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domingo, 15 de outubro de 2017

Vitória dos conservadores austríacos abre caminho à extrema-direita

ELEIÇÕES
JOÃO RUELA RIBEIRO
15 de Outubro de 2017, 16:25 actualizada às 19:05
Sebastian Kurz, líder do ÖVP, deverá procurar entendimentos com a extrema-direita do Partido da Liberdade (FPÖ)

O Partido Popular venceu as eleições legislativas deste domingo, mas a chave do próximo Governo está nas mãos da extrema-direita. Verdes foram arrasados.

A remodelação operada pelo jovem líder do Partido Popular (ÖVP), Sebastian Kurz, deu frutos que se traduziram na vitória dos conservadores nas eleições legislativas austríacas este domingo. 
Mas para governar Kurz terá de procurar entendimentos com a extrema-direita do Partido da Liberdade (FPÖ) que conseguiu superar as expectativas. 
Os social-democratas do SPÖ até conseguiram melhorar os seus resultados, mas devem ficar na oposição.

Os resultados mostram que os austríacos receberam bem as mudanças que Kurz instituiu no ÖVP, apostando, sobretudo num endurecimento na política de recolhimento de refugiados. 
Dos 24% obtidos em 2013, os conservadores subiram para 31%.

Desde que ascendeu à liderança do partido, em Maio, Kurz colocou a imigração no topo da sua agenda, prometendo acabar com a “imigração ilegal”, cortes nas prestações sociais para imigrantes que vivam há menos de cinco anos no país e até encerrar as creches muçulmanas.

Propostas deste tipo levaram mesmo o lider do FPO, Heinz Christian Strache, a acusar Kurz de se apropriar dos temas que estão no coração do programa do partido de extrema-direita. 
“Fizemos do impossível, possível”, disse Kurz no seu discurso de vitória. 
“Conseguimos abrir o Partido Popular e assim o fortalecemos”, acrescentou. 
Aos 31 anos, o até agora ministro dos Negócios Estrangeiros prepara-se para ser o mais jovem chefe de Governo do planeta.
Apoiante da extrema-direita com uma foto de Stracher, o líder da FPÖ

Segue-se agora o período de negociações para que seja alcançado um acordo de coligação. 
É improvável que Kurz queira reeditar a “grande coligação” com os social-democratas, o que obriga a um entendimento com a extrema-direita. 
O Governo cessante, composto pelos dois principais partidos, foi pródigo em desentendimentos, desde a reforma fiscal à política de acolhimento de refugiados – e foi o falhanço em chegar a acordos que precipitou a marcação de eleições antecipadas.

A dureza da campanha eleitoral – com a abertura de queixas judiciais entre ÖVP e SPÖ – também contribuiu para um clima de desconfiança entre os partidos que desde o fim da II Guerra Mundial têm partilhado o poder na Áustria.

Derrota da esquerda

Os social-democratas foram um dos derrotados da noite, apesar de terem tido praticamente o mesmo resultado que em 2013 lhes deu a vitória, 27%. 
Porém, a subida acentuada da direita impede a entrada do SPÖ no executivo. 
Uma das hipóteses para evitar a entrada da extrema-direita no Governo seria a demissão do líder social-democrata, o ex-chanceler Christian Kern. 
Porém, foi o próprio que garantiu que não se irá afastar.

O FPÖ foi o outro grande vencedor da noite eleitoral, obtendo perto de 26% dos votos, embora não tenha conseguido tornar-se a segunda força política. 
A extrema-direita fica agora com o caminho aberto para regressar ao Governo, quase duas décadas depois.

A integração da extrema-direita numa coligação governamental não é inédita na Áustria. Entre 2000 e 2005, o FPÖ, liderado então por Jörg Haider, manteve uma coligação com o ÖVP, levando à suspensão do direito de voto da Áustria no Conselho Europeu – essa sim uma decisão tomada uma única vez.

Hoje, o contexto europeu é consideravelmente diferente, com a progressão de várias forças políticas que partilham o ideário do FPÖ, tal como a Frente Nacional, em França, ou a Alternativa para a Alemanha, que recentemente se tornou na terceira força política do país vizinho. 
Uma das certezas é que o próximo Governo austríaco irá adoptar posições mais duras em relação à imigração, juntando-se a um conjunto de países (como a Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia) que têm bloqueado iniciativas europeias de relocalização de requerentes de asilo.

