandato, ou ungir um sucessor maleável e continuar a executar as coisas nos bastidores.

Perguntado em uma entrevista coletiva improvisada na noite de domingo, se ele procurasse a presidência novamente em 2030, quando ele seria elegível novamente, Putin, de 65 anos, respondeu: "É ridículo.
Você acha que vou sentar aqui até completar 100 anos? "

O líder da oposição, Alexei Navalny, o inimigo mais sério de Putin, enfrentará novas pressões das autoridades enquanto trabalha para expor corrupção e mentiras oficiais.

Outros rivais de Putin, como o candidato Ksenia Sobchak e o mesquinho oligarquino-dissidente, Mikhail Khodorkovsky tentarão caminhar nas próximas eleições locais e no parlamento.

E os membros do círculo interno de Putin estarão lutando por posição para o dia em que ele não está mais na foto.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Começa amanhã a era pós-Putin

ANÁLISE
Jorge Almeida Fernandes
18 de Março de 2018, 7:03

A elite do poder teme o fim do último mandato do Presidente. 
Sem Vladimir Putin como funcionará o “putinismo”? 
É um regime sem mecanismos para organizar a sucessão.

As presidenciais russas de hoje despertam escassa curiosidade. 
Mas abrem uma discussão fascinante. 
A sucessão de Vladimir Putin, em 2024, é um tabu, mas também causa de nervosismo na chamada elite. 
“O problema do Kremlin não é a vitória eleitoral, mas o que acontecerá a seguir — o desenvolvimento da agenda pós-eleitoral”, resume a analista russa Lilia Shevtsova.

“À medida que 2024 se aproxima, a questão de quem ou daquilo que substituirá Putin vai tornar-se cada vez mais relevante. 
Há o sentimento de que a Rússia está a entrar na era pós-Putin”, afirma Sir Andrew Wood, antigo embaixador britânico em Moscovo. 
A razão é simples: a sucessão põe a nu as fraquezas do “Estado forte” de Vladimir Putin.

Não está em causa uma mudança de regime. 
Mas o regime vai começar a mudar, escrevem os analistas Ivan Krastev e Gleb Pavlosvki, num estudo do European Council on Foreign Relations. 
“A eleição presidencial marcará a chegada da Rússia pós-Putin, independentemente de Putin permanecer na chefia do Estado nos próximos seis ou 16 anos. 
Porque, a seguir ao voto, o comportamento dos grandes actores políticos e económicos não se definirão pela presença de Putin no poder mas pela expectativa da sua partida.” 
Um prolongamento do mandato presidencial para lá de 2024 apenas agravaria o problema. A verdadeira questão não é tanto quem poderia ser o sucessor e o modo como ascenderia ao “trono”, mas aquilo que o novo líder poderá fazer uma vez lá chegado, num sistema concebido à medida da personalidade de Putin.

Saberá a Rússia gerir o momento crítico da substituição do líder? 
A Rússia não tem instituições fortes. 
O regime não tem mecanismos institucionais para fazer a passagem do poder.

O “árbitro-chefe”

Putin dirige a Rússia há 18 anos, dos quais 14 como Presidente, com o mesmo “círculo de amigos”, onde prevalecem oligarcas e os siloviki, homens dos aparelhos de força — militares, forças de segurança e serviços secretos.

Foi o fundador do Estado russo pós-soviético. 
O “putinismo” assenta na concepção do “Estado forte”, ultracentralizado, baseado na “vertical do poder” e em que o arbítrio é designado por “ditadura da lei”. 
O FSB, sucessor do KGB, em que Putin começou a sua carreira, está instalado no “coração do sistema”. 
Trata-se de um regime largamente desinstitucionalizado, de uma estrutura de poder opaca que roda em torno da única instituição funcional, a Presidência, e dotado de uma administração ineficaz e corrupta. 
Putin não funciona como ditador: é sobretudo o “árbitro-chefe” dos interesses e das facções da elite, que frequentemente se digladiam. 
Os oligarcas têm a sua riqueza protegida desde que apoiem o Presidente e não tenham ambições políticas. 
Os recalcitrantes acabam na prisão.

