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sábado, 15 de setembro de 2018

Benfica volta ao caso do 'hacker': «A reunião do Altis foi a face visível do crime organizado»

BENFICA
E-mails
14 setembro 2018 - 12:25
Clube da Luz diz que "se aproxima a descoberta do circuito do dinheiro"

Depois de Varandas Fernandes ter lançado quinta-feira a suspeita de que o 'hacker' Rui Pinto terá agido a mando do FC Porto ou Sporting, o Benfica voltou esta sexta-feira ao assunto, dizendo que está perto de ser conhecido o circuito do dinheiro e voltando a visar os rivais.

"Aproxima-se a descoberta do circuito do dinheiro e quem pagou ao hacker que roubou o Benfica. 
Todos sabemos quem exibiu o produto desse roubo em que a célebre reunião do Altis foi a face visível do crime organizado", pode ler-se num tweet na conta do Benfica dirigida à imprensa.

Como o Benfica adiou interrogatório a Vieira e tentou escapar à acusação, revela a Sábado

Benfica
E-Toupeira
13 Setembro 2018 às 20:56
Ministério Público convocou o presidente da SAD encarnada várias vezes, mas este nunca apareceu para responder às questões no DIAP de Lisboa

Foi a 28 de junho que Luís Filipe Vieira recebeu a primeira notificação para se deslocar a Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa para ser interrogado e a SAD encarnada ser constituída arguida. 
A revista "Sábado", na edição desta quinta-feira, faz uma descrição dos passos que o Benfica fez para adiar esse interrogatório e, consequentemente, que a SAD fosse constituída arguida e, depois, acusada no processo e-Toupeira

Vieira, porém, não comparece para interrogações na data marcada, a 12 de julho. João Correia, o advogado da SAD, informou o procurador Valter Alves que o presidente dos encarnados não estaria no estrangeiro, não tendo precisado onde estaria nem ter dado provas disso mesmo (a Sábado confirmou que Vieira estava, nessa altura, em Madrid, a negociar as contratações de Gabriel e Castillo. 
Seguiu-se, a 15 de julho, uma viagem para Inglaterra, para o estágio da equipa).

O procurador aceitou a justificação e marcou uma segunda data, para 10 de agosto, mas Vieira voltou a não aparecer, desta vez por ter sido internado a 9 de agosto. 
Com base nessa justificação, foi marcada uma nova data - a terceira - para 20 de agosto, mas João Correia, quatro dias antes, informou que Vieira não estaria presente por continuar internado, sem previsão de alta. 
Valter Alves voltou a marcar a inquirição, agora para 27 de agosto, mas já convocava os administradores Domingos Soares Oliveira e José Eduardo Moniz. 
Só o primeiro esteve presente, enquanto o segundo faltou, por estar no Brasil

Segundo o relatado na revista "Sábado", a par destes adiamentos, a equipa de advogados do Benfica, a 24 de agosto e depois de consultar o processo, contestou as provas e apresentou um incidente de recusa do magistrado. 
O objetivo era atacar o procurador, dizendo que "quer constituir a SAD como arguida, custe o que custar." 
A queixa, no DIAP, foi considerada sem fundamento e indeferida no próprio dia e a 27 de agosto a SAD encarnada era constituída arguida, com os administradores Domingos Soares Oliveira e Nuno Gaioso a representarem a instituição reafirmando no interrogatório que não haviam provas para tal.

Luís Filipe Vieira sofreu surto de amnésia na véspera de ser ouvido, adianta o CM

Benfica
E-Toupeira
15 Setembro 2018 às 10:44
Citado a prestar declarações a 11 de agosto, Vieira sofreu um surto de amnésia na véspera

Amnésia. 
Foi um surto de amnésia que levou Luís Filipe Vieira para o Hospital CUF Infante Santo na véspera do dia no qual deveria ser ouvido pelo Ministério Público como representante legal da SAD do Benfica. 
A notícia é avançada este sábado pelo jornal Correio da Manhã, que adianta ainda ter sido o advogado do presidente encarnado a notificar o procurador do internamento, prometendo para mais tarde um relatório da unidade hospitalar. 
Nunca o fez, acrescenta o mesmo jornal.

Citado a prestar declarações a 11 de agosto, Vieira sofreu um surto de amnésia na véspera, tendo o procurador aceite a explicação do advogado para o adiamento.

Segundo o que vem descrito no processo E-Toupeira, que deixou de estar em segredo de justiça, o advogado João Correia tentou, de várias maneiras, evitar que a SAD do Benfica fosse constituída arguida. 
Alegou que o Benfica não tinha conhecimento do que Paulo Gonçalves fazia ou não fazia, referiu-se a uma "campanha difamatória" e alegou mesmo que "seis milhões de adeptos seriam agredidos". 
De nada valeu, o MP acabou por constituir a SAD como arguida, tendo ouvido dois outros representantes legais da sociedade desportiva do Benfica.

