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terça-feira, 21 de agosto de 2018

Diaby assina pelo Sporting por cinco épocas

SPORTING
Agência Lusa   21/8/2018, 10:55
O avançado maliano é a oitava contratação leonina para a temporada 2017/18. 
O contrato do ex-futebolista do Club Brugge contempla também uma cláusula de rescisão de 60 milhões de euros.

O avançado maliano Abdoulay Diaby, de 27 anos, assinou contrato com o Sporting válido para as próximas cinco temporadas, anunciou esta terça-feira o clube da I Liga portuguesa de futebol.

Segundo comunicado emitido pelos leões, o contrato do ex-futebolista do Club Brugge contempla também uma cláusula de rescisão de 60 milhões de euros.

Natural de França, e com 10 internacionalizações pelo Mali, Diaby foi formado no Sedan e rumou em 2013 ao Lille, que o emprestaria de seguida aos belgas do Mouscron por época e meia. 
Em 2014/15, realizou apenas três jogos pelo Lille e saiu em definitivo para a Bélgica, onde se afirmou em três épocas de sucesso no Club Brugge: 108 jogos e 36 golos.

O avançado maliano é a oitava contratação leonina para a temporada 2017/18, depois das chegadas dos guarda-redes Viviano e Renan Ribeiro, dos defesas Marcelo e Bruno Gaspar, do médio Sturaro e dos extremos Nani e Raphinha.

Rafael Leão impedido de jogar pelo Lille até o clube resolver problemas financeiros

FUTEBOL
Observador   21 de Agosto de 2018
Os problemas financeiros do clube francês estão a impedir que as novas contratações possam ser utilizadas. 
O Lille terá que fazer 30 milhões em vendas de jogadores para desbloquear a situação.

Rafael Leão está impedido de jogar pelo Lille devido aos problemas financeiros que o clube enfrenta neste momento. O jovem avançado, que se mudou para a equipa francesa depois de ter rescindido o contrato com o Sporting, só poderá entrar em campo se o clube do norte de França fizer 30 milhões de euros com a venda de jogadores até ao final do mercado, no dia 31 de agosto.

De acordo com o L’Équipe, a Direção Nacional do Controlo da Gestão, organismo que monitoriza as contas dos clubes em França, colocou uma meta que o Lille terá que conseguir atingir com a venda de atletas, faltando ainda 30 milhões para que o valor definido seja alcançado. Até lá, o clube está impedido de utilizar as novas contratações, juntado-se a Rafael Leão os franceses Jérémy Pied (ex-Southampton) e Loic Remy (ex-Las Palmas).

Até agora, o Lille já conseguiu arrecadar 52 milhões de euros em transferências e o treinador do clube, Cristophe Galtier, acredita que a situação vai ficar resolvida antes do final do mês “Vamos perder jogadores, sabemos isso. Faremos tudo para respeitar as exigências da Direção Nacional do Controlo da Gestão, mas também para ter um grupo de trabalho competitivo. Já vendemos 52 milhões de euros em jogadores, é bom, nem todos podem fazer isso. O clube vai atingir o objetivo fixado pela DNCG, vamos lutar por isso, mas também para manter uma equipa competitiva”, disse, citado pelo L’Équipe.

Para conseguir os tais 30 milhões, o clube aposta principalmente na venda do jovem holandês Anwar El Ghazi, que tem vários pretendentes em França e Inglaterra. Além disso, Nicolas Pépé (pretendido pelo Sevilha) e Adama Soumaoro (desejado pelo Lyon), também são nomes em cima da mesa, apesar de o mesmo jornal garantir que nenhum deles quer abandonar o Lille.

Tropas soviéticas em Praga: libertadores ou ocupantes? /premium

VLADIMIR PUTIN
José Milhazes    20/8/2018, 14:07
Actualmente, Vladimir Putin tenta repetir a política de “soberania limitada” de Leonid Brejnev, dirigente soviético que ordenou a entrada de tanques em Praga.



A invasão da Checoslováquia há 50 anos por tanques soviéticos, conhecida como “Operação Danúbio”, continua a provocar acesas discussões na Rússia, principalmente à luz da política externa agressiva de Vladimir Putin no antigo espaço soviético. 
Actualmente, Putin tenta repetir a política de “soberania limitada” de Leonid Brejnev, dirigente soviético que ordenou a entrada de tanques em Praga.

Esta abordagem do Kremlin começou a manifestar-se na invasão da Geórgia em 2008 e tornou-se particularmente evidente depois da ocupação da Crimeia e do Leste da Ucrânia pelas tropas russas em 2014. 
A tentativa dos checoslovacos de se libertarem do jugo comunista começou a ser comparada às “revoluções coloridas que ocorreram em alguns dos países que fizeram parte da União Soviética até 1991.

