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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

AS ESCOLHAS DO EXPRESSO EM 2014 - Acontecimento Internacional - SURGIMENTO DO ESTADO ISLÂMICO

TEXTO MARGARIDA MOTA 
VÍDEO JOANA BELEZA 
FOTO REUTERS
ACONTECIMENTO INTERNACIONAL
SURGIMENTO DO ESTADO ISLÂMICO

A MILÍCIA QUE QUER SER ESTADO

Desagregação da Síria e do Iraque abriu portas a um grupo radical ainda mais ameaçador que a Al-Qaeda. 
Milhares de jovens ocidentais integram as fileiras jiadistas 

Surgiu como um ramo regional da Al-Qaeda, mas em poucos anos o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) tornou-se um movimento mais rico, mais influente e muito mais cruel do que a organização fundada por Bin Laden. 
Esta nova ameaça fez-se anunciar a 9 de junho, quando milícias do grupo radical Estado Islâmico do Iraque e do Levante tomaram edifícios governamentais, prisões, postos da polícia e o aeroporto internacional da cidade iraquiana de Mossul.

A debandada das forças de segurança iraquianas, assustadas com o avanço de jiadistas armados até aos dentes e impiedosos para com populações não-muçulmanas (cristãs e iazidis, por exemplo) e muçulmanas não-sunitas (como os xiitas), mostrou uma primeira razão para o surgimento deste fenómeno: as forças armadas iraquianas não estavam à altura de garantir a segurança de um território em estado de guerra crónico desde a invasão dos EUA, em 2003.

Uma segunda explicação decorreu da discriminação de que a minoria sunita foi alvo após o fim do regime de Saddam Hussein (sunita) e a subsequente subida ao poder da maioria xiita, que enveredou por uma governação sectária. 
Incapazes de servir sob as novas autoridades, ex-militares sunitas aderiram às hostes do Daesh, não tanto por afinidades ideológicas e religiosas (ainda que todos sejam sunitas), mas porque combatiam um inimigo comum: o poder central.


A situação do Iraque era apenas um dos lados da moeda. 
Na vizinha Síria, os sonhos de liberdade e democracia nascidos em 2011 no contexto da primavera árabe deram lugar a um rigoroso “inverno” de guerra, opondo o regime de Bashar al-Assad a uma galáxia de fações rebeldes. 
Estas, com o arrastar do conflito, acabaram se voltar umas contra as outras.


O JIADISTA INVISÍVEL

Beneficiando da desagregação dos dois países, os extremistas consolidaram as suas conquistas territoriais. 

A 29 de junho, espantaram o mundo ao anunciar a instituição de um califado (“sucessão” em árabe), recuperando uma histórica entidade político-religiosa criada, pela primeira vez, após a morte do profeta Maomé, no século VII. 
Daí em diante, os muçulmanos de todo o mundo deveriam obediência a Abu Bakr al-Baghdadi, autointitulado califa. 

O grupo mudou de nome e passou a chamar-se Estado Islâmico (Daesh é o seu acrónimo em árabe), expondo assim toda a sua ambição política no sentido de instituir um Estado governado pela lei islâmica (sharia).

Abu Bakr al-Baghdadi não era um total desconhecido no Ocidente — apesar de ser chamado “jiadista invisível”. 
Durante a guerra no Iraque, estivera quatro anos detido em Camp Bucca, prisão administrada pelos Estados Unidos no sul do Iraque. 
Foi libertado em 2009 e, no ano seguinte, ascendeu à liderança da Al-Qaeda no Iraque, após o anterior chefe da organização ter sido abatido por forças americanas.

FILMES DE TERROR

Sob as ordens de Al-Baghdadi, o Daesh impôs-se, recorrendo ao terror, com execuções coletivas, apedrejamentos e crucificações em público, filmadas e postas a circular na internet. 
A barbárie arrebatou as manchetes da imprensa internacional quando, a 19 de agosto, surgiu no YouTube um vídeo mostrando a decapitação do jornalista norte-americano James Foley, desaparecido na Síria desde 2012. 
O primeiro de um total de cinco ocidentais: três americanos (além de Foley, foi o caso de Steven Sotloff e Peter Kassig) e dois britânicos (David Haines e Alan Henning).

