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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O continente dos caminhos que se bifurcam


RUI RAMOS

2/2/2015, 8:00   51299 PARTILHAS


FUTURO DA GRÉCIA
FUTURO DA GRÉCIA
O governo grego tem um problema próprio, que não é o do crescimento, nem o da dívida, mas o de defender um tipo de sociedade que só é viável através da taxação das outras populações europeias.

Merkel perdeu as eleições na Grécia, e tem um problema. 
Mas Tsipras não ganhou as eleições na Alemanha, e também tem um problema. 
Tsipras e os seus aliados anti-semitas de extrema-direita dizem dispor de um mandato democrático para acabar com a “austeridade”. 
Mas a austeridade na Grécia também é um resultado da democracia. 
Não da democracia na Grécia, mas da democracia na Alemanha e noutros países onde os cidadãos não estão entusiasmados pela ideia de pagar os custos de manter a Grécia na zona euro. 
O inferno são de facto os outros.

O euro foi sempre muito mais popular na Grécia do que na Alemanha. 
A maioria dos alemães nunca quis o euro, porque percebeu logo, como aliás perceberam os gregos, que iria converter-se num meio de transferir dinheiro do norte para o sul. 
Essa transferência, até há pouco tempo, tinha no entanto uma razão de ser: era uma ajuda para aproximar e integrar gradualmente sociedades europeias com diferentes níveis de prosperidade. 
Os alemães pagavam, mas um dia, nas margens meridionais do continente, haveria comunidades mais ou menos iguais à sua, em costumes e em prosperidade. 
A vitória do Syriza demonstrou que tudo isso era uma ilusão. 
A Grécia, depois de mais uma década na zona Euro e mais de três décadas na CEE e na União Europeia, quer o dinheiro dos alemães, mas não quer ser como os alemães.

A nova oligarquia grega resolveu, astutamente, tentar focar as atenções na questão da “reestruturação” da dívida. 
Alguns evocam até precedentes de solidariedade europeia, como o perdão da dívida alemã em 1953 (de facto, esse perdão só abrangeu na prática as penalidades impostas pelos vencedores da I Guerra Mundial, mas não os créditos contraídos pela Alemanha). 
Acontece que a verdadeira questão grega não tem tanto a ver com a dívida, que já foi parcialmente perdoada, mas com as chamadas “reformas” que desde 2010 a troika tentou negociar com os governos de Atenas em troca de assistência financeira. 
O que todos descobriram entretanto é que essas reformas são incompatíveis com o regime grego.

Durante décadas, a oligarquia grega, uma das mais corruptas da Europa, arranjou votos convencendo os eleitores de que podia fazer da Grécia uma sociedade de funcionários públicos que se reformam aos 45 anos. 
Foi esse ideal que a velha oligarquia não foi capaz de defender perante a troika em 2010, e é desse ideal que o Syriza e os seus aliados da extrema-direita são agora os novos campeões. 
O problema é que precisam que todos os outros europeus, a começar pelos alemães, lhes sustentem o sonho.

Durante muito tempo, foi possível negociar e transigir de parte a parte, porque do lado grego estavam partidos apesar de tudo “europeístas”. 
A família Karamanlis, também conhecida por Nova Democracia, e a família Papandreou, com o pseudónimo de PASOK, estavam filiadas nas “internacionais” democrata-cristã e socialista que  alternavam nos governos dos países europeus e que haviam concebido e protagonizavam a integração europeia desde a década de 1950. 
Essa filiação tinha dado aos velhos oligarcas gregos maneiras e alguns escrúpulos típicos do europeísmo.

O Syriza e os seus colaboradores anti-semitas estão, porém, isentos desses compromissos. 
O novo governo grego não representa uma “viragem à esquerda”, como no tempo em que os eleitorados oscilavam entre a direita e a esquerda, mas uma ruptura nacionalista com o europeísmo das gerações do pós-guerra. 
Por isso, não hesitou em reabrir as cicatrizes da II Guerra Mundial, ao deixar correr a hipótese de reclamar com juros as extorsões nazis, nem teve dúvidas em inclinar-se a favor da autocracia de Putin contra as democracias ocidentais. 
A Grécia é neste momento governada por uma coligação que quer o euro apenas porque quer o dinheiro que lhe chega através da união monetária, mas não quer a União Europeia, isto é, o projecto de se aproximar dos modelos sociais e económicos da Europa nórdica.