Em 2016, o deputado Viatcheslav Nikonov, neto de Viatcheslav Molotov, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do ditador comunista José Estaline, considerou que “então, na Checoslováquia foi organizada mais uma revolução colorida pelos americanos”. 
Este defensor ferrenho da política externa de Vladimir Putin não tem dúvidas de que a “Primavera de Praga” foi inspirada de fora para retirar aquele país do “campo socialista”.

Em Novembro do ano passado, na véspera da visita de Miloš Zeman, Presidente da República Checa, a Moscovo, a página do canal televisivo “Zvezda” (Estrela), órgão de informação oficial do Ministério da Defesa da Rússia, publicava um texto onde se afirmava que “a Checoslováquia devia estar grata à URSS por 1968”, “frisando que a entrada de tropas [soviéticas] na Checoslováquia não permitiu ao Ocidente fazer um golpe de Estado no país segundo a tecnologia de realização das revoluções de “veludo” e conservou durante mais 20 anos a paz e concórdia entre todos os povos dos países da Organização do Tratado de Varsóvia”.

Segundo o autor do texto, por detrás da construção do socialismo com rosto humano “começou a destruição do Estado checoslovaco socialista”; tudo o que acontecia, como “compreenderam bem” os dirigentes dos países do Tratado de Varsóvia, era “o avanço da NATO para Leste”.

Este artigo irritou tanto os checos e os eslovacos que Miloš Zeman, um dos aliados de Putin no seio da União Europeia, protestou junto do Kremlin e a televisão russa retirou-o da sua página.

As actuais autoridades russas parecem ainda não ter compreendido o erro dos líderes comunistas soviéticos. 
Os povos do antigo “campo socialista” não eram atraídos pela NATO, mas sim pelo desenvolvimento económico e social dos países vizinhos. 
A Checoslováquia, por exemplo, tinha fronteiras com a Áustria, um dos países mais prósperos da Europa de então, onde o desenvolvimento económico estava acompanhado do respeito pelos direitos e liberdades.

Por isso, a Rússia sentir-se-á sempre ameaçada e cercada enquanto não for, pelo menos, um exemplo de bem-estar social e de respeito por aquilo que os seus dirigentes exigem dos outros, respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades. 
O medo e as ameaças têm apenas efeito temporário. 
Não é ameaçando e invadindo o território dos países vizinhos que se ganha o respeito deles.

É por esta razão que é difícil acreditar que a Rússia esteja interessada numa solução justa para o problema da Ucrânia. 
O Kremlin continua a apostar no tudo ou nada: ou a Ucrânia aceita a “soberania limitada”, ou continuará a ver parte do seu território ocupado por tropas russas (os separatistas russófonos não passam de fantoches mandados por Putin). 
Por isso, o último encontro de Vladimir Putin com Angela Merkel sobre este problema acabou sem resultado.

Correu claramente melhor a participação do dirigente russo no casamento de Karin Kneissl, chefe da diplomacia do governo austríaco de extrema-direita. 
Traz-nos à memória um dos ditados russos preferidos de Putin: “Quem paga é quem dança a moça”.

A extrema-esquerda portuguesa, que morre de paixão pelo “anti-imperialismo” do Kremlin, certamente não irá comentar a dança. 
Os fins justificam os meios.

P.S. Moscovo já cantou vitória militar na Síria, mas chegou a hora da reconstrução do país e é preciso dinheiro. 
O Kremlin pediu dinheiro a Trump, mas recebeu resposta negativa. 
Putin foi bater à porta de Merkel, lembrando que, se a União Europeia não abrir os cordões à bolsa, os refugiados sírios que já se encontram na Europa não poderão regressar ao seu país e que, nos países vizinhos da Síria, há ainda vários milhões de refugiados que poderão querer ir para o Velho Continente.

Uma viagem à Praga dos dias da invasão pela mão de quem aí os viveu


INVASÃO PRAGA
José Manuel Fernandes  17 Dezembro 2015

Cândida Ventura, histórica dirigente comunista, e depois dissidente, viveu em Praga os dias da invasão soviética, há 50 anos. 

Anos passados, guiou José Manuel Fernandes pelos lugares dessas memórias.


(Texto publicado no Observador a 17 de dezembro de 2015, assinalando a morte de Cândida Ventura, a primeira mulher a entrar, depois de 1940, para a direcção do PCP, uma vez que a sua rutura com o comunismo começou e acabou em Praga e teve como ponto cardeal a invasão da então Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, a 20 de agosto de 1968. 
Este texto é também uma adaptação do que editei no Público na passagem do 40º aniversário dessa invasão e tem como ponto de partida a viagem que fiz com Cândida Ventura a Praga, com ela revisitando os lugares onde vivera esses trágicos dias de 1968.)