O Ocidente chocou-se duplamente quando, nos vídeos, a liderar os rituais de decapitação, surgia um homem vestido de preto, de cara coberta e faca na mão esquerda, a falar inglês com sotaque britânico. “Jihadi John”, como passou a ser conhecido, dirigia mensagens de carácter político ao Ocidente. 
A seus pés, ajoelhados, os reféns vestiam fatos laranja como os usados pelos detidos em Guantánamo.

Muitos países admitiram a existência de cidadãos seus nas fileiras da jihad, maioritariamente jovens. 
A apreensão chegou também a Portugal, onde as autoridades identificaram pelo menos 12 cidadãos com passaporte português (alguns com menos de 30 anos) no Iraque e na Síria, em grupos radicais. 
Uns são lusodescendentes, filhos de emigrantes residentes na Europa; outros nasceram e cresceram em Portugal, na linha de Sintra, tendo saído do país já adultos.

A execução encenada de cidadãos ocidentais e as preocupações relativas ao regresso aos países de origem de cidadãos com experiência de combate e ideais extremistas levou o Ocidente a reagir. 
Com a capital regional curda, Erbil, ao alcance das armas do Daesh e refugiados em perigo no Monte Sinjar, os EUA formaram uma coligação com europeus e países árabes cujos aviões começaram a intervir em agosto.

A brutalidade das ações do Daesh levou Ayman al-Zawahiri, o egípcio que sucedeu ao saudita Bin Laden na liderança da Al-Qaeda, a rejeitar qualquer fusão com a nova organização. 
Em meia dúzia de meses, o Daesh obteve sucessos com que a Al-Qaeda apenas sonhou: controla uma área superior à de muitos países, domina milhões de pessoas na Síria e no Iraque e rentabiliza infraestruturas económicas.

Jürgen Todenhöfer, alemão de 74 anos, foi o primeiro jornalista ocidental a receber autorização para visitar o território jiadista. 
A visita durou dez dias, tendo terminado a 16 de dezembro. 
“O Daesh pode comprar quase qualquer arma”, escreveu no Facebook, junto a uma foto sua em Mossul na companhia de um jiadista com uma metralhadora MG3 de fabrico alemão. 
“É mais poderoso e perigoso do que muitos políticos ocidentais imaginam”. 
Contudo, nas últimas semanas os ataques aéreos e a resistência curda puseram-no em xeque em Kobane e no Monte Sinjar.

AS ESCOLHAS DO EXPRESSO EM 2014 - Figura Internacional - VLADIMIR PUTIN

TEXTO PEDRO CORDEIRO 
VÍDEO ANDRÉ DE ATAYDE 
FOTO REUTERS
FIGURA INTERNACIONAL
VLADIMIR PUTIN

O NOVO CZAR DOS RUSSOS

Ao anexar a Crimeia, ao apoiar os separatistas ucranianos e ao desafiar os EUA e a União Europeia, apesar das duras sanções, o Presidente russo fez ressurgir, 25 anos após a queda do Muro de Berlim, o espetro da guerra fria. 
A Vladimir Putin só uma coisa parece meter-lhe medo: a queda do preço do petróleo 


Há 40 anos que não havia uma anexação na Europa. 
A tomada da parte norte da ilha de Chipre pelos turcos, em 1974 — criando a República Turca de Chipre do Norte, que só Ancara reconhece — foi a última apropriação de território alheio... até este ano. 
A Crimeia, uma república até agora pertencente à Ucrânia, passou a integrar a Federação Russa. 
A península fora cedida a Kiev em 1953, uma oferta da República Socialista Soviética Russa à sua congénere ucraniana, ainda no quadro da URSS, para celebrar os 300 anos da união entre ambas. 
O que Khrutschov deu, outro senhor do Kremlin volta a tirar: Vladimir Putin.