A grande interrogação é: sem Vladimir Putin como funcionará o “putinismo”? 
O Presidente levanta um sério problema à sobrevivência política do “círculo interno”, que não existe sem ele. 
O primeiro objectivo da elite é conservar o seu próprio poder e este depende da presença de Putin.

“A diferença em relação a antes é que Putin se tornou num obstáculo ao processo, não um facilitador, porque ninguém pode assumir o papel [de sucessor] sem minar a sua autoridade”, escreve Pavlovski no Moscow Times. 
“A via de acesso à hierarquia do poder na Rússia significa que a procura do próximo presidente é uma anedota. 
Todos percebem que enquanto Putin tiver o controlo dos códigos nucleares, não abdicará do seu papel de árbitro-chefe.”

A elite tem a noção de que o Presidente vai estar concentrado no desenho da “Rússia pós-Putin”, frisam Krastev e Pavlovski. 
Começou a promover uma nova geração de jovens tecnocratas a posições de poder. 
Tem a convicção de que a Rússia não necessita de um simples sucessor — como ele o foi de Boris Ieltsin — mas de uma “geração sucessora”. 
Haveria uma transferência de poder da actual elite para a “geração Putin”. 
Como?

Putin parece hoje muito mais ocupado com a política externa do que com a doméstica. 
“A Rússia moderna não é um império mas o seu regime político tem aspirações imperiais”, que se traduzem num virulento nacionalismo e numa política de confronto com o Ocidente, resume o analista Andrei Kolesnikov. 
O desígnio de transformar a Rússia numa grande potência é um dos grandes esteios do poder pessoal e da popularidade do Presidente. 
Nada indica que nos próximos seis anos, e depois deles, haja qualquer inflexão nesta política.

Krastev e Pavlovsky exprimem uma derradeira dúvida: “Mas sem [Putin] a Rússia será provavelmente um actor internacional mais fraco: foi Putin, mais do que o Estado russo, quem reconquistou o estatuto de grande potência.”

 jafernandes@publico.pt

O "urso" quer continuar a ser "urso"

CRÓNICA
Manuel Carvalho
18 de Março de 2018, 7:3


Estamos nas margens do rio Moscovo e quem olhar para a estátua de Pedro o Grande instalada no vértice de uma das suas ilhotas pode perceber mais facilmente a natureza imperial da ancestral “Mãe Rússia”. 
A estátua, inaugurada em 1997 para celebrar os três séculos da marinha russa, é descomunal, erguendo-se 97 metros acima do nível das águas, com um pedestal de pequenos galeões a sustentarem o galeão principal no qual emerge a gigantesca figura do imperador. 
Um século depois da revolução que depôs os Romanov, que dominaram a Rússia ao longo de mais de 300 anos, Pedro o Grande continua a merecer uma devoção especial. 
Porque foi a sua ousadia e abertura às ideias modernizadoras da Europa que transformaram um gigante distante e adormecido numa potência europeia de primeira grandeza.

A Rússia provou então as delícias do poder e jamais deixou de subordinar a sua natureza, a sua essência, a essa experiência e condição. 
O “urso”, animal que a caricatura ocidental associa a esse poder, derrotaria depois o grande exército de Napoleão e, já no século XX foi o principal responsável pela destruição da força nazi que ameaçava devorar a Europa – e é por isso que o regime de Putin e a Rússia contemporânea concede a Estaline um tratamento de excepção na aversão aos soviéticos. 
Hoje, a Rússia é um um actor de segundo plano em termos económicos – o seu produto é metade do da França ou do da Califórnia e muito baseado nas matérias-primas. 
A sua demografia, que à custa dos generosos apoios do Estado voltou a recuperar, está longe de se comparar com os pesos pesados do planeta – os Estados Unidos, a União Europeia ou a China. 
Mas, ainda assim, a Rússia voltou a ser uma potência temida.