1 - Uma imagem de Dubcek
Em cima da cómoda, junto à porta do pequeno apartamento de Portimão, destacava-se uma pequena moldura. Feita de cabedal grosso, com um acabamento artesanal, mostra uma fotografia de Alexandre Dubcek, o líder da Primavera de Praga. A fotografia impressa num folheto da época.
“Essa moldura foi-me oferecida na prisão, por um camarada”, explica Cândida Ventura.
“E ainda guarda uma imagem de Dubcek?”
“Sempre.”
Estivéramos longas horas a conversar e só então calha dizer-lhe que iria a Praga daí por dois meses. Foi o suficiente para os olhos se acenderem e perguntar-me se não seria possível aproveitar para também regressar à cidade onde viveu mais de uma década. “Gostava de lhe mostrar algumas coisas…”
Foi no Café Slavia, o mesmo que Vaclav Havel e tantas outras gerações de intelectuais checos frequentavam, que, em frente de dois cálices de Becherovka, convers´ºamos sobre as memórias de 1968

Dois meses depois, após um dia inteiro às voltas pela cidade, Cândida Ventura senta-se por fim no Café Slavia e encomenda dois cálices de Becherovka, um licor tradicional checo. “Era aqui que os intelectuais se juntavam para conversar, escrever, até para conspirar”, conta-nos. Intelectuais contemporâneos, como Vaclav Havel ou Ji í Grossmann, mas também os que ali se reuniam no final do século XIX, como Viktor Oliva, o criador da pintura O Bebedor de Absinto, que ainda se pode admirar numa das salas do café, ou Rainer Maria Rilke, que situa mesmo neste café uma das suas Duas Histórias de Praga.

Aos 88 anos (entretanto já completou 90), a energia de Cândida Ventura parecia inesgotável ao fim de um dia em que voltara a percorrer algumas das ruas e lugares que mais marcaram a sua vida. Porque foi em Praga que as suas certezas de dirigente comunista terão começado a ser abaladas, ainda nos anos 1950, e porque foi lá que ruíram de vez quando foi testemunha da Primavera de Praga e do seu esmagamento.

2 - Em 1958, encontro com Artur London
“A primeira vez que aqui vim foi em 1958”, recorda-nos esta mulher pequenina, muito magra, de olhar doce mas voz por vezes dura e sempre afirmativa, ainda capaz de irradiar um raro encanto. “Ia visitar pela primeira vez a União Soviética e tinha de passar por Praga. Estou convencida de que me ofereceram essa viagem como compensação pelo processo que me tinham movido por fraccionismo”, recorda.

O “castigo” acontecera quatro anos antes, num período difícil da história do PCP, quando, depois da prisão de Álvaro Cunhal, a direcção de Júlio Fogaça enfrentava uma contestação quase permanente. Cândida Ventura, a primeira mulher a chegar ao Comité Central depois da reorganização do PCP no início dos anos 40, foi então despromovida e, depois, reabilitada. Indo a Moscovo.

Mas, ao passar por Praga, reencontra um dos dirigentes que mais admirava e de quem era mais amiga: José Gregório, o líder sindical que, em 1933, encabeçara a revolta de 18 de Janeiro na Marinha Grande. Doente, o partido enviara-o para Praga e, quando se encontraram, Gregório disse-lhe: “Há uma pessoa que não podes deixar de ver antes de seguires para Moscovo.” E que pessoa: Artur London, uma das vítimas do “processo Slansky”, o “julgamento espectáculo” que marcara a vitória do estalinismo na Checoslováquia dos anos 40. Dos 14 réus, onze foram condenados e fuzilados, três enviados para a prisão.
Artur London, em Paris, durante uma acção de apoio aos dissidentes checoslovacos, com a actriz Simone Signoret, protagonista do filme A Confissão, baseado na história do antigo dirigente comunista

London fora um destes e em 1958, com a “desestalinização”, saíra em liberdade. O que então contou a Cândida Ventura sobre o seu processo, a prisão, as torturas e o julgamento – a história eternizada na sua memória auobiográfica A Confissão – levou-a a começar a encontrar explicação para as suas primeiras dúvidas, “especialmente depois das falsas acusações de que tinha sido vítima em 1954”, como escreveu em O Socialismo Que Eu Vivi (1984).

“Que diferença entre o que nos dizia o ‘secretariado’ e o que acabava de conhecer através de Gérard [o pseudónimo de Artur London] e de outros amigos checos”, escreveu então. “Foi através dele que conheci, pela primeira vez, a verdadeira dimensão dos campos de concentração no mundo comunista.”

“Já segui para Moscovo com dúvidas”, contou-nos enquanto percorríamos as ruas de Praga. “Depois, em Sochi, a estância para onde iam os quadros dos partidos amigos, encontrei um casal de médicos e, ao ver os olhos dele, vi os olhos de London. Quando consegui ter um momento para lhes falar a sós, disse-me que era um dos médicos do processo dos ‘batas brancas’ [uma das paranóias finais de Estaline, quando mandou prender todos os que o tratavam por suspeitar que o estavam a envenenar]. O meu choque foi tão brutal que, quando voltei a Praga, disse ao José Gregório que ia deixar o partido. Ele pediu-me para ter calma. Convenceu-me de que as coisas não iriam continuar como estavam.”