Há que recuar a 21 de novembro de 2013 para contar a história da primeira anexação europeia do século XXI. 
Nesse dia, o então Presidente ucraniano, Viktor Ianukovitch, rasgou o acordo de cooperação que negociara com a União Europeia, voltando a aproximar-se de Moscovo. Num país a precisar de dinheiro e dividido entre pró-ocidentais e pró-russos, os primeiros ocuparam a Praça Maidan (Independência), no centro da capital, e nasceu o movimento Euromaidan.

Se predominavam os manifestantes pacíficos, é verdade que a multidão incluía de tudo, incluindo ultras nacionalistas e militantes da extrema-direita que se envolveram em duros confrontos com a polícia de choque.

A 22 de fevereiro, após semanas de manifestações, o Parlamento ucraniano destituiu Ianukovitch. 
Entretanto, o Governo da Crimeia, pró-russo, tal como a maioria dos habitantes da península, avançou com um referendo sobre o eventual regresso à Mãe-Rússia. 
A 16 de março, 96,77% dos eleitores escolheram essa opção.

Passados dois dias, tropas não-identificadas (forças especiais russas e elementos da Marinha vindos das bases navais russas na Crimeia) tomaram a sede do Governo regional e nomearam primeiro-ministro Serguei Aksyonov, líder do partido minoritário Unidade Rússia. 
Putin reconheceu a independência da Crimeia, relativamente à Ucrânia, para logo a anexar. Em defesa do legado da URSS.

Foi o ato mais simbólico do ano por parte do Presidente russo, que já mostrara não ter contemplações para com a integridade das ex-repúblicas soviéticas. 
Putin considera a desintegração da União Soviética “a maior tragédia geopolítica do século XX” e assume uma postura de líder — “czar”, dizem as más-línguas — de todos os russos, vivam onde viverem. 
Protegê-los é, não raro, o pretexto para ações pouco edificantes à luz do direito internacional.


Em 2008, Putin liderou uma ação armada contra as tropas georgianas na Ossétia do Sul, legalmente território da Geórgia, mas “de facto” independente sob a égide do Kremlin. 
É, tal como a Abecásia (também georgiana no papel), reconhecida apenas pela Rússia, Nicarágua, Venezuela e Nauru. 
Também é useiro e vezeiro em aproveitar a dependência das exportações russas de energia para fins políticos, “fechando a torneira” quando os ventos não sopram de feição.

Vladimir Putin cumpriu o seu 10º ano como chefe de Estado. 
Presidente desde 2000, por nomeação do demissionário antecessor Boris Ieltsin, o ex-agente do KGB (serviços secretos) venceu as presidenciais desse ano com 53,4% dos votos e foi reeleito, em 2004 com 71%. 
Em 2008, e dado que a Constituição proibia um terceiro mandato, trocou de lugar com o primeiro-ministro, Dmitri Medvedev. 
Este assumiu a presidência, Putin a chefia do Governo.

NO KREMLIN ATÉ 2024?

Poucos tiveram dúvidas sobre quem mandava no país mais vasto do mundo. 
E ninguém abriu a boca de espanto quando a troca de chapéus se desfez em 2012, não sem antes Medvedev ter feito alargar o mandato presidencial de quatro para seis anos. 
Ou seja, Putin poderá, no limite, mandar sem interrupções até 2024.

Nada disto acontece à margem da propaganda e do culto da personalidade. 
Ficaram célebres as fotos de Putin — que é cinturão negro de judo — em tronco nu ou a cavalo, mostrando a sua robustez. 
Quando, em 2007, fez aparecer o seu cão, Koni, numa reunião com Angela Merkel, a chanceler alemã comentou: “Eu percebo porque tem ele de fazer isto. 
Para provar que é homem. 
Tem medo das suas próprias fraquezas. 
A Rússia não tem nada, não tem êxito na política nem na economia. 
Isto é tudo o que tem”.