Já passou, por isso, o tempo dos “compromissos razoáveis”. 
Há ainda europeístas que acreditam que tudo se resolverá entre a Grécia e os seus parceiros europeus quando o debate for centrado na procura de uma solução comum para um problema comum, que seria o do “crescimento” na Europa. 
Mas o governo grego não tem espírito europeísta e tem um problema próprio, que não é o do crescimento, nem o da dívida, mas o de defender na Grécia um tipo de sociedade que, ao nível de prosperidade que alcançou em 2010, só é viável através da taxação das outras populações europeias.

Um triunfo do Syriza e dos seus aliados de extrema-direita galvanizaria certamente o Podemos em Espanha. 
Mas o risco não está nas réplicas do Syriza em outros países do sul. 
O mais importante é que no dia em que Angela Merkel parecer que cedeu ao nacionalismo grego, nesse dia começará a ascensão do nacionalismo alemão e o declínio dos partidos europeístas da Alemanha.

Só visto do sul é que o “domínio alemão” existe, porque se confunde “domínio” com a relutância alemã em despejar dinheiro no sul do continente, a não ser no quadro de uma adaptação das suas sociedades e economias aos padrões nórdicos. 
Do ponto de vista germânico, a história dos últimos anos é uma longa cadeia de derrotas e de submissões: os alemães não queriam o euro, e tiveram o euro; não queriam resgates, e tiveram resgates; não queriam o BCE a imprimir dinheiro para financiar défices, e têm o BCE a imprimir dinheiro para financiar défices. 
Será fácil convencer o eleitorado alemão de que também ele merece ser “independente”. Já não vale a pena fingir: estamos a viver um momento histórico, em que os caminhos na Europa finalmente se bifurcaram.

Tsipras, um inimigo da liberdade?


Alexandre Homem Cristo
2/2/2015, 8:07

FUTURO DA GRÉCIA
FUTURO DA GRÉCIA

Muitos esperam que do Syriza nasça uma alternativa de política económica, mas aquilo que o Governo grego se propôs executar é bem diferente – a ruptura profunda com os alicerces do liberalismo europeu

A esquerda europeia andou anos à deriva. 
Compreende-se, portanto, a sua euforia (nomeadamente em Portugal) face à vitória do Syriza, normal em quem acredita estar perante algo que nunca teve – uma alternativa às políticas de austeridade. 
Mas passada uma semana da eleição do novo governo grego, vai-se tornando incompreensível a aceitação acrítica das suas primeiras decisões que noutras circunstâncias fariam soar os alarmes.

Existe, logo à partida, um problema de expectativas. 
Muitos esperam que do Syriza nasça uma alternativa de política económica (sobre a gestão das dívidas dos países europeus e sobre o cumprimento das metas orçamentais). 
Mas aquilo que o Governo grego se propôs executar esta semana é bem diferente – uma ruptura profunda com os alicerces do liberalismo europeu. 
Aos microfones, Tsipras apresenta-se como salvador da democracia. 
Mas, na verdade, fez muito mais para nos convencer de que é um inimigo da liberdade. 
Isto porque, em apenas sete dias, sobressaíram dois inquietantes sinais de que o seu projecto político implica a fragilização das instituições europeias.

Comecemos pelo início: a coligação. 
Em menos de uma hora de conversações, Tsipras chegou a acordo para a constituição do Governo com o partido dos Gregos Independentes (Anel), oriundos da direita populista. 
À primeira vista, estranha-se a facilidade de entendimento entre dois partidos que se posicionam em polos ideológicos opostos. 
Depois, percebe-se. 
Tal como todos os partidos populistas europeus são anti-troika e anti-austeridade, Syriza e Anel estão unidos por essa causa. 
E não é porque consultaram os mesmos economistas: é porque o combate à austeridade é hoje a forma mais popular de abanar os alicerces das instituições europeias. 
O alvo do Syriza, do Anel ou, por exemplo, do Front National francês sempre foi este: romper com os princípios fundamentais (e forçosamente liberais) da União Europeia. 
Por isso, nada mais irrelevante que Syrizae Anel discordem sobre o resto. 
Já se sabe: o que une os revolucionários é a revolução, não o que se lhe segue.

O segundo sinal desta ruptura com os princípios europeus ficou concretizado com a espontânea aproximação de Atenas a Moscovo. 
No dia em que tomou posse como primeiro-ministro, Tsipras reuniu com o embaixador russo. 
Três dias depois, a Grécia opôs-se a novas sanções europeias à Rússia em reacção ao ataque das forças pró-russas em Mariupol. 
No dia seguinte, o ministro das finanças russo é entrevistado pela CNBC, afirmando a disponibilidade dos russos para financiar os gregos. 
A sequência de eventos fala por si.