Paulo Gonçalves ainda trabalha no Benfica, mas está de saída

Benfica
Marco Gonçalves/Rui Miguel Gomes
15 Setembro 2018 às 15:36
Em março, quando foi constituído arguido no caso e-Toupeira, colocou o cargo à disposição, mas Vieira segurou-o. 
Agora, com a SAD também acusada, prepara-se para colocar fim a ciclo de 12 anos

Depois de ter resistido ao pedido de demissão de março, logo após ter sido constituído arguido no processo e-Toupeira, Paulo Gonçalves prepara-se agora para sair mesmo do Benfica. 
Apesar de estar ainda, segundo apurou O JOGO, a trabalhar normalmente - ainda ontem esteve na Luz -, conduzindo diversos processos relevantes para a SAD encarnada, o assessor jurídico tem prevista a oficialização da sua saída na próxima semana. 
O assunto será discutido na reunião do Conselho de Administração da sociedade benfiquista, após a qual deverá ser ratificado o abandono.

A iniciativa partiu do próprio Paulo Gonçalves, após ter visto a SAD ser também constituída arguida no caso no qual o Ministério Público acusa as águias de terem retirado benefícios da violação, através de dois funcionários judiciais, de casos em segredo de justiça.

No epicentro do e-Toupeira, no qual é acusado de 79 crimes, entre eles corrupção ativa, oferta ou recebimento indevido de vantagem, Paulo Gonçalves é o braço-direito de Luís Filipe Vieira, que sempre manteve total confiança no advogado, que chegou ao clube em 2006, há 12 anos, pela mão de José Veiga. 
"Este clube nunca deixa ninguém para trás. 
A solidariedade entre todos é um dos segredos dos nossos resultados", chegou a atirar o presidente encarnado, em março, manifestando, ainda que sem proferir o nome de Paulo Gonçalves, a defesa ao assessor jurídico da SAD, que viu na quinta-feira o vice-presidente Varandas Fernandes admitir a existência de "questões pessoais" do "até ao dia de hoje", disse, "funcionário" do Benfica, afirmando acreditar na sua inocência.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Caso e-Toupeira envolve 261 crimes. Benfica arrisca suspensão, mas a "prova é difícil"

BENFICA
E-Toupeira
Nuno Fernandes e Rui Frias
                                                                      06 Setembro 2018   00:20

Sobre a SAD do Benfica recaem 30 crimes e Paulo Gonçalves está acusado de 79. Vieira nega acusações e diz que o bom nome e a honra do clube serão limpos.

São 261 os crimes que constam na acusação do Ministério Público sobre o caso e-toupeira, que implica gravemente o Benfica e o seu assessor jurídico Paulo Gonçalves, além de dois funcionários judiciais. 
Só sobre a SAD do Benfica recaem 30 desses crimes, um deles de corrupção ativa e outro de oferta ou recebimento indevido de vantagem - para além de 29 de falsidade informática.

Segundo o despacho a que a agência Lusa teve acesso, o Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa pede que sejam aplicadas à SAD encarnada as penas acessórias previstas no artigo 4º do Regime de Responsabilidade Penal por Comportamentos Antidesportivos (Lei nº 50/2007), das quais ressalta, sobretudo, a suspensão de participação em competição desportiva por um período de 6 meses a 3 anos.

Paulo Gonçalves, assessor jurídico do Benfica, foi acusado de 79 crimes: um de corrupção ativa, um de oferta ou recebimento indevido de vantagem, seis de violação de segredo de justiça e de 21 crimes de violação de segredo por funcionário, em coautoria com os arguidos Júlio Loureiro e José Silva (ambos funcionários judiciais). O dirigente encarnado está ainda acusado de 11 crimes de acesso indevido (em coautoria), de 11 crimes de violação do dever de sigilo (em coautoria) e 28 crimes de falsidade informática.

O MP acusou ainda o oficial de justiça José Silva - o único dos arguidos em prisão preventiva - de 76 crimes: um de corrupção passiva (em coautoria), um de favorecimento pessoal, seis de violação de segredo de justiça, 21 de violação de segredo por funcionário, nove de acesso indevido, nove de violação do dever de sigilo, 28 de falsidade informática e de um crime de peculato (apropriação indevida de dinheiro público).

O arguido Júlio Loureiro, escrivão e observador de árbitros, foi também acusado de 76 crimes: um de corrupção passiva, um de recebimento indevido de vantagem, um de favorecimento pessoal, seis de violação de segredo de justiça, 21 de violação de segredo por funcionário, nove de acesso indevido, nove de violação do dever de sigilo e de 28 crimes de falsidade informática.

Luís Filipe Vieira, que entretanto reagiu na noite desta quarta-feira à acusação deduzida pelo MP, não é individualmente arguido neste caso e-toupeira, mas o nome do presidente encarnado não passa incólume no processo. 
Segundo o Ministério Público, Luís Filipe Vieira teve conhecimento e autorizou a entrega de benefícios aos dois funcionários judiciais por parte de Paulo Gonçalves.
"As entregas aos arguidos José Silva e Júlio Loureiro eram do conhecimento do presidente da Sociedade Anónima Desportiva (SAD), que as autorizava ou delas tomava conhecimento por correio eletrónico, ou rubricando folha de autorização, sem nunca as impedir, pois tal era para beneficio da arguida [Benfica SAD], assim querendo e aceitando todas as condutas", refere a acusação do Ministério Público, segundo a agência Lusa.

Ou seja, para o MP, Paulo Gonçalves não agiu a seu bel-prazer, mas sim em benefício do Benfica e com o conhecimento e autorização do presidente da SAD, envolvendo aqui diretamente a Benfica SAD nos crimes praticados.