É importante notar que essa recuperação de um papel de primeiro plano na cena internacional nasce dos escombros do fim da União Soviética. 
As experiências de liberalização económica conformes ao receituário ocidental foram uma tragédia para os russos. 
A economia colapsou, a pobreza alastrou, o Estado foi tomado de assalto por oligarcas e pela corrupção e essa experiência foi vivida pelos russos como mais uma prova de que o Ocidente jamais perderá uma oportunidade para os vexar. 
Vladimir Putin respondeu a esse sentimento de forma exemplar. 
Um império que vai da vizinhança da velha Europa de herança austro-húngara aos Urais, à Sibéria e ao mar do Japão tinha de recuperar a sua maneira de ser, autocrática e sustentada na tese do “nós contra o mundo”. 
A humilhação dos tempos de Ieltsin tinha de ser vencida pelo regresso ao glorioso passado imperial.

A um ocidental custa a perceber como é que os russos cultos, cosmopolitas, que conhecem os sistemas constitucionais e de governo da Alemanha ou do Reino Unido, que bebem champanhe e ouvem o rock produzido em Londres, se deixam seduzir pela mensagem de Putin. 
A verdade é que, na Rússia actual, é frequente a opinião, mesmo entre intelectuais, de que a Rússia é uma potência eternamente acossada pelo Ocidente. 
O discurso autocrático e militarista de Putin é por eles visto como a única forma de a Rússia manter a sua dignidade nacional e o estatuto internacional a que tem direito. 
As forças armadas são objecto de uma devoção para nós doentia, mas para os russos são um instrumento de dissuasão de que não podem prescindir. 
A Rússia vive uma espécie de complexo de perseguição.  

O Ocidente, que se retirou de armas e bagagens deixando a Rússia lamber as feridas da sua fracassada liberalização, ajudou na germinação desta mentalidade. 
Depois, querer levar a Nato até às fronteiras da Rússia, na Geórgia ou na Ucrânia, foi uma forma de legitimar o discurso de Putin sobre a perseguição externa. 
O limite funciona como uma zona de protecção desde os tempos da Roma imperial e nada parece ter mudado desde então. 
Deu no que deu: a Rússia jamais tolerará o Ocidente à porta. 
A Geórgia foi devastada e a Crimeia conquistada. 
A intervenção na Síria mostra o renascimento do poder da Rússia em dar cartas no exterior e os ataques informáticos – ou as operações de envenenamento de "espiões traidores” – são, para os russos, pura e legítima defesa.

Os russos da era de Putin condescendem com tudo – até com os caminhos perigosos de um regime iliberal, no limiar da ditadura -, porque é assim que se sentem defendidos e protegidos da permanente ameaça da Europa. 
Os chineses ganham espaço na fronteira do Amur e tomaram conta das riquezas da Mongólia, mas não é aí que se joga o destino na Mãe Rússia. 
É na relação de forças com alemães, franceses ou americanos. 
Se nos tempos das velhas alianças europeias a Rússia ora estava com as monarquias conservadoras, ora com a França progressista para criar os grandes blocos que devastaram o continente em guerras sucessivas, hoje sabe que (pelo menos por agora) tem à sua frente uma Europa unida para lhe fazer frente. 
Putin é para os russos o homem providencial para se impor nesta conjuntura. 
A nós, ocidentais, custa a entender o preço que se paga por essa quimera imperial. 
A eles, russos, esta é a melhor forma de se sentirem seguros e de viverem sem medo da rapacidade do Ocidente.

manuel.carvalho@publico.pt

O (eterno) regresso da Guerra Fria

OPINIÃO
Vicente Jorge Silva
18 de Março de 2018, 7:47


O recente caso de envenenamento de um agente duplo de nacionalidade russa e da sua filha, numa cidade do Reino Unido, provocou um conflito diplomático que evoca os tempos mais sombrios da Guerra Fria entre o Ocidente e a então União Soviética e parece extraído de um clássico de John Le Carré. 
Com uma enorme diferença, porém. 
Nesses tempos, as personagens e intérpretes da intriga internacional pareciam demarcados uns dos outros como num filme a preto e branco dos anos 1950. 
Hoje, o que surpreende e chega a espantar são as suas semelhanças e cumplicidades secretas.