3 - A prisão, o exílio e o regresso a Praga
De volta a Portugal, mergulha de novo na clandestinidade até ser presa em Agosto de 1960. Julgada e condenada, os meses passados na cela de isolamento e a tortura deixaram-na numa situação de tão extrema debilidade física que a família acabaria por conseguir, em 1963, autorização para sair em liberdade condicional e ser tratada em França. Daí segue de novo para Moscovo até passar a ser a representante do PCP em Praga e a trabalhar na Revista Internacional – Problemas da Paz e do Socialismo. Nos dez anos seguintes, até regressar a Portugal, passaria a ser Catarina (“pronuncia-se ‘catarjina'”, explica-nos), o seu último “nome de guerra” no PCP.

“Tinha o estatuto dos que eram conhecidos pelos ‘grandes animais’, os dirigentes da nomenclatura, os que tinham direito a hotéis especiais, motoristas e tratamento de privilégio”, recorda. “Nessa altura o José Gregório já tinha morrido e o London acabara de partir para França, mas algo já tinha começado a mexer. A pouco e pouco fui-me integrando no ambiente de discussão cada vez mais aberto que acabaria por levar à Primavera de Praga.”

Ela e os portugueses que então viviam em Praga – entre os quais se destacava o historiador Flausino Torres – tornam-se apoiantes entusiásticos da abertura reformista e de Dubcek. Quem o testemunha é António Barreto, à época um jovem estudante comunista. “Fui a Praga mais de uma vez, para encontros com o responsável do PCP pelo meu sector, Álvaro Bandarra, e, para além das conversas políticas, lembro-me de Cândida Ventura me pedir para lhe levar coisas tão extraordinárias como aspirinas ou rolos de fita-cola. Achei estranho essas faltas num país que se dizia tão desenvolvido”, recorda.
Estudantes distribuem comunicados de protesto contra a invasão soviética de 21 de Agosto de 1968

Só que a Primavera de Praga e o entusiasmo dos portugueses não durou muito. Na madrugada de 21 de Agosto de 1968, tropas soviéticas, da Polónia, da RDA, da Hungria e da Bulgária atravessaram as fronteiras e começaram a ocupar as principais cidades e a repor a “normalidade”. Nessa noite Cândida Ventura estava numa estância nos Altos Tatras, mas quando a Rádio Praga difundiu o primeiro grito de alarme, e todos saíram alvoraçados dos seus quartos, pouco mais conseguiram fazer do que abraçar-se. “Há factos, acontecimentos, dias, momentos em que a grandeza e o conteúdo dramático do que vivemos nos dá um sentimento de impotência”, escreveria muitos anos depois em O “Socialismo” Que Eu Vivi.

“Tinha a sensação de me decompor fisicamente, a certa altura não conseguia falar nem estar de pé.” A obsessão era regressar a Praga, o que só conseguiria dias depois, indo ao encontro da realidade que Flausino Torres optaria por registar num diário que acaba de ser editado em Portugal pela primeira vez (Diário da Batalha de Praga, Afrontamento).

4 - O chapéu de Dubcek
“Começaram, desde há três ou quatro dias, as cerimónias fúnebres da Juventude em homenagem aos seus mortos. E a catedral em que se realizam os ofícios é ao pé da estátua de Venceslau”, escreveu Flausino Torres. “Foi ali que caiu varado pelas balas de um tanque invasor o primeiro herói, um pequeno herói de à volta de 15 anos! O rapazito correu para um tanque e atirou-lhe com qualquer explosivo de fabrico caseiro. O colosso incendiou-se, remexeu-se, torceu-se; os soldados tentaram fugir ao calor infernal… e o pequeno, sempre correndo atrás dele, de grande bandeira na mão! Foi neste momento que as metralhadoras de um outro carro o abateram. Ali caiu e ali ficará para sempre a sua memória.”

E ficou. Quando desço com Cândida Ventura a Praça Venceslau aquele é um dos pontos que me quer mostrar, tal como os sinais de bala que ainda não desapareceram da fachada do Museu Nacional. Mas de entre as memórias desses dias uma parece tê-la marcado mais do que todas as outras: o reencontro com Dubcek depois de este regressar, para onde tinha sido levado nos primeiros momentos após a invasão e obrigado a assinar uma declaração em que renunciava a parte do seu programa e dava assentimento à ocupação. Ainda era o líder do PCC, mas já era também um homem destruído.
Alexander Dubcek (à esquerda) com os dirigentes russos Alexei Kosygin e Leonid Brezhnev numa cimeira em que os soviéticos tentaram convencê-lo a parar com as reformas