Por isso, ao Benfica é imputado um crime de corrupção ativa, um crime de oferta ou recebimento indevido de vantagem e 29 crimes de falsidade informática. 
No caso dos dois primeiros crimes, se forem provados, o clube poderá mesmo ser impedido de participar nos campeonatos.

O próximo passo será a abertura da instrução do processo, cabendo depois ao Benfica apresentar provas que contrariem as acusações do Ministério Público. 
Depois caberá a um juiz de Instrução Criminal decidir se o caso irá ou não a julgamento.

Corrupção desportiva? Uma prova difícil
Contactado pelo DN, o advogado Dantas Rodrigues, especialista em direito desportivo, fala numa "acusação muito dura", mas, frisa, "de difícil prova".

"Diretamente, sem haver uma prova muito específica, não me aprece que haja, do ponto de vista desportivo, sanção prevista no regulamento disciplinar da Liga para os factos imputados nesta acusação", diz. 
Para este jurista, "ou há prova muito clara de aproveitamento, por parte da SAD, de todos os dados que lhe foram ilicitamente facultados, tendo deles retirado benefícios na competição desportiva, ou então é difícil que se possa falar em corrupção desportiva".

Ou seja, "que por aceder a determinados processos, a Benfica SAD teve vantagem sobre rivais no normal decorrer da prova desportiva. 
Seja num acontecimento concreto num determinado jogo ou, por exemplo, em pressão efetuada sobre árbitros ou dirigentes de arbitragem ao longo do decurso da competição". De resto, frisa, "provar corrupção desportiva em Portugal é muito complicado"

Dantas Rodrigues está convencido de que o processo de inquérito aberto pelo CD da FPF acabará por ser "suspenso, ficando a aguardar o desfecho do processo penal, porque a prova dependerá sempre de haver uma condenação penal".

Para o especialista em direito desportivo, o cenário mais provável será o da aplicação de uma multa à SAD do Benfica. 
O que, sublinha, "já é muito grave". 
Como toda esta acusação, de resto, cujos "danos de imagem são enormes".

Bilhetes, convites, camisolas...
A acusação do processo e-toupeira diz que Paulo Gonçalves, enquanto assessor da administração da Benfica SAD, e no interesse desta, solicitou a funcionários judiciais que lhe transmitissem informações sobre inquéritos em curso, a troco de bilhetes, convites e merchandising.

"José Silva (oficial de justiça) e Júlio Loureiro (escrivão e observador de árbitros), com a promessa de tratamento privilegiado junto do Benfica, designadamente para assistência a jogos em condições favoráveis, aceitaram proceder como solicitado [por Paulo Gonçalves]", sustenta a acusação do Ministério Público.

Os processos "incidiam sobre investigações na área do futebol ou a pessoas relacionadas com este desporto, designadamente inquéritos em curso e em segredo de justiça, em que era visada, ou denunciante, a Sport Lisboa e Benfica -- Futebol SAD, ou os seus elementos". Mas não só. 
Os processos pesquisados pelos dois funcionários judiciais, através da plataforma informática Citius, abrangiam também casos "relativos a clubes adversários e seus administradores ou colaboradores".

Segundo a revista Sábado, os funcionários judiciais obtiveram informações sobre antigos árbitros alegadamente ligados ao FC Porto e alguns deles com responsabilidades em órgãos de arbitragem, além de terem espiado centenas de vezes os processos relativos aos casos dos vouchers (186 consultas) e dos e-mails (210), que também envolvem o Benfica.

Vieira reclama inocência e quer limpar honra
Luís Filipe Vieira reagiu às acusações no âmbito do caso e-toupeira com uma curta declaração de pouco mais de três minutos, feita na sala de imprensa do estádio da Luz, com os elementos do conselho de administração da SAD ao seu lado (Rui Costa, ausente no estrangeiro, foi o único que não esteve presente).

"Como era expectável, a acusação em nada vem alterar a certeza de total licitude dos comportamentos e atuação da Benfica SAD, neste ou outro processo. 
Não existe qualquer facto que permita imputar à SAD os crimes descritos nem conduta que relacione a SAD com qualquer dos crimes aí descritos. 
Crê-se que terá sido por isso que nenhum membro da SAD recebeu uma acusação", começou por referir o líder benfiquista, repudiando "o tempo, modo e forma como o clube se viu envolvido nesta acusação, sem qualquer fundamento sério que a justifique".
Vieira esclareceu que "a SAD continuará a defender a reputação do Benfica, que prestará colaboração com as forças judiciais", e que a administração "irá atuar neste processo com a mesma determinação com que recuperou o Benfica". 
A finalizar lembrou que "à presente data todas as decisões judiciais foram favoráveis ao clube: "O debate comunicacional que certamente iremos continuar a assistir, e onde não faltarão os tradicionais julgamentos em praça pública, em nada altera a confiança e a independência dos tribunais e a certeza que as decisões judiciais definitivas limparão o bom nome e a honra do Benfica."

Justiça desportiva atua
Na sequência da acusação do Ministério Público, que acusou a SAD do Benfica de 30 crimes e Paulo Gonçalves de 79 no âmbito do caso e-toupeira, o Conselho de Disciplina (CD) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), órgão presidido por José Manuel Meirim, anunciou a instauração de um processo de inquérito ao clube da Luz. 
Como mandam os regulamentos, o caso segue agora para a Comissão de Instrutores da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, que nos próximos meses vai chamar a depor vários intervenientes.