Implacável face aos movimentos que contestaram o seu regresso ao Kremlin, Putin apoia o seu poder em organizações como o movimento juvenil Nashi (que se declara “antifascista”, mas tem traços de milícia ultranacionalista).

No Ocidente acusam-no de recriar a Guerra Fria, por saudosismo da grandeza soviética que se esforça por recuperar, em eventos como os Jogos Olímpicos de Inverno, organizados este ano em Sochi, perto da Crimeia. 
A fatura de 41 mil milhões de euros bateu todos os recordes olímpicos.

UMA CADEIA DE OPERAÇÕES DE CHARME

Para conquistar simpatias, Putin até libertou o seu arqui-inimigo Mikhail Khodorkovsky, ex-oligarca encarcerado há nove anos, cuja petrolífera Yukos o Presidente fez absorver pela estatal Gazprom. 
Idem para elementos da banda contestatária Pussy Riot. 
Segue-se, no calendário dos eventos, o Mundial de Futebol de 2018.

Encolhendo os ombros às sanções impostas pelos Estados Unidos e a União Europeia na sequência dos tumultos da Ucrânia e da violência nas regiões separatistas pró-russas de Donetsk e Lugansk, Putin ri-se — pelo menos para consumo externo — e não hesita em brincar com o espaço dos demais. 
Ainda este ano dois caças F-16 da Força Aérea portuguesa intercetaram, ao serviço da NATO, dois aviões militares russos que tinham entrado no espaço aéreo vigiado por Portugal.

Resta saber até quando durará o império de Putin. 
Se é inegável que marcou o ano 2014, não é menos certo que a baixa do preço do petróleo (quase 50% entre junho e dezembro) representou um rude golpe na economia russa. 
Nas últimas semanas, juntou-se-lhe uma quebra abissal do valor da moeda nacional, o rublo, nos mercados cambiais. 
As bolsas russas caíram 30% na primeira quinzena deste mês, o que deixa adivinhar uma quadra natalícia pouco simpática. 
Os votos de “próspero Ano Novo” nunca devem ter sido tão desejados.

AS ESCOLHAS DO EXPRESSO EM 2014 - Acontecimento Nacional O ESTOURO DO BES

Texto  JOÃO VIEIRA PEREIRA 
Vídeo JOÃO SANTOS DUARTE 
Foto   TIAGO MIRANDA
ACONTECIMENTO NACIONAL
O ESTOURO DO BES


A queda do império
Em janeiro, Espírito Santo confundia-se com dinheiro e poder. Doze meses depois, rima com falência. Não foi só um grupo económico, foi todo um sistema de poder que morreu

Desconhece-se o autor da alcunha de Ricardo Salgado. 
O próprio despreza o título. 
Numa entrevista publicada no início de 2013, a propósito dos 40 anos do Expresso, foi confrontado publicamente pela primeira vez com o facto de o apelidarem de DDT – Dono Disto Tudo. 
Reagiu mal: "Isso é um disparate. 
O nosso grupo procura manter a sua ética e assim tem sido desde sempre. 
O que temos feito é fruto da vontade de valorizar o nosso país e não com o objetivo de dominar a economia".

Mas se Salgado não se sentia assim, era desse modo que os seus pares o viam. 
Ainda mais quando 2013 terminou com a sua vitória clara na guerra pela liderança. 
O ataque veio do seu primo José Maria Ricciardi,que tentou unir os vários ramos da família em torno de um novo desígnio: mudar cúpula do grupo Espírito Santo. 
Os mesmos familiares, que numa primeira fase lhe deram o apoio, retiraram-no depois. 
Os mesmos que hoje devem estar arrependidos por não terem acreditado em Ricciardi mais cedo.

Na altura ainda havia algo para salvar. 
No início deste ano, comentava com um banqueiro português o caso Espírito Santo, dizendo-lhe que havia pouco do grupo para salvar. 
Como resposta disse-me: "Podem sempre vender o banco". 
Seis meses depois já nem banco havia para vender.