Do ponto de vista táctico, a aproximação de Tsipras a Putin é um erro evidente, do qual cedo se arrependerá – tanto porque a Europa lida mal com as chantagens de Moscovo como porque a economia russa, à beira de uma recessão grave e a olhar com terror para a queda do preço do petróleo, mal se consegue financiar a si própria, quanto mais aos outros.

Mas maior erro é analisar-se a questão do ponto de vista da táctica. 
É que o que separa Bruxelas e Moscovo não cabe numa folha de excel – é todo um conjunto de valores, liberdades e princípios democráticos que está em causa. 
Muito do que nos define como sociedades livres (liberdade de expressão, de imprensa, de associação política) é uma miragem na Rússia de Putin. 
E se Tsipras concretizar essa aproximação à Rússia, estará inevitavelmente a afastar-se desses valores liberais.

Nesta fase, não é certo o que será mais inquietante. 
Se os sinais que vêm da Grécia. 
Se a cegueira eufórica com que têm sido recebidos, na esperança de que a onda alastre a Espanha por via do Podemos (que este fim-de-semana fez uma manifestação de força). Por enquanto, são apenas isso, sinais. 
E daí a interrogação que consta do título. 
Mas será bom para todos (gregos, espanhóis e europeus) que não se convertam em certezas.

Não é aceitável um governo cuja identidade se afirma pela recusa dos princípios da liberdade. 
Nem é aceitável que tal política tenha espaço no coração da nossa Europa.

Fim da troika? Comissão avalia cautelar sem FMI em Atenas

Alexis Tsipras tem encontros esta semana com responsáveis europeus
2/2/2015, 8:37
Liliana Valente

A Comissão Europeia está a estudar uma solução para oferecer a Tsipras que passa pela dissolução da troika, diz o jornal espanhol El País. 
Reestruturação da dívida grega estará em cima da mesa.

Na semana escolhida pelo novo primeiro-ministro grego para um périplo pela Europa para negociar a situação grega, a Comissão Europeia pode estar a estudar uma solução de compromisso para colocar em cima da mesa: o fim da troika. 
O diário espanhol El País avança que a equipa de Jean-Claude Juncker está a estudar a hipótese de acabar com a parceria com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu para ajudar às negociações com a Grécia.

Mas acabar com o trio que tem prestado ajuda financeira à Grécia só acontecerá, escreve o El País, se Alexis Tsipras der provas de que quer respeitar os compromissos. 
Além desta proposta estará ainda a ser estudada uma maneira de aliviar a dívida grega que não passará por um perdão, mas por melhores condições de pagamento como um prolongamento dos prazos ou redução de juros.

Esta solução europeia só avançará se Grécia e União Europeia chegarem a um acordo para a solução pós-fim do resgate, que acontece no final deste mês. 
A possibilidade em estudo é a de um programa cautelar sem a entrada do FMI, o que permitiria que se desmantelasse a aliança que tem estado a controlar o resgate à Grécia já há cinco anos.

Mas mais do que o lado financeiro, os responsáveis europeus querem que a solução se jogue no tabuleiro político e para que aconteçam avanços, esperam um sinal de Alexis Tsipras, que terá de ser o primeiro a ceder.

Terá sido por isso que o primeiro-ministro grego suavisou o discurso anti-troika, garantindo que tem como intenção respeitar os compromissos assumidos com Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu. 
As palavras de Tsipras foram ditas depois de o seu ministro das Finanças ter dito que apenas negociava com os parceiros “legítimos” – e não com a troika.

Primeiro passo dado numa semana em que o jogo de forças entre a União Europeia e o novo governo grego conhecerá mais desenvolvimentos. 
Depois de uma primeira semana frenética do Governo de Tsipras, em que este aprovou uma série de decretos que revertem algumas das principais medidas de austeridade aplicadas à Grécia, Tsipras e o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, têm esta semana um conjunto de reuniões com responsáveis europeus.

O primeiro encontro aconteceu este domingo entre os ministros das Finanças grego e francês, Yanis Varoufakis e Michel Sapin, em que o francês terá mostrado alguma abertura para renegociar as condições de pagamento da dívida grega. 
Esta segunda-feira, Varoufakis está no Reino Unido para falar com George Osborne. Ontem, no final da reunião com o francês, o grego deixou mais um sinal de aproximação aos parceiros europeus dizendo que, para a Grécia, a “Europa vem primeiro”, mas dizendo que é necessária uma solução para a dívida grega até maio.