“Estava um dia no hall do Hotel Praha quando ele entrou de chapéu na cabeça – ele que usava chapéu. Olhámo-nos, ele aproximou-se e, discretamente, levantou o chapéu para me deixar ver os sinais das feridas que lhe tinham deixado os ‘tratamentos’ sofridos em Moscovo. Abraçámo-nos sem trocar uma só palavra. Não era preciso.” Cândida Ventura fala-nos como se tudo se tivesse passado ainda ontem, com gestos simula a forma como Dubcek lhe mostrou as feridas, notamos nos seus olhos a sombra de uma lágrima contida. “Sacha”, como o tratava, era mais do que o dirigente do “partido irmão”: era um amigo que conhecia desde 1965, ainda bem antes de subir ao topo de hierarquia comunista. E era também alguém que recorda como muito afável e acessível, sem nenhum dos tiques das outras “altas personalidades”.

Quando “Sacha” morreu num acidente de automóvel, em 1992, já depois da queda do comunismo na “Revolução de Veludo” de 1989, “Catarina” viu cumprir-se uma velha profecia de Cunhal. É que, vivendo então em Moscovo, o secretário-geral do PCP começou por ir a Praga ouvir Cândida Ventura. O reencontro não foi fácil, pois esta recusou subscrever a linha oficial do PCP sobre a legitimidade de intervenção soviética.

Não romperam, mas o líder histórico do PCP deixou-lhe um aviso: “Disse-me para me afastar de Dubcek, pois ele iria acabar mal. ‘Mal como?’, perguntei-lhe. ‘Pendurado num candeeiro, atropelado, tu sabes como estas coisas são’, respondeu-me. É por isso que ninguém me tira da cabeça que ele não sofreu apenas um normal acidente de automóvel.”

5 - Ruptura de comunistas. E o “fulanão”
Por essa altura as coisas ferviam entre os comunistas portugueses exilados em Praga. No seu diário, Flausino Torres dava conta a 31 de Agosto, numa altura em que desconhecia que o Avante! já tinha tomado posição a favor da invasão, da desorientação e revolta que o atormentavam: “Entretanto, os nossos já famosos ‘Dirigentes’ começaram a sacudir-se, a espreguiçar-se: segundo a Rádio Portugal Livre, ‘em vez de se fazerem declarações de apoio a esta ou aquela parte em conflito, é preferível analisar objectivamente os acontecimentos’. E que resultou então duma análise objectiva? ‘O governo checo, antes da ocupação militar, cometeu graves erros’! Porém, não se percebe donde vieram as informações para tal juízo: no dia 12 de Agosto, a Responsável [Cândida Ventura] afirmara-nos que ‘nunca o partido checo fora tão apoiado como agora, exactamente pela sua política justa (…)’.”

Impacientes, Flausino Torres e outros comunistas exilados decidem escrever uma mensagem para entregar nas embaixadas dos países ocupantes e aos dirigentes checoslovacos. Queriam que Cândida Ventura assinasse, mas esta não o fez, uma recusa que alguns nunca lhe perdoaram, como se percebe lendo Flausino Torres. Ela mesma percebeu que assim se afastava daqueles com quem partilhara o apoio à Primavera de Praga.

“Pela estima e consideração que sempre lhe dediquei”, escreveria em O Socialismo Que Eu Vivi, “lamento que já não seja possível falar com Flausino Torres [o historiador faleceu em 1974] sobre todas estas questões.”
"Foi a escolha que fiz e ajudei no que pude gente como a que viria a assinar a Carta 77, um movimento central na queda do regime."

Mas porquê, Cândida Ventura, tanto tempo, 16 anos, para vir contar a sua verdade?

“Naquela época estava muito envolvida com os reformadores comunistas, tanto na Checoslováquia como na Polónia. Mantive contacto com os que passaram à resistência. Manter o meu posto, a minha facilidade de movimentos, era muito importante para os poder ajudar. Se assinasse aquele documento teria de sair de Praga e do partido, deixaria de ser útil. Foi a escolha que fiz e ajudei no que pude gente como a que viria a assinar a Carta 77, um movimento central na queda do regime.”

Ao mesmo tempo, e até sair do PCP em 1976, depois de regressar a Portugal, também não daria a Cunhal o gosto de a obrigar a ir além dos limites que impunha a si própria. Foi isso mesmo que aconteceu, semanas depois, quando, a seu pedido, Cunhal regressou a Praga para se reunir com os exilados. A 5 de Novembro de 1968.

Cândida Ventura recorda-se de uma reunião “penosa e tensa”, em que não tomou a palavra, como o momento em que Flausino Torres rompe com Cunhal – uma ruptura definitiva que marcaria o isolamento em que viveu o resto da sua vida. Numa carta que escreveu à sua filha Marcela conta que “o Fulanão supremo”, Cunhal, “veio cá à terra”: “Não foi para ouvir, não foi para inquirir do nosso estudo, da nossa observação acerca do que se tinha passado à vista do milhão e meio que constitui a população da heróica cidade. Foi apenas para lançar a sua excomunhão sobre todos os Portugueses praguenses, chegando a pôr um para fora da sala a grandes brados: ‘Saia, saia; um comunista não se vende!’ (…) Esse fulanão, esse FULANÃO, sentiu-se certamente envergonhado quando o velhote [Flausino] declarou: ‘Jamais voltarei a apertar-te a mão! Mandaste sair aquele jovem. Pois tu é que deves abandonar o grupo, a direcção do grupo! (…)’.

