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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O fim de uma era: Schäuble sai do Governo alemão

RITA SIZA
27 de setembro de 2017, 19:41
Wolfgang Schäuble aceitou candidatar-se à presidência do Bundestag

É a primeira grande consequência política das eleições na Alemanha. 
O poderoso ministro das Finanças, figura dominante durante a crise da zona euro, deixa o cargo para facilitar acordo de coligação - e garantir vigilância da extrema-direita no Parlamento.

Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão que foi a figura dominante durante a crise da zona euro e é genericamente considerado o arquitecto da austeridade para os países do Sul da Europa, não vai fazer parte do próximo Governo de Angela Merkel. 
Na próxima legislatura, o veterano político conservador vai assumir a presidência do Bundestag, a câmara baixa do Parlamento, que contará pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial com uma bancada de extrema-direita.

A transição de Wolfgang Schäuble do Governo para o Parlamento foi, considera a agência Bloomberg, a primeira grande “consequência” política do sucesso eleitoral do populismo e nacionalismo da Alternativa para a Alemanha (AfD) na votação de domingo.

A sua “promoção” terá também sido a forma mais pragmática da CDU resolver dois problemas nesta fase de negociações delicadas para formar uma nova coligação que se avizinha. 
Apesar de já haver contactos preliminares e conversas exploratórias – Sondierungsgespräche –, as conversações só deverão arrancar depois de ultrapassada a próxima etapa eleitoral na Baixa Saxónia, a segunda região mais populosa do país, a 15 de Outubro.

Por um lado, a sua saída do ministério das Finanças serve para facilitar o diálogo entre a CDU de Angela Merkel e o FDP de Christian Lindner. 
O líder dos liberais nunca escondeu que o seu objectivo num eventual acordo de formação de Governo é “arrecadar” a pasta das Finanças para o seu partido, que em comparação com a CDU é bastante mais ortodoxo na sua abordagem à política fiscal e orçamental. Numa entrevista ao Die Welt, Lindner lembrou que “os democratas livres só se juntarão a uma coligação se houver uma mudança de rumo na política alemã”.

Por outro lado, a presença de Schäuble no Bundestag garante à CDU um controlo efectivo sobre a actividade parlamentar, numa legislatura que será bastante mais complexa do que a anterior. 
À importância institucional própria do cargo de presidente do Parlamento – protocolarmente, é a segunda figura do Estado, depois do Presidente, Frank-Walter Steinmeier, e antes da chanceler Angela Merkel –, Schäuble acrescenta-lhe a uma enorme autoridade pessoal e grande experiência: aos 75 anos, é o político alemão há mais tempo em actividade e com mais mandatos (está há 45 anos no Bundestag).

“Estamos muito satisfeitos por Wolfgang Schäuble ter aceitado candidatar-se ao cargo de presidente do Bundestag”, afirmou esta quarta-feira o líder da bancada parlamentar da CDU, Volker Kauder. 
A candidatura vai ser formalizada a 17 de Outubro, uma semana antes do arranque dos trabalhos e da eleição do novo presidente, no dia 24 – o actual mandatário, Norbert Lammert, também da CDU, não concorreu à reeleição como deputado e depois de liderar o Bundestag desde 2005 vai afastar-se da política parlamentar.

“Grexit”?

A demissão de Wolfgang Schäuble do ministério das Finanças – onde chegou em 2009, quando a crise financeira dos Estados Unidos contaminou a economia mundial e provocou a crise da dívida – foi a palavra de ordem que uniu manifestantes em vários países sob resgate financeiro internacional. 
Visto como o principal promotor da austeridade como única receita para reequilibrar o défice, o ministro alemão era particularmente odiado na Grécia por causa da sua insistência em cortes drásticos na despesa em troca do apoio financeiro, uma solução que deixou o país à beira de uma crise humanitária.

Ainda assim, para os países do euro com défices elevados, pode ser precipitado festejar a saída de Schäuble das Finanças. 
Apesar da sua inflexibilidade, o conservador era defensor de maior integração na zona euro. 
Se for Lindner o seu sucessor no cargo, como se prevê, pode esperar-se uma visão bem mais intolerante e punitiva dos défices orçamentais.

O chefe dos liberais discorda de quase tudo o que o Presidente francês, Emmanuel Macron, acabou de propor para uma maior integração no espaço europeu, nomeadamente um orçamento comum. 
Rejeita “todas e quaisquer transferências financeiras automáticas” entre os membros da zona euro e quer endurecer as regras relativas à disciplina fiscal – o que pode levantar, outra vez, o fantasma do “Grexit”.