O sorriso da Gioconda


Paulo de Almeida Sande 
2/2/2015, 11:25
Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

FUTURO DA GRÉCIA
Varoufakis, grego e não italiano, do alto de uma sabedoria cujos pilares assentam em dois milénios e meio de pensamento e cultura, sorri como quem sabe, mesmo que não saiba nada.

Da conferência de imprensa conjunta entre o novo ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, e o presidente do eurogrupo Jeroen Disjsselbloem, retive uma imagem extraordinária:


Quando Varoufakis termina a sua intervenção e com um gesto de mão passa a palavra a Disjsselboem, este pede um momento para acabar de escutar a interpretação. 
Nessa exacta altura, o sorriso polido e protocolar de Varoufakis transforma-se em algo completamente diferente. 
O ministro grego faz um gesto largo – como quem diz “ah, ele ainda não ouviu tudo” -, sorri de modo enigmático, entre o divertido e o traquinas (perdoem-me a expressão) e morde o dedo anelar da mão direita. 
Acto contínuo Disjsselbloem levanta-se, dando a conferência por terminada; Varoufakis imita-o e enfia a mão esquerda no bolso, seguindo-se uma breve troca de palavras enquanto os dois concluem um aperto de mãos “en passant”, espécie de serviços mínimos de cumprimento de despedida.

A imprensa internacional referiu abundantemente o que foi dito: afirmou Varoufakis que o país não vai continuar a negociar com a “troika”, apenas o fazendo com as instituições europeias. 
No momento da espécie de cumprimento, de acordo com várias interpretações, Disksselbloem terá sussurrado a Varoufakis “you just killed the troika” – “você acabou de matar a troika”- , ao que Varoufakis retorquiu com um “wow!”.

Foi um extraordinário momento de colisão entre a “realpolitik” e a realidade, no olho do furacão de uma situação paradoxal e perigosa. 
Mas o que verdadeiramente me leva a voltar a escrever sobre a Grécia (tanto dito, há agora que aguardar com paciência o que os próximos dias trarão), é o fascinante sorriso de Varoufakis. 
O que estaria a pensar o ilustre Professor de Economia, marxista assumido, naquele momento giocondico da conferência de imprensa?

Seria “desenrasca-te lá desta” ou “tramei-te, nem sabes o que dizer”, ou então “ah, queres ganhar tempo para pensar, pois pensa”; ou ainda “julgam que são mais espertos do que os gregos, ninguém é mais esperto do que os gregos”. 
Ou nem sequer terá pensado nada disso, limitando-se a aguardar sem estados de alma a reacção daquele que acabava de surpreender com uma frase inesperada. 
E é importante esta hipótese, sabendo-se que os dois homens vinham de uma reunião de duas horas onde, aparentemente, houve um bom entendimento e uma conversa frutuosa (nas palavras do holandês, é verdade); mas se Varoufakis tivesse dito ao interlocutor o que disse na conferência de imprensa, não teria havido razões para surpresa, nem o gozo mal contido por parte do grego.

O que permite concluir que não terá dito nada e guardado “a bomba” para a parte final da conferência pública. 
Do que decorre a ideia (simples e profundamente complexa nas suas consequências) de premeditação – e de uma estratégia de provocação baseada na convicção de que a Europa (e os restantes credores) acabarão por ceder. 
O novo governo grego parece acreditar que a União Europeia continua a não querer arriscar um grexit (a saída do país do euro), no que aliás é apoiada pelos Estados Unidos (ou será o contrário?), sendo este aspecto importantíssimo.

Pode a Grécia jogar ao gato e ao rato com os credores, União Europeia e FMI? 
Pode, mas não tem muito tempo: Varoufakis já afirmou que o país não quer o remanescente da ajuda do programa de ajustamento, 7 mil milhões de €;  no verão será necessário um refinanciamento da dívida de 10 mil milhões necessário; e falta ainda saber como serão pagos os custos acrescidos decorrentes das medidas já anunciadas. 
As próximas semanas e decerto até ao final de Fevereiro, serão decisivas. 
Entretanto, as taxas de juro das dívidas, as agências de notação e os mercados agitam-se e sinalizam a gravidade da situação. 
Péssima noticia para a Grécia é o facto desses mesmos mercados já parecerem ter interiorizado a ideia de que o país é um caso singular, o único ainda sob resgate, ao contrário de Portugal, Espanha e Irlanda. 
Se o gato europeu se fartar, a Grécia ficará sozinha face a todos os outros predadores.

