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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Olaf Scholz, o senhor que se segue a Schäuble

PERFIL
Maria João Guimarães
7 de Fevereiro de 2018, 11:49
Olaf Scholz é considerado um político pragmático e é um dos mais populares no SPD
A selfie enviada aos membros do SPD foi vista como um sinal — no primeiro plano estão Olaf Scholz, um dos vice-presidentes do partido e presidente da Câmara de Hamburgo, e Andrea Nahles, a líder parlamentar do partido. 
Martin Schulz, o presidente, aparece muito atrás.

Pouco depois, os media alemães noticiavam que Scholz, 59 anos, ocupará o cargo mais importante do Governo a seguir ao da chanceler — o de ministro das Finanças.

Desde 2011, o jurista é presidente da câmara da cidade-estado de Hamburgo. ~
Scholz venceu facilmente a primeira eleição, com maioria absoluta, devolvendo a Câmara de Hamburgo ao SPD e, em 2015, foi reeleito com 47%, negociando uma coligação com os Verdes para governar a cidade-estado. 
A sua popularidade levou o jornal Handelsblatt a questionar, em 2016, se o SPD teria “encontrado a sua Merkel” em Scholz — ou seja, um político que vence eleições mais por si do que pelo partido. 
O SPD chefia sete dos 16 estados federados alemães, e Scholz é o mais popular entre eles. 

No SPD, Scholz foi muito crítico da acção do líder após o desastre eleitoral de Setembro, em que os sociais-democratas obtiveram o pior resultado da sua história após a II Guerra Mundial, com 20,8%. 
Num manifesto cheio de pontos de exclamação no título, Scholz pedia resposta para o futuro e princípios claros para o partido, no que foi visto como uma preparação para uma candidatura ao cargo de Schulz.

Esta não será a primeira vez que Scholz participa numa “grande coligação”, um bloco central com os dois principais partidos da Alemanha: entre o final de 2007 e o de 2009 foi ministro do Trabalho sob Merkel. 
E, enquanto participante nas conversações para a grande coligação de 2013, foi o responsável para a política financeira do SPD; o responsável da CDU era Schäuble, um dos políticos mais populares na Alemanha também pelo equilíbrio de contas públicas e o famoso "schwarze Null", um "zero preto" no orçamento, querendo dizer défice zero ou negativo.

Schäuble e Scholz chegaram mesmo a fazer, em conjunto, em 2014, uma ambiciosa proposta de reforma das finanças dos estados federados (uma espécie de mutualização da dívida nos estados alemães). 
Scholz é considerado um liberal entre os sociais-democratas, pragmático e flexível na negociação com outros partidos.

Para a Europa, a escolha de Scholz pode querer assinalar uma aproximação do Governo às ideias do Presidente francês, Emmanuel Macron, mas, avisa a revista britânica The Economist, esta é ainda "cautelosa". 
Se não se espera de Scholz a dureza de Schäuble, "os seus instintos não diferem drasticamente dos de Merkel".  

Em Hamburgo, teve sucessos e revezes. 
Herdou um projecto da Elbphilharmonie num estado caótico (incumprimento de orçamentos, prazos, etc.), mas conseguiu que a obra acabasse finalmente e se transformasse num ícone da cidade (o que não é tarefa menor quando comparado, por exemplo, com o aeroporto de Berlim, que deveria ter sido inaugurado em Outubro de 2011 e não tem ainda data de abertura).

Por outro lado, foi criticado pelo planeamento e acção das forças de segurança, que não conseguiram impedir o caos e a violência durante a cimeira do G8 na cidade hanseática em Julho de 2017. 
Scholz quis ainda candidatar a cidade a anfitriã de Jogos Olímpicos, mas esta ideia foi recusada pelos cidadãos em referendo.

maria.joao.guimaraes@publico.pt

Merkel e Schulz chegam a acordo para coligação governamental na Alemanha

Alemanha
Mariana Bandeira
07 fevereiro 2018, 09:19

A distribuição dos ministérios também já estará definida, segundo a imprensa alemã: os social-democratas ficam com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, bem como o das Finanças e Trabalho.

Os conservadores da chanceler Angela Merkel e os social-democratas de Martin Schulz chegaram esta quarta-feira de manhã, 7 de fevereiro, a acordo para formar um governo de coligação na Alemanha. 
As últimas negociações tiveram início esta terça feira e prolongaram-se até esta quarta feira, depois de uma noite de discussões para resolver quatro meses de impasse – na qual não foi possível resolver as principais questões laborais e de saúde.