Novo palco

A presidência do Bundestag não deixará de ser um desafio para Schäuble, que como sempre lembram os jornalistas alemães, não tem nenhuma intenção de deixar tão cedo o grande palco da política nacional. 
O próximo Parlamento, com 709 deputados, terá mais dois grupos parlamentares do que o anterior: os liberais do FDP, que tinham sido punidos nas anteriores eleições por causa da sua aliança à CDU, regressam fortalecidos ao Bundestag. 
Mas a principal novidade é mesmo a entrada da AfD pela porta grande, como a terceira força política da Alemanha (equivalente a uma bancada de 94 deputados).

Esse resultado obrigou os dois maiores partidos, CDU e SPD, a rever as suas estratégias pós-eleitorais. 
Os sociais-democratas, confrontados com o seu pior desempenho desde 1949, precisam de regenerar o partido: perante a ameaça da extrema-direita, não lhes restava outra hipótese que não tentar afirmar-se como a grande força de oposição e verdadeira alternativa ao Governo conservador. 
Merkel mantém a porta aberta à negociação de uma nova “grande coligação”, consciente que Martin Schulz não tem margem de manobra para responder ao seu gesto de boa-vontade.

Menos pressionado, mas ainda assim penalizado pelo protesto dos seus eleitores tradicionais que se desviaram para a AfD nestas eleições, o partido de Merkel viu a sua missão negocial muito dificultada pela dispersão do voto para as franjas do espectro político. 
Irredutível na sua promessa de não conversar com as forças radicais à direita e à esquerda (a AfD e o Die Linke), a chanceler terá de fazer uso de todo o seu pragmatismo e talento para os consensos para montar uma coligação que será inédita a nível federal. 
Designada como Jamaica por causa das cores preta, amarela e verde dos partidos que a compõem, será sempre uma união forçada entre a CDU, o FDP e os Verdes – partidos (especialmente os liberais e os ecologistas) com posições por vezes antagónicas em diversos assuntos, da energia aos impostos, à Europa e à imigração.

Em declarações esta quarta-feira, Christian Lindner subiu a parada negocial, sublinhando que “embora haja uma maioria aritmética, os partidos envolvidos [na hipótese Jamaica] têm de seguir as instruções dos seus próprios eleitores. 
Se estas instruções podem ser combinadas sem contradições e no interesse nacional ainda é uma incógnita”.

rita.siza@publico.pt

Schäuble, o homem no centro da opção europeia pela austeridade

SÉRGIO ANÍBAL
27 de setembro de 2017, 20:12
Wolfgang Schäuble é ministro das Finanças desde Outubro de 2009

Nos últimos oitos anos, foi a imagem da austeridade na zona euro. Mas desde os anos 1980 do século passado que Wolfgang Schäuble está no centro da política alemã em relação à Europa.

Corria o ano de 2009, muitos dos Executivos europeus estavam ainda a ensaiar uma resposta à crise financeira e à recessão baseada em políticas keynesianas de expansionismo orçamental, e, em Outubro, Wolfgang Schäuble assumiu o cargo de ministro das Finanças alemão. 
A partir desse momento, a política económica seguida na Europa mudou.

A mudança poderia também ter acontecido sem Schäuble, é certo, mas é muito difícil minimizar o papel desempenhado pelo ministro alemão na arquitectura e na aplicação prática da política económica europeia dos oito anos seguintes. 
Foi um período em que os governos europeus, à medida que iam descobrindo as fragilidades da sua moeda única, aceitaram resgatar financeiramente os países em maior crise, mas impondo-lhes apertadas políticas de austeridade, e preferiram assistir ao apoio monetário dado pelo BCE, sem oferecerem um estímulo orçamental à economia.

Os apoiantes desta estratégia chamam-lhe política de estabilização e defendem que foi a melhor forma de assegurar um crescimento sustentável no futuro. 
Os mais críticos, dizem que foi uma receita para a subida do desemprego e para o surgimento de gerações perdidas nos países mais afectados pela crise.

O que é certo é que Wolfgang Schäuble esteve no centro de todas estas decisões europeias. 
Em primeiro lugar, pelo que fez na Alemanha. 
A maior economia da zona euro, com a força das suas exportações intacta e mesmo impulsionada pela depreciação do euro, foi a que resistiu de melhor forma à crise. 
O desemprego, em vez de subir, desceu, e o país foi acumulando excedentes com o exterior que até ultrapassavam os limites recomendados por Bruxelas.

Entidades como o Fundo Monetário Internacional começaram bastante cedo a recomendar que a Alemanha, em contraposto com o que tinham de fazer os países periféricos da zona euro, aplicasse políticas mais expansionistas, que impulsionassem o investimento e o consumo e ajudassem o resto da zona euro com mais procura.

Mas Wolfgang Schäuble – liderando a corrente de opinião prevalecente na Alemanha - não aceitou esses conselhos vindos do exterior e nunca viu razões suficientes para abdicar de uma política orçamental muito prudente que, pelo menos de momento, tem garantido resultados positivos na economia do país.