Vladimir Putin, Donald Trump ou o ministro dos Estrangeiros britânico, Boris Johnson, parecem ter tudo para ser amigos do peito e não seria difícil imaginá-los à volta de uma mesa partilhando jogos de guerra ou outras manias comuns. 
Vivem deslumbrados pelos respectivos egos e centrados sobre os seus umbigos, comungam de uma semelhante sobranceria autocrática e um idêntico desprezo pela democracia. 
Aliás, não foi por acaso que Putin se mostrou tão empenhado em favorecer a eleição de Trump e o "Brexit" (do qual Boris Johnson foi um dos artífices mais fervorosos).

Ei-los, porém, hoje, nas vésperas da reeleição do autocrata russo, envolvidos numa reedição nostálgica da Guerra Fria. 
Boris – logo um nome russo! – fez questão de encontrar um cenário adequado para a sua declaração bélica contra Putin: o bunker da Batalha de Inglaterra celebrizado por Churchill. Aí, o chefe do Foreign Office disse, preto no branco: "A nossa disputa é com o Kremlin de Putin e com a sua decisão. 
Achamos altamente provável que tenha sido decisão sua o uso do agente neurotóxico nas ruas do Reino Unido, nas ruas da Europa, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial". Apesar da conhecida eurofobia de Johnson, nem as "ruas da Europa" deixaram de ser evocadas nesta declaração com óbvias pretensões churchillianas...

Quanto mais parecido contigo, mais preciso de distinguir-me de ti… – não só para evitar associações comprometedoras mas também para sublimar rivalidades entre irmãos de espírito. 
Além disso, foi uma oportunidade de ouro para disfarçar cumplicidades comprometedoras (no caso de Trump) ou fraquezas cada vez mais insustentáveis (no caso de Johnson e da primeira-ministra Theresa May por causa do "Brexit"). 
Daí a declaração solene que juntou os Estados Unidos, a Alemanha e a França ao Reino Unido, contra Putin – e que este terá porventura agradecido, enquanto contributo para a sua consagração como novo czar da Rússia Eterna. 
A Guerra Fria está de volta para responder ao caos das relações internacionais, ao mesmo tempo que a democracia vai definhando e o autoritarismo é promovido como novo horizonte político do mundo globalizado (veja-se o caso da China, exactamente ao contrário do que profetizava Francis Fukuyama no seu O Fim da História e o Último Homem).

A velha Guerra Fria colocou o Ocidente capitalista e o Leste comunista suspensos do "equilíbrio do terror" nuclear, enquanto à sombra dela se perseguiam múltiplas formas de dissidência (como aconteceu nos EUA durante o macartismo). 
Mas havia então uma divisão do mundo que tornava as fronteiras menos opacas do que hoje, nesta nova Guerra Fria onde se regressa à tentação do apocalipse com armas mais sofisticadas (é precisamente o caso da Rússia) e em que, porém, como à noite, todos os gatos são pardos: Trump, Putin, Johnson, o norte-coreano Kim Jong-un, o novo imperador chinês Xi Jinping e todos os aprendizes de feiticeiro do autoritarismo que se expande pelos quatro cantos do planeta.

Jornalista

Putin ganha por aclamação e promete um governo "fora do comum"

RÚSSIA
João Ruela Ribeiro
18 de Março de 2018, 18:18 actualizada às 8:01 

Não houve espaço para qualquer surpresa e Vladimir Putin foi reeleito para um quarto mandato presidencial, prolongando a sua liderança por mais seis anos, até 2024, período durante o qual se irá tornar no líder russo com mais longevidade no poder desde Estaline. Ele agradeceu, e começou a delinear os seus planos: "O próximo mandato será fora do comum".

"A nação precisa de unidade para avançar", declarou o Presidente, discursando no exterior do Kremlin. 
Pediu à multidão para "pensar no futuro da nossa pátria" e liderou cânticos de "Rússia, Rússia", descreve a Associated Press.

Mencionou o caso do ex-espião russo Sergei Skripal envenenado em Salisbury, no Reino Unido, com uma arma química de fabrico russo - sobre o qual se tinha mantido em silêncio até agora. 
"Estamos dispostos a trabalhar com as autoridades do Reino Unido. 
A Rússia não tem armas dessas, mas se fosse um agente de nervos de grau militar, teriam morrido mais pessoas no Reino Unido", disse o Presidente, citado pela Reuters. 