Repito-me: um boa atitude do governo grego talvez permitisse encontrar uma solução, até a ideia da conferência europeia da dívida começava a ser encarada com benevolência. 
O sorriso de Gioconda de Varoufakis aponta numa direcção oposta. 
É certo que, depois dessa atitude provocadora, já o novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, veio por água na fervura. 
Será a estratégia do polícia bom e do polícia mau? 
Sinceramente não sei, mas qualquer que seja… é má. 
Vejamos as alternativas:

 A) O governo tem um plano para uma reestruturação da dívida nos termos que interessam ao país. A atitude adoptada parece ser a pior possível para conseguir esse objectivo. 
B) O governo acha que vai continuar a jogar ao gato e ao rato até que, a dias de uma falência real, a União cede e faz tudo o que a Grécia pretende, reestruturando a dívida (ou aceitando a sua denúncia unilateral) e mantendo a ajuda financeira. 
C) O governo declara não respeitar o serviço da dívida e deixa de pagar juros. 
Cobre as despesas correntes com essa poupança e passa a viver na fronteira da falência soberana, abandonando o euro e provavelmente a União, à mercê dos mercados, sem qualquer recurso possível a crédito internacional. 
D) Ou encontra um novo financiador. 
Será a Rússia? 
Como diriam os velhos americanos, “Remember Álamo” – que neste caso é Chipre. 
Para além da Rússia estar sem dinheiro, alguém vê Putin a emprestar dinheiro sem garantias sólidas? 
Garantias que a Grécia, naturalmente, não pode dar?

Porque sorri Gioconda? 
Ninguém sabe e até hoje esse é um dos mais enigmáticos sorrisos de sempre. 
Varoufakis, grego e não italiano, do alto de uma sabedoria cujos pilares assentam em dois milénios e meio de pensamento e cultura, sorri como quem sabe, mesmo que não saiba nada, ou saiba apenas que nada é o que parece até se tornar no que inevitavelmente tem de ser. 
E por isso sorri, de mão no bolso.

* Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

Grécia à espera de um entendimento com a Europa “dentro de horas ou de dias”

O ministro das Finanças da Grécia Vanis Varoufakis fez as declarações em entrevista ao Channel 4
HÁ 2 HORAS
David Dinis
Ana Pimentel

Ministro das Finanças da Grécia diz que cabe à Europa dar a "estabilidade" necessária para evitar fuga de depósitos da banca grega. 
Varoufakis espera um entendimento "dentro de horas ou de dias".

O ministro das Finanças da Grécia, Vanis Varoufakis, disse esta quarta-feira ao Channel 4, que espera um entendimento com as instituições da União Europeia “dentro de hora ou de dias”, para estabilizar a situação dos mercados, sobretudo da banca grega, que tem perdido muitos milhões em depósitos desde que foram convocadas eleições na Grécia.

“A única coisa é que temos de fazer é acalmar os nervos de todos, fixando um compromisso junto para criarmos as circunstâncias para estabilizar a zona euro. 
Não tenho dúvida alguma de que, como verão nas próximas horas /dias, a UE vai juntar-se e fazer o seu trabalho”.

@paulmasonnews
Greek's finance minister tell me he expects a deal with Eurozone "within hours or days": bcove.me/2zr3j8wh - 5 minute video
17:35 - 2 fev 2015



Sobre o acordo, o ministro das Finanças grego disse que este ocorrerá “num curto espaço de tempo” e que fará com que fique “perfeitamente claro para toda a gente que a Grécia pode jogar dentro das regras [europeias] e de uma forma que afaste a crise grega de uma vez por todas”.

Vanis Varoufakis afirmou que a reunião com os líderes foi “extremamente construtiva” e “uma lufada de ar fresco”, apesar das diferenças que caracterizam as relações entre o novo governo grego e a União Europeia. 
“Temo-nos esforçado para encontrar uma base comum e acho que a encontrámos”, disse.