"Instaurado processo de inquérito, por decisão do presidente do CD, de 5 de setembro de 2018, com base em comunicado de autoridade judiciária e notícias na comunicação social. 
O processo foi enviado à Comissão de Instrutores da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, mantendo-se em segredo até ao fim do inquérito", lia-se no comunicado do órgão disciplinar da FPF.

Secretário de Estado pede justiça e celeridade
João Paulo Rebelo, secretário de Estado da Juventude e do Desporto, abordou a acusação feita ao Benfica pelo Ministério Público, no caso e-toupeira, pedindo "celeridade e que se faça justiça". 
"É essencial garantirmos a verdade desportiva e um clima de total confiança no panorama desportivo nacional, nomeadamente no que ao futebol diz respeito", disse numa entrevista à SIC Notícias.
"O futebol há muitos anos extravasou o domínio exclusivamente desportivo. 
Vemos frequentemente agentes, atores do nosso sistema desportivo e do futebol falarem na indústria. 
Há interesses económicos fortíssimos, não os estou catalogar como negativos. 
A disputa, a rivalidade a competitividade aumenta. 
O que também tem de aumentar é a responsabilidade de todos. 
O Estado não se pode alhear deste tema. 
Muitas vezes admito que se possa confundir alguma descrição com o não estar a atuar, a governar. 
Garanto que tenho estado a fazer a minha parte", revelou.

João Paulo Rebelo rejeitou ainda um cenário de perseguição ao Benfica: "Não. 
Da mesma forma como também não concebo que haja qualquer tipo de ação concertada para benefício de qualquer clube em particular. 
Nem para prejudicar, nem para ou beneficiar."

Questionado sobre o crescimento de investigações judiciais deste tipo, o governante disse esperar que "para o mundo de futebol como para qualquer outro mundo a impunidade tenha acabado". 
"Admito que hoje estão muito mais rigorosos relativamente ao escrutínio de uma forma geral das atividades que são mais públicas ou merecem o acompanhamento de um grande número de pessoas, o que não é uma má notícia", apontou.

João Paulo Rebelo disse ainda não vislumbrar no caso e-toupeira qualquer intervenção do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) "no quadro do que são as competências" deste organismo público.

Benfica investigado em mais quatro casos
O processo e-toupeira é o primeiro já com acusação formada e que envolve o assessor jurídico Paulo Gonçalves e tem a SAD do Benfica acusada de 30 crimes. 
Mas há mais caso envolvendo o clube da Luz a ser investigados pela justiça civil.

Vouchers
Foi o primeiro caso de alegada corrupção em que o Benfica se viu envolvido. 
Em outubro de 2015, Bruno de Carvalho, na altura presidente do Sporting, denunciou em direto numa entrevista a um programa da TVI24 ofertas feitas pelo clube da Luz aos árbitros (e também a delegados e observadores) que apitavam os jogos do clube em casa (Luz e Seixal), o famoso kit Eusébio, que consistia na oferta de uma camisola e quatro jantares no restaurante Museu da Cerveja. 
"Só em jantares, por ano, deve rondar 140 mil euros. 
Em prendas, deve rondar um quarto de milhão de euros", acusou na altura Bruno de Carvalho. 
O clube da Luz confirmou as ofertas, mas defendeu que as refeições eram uma simples cortesia e que tinham um plafond limitado de 35 euros.

A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) enviou o caso para a Procuradoria-Geral da República e a Comissão de Instrução e Inquéritos da Liga abriu um processo, ouvindo várias testemunhas (Bruno de Carvalho e Luís Filipe Vieira incluídos), decidindo arquivar o caso, que mais tarde teria o mesmo desfecho no Tribunal Arbitral de Desporto e no Conselho de Disciplina da FPF. 
O caso, contudo, prossegue na justiça civil - em 2016, a Unidade de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária fez buscas no Estádio da Luz e em janeiro, o DIAP decidiu juntar o caso dos vouchers e dos emails no mesmo processo.

Emails
A 11 de abril de 2017, Francisco J. Marques, diretor de comunicação do FC Porto, começou a revelar no Porto Canal o conteúdo de alegados emails do Benfica. 
Tudo começou com uma troca de correspondência entre o chefe de segurança do clube e o administrador Domingos Soares Oliveira, a respeito das claques. 
Mas a bronca rebentou a 6 de junho 2017, quando J. Marques denunciou um alegado esquema de corrupção do Benfica para favorecer árbitros, mostrando em direto alegada correspondência entre Paulo Gonçalves e Nuno Cabral (ex-árbitro e na altura delegado da Liga de Clubes).
O caso chegou ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) e foi enviado para o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP). 
Nesse mesmo mês de junho de 2017, a PJ fez buscas ao estádio da Luz e ainda às casas de Luís Filipe Vieira, Paulo Gonçalves, Nuno Cabral, Pedro Guerra, Ferreira Nunes (ex-responsável pela classificação dos árbitros) e Adão Mendes (ex-árbitro). 
Paulo Gonçalves foi constituído arguido.

Semanalmente, o diretor de comunicação do FC Porto continuou a revelar alegados emails do Benfica, até que em fevereiro deste ano, o Tribunal da Relação do Porto impediu J. Marques de continuar a fazê-lo. 
O caso continua a ser investigado e foi anexado ao processo dos vouchers.