Muito penalizadas ficaram as formações mais pequenas como os Verdes, que, depois de terem conseguido fazer eleger o ex-líder Alexander van der Bellen como Presidente, correm o risco de não ter sequer representação no Parlamento. 
Já o partido liberal Neos e os ecologistas da lista Pilz, fundado por um dissidente dos Verdes, devem conseguir eleger alguns deputados.

joao.ruela@publico.pt

Campanha mais suja de sempre pode acabar com a extrema-direita no Governo

ÁUSTRIA
MARIA JOÃO GUIMARÃES
15 de Outubro de 2017, 7:40
Cartaz de campanha dos conservadores, de Sebastian Kurz 

Conservador Sebastian Kurz é o favorito nas eleições austríacas deste domingo. Mas o Partido da Liberdade prepara-se para entrar numa coligação, seja com a direita, seja com a esquerda.

O que fez os dois principais partidos políticos austríacos, que ainda por cima governam em coligação, acabar em tribunal por causa da campanha para as legislativas antecipadas deste domingo?

Um conselheiro político israelita, que trabalhava para os sociais-democratas, do chanceler Christian Kern, terá usado páginas falsas de Facebook para apresentar o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sebastian Kurz, o seu rival do partido conservador que vai à frente nas sondagens, como racista e anti-semita.

Mas também um porta-voz de Kurz e um dos seus mais próximos aliados foi apanhado a fazer uma oferta de pagamento de 100 mil euros a um membro da campanha rival para que este trocasse de lado.

Não admira que cada um dos dois partidos tenha acabado acusado, em tribunal, pelo outro.

A revista austríaca Profil, que divulgou pormenores dos casos, não tem hesitações em titular, na capa, que esta é “a campanha de mais baixo nível de todos os tempos”.

As sondagens dão vantagem ao ÖVP, o partido conservador de Kurz, de 31 anos, que tem cerca de 33% das intenções de voto. 
Em segundo lugar estão os sociais-democratas do SPÖ, com 27%, embora praticamente empatados com o partido de extrema-direita FPÖ, com 25%.

O partido liberal Neos aparece com 5% e os Verdes, do Presidente Alexander van der Bellen (que derrotou o candidato do FPO, Norbert Hofer, em Dezembro do ano passado), com 4%, e a lista Pilz, ecologista, com 4%.

Mas ainda havia uma grande percentagem de indecisos e a luta entre os dois principais partidos ameaça prejudicá-los e dar mais hipóteses à extrema-direita de ficar em segundo lugar. 
As últimas presidenciais, com dois candidatos das franjas a chegar à segunda volta, reflectiram o cansaço dos eleitores com os dois partidos do centro político, que governaram em coligação grande parte dos últimos 70 anos.

Lista de condições

Independentemente do resultado, antecipa-se que o FPÖ entre no Governo, seja ele liderado pelos conservadores ou pelos sociais-democratas. ~
Os conservadores têm já um precedente, a coligação com o FPÖ então liderado por Jörg Haider, de 2000 a 2005. 
Os sociais-democratas, ao contrário do que fizeram até agora a nível nacional, não excluíram associar-se ao FPÖ – embora considerando uma lista de condições que o partido de extrema-direita teria de cumprir para uma eventual coligação.

No Executivo cessante, SPÖ e ÖVP vinham a desentender-se sobre várias questões, desde a reforma fiscal até à entrada de refugiados, o que levou à convocação de eleições antecipadas — originalmente, estavam previstas só para o Outono de 2018. 
Este desentendimento, exacerbado pela luta com golpes baixos durante a campanha, torna difícil um novo acordo de coligação entre os dois partidos. 
A maioria dos observadores espera agora um governo de direita com a extrema-direita.

Os conservadores mudaram de líder, escolhendo o jovem Sebastian Kurz, que assumira o cargo dos Negócios Estrangeiros com apenas 28 anos e se revelou um político especialmente hábil, com talento particular na comunicação. 
Na altura, ainda se antecipava que o FPÖ pudesse ficar em primeiro, mas Kurz rapidamente subiu para o topo nas sondagens.

Enquanto responsável pelos Negócios Estrangeiros, defendeu o corte da chamada "rota dos Balcãs", para impedir a passagem de refugiados do Médio Oriente em 2015, e tem aumentado os incentivos para que os refugiados deixem o país. 
A Áustria, um país de cerca de 8,7 milhões de habitantes, serviu sobretudo de trânsito, mas cerca de 90 mil refugiados ficaram no país e pediram asilo.