Ricardo Salgado entra em 2014 com o controlo de tudo. 
Ou pelo menos do que conseguia. 
Fora da sua vasta área de influência estava a capacidade de tirar o país de uma das mais graves crises económicas e financeiras. 
Quando o endividamento do Grupo Espírito Santo começou a crescer exponencialmente o ex-líder do BES Santo não contava que a crise iniciada em 2008 se arrastasse por seis anos. 
O que começara como uma necessidade, a de esconder perdas de 180 milhões, terminou com a falência da família e a separação do BES em dois banco, o bom e o mau.

Com a falência do Grupo Espírito Santo e o desaparecimento do segundo maior banco privado português terminou mais do que um potentado económico: foi o fim de uma cúpula de poder que moldou os último 25 anos da economia, o fim de um regime.


O INÍCIO DO FIM
O véu, ou melhor, a manta pesada e negra que escondia os problemas financeiros do GES começou a ser destapada após o exercício de controlo do Banco de Portugal. 
A primeira notícia é dada pelo Expresso em Setembro de 2013, referindo o excesso de concentração da dívida do grupo num fundo de investimento gerido por uma sociedade do banco. 
Em janeiro deste ano poucos apostavam na queda de Salgado.

Nada supunha que os problemas pudessem ser tão graves. 
No primeiro dia de Fevereiro, o Expresso noticia que está em curso uma auditoria à Espírito Santo International a pedido do Banco de Portugal. 
Era o princípio de uma bola de neve que se tornou imparável. 
O BES Santo apresenta pouco dias depois prejuízos superiores a 500 milhões. 
O último ano em que tinham sido distribuídos dividendos às holdings da família fora em 2011. 
A situação financeira das empresas estava já muito complicada e veio a agravar com o buraco descoberto na ESI, de 1,3 mil milhões, cujas contas tinham sido manipuladas desde 2008.

O que se passou depois disso foi uma sucessão de erros, decisões e acontecimentos que acabaram por obrigar o Banco de Portugal a intervir. 
Em meses assistimos a uma tentativa desesperada de Carlos Costa de isolar o impacto que a parte não financeira do grupo pudesse ter no BES e nos seus clientes. 
Lutando nesse caminho com a gestão de Ricardo Salgado que tentava provar que tudo estava bem. 
Desaparecimento de milhares de milhões de euros em Angola, garantias, aumentos de capital, pedido de alteração da liderança do banco, novo CEO que nunca chegou a ser, cartas de conforto, e até uma nova administração liderada por Vítor Bento. 
Meses alucinantes que levaram o Expresso a fazer oito manchetes seguidas sobre o tema.

A queda do Grupo Espírito Santo teve ramificações um pouco por todo o lado. 
A Portugal Telecom foi de longe a mais importante. 
Um investimento de 900 milhões de euros em dívida da ESI e depois da Rio Forte contribuíram de maneira decisiva para termos hoje uma PT muito diferente. 
Em poucos meses a maior operadora de telecomunicações passou de estratégica a dispensável.

3 DE AGOSTO DE 2014
A data ficará registada como o dia do fim do BES. 
A resolução do banco apresentada por Carlos Costa apanhou todos de surpresa. 
Depois de as portas se fecharem sucessivamente à família Espírito Santo foi-se conhecendo toda a verdade. 
Muito mais feia do que se podia pensar. 
O BES apresenta prejuízos históricos de 3,57 mil milhões de euros nos últimos dias de julho. 
Era preciso salvar o banco. 
O uso da linha de recapitalização foi afastado pelo Governo, que aliás se manteve sempre muito longe de todo este processo, inclusive quando Ricardo Salgado pediu ajuda direta a Passos Coelho. 
A Carlos Costa restou apenas a hipótese de resolução, cenário que funcionou como aquilo que ele sempre tentou evitar ser, o carrasco do BES.

Até ao fim do ano Vítor Bento, José Honório e João Moreira Rato ainda bateram com a porta, em rutura com o governador do Banco de Portugal. 
Foram substituídos por Eduardo Stock da Cunha e o Novo Banco voltou aos poucos a operar dentro da normalidade possível.