Operação LEX
Este processo tem como principal arguido o juiz desembargador Rui Rangel, que está a ser investigado por crimes de tráfico de influência. 
Luís Filipe Vieira é implicado no caso porque alegadamente teria pedido ao juiz que intercedesse num processo fiscal relacionado com uma das suas empresas. 
Como contrapartida, Rangel teria a promessa de um cargo na futura Universidade do Benfica. 
Tanto o juiz como presidente do Benfica foram constituídos arguidos no processo, assim como Fernando Tavares, vice-presidente do Benfica.

"Nunca ofereci qualquer cargo no clube a troco de qualquer situação da minha vida pessoal e profissional. 
Quando sair do Benfica vou mais pobre, não vou mais rico. 
Não vai aparecer ninguém que defenda mais o Benfica do que eu", afirmou na altura Vieira. Neste caso foram realizadas 33 buscas, das quais 20 domiciliárias, nomeadamente ao Sport Lisboa e Benfica, à casa do presidente Luís Filipe Vieira, às habitações dos dois juízes e a três escritórios de advogados.

Mala Ciao
No dia 25 de junho deste ano, a Polícia Judiciária e o Ministério Público do Porto fizeram 24 buscas a quatro clubes: V. Setúbal. Paços de Ferreira, Desportivo das Aves e... ao Benfica. As buscas relacionavam-se com alegada corrupção desportiva, com o Benfica suspeito de ter subornado atletas de outros clubes para vencerem o FC Porto.

Logo no próprio dia, Luís Filipe Vieira deslocou-se à sala de imprensa do clube para se defender. 
"Estas buscas resultam de mais uma denúncia anónima com origem do Porto e a ser investigada pelo DIAP do Porto. 
São factos falsos que investigam contratos do Benfica a jogadores. 
A mim não me incomoda nada que a PJ venha cá", disse o líder benfiquista. 
O caso continua a ser investigado.

António Simões: "O Benfica nunca mais será igual ao que ajudei a engrandecer"

BENFICA
E-Toupeira
Carlos Nogueira
                                                                      07 Setembro 2018    10:02

O campeão europeu pelo Benfica revela ao DN a sua "angústia" pelo processo e-toupeira e defende que "há gente que tem de sair"

António Simões esteve 16 épocas ao serviço do Benfica enquanto jogador, sendo ainda hoje o futebolista mais jovem de sempre a conquistar a Taça dos Campeões. 
Além do título europeu venceu 10 troféus de campeão nacional e cinco Taças de Portugal de águia ao peito, tendo ainda sido uma das estrelas da seleção nacional no Mundial de 1966, em Inglaterra. 
Aos 74 anos, não esconde a "mágoa" que o vai acompanhar "para o resto da vida" por ver o seu clube acusado no processo e-toupeira.

Como é que está a lidar com esta acusação do Ministério Público à Benfica SAD, no âmbito do processo e-toupeira?
Não me sinto nada bem com este caso. 
Estou preocupado, como é óbvio, mas também apreensivo. 
No entanto, tenho de ser cauteloso e obrigado a aguardar o desenrolar deste processo, com angústia e com ansiedade também.
"Não preciso de qualquer julgamento para afirmar que há gente dentro do Benfica que para mim já está julgada e que contribuiu para esta mancha ao meu clube"
Em sua opinião, quais as consequências que este caso poderá ter para o Benfica?
Tenho alguma esperança que o Benfica não sofra consequências desportivas com aquilo que está a acontecer. 
Contudo, para mim já houve um castigo ao Sport Lisboa e Benfica porque esta nódoa e esta mancha já ninguém as tira e é por isso que estou tão desgostoso. 
E digo mesmo que não preciso de qualquer julgamento para afirmar que há gente dentro do Benfica que para mim já está julgada e que contribuiu para esta mancha ao meu clube.
"Em janeiro falei com o senhor presidente Luís Filipe Vieira sobre algumas situações que me estavam a preocupar. Ele sabe do que falamos, mas não vou revelar o que conversámos. E, como tal, para mim não é surpresa aquilo que está a acontecer"
De quem está a falar?
Falo de Paulo Gonçalves, Pedro Guerra e outros, pessoas em quem não me revejo e, como tal, têm de sair do Benfica. 
Eu quando vou ao estádio assistir aos jogos nem quero vê-los lá a circular. 
Essas pessoas deviam ser expulsas de sócio, isto independentemente de serem ou não punidas pela justiça. 
Para mim estão punidas porque envergonharam o meu clube. 
Posso dizer-lhe que em janeiro falei com o senhor presidente Luís Filipe Vieira sobre algumas situações que me estavam a preocupar. 
Ele sabe do que falamos, mas não vou revelar o que conversámos. 
E, como tal, para mim não é surpresa aquilo que está a acontecer.