Depois, ao nível da política económica europeia, Schäuble assumiu como sua principal tarefa evitar que a União Europeia desse passos para se transformar na “união de transferências” que a Alemanha tanto teme. 
Fê-lo, ao influenciar grandemente a política europeia de Berlim, num equilíbrio nem sempre fácil com a chanceler Angela Merkel, e fê-lo pelo seu papel dominante no Eurogrupo. 
São vários os relatos que dão conta da grande capacidade de Schäuble para gerir maiorias e tendências dentro do grupo de ministros das Finanças da zona euro, não facilitando, nem as assinaturas de novos programas de resgate na Grécia, nem a entrega de novas tranches dos empréstimos. 
Ainda assim, quando se chegava a uma situação limite, era também ele que abria finalmente as portas para a concretização de um resgate.

Em 2015, com a Grécia, Wolfgang Schäuble deu sinais de estar mesmo disposto a forçar uma ruptura. 
No meio de mais uma cimeira de emergência para aprovar um novo programa de destaque, veio da Alemanha a ideia de suspender a participação da Grécia no euro. 
Foi um momento histórico em que uma proposta que deixava cair um dos Estados membros chegou mesmo a ser passada a escrito. 
Os outros países – e também Angela Merkel – reagiram, e Schäuble acabou por rapidamente recuar, mas ainda assim ainda hoje defende que essa solução teria sido a que mais rapidamente tiraria a Grécia da crise.

Na relação com Portugal, passou por diversas fases. 
Durante o Governo de Passos Coelho apresentou muitas vezes o país como um caso de sucesso, como uma prova de que é possível fazer bem melhor do que a Grécia. 
Quando o actual governo entrou em funções, e nos primeiros meses os mercados deram sinais de desconfiança, Schäuble acrescentou ainda mais dúvidas: “Portugal vinha tendo muito sucesso até [à chegada] de um novo Governo. 
As coisas estão a acontecer da forma para a qual eu alertei o meu colega português, porque eu lhe disse que se seguissem esse caminho iriam correr um grande risco”.

Mais recentemente, numa entrevista ao Expresso, já elogiou os “resultados impressionantes” conseguidos por Portugal nos últimos anos, mas fez questão de ligar esses sucessos, não à política nacional, mas à europeia. 
“Demonstra igualmente que a política de estabilização europeia funciona”, disse, assinalando que “os Estados que aplicaram e concluíram programas de assistência têm um crescimento acima da média”.

Não se pense contudo que foi só como ministro das Finanças no período da crise das dívidas soberanas da zona euro que Wolfgang Schäuble desempenhou um papel importante no rumo seguido pela Alemanha e pela Europa. 
Muito pelo contrário. 
Desde os anos 80 do século passado, quando foi um membro proeminente da CDU, e ocupou cargos nos governos de Helmut Kohl, sendo apontado como potencial sucessor, que é uma das referências mais influentes do pensamento político alemão, nomeadamente sobre a Europa.

Em 1994, quatro anos depois de ser alvo de um atentado à sua vida, publicou um ensaio – em conjunto com Karl Lamers, e Theo Waigel – em que propunha uma Europa a várias velocidades e em que um grupo de países (e que não incluía a Itália e a Espanha) caminhava rapidamente em direcção a uma união política muito mais avançada, a uma autêntica Europa federal. 
Esta é uma ideia que ainda hoje defende, afirmando frequentemente que é a favor da existência de um ministro das Finanças europeu.

Schäuble marcou com a sua proposta de 1994 o debate europeu da altura, mas as ideias que defendeu ficaram muito longe de passar à prática.

Agora que deixa de ser ministro das Finanças – e em que uma Europa a várias velocidades continua em discussão – Wolfgang Schäuble vai, com toda a probabilidade, continuar a querer dar razão aos que dizem que é a personalidade no activo que mais influenciou aquilo que é a Alemanha e a Europa. 
Ele é a figura de referência para muitos alemães e para a facção mais importante da CDU quando se discute a política económica e europeia do país. 
E, por isso, um novo Governo, mesmo sem Schäuble, vai ter sempre de continuar a ouvi-lo.

sergio.anibal@publico.pt

A economia tornou a eleição mais previsível, mas também tem problemas

SÉRGIO ANÍBAL
24 de setembro de 2017, 6:41
A imigração é uma solução para a falta de mão de obra, mas levantam-se questões políticas

Por trás de uma economia que conseguiu, com o resto da Europa em crise, colocar o desemprego abaixo de 4%, estão a emergir desafios como o aumento da desigualdade, a falta de inovação e os conflitos com os parceiros comerciais deficitários.