Mudanças no Governo "só depois de tomar posse" como Presidente pela quarta vez, disse. E disse não estar a pensar em reformas constitucionais - como a que lhe permitisse concorrer a um quinto mandato, que lhe é vedado hoje pela Lei Fundamental. 
"Será que vou viver até aos 100 anos?", brincou.

A expectativa é de que os próximos seis anos sejam os últimos de Putin no poder – a Constituição fixa um limite máximo de dois mandatos consecutivos e Putin já disse que não pretende alterá-la – e é possível que nos próximos tempos se comecem a vislumbrar os primeiros movimentos do processo de sucessão.

A vitória de Vladimir Putin nas eleições deste domingo nunca esteve em causa. 
O Presidente e o seu círculo próximo mantêm há quase duas décadas um controlo apertado sobre a sociedade civil, o Estado e os meios de comunicação, que não deixa margem para que surja qualquer oposição. 
Mas naquelas que muitos pensam ser as últimas eleições com Putin, a força do regime também seria avaliada pela participação do eleitorado.

As projecções avançadas pelos canais televisivos mostravam que Putin não só foi reeleito confortavelmente com mais de 70% dos votos, como os russos acudiram em massa, batendo um recorde de participação eleitoral. 
Já nesta segunda-feira de manhã, a comissão eleitoral revelou que Putin obteve 76,67% dos votos, quando estavam contabilizados quase todos os boletins (99,8%). 
A participação eleitoral atingiu os 67,4%.

Os estrategas do Kremlin tinham apontado para um objectivo conhecido como 70/70 – uma vitória de Putin com mais de 70% dos votos e uma participação acima dos 70%. 
O cumprimento destas metas dá garantias de que, apesar de estar no poder há quase duas décadas, o apoio popular do Presidente russo não desce. 
E nem isso falhou.


Os resultados batem todos os recordes no histórico pessoal de Putin, que tinha conseguido superar os 70% apenas nas eleições de 2004 – há seis anos alcançou 63%. 

De fora dos boletins de voto ficou o rosto mais conhecido da oposição, o advogado Alexei Navalni, cuja candidatura foi bloqueada por se encontrar actualmente a cumprir uma pena de prisão suspensa. 
Navalni diz que o caso movido contra si é apenas uma manobra para o impedir de se apresentar a eleições e apelou ao boicote às eleições. 
Nos últimos meses, o activista que se notabilizou por denunciar casos de corrupção entre a elite dirigente também sugeriu que poderá tentar mobilizar os seus apoiantes para se manifestarem após as eleições.

As presidenciais foram agendadas para a data em que se assinala o quarto aniversário da anexação da Crimeia e muito do apoio reunido por Putin está ligado a este acontecimento. Na península, Putin obteve mais de 90% dos votos.

A reeleição do Presidente russo foi interpretada pelos seus aliados como um forte apoio dado pela população à postura assertiva que Moscovo tem adoptado nas relações internacionais. 
“Acho que os EUA e o Reino Unido perceberam que não podem influenciar as nossas eleições”, disse o deputado da câmara alta do Parlamento, Igor Morozov, citado pelo Moscow Times.

A jornada eleitoral ficou, no entanto, marcada por várias denúncias de irregularidades. Dirigentes da oposição disseram ter conhecimento de casos de eleitores pressionados pelos patrões a irem votar e a fornecerem provas. 
Correspondentes da Reuters em diferentes locais de votos dizem ter visto pessoas a fotografarem-se ao lado das urnas. 
Houve também relatos de eleitores a serem transportados em carrinhas.