Dá para perceber que está magoado com toda esta situação...
É uma dor na alma que nunca mais vou esquecer. 
É uma mágoa enorme em cima de mim, pois esta nódoa já ninguém a tira de cima de mim e fica comigo para o resto da vida. 
O Benfica nunca mais será igual ao que ajudei a engrandecer ao longo da sua história. 
E é com a independência que tenho que digo que para mim é insignificante se gostam ou não do que eu digo. 
Não quero saber se gostam ou não, mas eu defendo o meu clube e digo aquilo que penso. Não é o António Simões, é o António Simões do Benfica que está a falar!
"Não quero saber se gostam ou não, mas eu defendo o meu clube e digo aquilo que penso. Não é o António Simões, é o António Simões do Benfica que está a falar!"
Teve essa conversa com Luís Filipe Vieira. Acha que ele sai afetado junto dos sócios e adeptos na sequência deste caso?
Vai depender do resultado desta acusação... 
Favorável é que não será! 
Mas irá sempre depender da Justiça, embora eu não precise do julgamento para reconhecer que não há um vento a favor de Luís Filipe Vieira. 
O que espero é que ele não venha a ser vítima de gente que não tem respeito pelos valores e pela história do Benfica.

Teme que este caso faça desmoronar todo o trabalho que foi feito no Benfica nos últimos anos?
Espero bem que não, mas há uma história de mais de cem anos, que eu e outros ajudámos a construir, que ninguém pode destruir. 
Contudo, repito, é uma mancha e uma nódoa nos princípios de honradez e desportivismo de quem serviu o clube. 
Espero que o Benfica não saia prejudicado desportivamente por quem diz que o serve, pois não é legítimo que se ponha em causa os últimos quatro campeonatos conquistados com o esforço dos jogadores e do treinador. 
Nada disso pode ser posto em causa por gente que não sabe estar dentro do Benfica.
"Espero que [os patrocinadores] não deixem o clube. Não é uma situação agradável para eles e é natural que estejam expectantes. Se eu fosse presidente de uma dessas marcas estaria, obviamente, obrigado a pensar seriamente neste assunto"
Pela experiência que tem, acha que este caso vai afetar a equipa de futebol esta época?
Ao balneário não vai chegar, pois os jogadores têm uma missão e um pensamento comum a todos eles. 
E digo isto porque têm tido caráter e força psicológica para não se deixarem afetar por várias situações ao longo dos últimos tempos. 
E tudo porque quem manda - estou a falar de Rui Vitória - não tem permitido que essas coisas entrem no grupo, que tem de jogar pelo respeito que o Benfica merece.

O caso e-toupeira poderá, em sua opinião, ter reflexos na relação do Benfica com os parceiros e patrocinadores?
Espero que não deixem o clube. 
Não é uma situação agradável para eles e é natural que estejam expectantes. 
Se eu fosse presidente de uma dessas marcas estaria, obviamente, obrigado a pensar seriamente neste assunto e a agir em conformidade. 
Mas acredito que estejam a aguardar com serenidade o desenrolar do caso.

Rui Gomes da Silva: "Haverá eleições antecipadas e serei candidato"

BENFICA
E-Toupeira
David Pereira
                                                                      06 Setembro 2018    11:00

Antigo vice-presidente do Benfica diz que Luís Filipe Vieira "irá a ter ao limite e nunca sairá da presidência", mas acredita em eleições antecipadas

Rui Gomes da Silva mostrou estar convicto de que vão haver eleições antecipadas aos órgãos sociais do Benfica e reiterou que vai avançar com a sua candidatura.

"Creio que haverá eleições antecipadas no Benfica e serei candidato. 
Não tem nada a ver com questões judiciais, mas sim com aquilo que acho que deve ser feito no Benfica", confirmou, em declarações à SIC Notícias.

No entanto, o antigo vice-presidente dos encarnados acredita que Luís Filipe Vieira não abdicará da presidência do clube de livre vontade. 
"Como acho que não vão deixar cair Paulo Gonçalves, também acho que Luís Filipe Vieira irá até ao limite e nunca sairá da presidência. 
Só sairá se for obrigado por perder eleições ou por outra razão contra a sua vontade", frisou.

Defesa da SAD do Benfica diz que acusação assenta em "deduções genéricas"

BENFICA
E-Toupeira
DN/Lusa
                                                                      06 Setembro 2018   17:02 
Benfica defende que Luís Filipe Vieira não tem ligação às alegadas ofertas de Paulo Gonçalves
Encarnados sustentam que a acusação do processo 'e-toupeira' não apresenta qualquer facto ou prova concreta sobre os crimes imputados, baseando-se num conjunto de deduções genéricas

"Inexiste qualquer facto, circunstância de tempo, lugar e modo, bem como prova concreta, que fixem uma qualquer conexão entre os factos imputados a qualquer dos arguidos, sejam os funcionários judiciais ou o Dr. Paulo Gonçalves e o Conselho de Administração da SAD do SLB [Sport Lisboa e Benfica], bem como em que momento, circunstância, de que forma e que uso foi dado por um qualquer elemento da SAD à informação que supostamente teria tido acesso", disse à agência Lusa fonte da defesa da SAD do Benfica.

O Ministério Público (MP) acusou a SAD (Sociedade Anónima Desportiva) do Benfica de um crime de corrupção ativa, de um crime de oferta ou recebimento indevido de vantagem e de vinte e oito crimes de falsidade informática.

A mesma fonte diz que na acusação se reconhece que os diretores de primeira linha do clube "estão tacitamente autorizados a pedir bilhetes e oferta de produtos de merchandising, sem necessidade de prévia autorização e registo por parte do presidente da SAD", Luís Filipe Vieira.