Uma economia a crescer acima de 2%, um sector exportador cada vez mais forte e que é o motor da economia, um excedente face ao exterior de 8% que é único a nível mundial e, principalmente, uma taxa de desemprego de 3,7%, a mais baixa em toda a zona euro. Basta olhar para estes indicadores na Alemanha, sabendo que foram construídos ao mesmo tempo que noutros países europeus se passava por uma crise profunda, para se ficar com boas pistas para se perceber porque é que se está a assistir a umas eleições classificadas por muitos como “aborrecidas” e “previsíveis”, sem o nível de incerteza que se viveu recentemente nos EUA, em França ou no referendo britânico, países abalados pela luta pelo poder de forças populistas.

Não se pense contudo que a forte economia alemã, a terceira maior potência exportadora do Mundo, está livre de problemas e de desafios que podem, caso não sejam enfrentados, colocar em causa a continuidade do seu bom desempenho em indicadores como o crescimento, o emprego e mesmo as exportações.

Um dos problemas detectados é que, a par do crescimento e da descida do desemprego, se tem assistido também a um agravamento da desigualdade na distribuição da riqueza.

Uma das razões mais vezes apontada para o sucesso da economia alemã durante este século é o facto de, durante o Governo liderado por Gerhard Schröder, terem sido postas em prática reformas estruturais na legislação laboral que flexibilizaram a economia e tornaram as empresas mais competitivas. 
Do outro lado da moeda, contudo, essas mudanças trouxeram para a Alemanha uma nova realidade de emprego precário e de salários baixos, que contribuíram que indicadores como o da percentagem da população em risco de pobreza (abaixo de 60% da mediana do rendimento) subissem para valores nunca vistos.

É verdade que ser considerado “em risco de pobreza” na Alemanha ou cair nessa classificação num país como Portugal é bastante diferente, mas o aumento da desigualdade e o sentimento de que são as grandes empresas que estão a retirar os principais benefícios do crescimento da economia são combustíveis poderosos para as tensões sociais. 
Durante as eleições, este foi um dos temas em que Angela Merkel foi mais alvo de críticas da oposição.

Outro problema muitas vezes identificado na economia alemã está no reduzido investimento que está a ser feito, nomeadamente público, e que pode constituir uma ameaça para o crescimento potencial da economia. 
O bom desempenho da economia alemã continua alicerçado nos sectores industriais tradicionais e há quem alerte para o perigo de não haver mais investimento, nomeadamente público, que dinamize outros sectores e promova a inovação. 
A Alemanha é por exemplo um dos países da zona euro com uma percentagem mais baixa de habitações com acesso a internet de alta velocidade (com um valor que é menos de metade do português). 
E é também por isso que, apesar de continuar a ser um líder no sector industrial, a Alemanha está longe dos primeiros na economia digital.

Outra dificuldade a que se assiste é a da falta de mão de obra no país, especialmente a mais qualificada. 
A imigração é uma das soluções de curto prazo para esse problema, mas também aqui têm vindo a ser encontrados obstáculos, de ordem política, cada vez mais difíceis de ultrapassar.

Por fim, há ainda a perspectiva de que a Alemanha seja sujeita a uma pressão crescente vinda do exterior para a alterar uma política económica que tem vindo a criar excedentes externos considerados insustentáveis. 
Para os mais críticos, o crescimento alemão dos últimos anos tem sido feito à custa de uma divisa subvalorizada que lhe permite, com mais facilidade, conquistar mercados, especialmente dentro da zona euro. 
E ouvem-se cada vez mais vozes, vindas de outros governos europeus, de Bruxelas, do FMI e da administração Trump nos EUA, que pedem às autoridades alemãs outro tipo de estratégia para a economia, que promova mais a procura interna e menos a competitividade face ao exterior.

Na Alemanha, há uma grande relutância em abandonar uma estratégia que tem garantido tanto crescimento e emprego, mas está a crescer a convicção de que, o novo Governo, seja qual for a sua composição, vai ser forçado, mais do que os anteriores, a dar uma resposta mais convicta aos desafios que a economia enfrenta.

sergio.anibal@publico.pt

Martin Schulz: o milagre que não aconteceu

TERESA DE SOUSA
24 de setembro de 2017, 6:42
Martin Schulz

Saiu do Parlamento Europeu para enfrentar a chanceler e ficou sem espaço para respirar. O velho partido de Willy Brand vai ter de fazer a sua introspecção.

Na última semana de campanha, quando já tudo parecia perdido, Martin Schulz, deu uma entrevista à Spiegel tentando explicar o que correu mal. 
Soava a último queixume do homem que deixou a presidência do Parlamento Europeu para se candidatar contra Angela Merkel. 
Em Janeiro deste ano, quando a chanceler parecia, pela primeira vez, vulnerável, Schulz decidiu sair do conforto de Bruxelas para liderar o combate contra a chanceler. 
Jogou a cartada do outsider.