O ministro das Finanças grego voltou a referir que está empenhado em encontrar um acordo com a União Europeia que “minimize os custos desta crise” e que os mercados têm estado a refletir o período de transição entre “um projeto que falhou” e outro “que vai resultar”. 
Para Vanis Varoufakis, cabe à Europa dar a “estabilidade” necessária para evitar fuga de depósitos da banca grega.
“A minha mensagem para os amigos alemães e para todos os europeus é a de que ‘no hand will be overplayed’ [não forçaremos a mão] porque não estamos a entrar nisto de uma forma que vise o confronto”, disse.
Sobre a urgência de um eventual acordo entre a Grécia e a União Europeia, Vanis Varoufakis reconheceu que, provavelmente, era o Governo que tinha menos tempo para o fazer – desde o final da segunda guerra mundial – mas que todos precisavam de “acalmar os nervos”. 
“A urgência é a essência do momento”, disse.

sábado, 31 de janeiro de 2015

PS espera “desanuviamento” do clima em relação à Grécia

João Galamba, na sequência da visita do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, espera um "desanuviamento do ambiente político"
30/1/2015, 0:57
LILIANA VALENTE

O Partido Socialista aprovou uma declaração na reunião da comissão política em que defende que as instituições europeias devem manter um "clima de confiança" com os gregos.

Numa altura em que vários responsáveis europeus se deslocam à Grécia para iniciar conversas com o novo governo grego, os socialistas pedem à Europa calma e confiança. Ou, nas palavras do secretário-nacional do partido João Galamba, um “desanuviamento do ambiente político”.

O governo grego está há três dias a aplicar medidas de reversão da austeridade e por cá, os socialistas portugueses “saúdam” a eleição do governo de Alexis Tsipras e pedem à Europa “um clima de confiança” para que seja possível negociar com os gregos, pode ler-se no comunicado aprovado por unanimidade da comissão política. 
No que à Grécia diz respeito, o comunicado do partido diz ainda que “as decisões que, com espírito de negociação e num ambiente de compromisso, a Europa venha a encontrar para começar a resolver a gravíssima situação da Grécia são de especial interesse para Portugal – não apenas enquanto país onde as políticas de austeridade degradaram a capacidade de resposta do Estado social (…), mas também enquanto membro pleno da União Europeia, do euro e do projeto europeu, cujas políticas europeias dos últimos anos não têm sabido defender”.

Além disso, disse João Galamba, na sequência da visita do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, espera um “desanuviamento do ambiente político”. 
Já em relação à derrota do Pasok, o partido socialista grego, João Galamba voltou a frisar que “ao aliar-se à direita e a praticar a política de direita, teve os resultados que teve”.

A comissão política do PS reuniu esta quinta-feira pela primeira vez e os socialistas preferiram falar sobretudo de temas europeus, com a situação da Grécia à cabeça.

Além da situação da Grécia, o texto aprovado fala ainda da flexibilidade das regras europeias, de acordo com a leitura que os socialistas fazem da interpretação da Comissão Europeia e ainda do plano do Banco Central Europeu.

No final da reunião, João Galamba recusou que o PS esteja com falta de força na ação política: “Vamos continuar a nossa ação política. 
É o que temos feito até aqui. 
Daqui até às eleições há vários momentos e continuaremos a trabalhar neles como temos feito”.

Na reunião dos socialistas, houve ainda outro tema que foi lançado: a eurodeputada Ana Gomes lançou o nome de Maria de Belém como possível candidata a Presidente da República, caso António Guterres não avance.

Nas questões internas, os socialistas aprovaram ainda a realização de eleições primárias para a escolha de deputados, mas em casos pontuais e o lançamento do gabinete de estudos.

Presidente do Eurogrupo em Atenas para se inteirar das propostas gregas

Jeroen Dijsselbloem vai a Grécia para se inteirar do programa económico do novo Governo
30/1/2015, 8:42
AGÊNCIA LUSA

O presidente do Eurogrupo chega a Atenas para se inteirar das linhas mestras do programa económico do novo Governo grego, liderado pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras, para sair da crise.

Dijsselbloem vai ser recebido ao meio-dia por Tsipras e, posteriormente, pelo ministro das Finanças grego, Yanis Varufakis, e pelo vice-primeiro-ministro, Yanis Dragasakis. 
A visita de Dijsselbloem é a segunda de um representante europeu a Atenas depois da de quinta-feira pelo presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz.

A decisão do presidente do Eurogrupo de se deslocar a Atenas foi iniciativa sua, não tendo sido concertada com os outros ministros europeus, informou ontem o Wall Street Journal. De acordo com as fontes desse jornal, Dijsselbloem, que é socialista, não tem mandato para este encontro, sendo que alguns dos seus colegas conservadores preferiam esperar pelas propostas do novo governo grego.  

Na cerimónia de tomada de posse, Yanis Varufakis afirmou constatar na Europa “um espírito de negociação” e que o próprio Dijsselbloem – numa conversa telefónica há uns dias – lhe manifestou estar seguro de que se chegará a um acordo.