Para fundamentar a corrupção ativa, a defesa da SAD explica que o MP concluiu, "por mera dedução, que as eventuais ofertas feitas a arguidos seriam com conhecimento e autorização da SAD e como contrapartida sobre informações, mas em nenhum momento se consegue provar de que modo e em que circunstâncias a SAD teria acesso" a essas informações.

A acusação considera que o presidente da Benfica SAD, Luís Filipe Vieira, teve conhecimento e autorizou a entrega de benefícios a dois funcionários judiciais, por parte do assessor jurídico do clube, Paulo Gonçalves.

A defesa da Benfica SAD sublinha que em nenhum momento se prova que Luís Filipe Vieira tivesse conhecimento de tais factos, explicando que Paulo Gonçalves enviava a listagem de convites para os jogos à funcionária responsável, com conhecimento do presidente do Benfica.

"Limitando-se a acusação a relatar que numa das vezes vinha incluído o nome de um dos funcionários judiciais e que o presidente teria respondido com um 'OK' a essa listagem genérica. 
Perante centenas, senão milhares de emails enviados com os mais diversos nomes de convidados, imputar ao presidente do SLB e à SAD o conhecimento por esta circunstância de um eventual ato de corrupção, é absolutamente chocante e demonstra a fragilidade e falta de sustentabilidade desta concreta acusação", entende a fonte da defesa da Benfica SAD.

Quanto ao crime de oferta ou recebimento indevido de vantagem imputado à SAD benfiquista (através da alegada obtenção de informações dos dois funcionários judiciais), "sem provar em que momento, circunstância, qual o uso e vantagem adviria dela, é inaceitável e incompreensível" acusa a fonte da defesa do clube, acrescentando que, "interpretar daí que surgiriam ganhos para a competições desportivas mais incompreensível ainda é".

Acusação "persecutória"
Em relação aos 28 crimes de falsidade informática em concurso aparente com os funcionários judiciais, estes "carecem também de qualquer elemento probatório concreto que o prove".

"Quem, onde e em que circunstâncias alguém da SAD teria conhecimento dessa prática. Não deixando de ser no mínimo caricato ver a instituição que foi a maior vítima em Portugal do roubo e divulgação de sua correspondência privada, ver-se agora acusada sobre um conjunto de situações em que nenhum nexo concreto é provado de em que circunstâncias e como a SAD do SLB teria conhecimento de tais atos", salientou a fonte da SAD do Benfica.

As medidas acessórias propostas pelo Ministério Público de eventual suspensão de 6 meses a 3 anos da participação do Benfica em competições oficiais, são, segundo a mesma fonte, "todas infundadas, desproporcionais e carecem de devido fundamento e enquadramento legal, dando a esta acusação um sentido persecutório difícil de se aceitar e entender".

A fonte da defesa da SAD benfiquista concluiu que, "por esse conjunto de questões, foi de todo impossível ao Ministério Público constituir arguido o presidente ou qualquer administrador da SAD, pelo simples facto de não existir nenhuma prova ou elemento concreto que o sustentasse".

Porque é que a Benfica SAD é acusada e o seu presidente não?

BENFICA
E-Toupeira
Carlos Ferro e Isaura Almeida
                                                                      06 Setembro 2018   23:03

MP acusou a Benfica SAD, Paulo Gonçalves e dois funcionários judiciais no caso e-Toupeira, mas não Vieira. 
Lei permite esta decisão, mas advogados acham estranho não haver representante da Sociedade também no rol de acusados.

O facto de o Ministério Público (MP) não ter constituído arguido nenhum administrador da Sociedade Anónima Desportiva do Benfica, no caso de e-Toupeira, nomeadamente o seu presidente Luís Filipe Vieira, é uma decisão pouco habitual quando há a constituição de pessoas coletivas como arguidas em processos judiciais, mas é possível de acontecer, explicaram ao DN três advogados.

Para Emanuel Calçada, advogado e especialista em Direito Desportivo, a explicação é muito simples: "Porque o MP entendeu não ter indícios para que ele fosse arguido, tão simples quanto isso. 
É uma questão de interpretação de quem está a redigir a acusação. 
Tudo o resto é pura especulação."

Ou seja: "Ele [Luís Filipe Vieira] não foi constituído arguido porque se entende, provavelmente, que ele pessoalmente não tem responsabilidade. 
A única entidade com responsabilidade é a empresa que ele representa, a SAD. 
Ou seja, ele, pessoalmente como administrador não praticou atos que sejam crime, mas a SAD que é representada por ele, sim, segundo o MP."

No entanto, Lúcio Correia e João Diogo Manteigas são da opinião de que é, no mínimo estranho que Vieira, enquanto presidente da SAD, seja excluído do rol de arguidos.

"É difícil responder, porque sendo a SAD arguida normalmente também o é quem a representa para efeitos estatutários e legais, neste caso o presidente de administração", diz Lúcio Correia.
No entanto, segundo ele, "ainda mais estranho é que no caso da oferta de vantagens indevidas, o MP não determine quais foram os jogos em concreto em que houve vantagem indevida. 
Esta é que é a questão de fundo", defende o professor de Diretor de Desporto.