Esteve 23 anos no Parlamento Europeu, onde, durante a crise do euro, foi a face simpática e solidária da Alemanha. 
Levava consigo o mérito de ter dado visibilidade a uma instituição que viu os seus poderes reforçados no Tratado de Lisboa. 
Viveu a crise sem ter de prestar contas aos alemães. 
“Nunca fui um apoiante destas medidas de austeridade. 
Equilibrar o orçamento, reduzir a dívida pública é necessário, mas se não tivermos crescimento económico e emprego (…), nunca conseguiremos corrigir o défice no longo prazo”, disse em 2016, numa entrevista à Euronews. 
Várias vezes lembrou que os 80 milhões de alemães não são nada perante os mais de mil milhões de chineses.

Viu uma oportunidade na súbita quebra de popularidade da chanceler. 
Afastou Sigmar Gabriel, o ministro da Economia e, agora, dos Negócios Estrangeiros da “grande coligação”. 
Foi eleito candidato por uma maioria esmagadora. 
O milagre parecia estar a acontecer. 
As sondagens colocavam o SPD taco a taco com a CDU, coisa que não acontecia há muitos anos. 
Uma onda de entusiasmo varreu a campanha. 
O “enguiço” de 2005, quando o chanceler Gerhard Schröeder perdeu as eleições para Merkel por uma pequena margem, parecia finalmente quebrado. 
O SPD tinha pago um preço elevado pelas reformas de Schröeder para abanar a economia alemã, que se arrastava penosamente. 
Os sociais-democratas acusavam-no de ter alienado o apoio dos poderosos sindicatos alemães.

teresa.de.sousa@publico.pt

Extrema-direita é o tema do dia eleitoral em Berlim

REPORTAGEM
MARIA JOÃO GUIMARÃES em Berlim 24 de setembro de 2017, 13:12

Num assembleia de voto em Berlim há vozes contra e a favor do partido Alternativa para a Alemanha (AfD).

Cornelius votou “num dos partidos da grande coligação que não é a CDU”, Serge vai votar pela primeira vez mas ainda não decidiu se na esquerda ou nos verdes. 
Mas para ambos o mais importante é que a AfD (extrema-direita) não tenha um bom resultado. 
Já Eva, que faz parte da equipa que ajuda na votação, parece defender o partido.

Estamos num centro comunitário em Berlim, onde se vota em locais clássicos como escolas ou em locais mais exóticos, desde um barco a um bar clássico de esquina até associações variadas. 
Tem de estar bem visível com a indicação de que se pode votar e ter três bandeiras: de Berlim, da Alemanha, e da União Europeia.

Cornelius, 52 anos, funcionário numa instituição de apoio a pessoas com deficiência, é dos poucos que quer falar (e sem dizer o apelido; a maior parte das pessoas não quer ver o nome associado ao seu voto e textos na Internet). 
Votou nos sociais-democratas (SPD), que governa na grande coligação os democratas-cristãos (a CDU) da chanceler Angela Merkel, um partido que, segundo as sondagens, se arrisca a ter hoje o pior resultado da sua história (20%, contra entre 34% e 38% da CDU de Merkel).

Não votará em Merkel, porque para si não é claro se ela não acabará por estabelecer um limite máximo de entrada de refugiados, o que para si é inaceitável. 
O melhor resultado seria a renovação da grande coligação, porque as outras opções são piores. 
“Mas o mais importante hoje é que a AfD fique o mais fraca possível.”

Serge, 35 anos, destaca-se neste centro pela altura e a cor da pele, escura no meio de tanta gente branca. 
“Esta eleição é muito importante para mim porque é a primeira desde que sou cidadão alemão”, diz, o que aconteceu há um ano e pouco. 
Ainda está a decidir o que vai votar, “esquerda ou verdes”, porque “o mais importante é que a AfD não tenha um bom resultado”, diz. 
As sondagens mais recentes prevêem que o partido fique mesmo em terceiro, chegando até 13%, com os liberais, Die Linke (A Esquerda) e os verdes atrás, com entre % e 11%.

Curiosa com as entrevistas que está a ver, Eva, 45, funcionária pública, quer falar. 
Faz parte dos voluntários que ajudam no dia das eleições, que recebem uma compensação de 20 ou 30 euros, e é algo que gosta de fazer. 
“Começamos às 7h, a preparar tudo, não é que não dê trabalho, mas é entusiasmante”, diz, numa pausa. 
Daqui a pouco está com um sorriso a dirigir pessoas para os seus locais, a mostrar os boletins, que são quilométricos, com todos os candidatos directos e dos partidos; e há ainda um boletim para um referendo sobre se o aeroporto de Tegel se deve manter aberto após a entrada em funcionamento do novo aeroporto (que devia ter aberto em 2011 e ainda não tem data definitiva para receber voos).