Ao todo, a organização independente Golos contabilizou 860 queixas de possíveis violações durante o dia, segundo o Moscow Times. 
Porém, a comissária para os Direitos Humanos, Tatiana Moskalkova, disse não ter havido “violações graves que possam ter influenciado a expressão da vontade dos cidadãos russos”.

joao.ruela@publico.pt

Ocidente começa a reagir à reeleição de Putin

RÚSSIA
Filipa Almeida Mendes
19 de Março de 2018, 12:17 actualizada às 17:25 
Vladimir Putin prolongou o seu mandato presidencial até 2024

Depois de o Presidente russo Vladimir Putin ter sido reeleito no domingo para um quarto mandato com 76,6% dos votos (o seu melhor registo eleitoral até à data), e depois de uma manhã de silêncio nas capitais europeias, os governos ocidentais começaram finalmente a endereçar as habituais e diplomáticas mensagens de felicitações ao chefe de Estado russo.

Até ao final da manhã desta segunda-feira, os parabéns tinham chegado apenas de líderes próximos de Moscovo — ou de concorrentes directos das capitais ocidentais — como o Presidente chinês Xi Jinping, que aproveitou para dizer que "a parceria estratégica de cooperação entre a China e a Rússia está no melhor nível da história", e que esta "constitui um exemplo para a construção de um novo tipo de relações internacionais”, segundo cita a BBC. 
Também os líderes do Irão, Cazaquistão, Bielorrússia, Venezuela, Bolívia e Cuba tinham felicitado prontamente Putin pela reeleição.

A Ocidente, porém, e num primeiro momento, o agudizar das tensões pelo caso do envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal no Reino Unido parecia ter inibido as capitais europeias de endereçar felicitações ao líder russo. 

Acabaria por ser o Presidente francês Emmanuel Macron a quebrar o gelo e a entrar em contacto com Putin através de um telefonema em que desejou “êxito na modernização política, democrática, económica e social” da Rússia, anunciando o "compromisso" de Paris "com um diálogo construtivo entre a Rússia, França e Europa”, de acordo com um comunicado divulgado esta segunda-feira pelo Eliseu.

Durante o telefonema, Macron disse ser "essencial à segurança do continente europeu" a cooperação entre Paris e Moscovo. 
Falou ainda sobre a crise síria, tendo expressado especial preocupação em Afrin e em Ghouta oriental, pedindo à Rússia "maiores esforços para que cessem os combates e as perdas civis”.

Sobre o caso Skripal, o Presidente francês apelou às autoridades russas “que esclareçam todas as responsabilidades relacionadas com o inaceitável ataque de Salisbury e que recuperem com firmeza o controlo sobre eventuais programas que não terão sido declarados à Organização para a Proibição das Armas Químicas”. 

A Alemanha também já felicitou Putin pela reeleição. 
O Presidente Frank-Walter Steinmeier endereçou uma mensagem ao chefe de Estado russo e declarou-se "esperançoso" que Putin utilize o novo mandato para sanar divergências entre russos e alemães, cita a BBC. 
Já o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Heiko Maas, adoptou uma posição crítica e condenou a realização das eleições russas na Crimeia, assumindo que “a Rússia continuará a ser um parceiro difícil”.

Em Moscovo, entretanto, Putin declarou que se encontra disponível para um diálogo “construtivo” com o Ocidente, mas disse que para tal é necessário que ambos os lados “mostrem interesse”.

As presidenciais russas de domingo foram as primeiras desde a anexação do território ucraniano da Crimeira por Moscovo, condenada por europeus e norte-americanos.

Vladimir Putin ganha eleições presidenciais russas com mais de 75% dos votos

Fox News
Eleições presidenciais 2018
18 de março de 2018

O presidente russo, Vladimir Putin foi reeleito com mais de 75 por cento dos votos domingo, de acordo com dados sondagem à boca das urnas.

O homem forte da Rússia vitória eleitoral o mantém como líder da Rússia por mais seis anos e lhe permite reivindicar o manto de mais antigo governante do vasto país que não Joseph Stalin.

Falando a uma multidão que assistiu a um concerto pop perto do Kremlin marcando sua vitória, Putin elogiou aqueles que votaram nele como uma "grande equipa nacional", acrescentando que "estamos ligados para o sucesso."
Ele disse que a nação precisava de unidade para avançar e exortou o público a "pensar sobre o futuro da nossa grande pátria".
Ele então conduziu a multidão entusiástica a cantar "Rússia!"