O caso GES/BES ainda está para ficar. 
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) montou um circo mediático à volta do caso. 
Os trabalhos começaram há poucas semanas e nem duas dezenas de pessoas foram ouvidas. 
Ainda faltam mais de 100, sem contar com os que terão de voltar à CPI. 
Até ao momento há poucas certezas sobre as responsabilidades no caso.

Um a um, os intervenientes foram deixando cair Ricardo Salgado, mas sempre com uma confortável rede para o aparar. 
As frases que mais ecoam dão conta de um total desconhecimento do que se passava. 
Era Salgado, o centralizador, que tudo geria. 
Os outros confiavam. 
Da mesma maneira como é pouco provável que Francisco Machado da Cruz tenha decidido sozinho falsear as contas da ESI, também é difícil acreditar que Salgado tenha conseguido destruir um império sozinho.

Em 2014 houve o estrondo do BES; os próximos anos serão palco de investigações, acusações e batalhas legais pelos despojos do antigo império. 
Os estragos vão perdurar por anos.

Se há um ano alguém ousasse desenhar o cenário de um Portugal sem BES o mais provável era receber uma gargalhada como resposta.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

AS ESCOLHAS DO EXPRESSO EM 2014 - Figura Nacional CARLOS ALEXANDRE


Texto  MICAEL PEREIRA
Vídeo JOANA BELEZA 
Foto   ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
FIGURA NACIONAL
CARLOS ALEXANDRE

            Um juiz determinado a limpar o regime
Já era muito conhecido pelos portugueses, mas a atuação de Carlos Alexandre à frente do Tribunal Central 
de Instrução Criminal nunca foi tão forte como em 2014: surpreendeu o país ao mandar deter Sócrates e Salgado

Vem do povo e o povo, de certa forma, está sempre com ele. 
Muitas vezes, na sala de interrogatórios, refere-se a si próprio como um “humilde aldeão”. Parece fazê-lo como uma provocação. 
Carlos Manuel Lopes Alexandre, de 52 anos, já era bastante conhecido pelos portugueses, mas 2014 confirmou-o como o juiz mais temido do país. 
Em julho assinou um mandado de detenção do banqueiro Ricardo Salgado e em novembro fez o mesmo com José Sócrates. 
Foram dois pontos altos num ano cheio de ação para aquele que, até setembro, era o único juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal.

A detenção de Sócrates, sobretudo essa, foi uma das notícias mais surpreendentes do ano. O Ministério Público não fora capaz, em 2010, de fazer perguntas ao então primeiro-ministro por causa de um processo de corrupção, o ‘Freeport’, e agora um juiz mandava-o deter? 
Mais: depois de manter um interrogatório de longas horas ao ex-primeiro-ministro — onde nunca tratou o arguido por José Sócrates, mas por senhor José Pinto de Sousa —, Carlos Alexandre colocou-o em prisão preventiva. 
Nenhum juiz até hoje enviara um ex-chefe de governo para trás das grades.

É um homem que desconfia do poder. 
Tem dificuldade em acreditar no que lhe dizem os políticos, empresários e gestores de topo que costumam sentar-se à sua frente. 
É, por outro lado, um homem religioso e encara os seus laços com a religião como um modo de restabelecer energias para as dificuldades do seu trabalho. 
“Gosto de ir a Fátima. 
Isso não me diminui. 
Penso que me fortalece”, dizia há dois anos num vídeo amador filmado por um amigo, antigo assessor do PS, António Colaço, nas ruas de Mação, quando participava numa celebração da Páscoa. 
Filho de um carteiro e de uma operária da indústria de lãs, cultiva a ligação à terra natal, onde costuma ir com frequência. 
“Nunca perdi o contacto com a minha origem e é nesta origem que quero manter os meus pés bem assentes no chão”, confessava nesse vídeo.