6 - Uma pequena placa na Praça Venceslau
Se Cunhal levou a sua avante no PCP, na Checoslováquia os soviéticos também começavam a impor o seu “processo de normalização”. As figuras mais relevantes do movimento reformista foram afastadas uma a uma, os que tinham tomado posições a favor do “socialismo de rosto humano” obrigados a retractarem-se por escrito, os que mantiveram a espinha vertical obrigados a abandonar os empregos e muitos, mesmo os com as profissões mais qualificadas, acabaram nos empregos mais humildes. Não sem que houvesse sobressaltos, envolvendo sacrifícios tocantes. Um deles foi o de Jan Palach.
"Venho sempre aqui quando regresso a Praga", diz-nos junto ao pequeno memorial onde se recordam os sacríficios de Jan Palach, a 16 de Janeiro de 1969, e Jan Zajic, a 25 de Fevereiro

“Na Praça Venceslau há uma coisa que quero mostrar”, avisara-nos logo pela manhã Cândida Ventura. Só que naquele domingo cheio de sol, numa praça cheia de jovens, o lugar de romagem a que nos queria levar parecia quase escondido. “Venho sempre aqui quando regresso a Praga”, diz-nos quando nos aproximamos do pequeno memorial, erguido já depois da Revolução de Veludo, aos dois jovens que se imolaram pelo fogo em protesto contra a intervenção soviética. Primeiro Jan Palach, a 16 de Janeiro de 1969, depois Jan Zajic, a 25 de Fevereiro.

É apenas uma pequena lápide, quase escondida num canteiro, mas que marca o local onde Palach pegou fogo a si mesmo. Todos parecem ignorá-la, sobretudo os turistas que fotografam a estátua equestre do Rei Venceslau, uma dezena de metros mais acima. Todos, não. Quando nos aproximamos adianta-se-nos um homem nos seus cinquenta e muitos que pousa um ramo de flores e, por alguns instantes, se ajoelha numa homenagem silenciosa. Se fossem vivos, os dois jovens que a placa recorda deveriam ter a sua idade.

7 - Praça triste cheia de gente
É então que Cândida Ventura tem mais dificuldade em esconder a emoção. Tapa até o rosto por um momento enquanto guarda um longo silêncio, um silêncio que só quebra ao tomarmos a direcção do Café Slavia. Solta então a torrente das memórias com a urgência de quem não sabe se um dia ali voltará. Conta-nos como foi o funeral de Palach, num dia cinzento de chuva, diz-nos que esteve entre os que ajudaram a convencer outros estudantes a não repetirem o gesto do seu colega, recorda a primeira vez que, depois da invasão, aquela praça triste se encheu de gente alegre e de cânticos, o dia em que a selecção de hóquei em gelo checoslovaca bateu a da União Soviética. “Foi lindo.”

Com Cândida Ventura, junto ao memorial
Foi só um dia, vivido como uma jornada de “vingança” nacional e só isso: a esperança de que era possível regenerar por dentro o socialismo tinha acabado. Cândida Ventura já o compreendera bem, como contou recentemente à Visão Octávio Cunha, hoje médico no Porto, que depois de ter estado com ela em Praga poucos dias antes da invasão receberia um telegrama. Onde se lia apenas: “O socialismo acabou.”

Ou, para ser mais preciso, “a ilusão de que o comunismo era reformável, que o estalinismo fora um passo em falso, um erro que ainda podia ser corrigido, que os ideais centrais do pluralismo democrático ainda podiam de certo modo ser compatíveis com as estruturas do colectivismo marxista, essa ilusão foi esmagada pelos tanques a 21 de Agosto de 1968 e nunca se recompôs”, como escreveu Tony Judt no seu monumental Pós-guerra.

Valeu então a pena ter ficado no PCP e ter seguido o conselho de José Gregório? A Catarina de então, a Cândida Ventura de hoje, acredita que sim: “O socialismo acabou ali, a luta pela democracia não. E ajudei muitos dos que viriam a estar nas revoluções que deitaram abaixo o comunismo.”

Já não há Becherovka no fundo dos cálices e o sol está quase a desaparecer. Tomamos um eléctrico que segue ao longo do Vlata e custa-nos a crer como, na cidade que reencontrou toda a sua magia, os edifícios que aqui e além Cândida Ventura nos indica só eram acessíveis aos “grandes animais”. Mas ela conhece-os, era um deles, frequentava-os, lembra quando se despede com um sorriso matreiro.