Os resultados de mais da metade dos recintos mostraram que Putin ganhou mais de 75% dos votos, com o candidato comunista Pavel Grudinin e o ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky, muito atrás, com cerca de 13 e 6%, respectivamente.
O candidato presidencial russa Ksenia Sobchak lança seu voto para a eleição presidencial russa, em Moscou, Rússia, 18 de março de 2018. (AP)

Os oito candidatos presidenciais foram impedidos de fazer campanha no sábado, mas a mensagem aos eleitores foi clara de outdoors que comemoram a grandeza russa - um grande tema de liderança de Putin - e a cobertura da mídia do Kremlin.

A última vez que Putin enfrentou eleitores foi em 2012, quando enfrentou um sério movimento de oposição.
Mas desde então ele impulsionou sua popularidade graças às ações russas na Ucrânia e na Síria.

Yevgeny Roizman, o prefeito de Ekaterinburg, a quarta maior cidade da Rússia, diz que autoridades locais e funcionários do estado receberam ordens "de cima para cima" para garantir que a participação do voto presidencial seja superior a 60%.

"Eles estão usando tudo: escolas, jardins de infância, hospitais - a batalha pela participação não tem precedentes", disse Roizman, um dos raros políticos da oposição para ocupar um importante escritório eleito.
O candidato do partido comunista, Pavel Grudinin, prepara-se para votar nas eleições presidenciais na fazenda do estado de Lenin, fora de Moscou, 18 de março de 2018. (AP)

Um médico de um dos hospitais da cidade disse à The Associated Press como funciona um tipo de pressão de votação.

O médico, que deu seu nome apenas como Yekaterina por medo de repercussões, disse que ela e seus colegas de trabalho foram informados para preencher formulários que detalhavam não só onde eles emitiriam os seus votos, mas também disseram para dar os nomes e detalhes de dois "aliados" que eles prometem persuadir para ir votar.

"Não é algo sobre o que você pode discutir", disse ela em um café no sábado.
"As pessoas ficaram indignados no início, disse: 'Eles estão violando nossos direitos' ... mas o que você pode fazer?"

Yekaterina disse que não tem certeza do que fará com o seu voto, pensando que "talvez eu escreva" Putin é um idiota ".
Mas ela entende claramente que não aparecendo no local de votação domingo não só irá colocar em risco seu trabalho, mas irá refletir mal em seu chefe, a quem ela gosta.

O médico russo disse que não iria votar se não fosse obrigada a fazê-lo.

"Qual é o objetivo?
Nós já conhecemos o resultado.
Este é apenas um show de circo ", disse ela.

Mais de 1.500 observadores internacionais se juntaram a milhares de observadores russos para assistir o voto.
Um grupo de monitoramento eleitoral russo disse no sábado que registrou um aumento "alarmante" nos últimos dias em reclamações de que os empregadores estavam forçando ou pressionando os trabalhadores a votar.
Os russos votam durante as eleições presidenciais em 18 de março de 2018. (AP)

À medida que as autoridades dos Estados Unidos investigam a alegada interferência russa nas eleições do presidente Trump em 2016, Moscou advertiu sobre possíveis intromissões no voto russo.

Observadores de eleições e meios de comunicação locais relataram ameaças e coação de eleitores para se registrar novamente em seu local de trabalho e informar depois que votaram.

Ella Pamfilova, presidente da Comissão Eleitoral Central que foi designada para limpar o sistema eleitoral da Rússia, prometeu responder às queixas sobre ser forçado a votar.

"Nenhum gerente tem o direito de dizer-lhes onde votar", disse ela recentemente.

Putin comprometeu-se a aumentar os salários, investir mais fundos no desmoronamento da saúde e educação e modernizar a infra-estrutura em ruínas.

O principal inimigo de Putin, o líder da oposição Alexei Navalny, foi impedido da corrida devido a uma convicção criminal amplamente vista como politicamente motivada.
Navalny pediu um boicote à votação.

A Associated Press contribuiu para este relatório.

"Qual é o objetivo?
Nós já conhecemos o resultado.
Este é apenas um show de circo ", disse ela.

- doutor ekaterina russo