Na sala de interrogatório, é dominador. 
Ouve as escutas com atenção, quando elas existem, estuda bem os autos e gosta depois de fazer perguntas. 
Como há muita coisa a passar-lhe pelas mãos e o país é pequeno, tem um conhecimento cruzado e profundo sobre os calcanhares de Aquiles do regime. 
Uns acham-no clarividente e despachado, outros pensam que é tendencioso e persecutório. 
O Ministério Público, responsável pelas investigações e acusações contra algumas figuras do regime, tende a gostar dele, enquanto os advogados, pagos para defenderem suspeitos e acusados, costumam criticá-lo pelo modo como muitas vezes parece colocar-se do lado dos procuradores.


“É combativo e consegue associar a grande experiência que tem à capacidade de aplicar o Direito a cada situação em concreto”, elogia Maria José Morgado, diretora do DIAP (Departamento de Investigação e Ação Penal) de Lisboa. 
“É um trabalhador sem limites e um homem muito competente, que compreende todas as circunstâncias com que se cruza, sabendo interpretá-las com correção”, reconhece o advogado Nuno Godinho de Matos. 
“Mas procura suportar as teses e as posições do Ministério Público. 
Seria um grande diretor da Polícia Judiciária. 
Acho que essa é a sua vocação”.

AS OBRAS DO MAI E OS VISTOS GOLD
O que ninguém lhe nega é a coragem e a dedicação ao trabalho. 
E, nisso, o ano de Carlos Alexandre foi muito produtivo.

Em abril, ouviu em interrogatório João Alberto Correia e decretou-lhe prisão preventiva. 
O diretor-geral de Equipamentos e Infraestruturas (DGEI) do Ministério da Administração Interna, responsável pelas obras em esquadras e quartéis, tinha deixado já o cargo mas era ainda uma pessoa influente, filho de um ministro socialista do bloco central, nos anos 80. 
Foi indiciado por corrupção e participação económica em negócio e, alegadamente, estará envolvido num esquema em que beneficiava com contratos de ajuste direto membros de uma organização de que também faz parte: a maçonaria.

Já em novembro, mandou deter o presidente do Instituto dos Registos e Notariado (IRN), António Figueiredo, e o diretor do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Manuel Jarmela Palos, em mais um momento inédito para a justiça em Portugal. 
Foi a primeira vez que isso aconteceu com o diretor de uma polícia. 
Jarmela Palos, após uns dias de prisão preventiva, acabaria por ficar em casa com pulseira eletrónica, mas Figueiredo não foi poupado e está ainda em prisão preventiva, apontado como o responsável de um esquema para facilitar a atribuição de vistos gold a cidadãos chineses, envolvendo crimes de corrupção, prevaricação, peculato, abuso de poder e tráfico de influências.

Para compreender o protagonismo de Carlos Alexandre é preciso conhecer a história do Ticão, como o TCIC foi batizado no meio. 
O tribunal surgiu em 1999 para funcionar a par e passo com o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), criado na mesma altura na dependência direta do procurador-geral da República e dedicado exclusivamente a casos complexos. 
Como o espectro de processos-crime se limitava ao que era investigado naquele departamento, foi considerado como suficiente um único juiz para lidar com tudo. 
Carlos Alexandre viria a ser o terceiro magistrado a ocupar o lugar, a seguir a Fátima Mata-Mouros e Ivo Rosa. 
Começou como juiz-auxiliar de Mata-Mouros, em 2004, e dois anos depois estava à frente do tribunal, quando o ritmo de trabalho exigido pelo DCIAP estava a aumentar. 
Esse ritmo tem vindo sempre em crescendo. 
E tem contribuído para o reforço do papel do juiz.

Carlos Alexandre podia já ter feito o que era esperado para um juiz preocupado com a carreira: passar a desembargador, mudando-se para o Tribunal da Relação, com um salário maior. 
Em vez disso, concorreu este ano para continuar no Ticão. 
Foi o mais bem classificado. 
O que prova que não quer ir para nenhum outro sítio. 
E que, na verdade, está para durar.