"Se consta da acusação a obtenção de vantagens ilícitas no âmbito da competição desportiva, porque é que a acusação foi pelo artigo 374 do Código Penal, que é relativo à corrupção em termos genéricos, e não foi pelo artigo 9 da LEI 50- 2007, que se refere à corrupção do ponto de vista desportivo? 
Essa é que é a questão que vale 10 milhões. 
Pois, o único crime do ponto de vista desportivo que é amputado à Benfica SAD é o oferecimento indevido de vantagens...", questiona Lúcio Correia.


João Diogo Manteigas é da mesma opinião e também considera que a instrução do MP é "estranha": "A SAD é constituída por pessoas. 
Se o Ministério Público quer imputar responsabilidades à SAD fazia sentido constituir um seu representante como arguido. 
Mas não podemos colocar em causa o despacho de acusação por causa de uma coisa que acaba por ser um pouco estranha."

MP: "Eram do conhecimento do presidente..."
O Ministério Público, num dos pontos do despacho de acusação, frisa que as ofertas de bilhetes emerchandising a dois funcionários judiciários - acusados de corrupção passiva, de crimes de oferta ou recebimento de vantagem e favorecimento pessoal, de violação do segredo de justiça, acesso indevido e falsidade informática - "eram do conhecimento do presidente da sociedade anónima desportiva, que as autorizava ou delas tomava conhecimento por correio eletrónico ou rubricando folha de autorização, sem nunca as impedir, pois tal era para benefício da arguida, assim querendo e aceitando todas as condutas atrás descritas".

"Pode alegar-se que Luís Filipe Vieira conhecia, mas mandou Paulo Gonçalves fazer isso? Se é explicito para o MP que Luís Filipe Vieira sabia [da atuação de Paulo Gonçalves] qual a razão para não o constituir arguido?", questiona João Diogo Manteigas, advogado especialista em direito desportivo, que participa num programa da Benfica TV onde são analisados "casos do desporto em geral": "Sou do Benfica, mas sou imparcial."

Certo é que na acusação o MP imputa à SAD benfiquista um crime de corrupção ativa, um de oferta ou recebimento indevido de vantagem e 28 de falsidade informática. 
E pede penas acessórias que podem ir desde a suspensão de participar nas competições desportivas ao impedimento de receber subsídios do Estado ou autarquias.

Para o sócio da Mota, Manteigas & Associados, Sociedade de Advogados, a acusação tem uma "tentativa vaga de ligar a SAD ao processo, pois a ligação de Paulo Gonçalves à SAD é muito forte". 
Mas é difícil fazer a relação entre uma e outra: "Como este caso envolve relações pessoais tem de ficar demonstrado que a Benfica SAD teve acesso à informação e que beneficiou dela. 
E isso não fica provado na acusação."

Acesso a processos de rivais
Num curto comentário à acusação, na quarta-feira, Luís Filipe Vieira garantiu a inocência do entidade da Luz. 
"A SAD continuará a defender a reputação do Benfica, que colaborará com as forças judiciais", garantiu o presidente do clube e da SAD.

No entanto, fazendo fé na acusação, o Ministério Público considera que a Benfica SAD beneficiou das pesquisas e acessos indevidos que os dois funcionários judiciais que são arguidos fizeram a vários processos que envolvem o clube, mas também o Sporting, FC Porto e até o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

Os funcionários usavam, segundo a acusação, credenciais de outras pessoas - incluindo as de uma procuradora com acesso a processos distribuídos no Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, assim como a processos da área cível e laboral do distrito judicial de Lisboa - para aceder a processos a pedido do assessor jurídico da SAD Paulo Gonçalves.

Esta recolha de informação decorria desde março de 2017, segundo o despacho assinado pelo procurador-adjunto Valter Alves.

Paulo Gonçalves acusado de 79 crimes
Paulo Gonçalves foi acusado de 79 crimes: um de corrupção ativa, um de oferta ou recebimento indevido de vantagem, seis de violação de segredo de justiça, 21 de violação de segredo por funcionário, em coautoria com os arguidos Júlio Loureiro e José Silva (ambos funcionários judiciais), 11 crimes de acesso indevido (em coautoria), de 11 crimes de violação do dever de sigilo (em coautoria) e 28 crimes de falsidade informática.

O MP acusou ainda o oficial de justiça José Silva - o único dos arguidos em prisão preventiva - de 76 crimes (um de corrupção passiva em coautoria, um de favorecimento pessoal, seis de violação de segredo de justiça, 21 de violação de segredo por funcionário, nove de acesso indevido, nove de violação do dever de sigilo, 28 de falsidade informática e de um crime de peculato - apropriação indevida de dinheiro público).

Já o arguido Júlio Loureiro, escrivão e observador de árbitros, foi também acusado de 76 crimes (um de corrupção passiva, um de recebimento indevido de vantagem, um de favorecimento pessoal, seis de violação de segredo de justiça, 21 de violação de segredo por funcionário, nove de acesso indevido, nove de violação do dever de sigilo e de 28 crimes de falsidade informática).

Federação abriu inquérito
O Sporting vai requerer a constituição como assistente no processo e-Toupeira. 
Os leões já tinham feito idêntico pedido em relação ao caso dos e-mails, tendo na altura sido aceites pelo Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa nessa condição.

Na sequência da acusação do Ministério Público, o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol anunciou a instauração de um processo de inquérito ao clube. 
O caso vai seguir para a Comissão de Instrutores da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

Já o secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo, pediu "celeridade e que se faça justiça".