(Artigo adaptado do publicado originalmente no Público de 20 de Agosto de 2008)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

"O ex-presidente deu uma nova prova da permanente irresponsabilidade"

Sporting
Sofia Esteves Teixeira
Hoje às 22:28
Em comunicado, o Sporting confirmou uma queixa-crime contra o ex-presidente Bruno de Carvalho.

Leia na íntegra o comunicado da comissão de gestão do Sporting.

Hoje, numa manifestação de desespero de quem já não respeita nada nem ninguém, o ex-Presidente destituído pelos sócios deu uma nova prova da permanente irresponsabilidade com que intervém ilegal e abusivamente na vida do Sporting Clube de Portugal, lançando a confusão e semeando a divisão no Clube. 
Invocando os mesmos documentos com que na passada sexta-feira ilegalmente pretendeu usurpar funções que comprovadamente não são suas, hoje permitiu-se enviar durante o dia cartas a bancos com os quais o SCP mantém relações comerciais, nas quais, na qualidade abusivamente invocada de Presidente do Conselho Directivo do SCP, se permitiu pressionar os referidos bancos para impedir que as contas bancárias do SCP continuem neles a ser movimentadas pelos órgãos do Clube legitimamente em funções. 
Esta desesperada iniciativa não obteve sucesso, tendo as referidas entidades bancárias recusado participar nesta tentativa de fraude. 
Atendendo à gravidade destes factos, a Comissão de Gestão do SCP decidiu:

1 - Participar criminalmente do ex-Presidente destituído pelos sócios junto do Ministério Público por fraude e usurpação de funções;
2 - Participar à Comissão de Fiscalização estes factos para os efeitos tidos por convenientes.

Lisboa, 20 de Agosto de 2018
A Comissão de Gestão do SCP

Bruno de Carvalho confirma que enviou SMS a jogadores mas desmente que tenha assinado como “vosso presidente”

SPORTING
Observador   20/8/2018, 9:01

CM avançou esta segunda-feira que Bruno de Carvalho tinha enviado SMS aos jogadores antes do jogo com o V. Setúbal; ex-líder admite mensagem mas nega que tenha assinado como "o vosso presidente".

O Correio da Manhã avançou esta segunda-feira que Bruno de Carvalho, antigo líder do Sporting, tinha enviado SMS a todos os jogadores do plantel leonino na antecâmara do último encontro em Alvalade, frente ao V. Setúbal (2-1). 
O ex-número 1, destituído em Assembleia Geral a 23 de junho, admitiu à tarde a mensagem mas, numa publicação no Facebook, desmentiu o seu teor.

De acordo com a publicação, as SMS eram assinadas no final com “o vosso presidente”, algo que terá causado desconforto nos atletas verde e brancos, algo confidenciado a um elemento da SAD do Sporting. 
Estas mensagens antes da partida com os sadinos seriam ainda personalizadas para, caso fossem divulgadas, pudesse ser mais fácil identificar o recetor das mesmas. 
Tudo isto no dia em que Bruno de Carvalho e a Comissão de Gestão do clube entraram de novo em rota de colisão, com conferências de ambas as partes que colocaram ainda mais visíveis as posições de ambas as partes a propósito de um possível regresso a Alvalade.

Em resposta à notícia, sem mencionar a mesma, Bruno de Carvalho assumiu que enviou as tais SMS – acrescentando que já o tinha feito após o triunfo em Moreira de Cónegos, na abertura do Campeonato – mas desmentiu que tenha assinado as mesmas como “o vosso presidente”, acrescentando ainda que a mensagem na véspera do jogo com o V. Setúbal “não foi personalizada”.

“Como foi sempre meu hábito enviei mensagens aos atletas do Sporting. 
Uma após o jogo de Moreira de Cónegos, pois não consegui enviar antes, a dar os parabéns pelo excelente resultado. 
Essa foi personalizada pois uns mereciam uma força adicional, ou pelo regresso depois de empréstimo, ou por ser o primeiro jogo oficial, ou por serem novos e necessitarem de um apoio extra. 
Depois enviei uma antes do jogo do Setúbal, não personalizada, também devido ao sucedido no dia anterior na SAD e das notícias que foram logo veiculadas de um suposto mau estar, apenas recordando (com o vídeo da festa no balneário) os grandes momentos que passámos na final da Taça da Liga juntos (jogo também com o Setúbal) e dizendo que quem vive assim com a ‘sua família” (atletas) jamais lhes poderia querer fazer mal e mostrando que o futebol é uma festa onde a vitória traz a alegria suprema!”, escreveu o antigo presidente na sua página pessoal do Facebook.