Eva está contente porque está a ver muita gente a votar. 
“Acho que estamos com uma boa afluência, e há já muita gente que votou por carta”, nota.

Esta eleição é especial, concorda, mas isso não se nota no ambiente, porque as pessoas não discutem o voto. 
“Se vai haver um terremoto logo à noite não sei, mas vai acontecer qualquer coisa, e talvez daqui a quatro anos haja então um terramoto”.

Está lançado o pretexto para ela explicar tudo o que está mal na política do país: “Merkel faz tudo o que é de esquerda”, “quem é conservador já não tem em quem votar”, a “AfD só está a fazer a política da CDU dos anos 1980 e 1990”, e, na sua opinião, o partido “é excluído e discriminado”. 
Assim como, acrescenta, toda a gente que os apoia. 
“Não se pode dizer nada, porque Merkel apresentou a entrada dos refugiados como humana, e ninguém quer ser desumano”. 
E começa uma pequena pantomina: “é tãããão sexy defender os refugiados, somos tãããããõ cosmopolitas”, diz com sarcasmo. 
Mas a verdade “é que se está a perder a paz social neste país.”

Além disso, “o que acontece é que não se pode dar uma opinião diferente, especialmente nos locais de trabalho”, queixa-se.

“Qual é o problema? 
As pessoas incomodam-se demasiado com o que os outros países vão pensar se a AfD tiver um bom resultado”, conclui.

maria.joao.guimarães@publico.pt

O que querem os eleitores da Alternativa para a Alemanha?

MARIA JOÃO GUIMARÃES em Berlim
25 de setembro de 2017, 11:48

Os eleitores da AfD não são mais pobres ou precários do que os dos outros partidos. O que motiva o voto deles é o medo em relação ao futuro. 
Esta segunda-feira, mais um sinal das divisões no partido de extrema-direita: Frauke Petry, candidata mais votada, anuncia que não quer ser deputada pela AfD.

Medo do crime, medo de perder o controlo, medo de não ser tido em conta. 
A Alternativa para a Alemanha (AfD) alimentou-se de uma característica muito alemã, um medo existencial, o Angst, para o seu sucesso – com 13% dos votos é o primeiro partido de extrema-direita a entrar no Bundestag (Parlamento) no pós-guerra.

O partido ganhou eleitores preocupados sobretudo com a identidade alemã e um medo que esta seja perdida por influência do islão. 
Segundo um inquérito aos eleitores do partido feito pela televisão pública ARD, 99% dos eleitores da AfD disseram que o partido “percebeu melhor do que os outros que as pessoas já não se sentem seguras”, e também concordam com acções para “diminuir a influência do islão na Alemanha”.

Outros 96% acham bem que sejam impostos limites à vinda de refugiados e 85% dos entrevistados viram este partido como o único meio de fazer um voto de protesto. Finalmente, um último dado interessante: 55% dos eleitores defendem que o partido não se distancia suficientemente de posições de extrema-direita.

Na manhã de segunda-feira, uma surpresa: Frauke Petry, uma das líderes do partido, anunciou que não vai fazer parte do grupo parlamentar da AfD e será uma deputada independente. 
Além disso, criticou os comentários de Alexander Gauland em que este prometeu “caçar Merkel”. 
O que esta decisão significa ninguém sabe: Petry foi a figura mais votada da AfD no seu círculo eleitoral.

A base de extrema-direita

A AfD tem flirtado com esta retórica como meio de ganhar publicidade a par de outras declarações polémicas (normalmente racistas) e assegurar cobertura mediática. 
Mas também, como explicou o analista do German Marshall Fund Joerg Forbrig ao PÚBLICO, para assegurar o voto claramente nazi, que no passado tinha ido para partidos que tiveram altos e baixos, como o Partido Nacional Democrata (NPD), mas que nunca chegaram a ser eleitos para o Parlamento nacional e apenas tiveram presença nos estados-federados.

A AfD tem de assegurar que mantém estes votos de extrema-direita, uma base relativamente estável, enquanto ganha os votos de protesto e de medo, uma base mais volátil. 
O partido conseguiu a maioria dos seus votos de pessoas que não tinham antes votado, 1,2 milhões, e cerca de um milhão de votos de antigos eleitores da CDU (os democratas-cristãos da chanceler Angela Merkel, que venceram as eleições), 500.000 do SPD (os sociais-democratas de Martin Schulz, partido de centro-esquerda) e outros 500.000 de Die Linke (partido de esquerda).

Refugiados, o ponto de viragem

Formada como partido anti-resgates do euro mesmo a tempo das eleições de 2013, a AfD começou a aproveitar um movimento de protesto contra a imigração logo em 2014, mas deu um salto sobretudo na sequência da entrada de quase um milhão de refugiados no ano seguinte.