Na campanha, Kurz fez da imigração tema central e defendeu mais cortes nos subsídios, o fim de toda a “imigração ilegal”, e acabar com as creches muçulmanas – porque, disse, carregam o perigo de criação de uma “sociedade paralela”.

O FPÖ tem acusado os conservadores de “serem uma fotocopiadora” das suas propostas, como disse ao Financial Times Mario Kunasek, líder do FPÖ na região de Styria. 
Analistas sublinham que mesmo que o partido não seja o vencedor das legislativas, as suas ideias vingaram na Áustria, de facto.

O cenário do FPÖ no Governo não tem comparação com o que foi na sua estreia: com partidos populistas e de direita radical em vários Governos, da Hungria à Noruega, a paisagem política europeia é muito diferente daquela que levou os então 14 parceiros europeus a decretarem sanções à Áustria.

O partido também mudou: depois de uma cisão em 2005 e o desaparecimento de cena de Haider, morto num acidente de carro em 2008, passou anos a preparar-se para chegar de novo ao poder. 

maria.joao.guimaraes@publico.pt

Os protagonistas da eleição austríaca

POLÍTICOS
REUTERS 15 de Outubro de 2017, 7:40
Debate televisivo com os líderes dos maiores partidos

SEBASTIAN KURZ, Partido Popular (ÖVP)
O ministro dos Negócios Estrangeiros, de 31 anos, espera levar o seu partido, conservador, à vitória. 
Comprometeu-se a conversar com todos os partidos após as eleições. 
Fez campanha com a promessa de acabar com os velhos compromissos das coligações ao centro, sugerindo que poderia juntar ao Partido da Liberdade (FPÖ, de extrema-direita). Mas avisou que poderia haver mudanças nos social-democratas, o que poderia levar a um restabelecimento da actual coligação de governo – tem elogiado repetidamente o ministro da Defesa, o social-democrata Hans-Peter Doskozil.

CHRISTIAN KERN, Social-Democratas (SPÖ)
Chanceler há menos de 18 meses, é um governante em apuros e um mau resultado nestas eleições pode fazê-lo perder o cargo. 
O seu partido está envolvido numa tentativa de denegrir Kurz. Kern e Kurz desprezam-se mutuamente. 
Tem tido alguns debates cordiais com Heinz-Christian Strache, líder do FPÖ, mas sublinha que os dois partidos “vivem em mundos diferentes”.
Christian Kern, um chanceler em apuros

HANS PETER DOSKOZIL, SPÖ
Tornou-se famoso em 2015, como chefe de polícia da província austríaca que teve o maior afluxo de refugiados do Médio Oriente. 
Rapidamente foi nomeado ministro da Defesa e tornou-se o porta-voz do seu partido, os sociais-democratas, para as questões da imigração. 
Doskozil tem assumido posições duras, privilegiando a segurança das fronteiras, o que levou a um conflito com a vizinha Itália mas ganhou pontos com Strache e com Kurz. 
Na sua província de Burgenland, a FPÖ e SPÖ governam juntos, a nível regional. 
Seria um candidato forte para assumir a presidência dos sociais-democratas, se Kern fosse obrigado a afastar-se – embora provavelmente tivesse a oposição da ala mais à esquerda do partido. 

HEINZ-CHRISTIAN STRACHE, Partido da Liberdade, FPÖ
O líder do Partido da Liberdade, de extrema-direita, há mais de uma década, tem uma posição privilegiada nestas eleições, em que pode acabar por ser a peça-chave de uma nova coligação. 
Este político veterano, que quer muito ser vice-chanceler, elogiou Kern, por se mostrar mais aberto a negociar com a FPÖ e conduziu uma campanha em que mantém todas as opções em aberto: critica a imigração, mas apela também à “justiça social”, um tema central para o centro esquerda
Stracher ambiciona ser vice-chanceler

ALEXANDER VAN DER BELLEN, Presidente
Ex-líder dos Verdes, ganhou uma eleição renhida e a sua repetição (devido a irregularidades) contra o FPÖ e disse que faria tudo para evitar que Strache se tornasse chanceler. 
Voltou entretanto atrás, dizendo que apenas queria que o Governo fosse pró-Europeu. Como chefe de Estado tem o poder de demitir e nomear governos, e no passado os Presidentes desempenharam um papel crucial na formação de coligações.