Segundo a agência Efe, o Efymerida ton Syntakton, jornal próximo do partido de esquerda Syriza, Varufakis pretende propor ao presidente do Eurogrupo designadamente uma moratória do pagamento da dívida de cinco anos, bem como a convocatória de uma conferência internacional sobre a dívida helénica.

Na quinta-feira, antes de viajar para Atenas, Dijsselbloem deixou uma série de advertências. 
O também ministro das Finanças holandês afirmou, em Amesterdão, que se o novo Governo grego insistir em cumprir as suas promessas eleitorais, o orçamento público “vai derrapar muito em breve”.

O mesmo responsável ressalvou, porém, ser “demasiado cedo para julgar” o Governo de Tsipras.

O economista grego também defendeu, em declarações recentes, a necessidade de se sentar a falar com os credores (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) sobre “a melhor maneira de reorganizar o pagamento da dívida grega” e evitar um “foco de confrontação”.

Uma nave de loucos no meio da tempestade perfeita


Paulo Ferreira
pauloferreira1967@gmail.com
30/1/2015, 8:29    43184 PARTILHAS

ELEIÇÕES NA GRÉCIA

As sociedades que criam riqueza têm o que distribuir. 
As outras só distribuem pobreza. 
Podem ambicionar distribuir a riqueza que outros criam, mas depender dessa boa vontade alheia não é modo de vida.

As primeiras medidas tomadas pelo novo Governo grego são uma estranha forma de começar uma negociação. 
Rasgar unilateralmente alguns compromissos a que o país se tinha vinculado, antes mesmo de se sentar à mesa com os parceiros que financiam o país há cinco anos, não é um cartão de visita próprio de quem garante que quer negociar e não afrontar.

Mas desconte-se o facto porque estarmos na fase do “poker”. 
Entre o “bluff” e o jogo que temos na mão, estica-se a corda tentando perceber onde estão os limites do adversário. 
Em política, o que parece é. 
E o Syriza tinha que fazer a sua prova de vida, cravando a sua marca nas primeiras medidas, tomadas num Conselho de Ministros de estreia insolitamente transmitido em directo pela televisão estatal.

O que está em causa neste jogo é muito mais do que o futuro da Grécia e da sua dívida ou o sucesso ou fracasso do governo do Syriza. 
O braço-de-ferro que Atenas agora inicia com a União Europeia e outras capitais europeias pode, no limite, mudar radicalmente as regras do euro e alterar profundamente a forma como os países da moeda única se relacionam financeira e politicamente. 
Pode, a prazo, ser um acelerador da integração europeia a caminho de um modelo federalista ou, pelo contrário, ser a vacina que afasta esse caminho por várias décadas.

Sabemos desde Maastricht que a moeda única é uma construção a que falta um pilar essencial: uma verdadeira coordenação das políticas económicas e orçamentais e a existência de um generoso orçamento comunitário que faça as transferências necessárias para regiões – países – que não consigam acompanhar a passada ou onde ocorram choques assimétricos.

Como uma mesa quadrada que não tem uma perna, bastava que alguém mais distraído se apoiasse desse lado para a mesa que venha abaixo.

Mais tarde percebemos também que nem todos os que entraram estavam dispostos a fazer os trabalhos de casa e que, no jogo da partilha de soberania, estavam apenas interessados em sacar o almoço grátis que a moeda única proporcionava de imediato: juros baixos, moeda sólida e de aceitação global, credibilidade emprestada na política monetária e cambial. 
Não se preocuparam sequer em ajudar a pôr a mesa. 
Entretidos com o banquete de dívida barata e abundante que de repente tinham à sua frente, muito menos quiseram tomar consciência que em economia os almoços grátis costumam sair muito caros. 
Pode demorar algum tempo, mas a factura chega sempre.

Foi isso que aconteceu com Portugal e Espanha. 
Com a Irlanda também, embora com características diferentes – dívida sobretudo concentrada na banca, que financiou imobiliário dentro e fora do país. 
E, claro, com a Grécia, que beneficou da complacência europeia logo no momento da entrada, quando todos fecharam os olhos à manipulação das estatísticas que lhe deram acesso à moeda única.

Todos tomámos emprestada a reputação e a credibilidade económica e financeira de países como a Alemanha, a Holanda ou a Áustria, beneficiámos delas enquanto pudemos, mas não soubemos estar à altura delas. 
A crise da dívida que se desenhou há meia dúzia de anos foi apenas o balão que rebentou na cara dos que abusaram dessa reputação emprestada. 
E se a reputação é um bem precioso na vida, na economia ela vale milhares de milhões.