O que aconteceu entre o momento em que os alemães foram recebê-los às estações de comboio no Verão de 2015 e os meses seguintes foi que em muitos locais o processo arrastou-se: a burocracia alemã não estava a conseguir acompanhar os casos, ginásios de escolas ficaram meses a fio ocupados por refugiados, e em algumas pessoas começou a criar-se uma sensação de que o país não estava preparado e não ia conseguir integrar os recém-chegados. 
Dois anos depois, os sinais de integração são promissores, a maioria dos menores estão a estudar, e tudo parece estar, aos poucos, a funcionar. 
Mas a AfD tornou-se o único partido para os eleitores que queriam expressar este medo dos refugiados.

Sentimento de insegurança

Richard Hilmar, especialista em sondagens que fez um inquérito sobre a AFD, disse antes da votação que o principal factor que leva ao voto na AfD é “o medo do futuro”: “Estas pessoas vêem muito mais problemas do que os outros, sentem-se muito mais inseguras”, diz, dando mais atenção a relatos de crimes, acreditando mais em teorias da conspiração.

A vida destes eleitores corre bem, sublinha. 
“Não são, em média, mais pobres ou mais precários”, diz, notando que ele próprio foi surpreendido por isso: há pessoas com alto nível de instrução e também de rendimentos entre os eleitores da AfD. 
Têm é medo de que a sua situação mude para pior. (Aliás, esta não é uma característica apenas alemã, muitos partidos de extrema-direita ou direita populista têm apelo em países com boa situação económica e social como a Áustria ou a Suíça).

Os eleitores da AfD “sentem que perderam o controlo da sua vida, e que a Alemanha está a perder o controlo”, resume Richard Hilmar. 
“Sentem que não são ouvidos e que a sua vida é decidida de um modo em que não participam.”

Força no Leste

A votação da AfD no Leste, nos estados-federados da antiga República Democrática Alemã, foi ainda muito maior do que no Ocidente. 
Vários factores explicam esta diferença: o Leste foi muito menos exposto a imigração durante a altura da ex-RDA e o sistema comunista desencorajava o debate social; muitos alemães de Leste sentiram-se perdidos quando o seu país desapareceu e se juntaram à República Federal, contribuindo para o desejo de manutenção de uma identidade; muitos cargos importantes em instituições políticas ou empresas no Leste foram ocupados por alemães ocidentais, algo que é ainda apontado como causa de ressentimento.

Como lidar com a AfD?

O modo como os partidos e os media lidaram com a AfD também contribuiu para o seu sucesso, alimentando a ideia de que são injustamente excluídos e vítimas de preconceitos.

A cobertura mediática de polémicas só lhes trouxe mais publicidade, totalmente desproporcional ao seu peso. 
No seu discurso na noite eleitoral, Merkel disse que quer ganhar os eleitores da AfD, ouvir as suas preocupações e lidar com os seus medos mas, sublinhou, atrás de boas soluções políticas.

A entrada do partido no Parlamento, ainda por cima com esta força, vai trazer-lhes “níveis de financiamento, influência, e visibilidade com que os anteriores partidos de extrema-direita nunca sonharam ter”, diz Joerg Forbrig.

Notícia corrigida às 13h50: Frauke Petry não vai sair da AfD, como se referiu antes. Recusou ser deputada pelo partido e vai ser deputada independente.

A cobertura mediática de polémicas só lhes trouxe mais publicidade, totalmente desproporcional ao seu peso. 
No seu discurso na noite eleitoral, Merkel disse que quer ganhar os eleitores da AfD, ouvir as suas preocupações e lidar com os seus medos mas, sublinhou, atrás de boas soluções políticas.

A entrada do partido no Parlamento, ainda por cima com esta força, vai trazer-lhes “níveis de financiamento, influência, e visibilidade com que os anteriores partidos de extrema-direita nunca sonharam ter”, diz Joerg Forbrig.

maria.joao.guimaraes@publico.pt

Schulz recusa nova coligação e deixa Merkel perante hipótese nunca antes tentada na Alemanha

MARIA JOÃO GUIMARÃES em Berlim 
24 de setembro de 2017, 17:38 actualizado a 24 de setembro às 22:00
Apoiantes dos Verdes reagem à subida acentuada da extrema-direita indicada pelas primeiras projecções

A CDU/CSU de Angela Merkel venceu as eleições alemãs de domingo com o terceiro pior resultado de sempre para os democratas cristãos. E a extrema-direita tornou-se na terceira força política nacional.

A sede da CDU, em Berlim, ainda gritou em apoio quando saíram as primeiras projecções da televisão pública ARD, após o fecho das urnas na Alemanha, às 17h de Lisboa. 
Mas ao ficar em 32,5%, o resultado era tudo menos o esperado: antes de domingo, as sondagens tinham dado à CDU/CSU (que junta a União Democrata Cristã e União Social Cristã, que concorre só na Baviera) valores bem mais altos, nunca abaixo dos 34%.