O Partido Social-Democrata (SPD) exigia que fosse incluído no programa de governo uma reforma do sistema de saúde [“fim do medicamento de duas classes”] e um enquadramento dos contratos de trabalho a termo certo, o que terá atrasado o acordo, cujo final se previa que acontecesse no passado domingo, 4 de fevereiro. 
Cerca de três semanas antes, a 12 de janeiro, as duas partes alcançaram um acordo de princípio para a formação de uma coligação governamental, mais de três meses após as eleições legislativas alemãs.

A distribuição dos ministérios também já estará definida, segundo a imprensa alemã: os social-democratas ficam com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, bem como o das Finanças e Trabalho. 
A União Democrática-Cristã (CDU) de Angela Merkel encarregar-se-á da pasta do Interior, dos Transportes e Desenvolvimento.

O acordo entre Angela Merkel e o ex-presidente do Parlamento Europeu Martin Schulz levou até ao adiamento de um encontro da chanceler com o primeiro-ministro italiano, Paolo Gentiloni, que estava agendado para as 13h10 [hora local] de hoje. 
Os governantes alemã e italiano vão reunir-se às 18 horas, conforme um comunicado do executivo da Alemanha, divulgado pelos meios de comunicação social do país.

O acordo será submetido ao voto de 463.723 militantes do SPD, 24.339 dos quais se filiaram nas últimas cinco semanas.

Alemanha: Acordo de coligação pode significar “um novo élan para a integração europeia”

Alemanha
Joana Almeida
15:09


Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), acredita que a 'Grande Coligação' é fundamental para a integração europeia, fragilizada pela saída do Reino Unido.

Os democratas-cristãos da CDU/CSU da chanceler Angela Merkel e os sociais-democratas do SPD, liderado por Martin Schulz, chegaram a acordo para formar Governo na Alemanha, mas o principal beneficiário deste acordo pode vir a ser a Europa. 
Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), acredita que a ‘Grande Coligação’ é fundamental para a integração europeia, fragilizada pela saída do Reino Unido.

“No novo acordo de governo entre a CDU e o SPD, a Europa passou a ser a primeira prioridade”, afirma Carlos Gaspar. 
“Se o acordo for aprovado, pode significar um novo élan para a integração europeia, indispensável para compensar o retrocesso que significa o Brexit para a União Europeia, assim como um novo ciclo na conexão franco-alemã, sem a qual a integração europeia é insustentável”, explica.

O investigador explica que a política europeia da ‘Grande Coligação’ reproduz uma parte importante das propostas apresentadas pelo presidente francês, Emmanuel Macron, para o relançamento do bloco europeu. 
Estas são também medidas consideradas fundamentais para que os membros do SPD se coliguem com a CDU de Angela Merkel para viabilizar o quatro mandato da chanceler alemã.

Carlos Gaspar acredita, no entanto, que “não é evidente que a repetição da ‘Grande Coligação’ possa garantir a estabilidade política na Alemanha nos próximos quatro anos”. “A nova coligação entre a CDU e o SPD ocorre depois de ambos os partidos terem perdido votos nas últimas eleições”, recorda, salientando que, em consequência disso, o partido eurocético de extrema-direita, Alternativa para a Alemanha (AfD), deu entrada no parlamento alemão. 
Esse é também agora o partido que vai liderar a oposição, depois de nas eleições de setembro ter sido a terceira força política mais votada.

O compromisso entre os dois partidos foi alcançado após vários dias de conversações e várias concessões da CDU/CSU ao SPD, para conseguirem chegar a um acordo de Governo. 
Carlos Gaspar nota que “a chanceler teve de fazer concessões dolorosas ao SPD (o ministro das Finanças) e à CSU (o ministro do Interior), que podem abrir, mais cedo do que mais tarde, um processo de sucessão nas fileiras da CDU”.

“A Alemanha pode ser mais ou menos severa na forma como exerce a sua hegemonia na Eurozona e a nomeação de um Ministro das Finanças do SPD pode ser um sinal de uma maior sensibilidade política, para evitar repetir os erros mais grosseiros das políticas anteriores. 
No mesmo sentido, a nomeação de um Ministro do Interior da CSU parece indicar uma politica migratória mais restritiva”, considera.

Além do Ministério das Finanças, o SPD deve ficar também com o Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Trabalho.

“É difícil prever a capacidade da ‘Grande Coligação’ para responder à nova conjuntura internacional, em que a Alemanha deixa de ser o principal parceiro dos Estados Unidos – o tandem Obama-Merkel foi substituido pelo tandem Trump-Macron – e em que é previsível um novo ciclo de tensões políticas, económicas e estratégicas entre Berlim e Washington”, acrescenta.