O que está em causa na batalha que agora se inicia tem sobretudo a ver com reputação e com a confiança que depositamos naqueles a quem damos o aval.

O problema da Grécia é que já mostrou por várias vezes não estar à altura dessa confiança. 
Porque mentiu nas estatísticas repetidamente, porque as suas elites não cuidaram devidamente do seu Estado e da sua economia, porque recebeu um primeiro empréstimo da troika de 110 mil milhões que afinal não foi suficiente, porque há três anos já teve um perdão de cerca de metade da sua dívida, porque o segundo empréstimo de 130 mil milhões também não está a ser suficiente, porque pelo meio os termos desses empréstimos já foram revistos em condições muito mais vantajosas para o país.

Também porque, é verdade, as medidas que lhe foram impostas como condição para os empréstimos não tiveram o efeito que se esperava e fizeram o país entrar numa espiral recessiva violenta com efeitos sociais devastadores. 
Mas, e isto não é um pormenor, essas medidas foram aceites e, melhor ou pior, executadas por governos democraticamente eleitos, tão legítimos e com capacidade para vincular o Estado como este que agora tomou posse.

Que o resgate da Grécia falhou é uma evidência. 
Mas se a Grécia tivesse sido deixada à sua sorte em 2010 o impacto económico e social seria muito pior. 
Em poucas semanas o Estado não teria dinheiro para pagar salários, a população sofreria o impacto de falências bancárias em série com a consequente perda de poupanças e muitas empresas seriam dizimadas.

Foi, nova evidência, a solidariedade europeia – suportada pelos países do euro na proporção directa do peso das respectivas economias, através de mecanismos não previstos criados em cima do joelho – que evitou na Grécia esse cenário dantesco. 
Porque, acreditem, por mais grave que seja hoje a crise humanitária na Grécia ela teria sido pior. 
Ela pode ainda vir a ser muito pior, dependendo do desenlace que este novo ciclo político venha agora a ter.

Não é honesto, por isso, pretender agora que a Europa – com a Alemanha à cabeça – não se chegou à frente quando o fogo começou na Acrópole. 
Ou que não voltou a ajudar uma e outra vez, quando a primeira ajuda não chegou e a segunda também não.

Ainda que a austeridade seja, por vezes, um imperativo de responsabilidade, ninguém gosta de a praticar. 
É contra a natureza humana e mais ainda contra a natureza dos políticos, quase sempre mais interessados em governar a pensar na próxima eleição do que na próxima geração.

Para um governo radical que acaba de ser eleito com a bandeira “anti-austeridade”, num momento de forte clivagem ideológica e num país em emergência social, o caso fica ainda mais bicudo. 
Para complicar mais a equação, sabemos que o dinheiro que esse governo tem à disposição é de outros países, emprestado por governos com igual legitimidade democrática que têm de prestar contas aos seus contribuintes. 
E se pensarmos que esses credores têm uma legitimidade financeira e moral que a Grécia não tem, temos então a tempestade perfeita.

É um erro reduzir a questão ao simplismo ideológico usado com cegueira clubística, da esquerda contra a direita, dos alegados defensores do Estado Social contra os supostos neoliberais, dos que fazem juras de amor ao povo contra outros acusados de odiar o povo.

As sociedades que criam riqueza têm alguma coisa para distribuir. 
As outras só podem distribuir pobreza. 
Podem ambicionar distribuir a riqueza que outros criam mas depender dessa boa vontade alheia não é modo de vida para ninguém.

A questão que agora se coloca é “até quando”. 
Ou “até quanto”.

A União Europeia, a Alemanha e os países do “núcleo duro” do euro jogam aqui a sua reputação e a da moeda única.

Uma cedência à Grécia sem condições duras que a acompanhem abre uma caixa de Pandora de consequências imprevisíveis. 
Nenhum Governo alemão, holandês ou finlandês, no seu perfeito juízo, aceitará continuar nesta nave de loucos. 
Porque hoje é Atenas. 
Amanhã poderá ser Lisboa. 
Depois Madrid e, quem sabe, Roma. 
O “prémio” dado a este governo grego incentivaria o fortalecimento de outras propostas radicais por essa Europa fora, à esquerda e à direita.

Mais depressa a União Económica e Monetária, já fragilizada com esta crise das dívidas, será repensada de raiz, com o estabelecimento de regras claras de partilha de responsabilidade que não foram previstas em Maastricht nem nos vários tratados, pactos e acordos que se lhe seguiram. 
É esse desenho que está em causa na crise grega.

pauloferreira1967@gmail.com