Nas eleições de 2013, a CDU/CSU teve 41,5% dos votos, ficando perto de uma maioria absoluta, o que seria uma verdadeira raridade na Alemanha, que teve apenas um governo deste género em 1957. 
A descida agora assinalada em 2017 é marcada.

O Partido Social-Democrata (SPD), que concorreu com Martin Schulz, vindo da presidência do Parlamento Europeu e que não conseguiu manter uma onda de entusiasmo que se seguiu ao anúncio-surpresa da sua candidatura, ficou em segundo com 20% dos votos, de acordo com as primeiras projecções.

É um resultado que merece um adjectivo forte. 
É desastroso. 
Em 2013, o SPD ficou num longínquo segundo lugar com 25%, e acabou por entrar numa “grande coligação” com a CDU, como tinha feito em 2005-2009, apesar dessa primeira participação ter contribuido para que nas eleições de 2009 os sociais democratas tivessem registado o seu pior resultado até àquela data, com 23%.

A terceira força política a sair das eleições deste domingo é claramente o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla alemã), com 13,5%. 
Perante esta projecção, o silêncio foi marcado na sede da CDU em Berlim.

A AfD, criada em 2013 como um partido de oposição à política de resgates financeiros aos países do euro em dificuldades, tinha então ficado a pouco de entrar no Parlamento (que estabelece um limiar de 5% dos votos), com 4,7%.

O que esta votação de hoje significa é que o partido, racista e anti-imigração, vai receber fundos federais como todos os partidos com assento parlamentar, tornando-o numa força permanente na política alemã: mesmo que não se antecipe que possam fazer um grande trabalho no Parlamento (porque não têm quadros suficientes e têm tido vários problemas internos), vão ter uma estrutura verdadeiramente nacional e vão poder ter verbas para a cimentar.

Os liberais voltam ao Parlamento depois de terem ficado fora após as últimas eleições, o que aconteceu pela primeira desde a sua criação em 1949. 
O novo líder, Christian Linder, mostrou-se favorável a medidas duras em relação aos países do euro alvo de programas de resgate e também na imigração, e terá sido recompensado com uma votação de 10%, segundo a projecção da ARD.

Seguiram-se os Verdes com 9,4% e Die Linke (A Esquerda) com 8,9%. 
Die Linke foi em 2013 o terceiro partido com 8,4%, seguido de perto pelos Verdes com 8,4%.

Para Merkel, e depois do SPD ter dito que estava oficialmente fora da grande coligação governamental com a CDU/CSU, a única opção é uma chamada coligação "Jamaica" de 348 deputados com os liberais e os Verdes, o que seria uma estreia a nível nacional. 

maria.joao.guimaraes@publico.pt

Merkel quer negociar com o SPD apesar da “nega” de Schulz

PÚBLICO
25 de setembro de 2017, 17:37

Chanceler disse esta segunda-feira que "todos têm a responsabilidade de garantir que vai existir um Governo estável".

Angela Merkel assumiu esta segunda-feira a responsabilidade pelos resultados abaixo do esperado da CDU/CSU, apesar de defender a forma como conduziu a campanha eleitoral. Além disso, e apesar da perspectiva de uma coligação inédita com os liberais do FDP e com os Verdes, a chanceler anunciou que ainda quer sentar-se à mesa com o SPD. 
Isto apesar do seu líder, Martin Schulz, ter já descartado a continuidade da coligação governamental com os democratas-cristãos de Merkel.

“Eu ouvi as palavras do SPD. 
No entanto, deveríamos continuar em contacto”, afirmou Merkel numa conferência de imprensa, citada pela Reuters. 
“Penso que todos os partidos têm a responsabilidade de garantir que vai existir um Governo estável”, acrescentou.

“Penso que a campanha eleitoral correu bem”, defendeu a chanceler. 
No entanto, assumiu a responsabilidade pela maioria frágil que obteve no sufrágio de domingo e pela fragmentação política na Alemanha, nomeadamente em relação a decisões como a abertura das portas aos refugiados e imigrantes em situação irregular que chegavam, na sua maioria, do Médio Oriente.
Sobre a chegada da Alternativa para a Alemanha (AfD) ao Parlamento (sendo o primeiro partido de extrema-direita com presença no Bundestag desde os anos 60), e relativamente à questão da imigração e aos problemas sociais e económicos nas áreas rurais, temas que foram eficientemente explorados pela AfD, Merkel prometeu concentrar-se no essencial e não pensar noutros partidos: “Vou continuar a tentar não falar nos outros, mas vou fazer o trabalho de casa”.