“Sim, mandei as mensagens por respeito de cinco anos de trabalho conjunto e porque tenho saudades deles. 
Saudades de estar ali, de poder dar a minha quota parte de ajuda, de poder ser mais um naquele anel mágico antes de cada jogo, de poder ser a voz de todos os sportinguistas em todas as modalidades do clube, exigindo atitude e compromisso totais pois queremos ser felizes. 
Tenho saudades dos atletas e dos adeptos pois foi com o seu carinho e apoio que chegámos até aqui. 
Voltar tudo atrás. 
Comum projeto tão bom a decorrer ir dar um ‘tiro no escuro’. 
Colocar alguém que não tem nenhuma experiência, que não está nos meandros do desporto e já os estudou e fez um percurso que os fez respeitá-lo e ao clube, que terá de aprender tudo (mesmo tudo – interno e externo) e que terá de ter uma força sobre-humana para vencer, quando estávamos tão próximos, não é justo para os superiores interesses do clube e dos sportinguistas”, acrescentou.

A Grécia terminou o resgate. Mas não parece /premium

GRÉCIA
Nuno André Martins   20 Agosto 2018

A Grécia teve de aprovar cortes nas pensões e mais impostos para 2019 o ano passado, será submetida a revisões trimestrais e tem que aplicar medidas até 2022. 
O resgate acabou, mas pouco mudará.

Quase 10 anos depois, a Grécia terminou com sucesso o terceiro resgate à sua economia entre felicitações e avisos e com o anúncio de uma nova era, na qual os gregos recuperaram o controlo sobre o seu destino. 
Mas depois dos dois primeiros resgates falhados, os credores impuseram restrições de tal ordem que a margem de manobra de Alexis Tsipras para escolher as suas políticas é tão limitada que até pode vir a custar-lhe a liderança.

“A Grécia recuperou o controlo pelo qual lutou”, anunciou o ministro das Finanças português e presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, num vídeo publicado esta segunda-feira, para marcar o final oficial do terceiro resgate, dizendo ainda que os benefícios das reformas (que tanto criticou antes das eleições e depois de se tornar ministro das Finanças) ainda não chegaram a todos, mas que irão chegar.

Pierre Moscovici, o comissário europeu para os Assuntos Económicos, alinhou pela mesma nota otimista: “O Governo vai ter mais margem de manobra para adaptar as políticas às preferências do povo grego”. 
Em entrevista, Moscovici salientou que os gregos tinham recuperado a sua liberdade. 
Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças do Syriza, e figura pouca querida na Grécia (inclusivamente dentro do próprio Syriza) assemelha estas declarações de Centeno a propaganda norte-coreana. 
Quem tem razão?

A Grécia terminou esta segunda-feira o terceiro programa de resgate, o único com sucesso depois de pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional e aos países do euro em maio de 2010. 
Foi o primeiro país do euro a fazê-lo. 
Seguiram-se a Irlanda e Portugal, depois a Espanha (apenas para os bancos) e o Chipre.

A Irlanda foi a primeira a recuperar. 
A Espanha nem precisou do dinheiro todo que havia pedido para reestruturar o setor bancário. 
Portugal conseguiu a sua saída no verão de 2014. 
Seguiu-se o Chipre.

No caso grego, foram precisos quase 10 anos, seis primeiros-ministros (dois deles interinos), a imposição de controlos de capitais, a reestruturação da dívida e muitas peripécias para finalmente chegar a uma posição em que irá finalmente sobreviver (quase) sem ter de pedir ajuda financeira aos seus parceiros do euro.

Mas a ‘saída limpa’ que o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, decidiu para o seu país (com um forte empurrão dos países da linha dura do Eurogrupo) não podia ser mais diferente das outras. 
Visitas da troika a cada três meses, pagamentos condicionados à aplicação de medidas pré-acordadas até 2022, medidas já legisladas e que entram em vigor nos próximos anos e a condição de que continua a cumprir todas as condições que lhe foram impostas para que em 2032 os parceiros europeus aceitem discutir mais medidas para aliviar a sua dívida. Tudo isto enquanto a economia grega é das que menos cresce na zona euro, o desemprego ainda está perto dos 20% (dos quais metade são desempregados de longa duração) e com a dívida pública superior a 180% do PIB.

Um programa forçado, mas sem empréstimos

Os resgates falhados e as medidas por concretizar do passado levaram os credores europeus a exigirem mais garantias desta vez.

Alexis Tsipras chegou ao governo em janeiro de 2015 prometendo um novo rumo e uma Grécia que não se iria submeter aos credores. 
Mas rapidamente percebeu que não seria assim tão fácil. 
Os primeiros seis meses não podiam ser mais atribulados. 
Neste período a Grécia teve de aguentar uma quebra nas negociações, um referendo a uma proposta dos credores europeus que os gregos rejeitaram (mas que já nem sequer estava em cima da mesa…) e a imposição de controlos de capitais por parte de Atenas. 
Um dia depois do referendo, Tsipras despediu o seu ministro das Finanças e cedeu de tal forma aos credores, que aceitou um programa ainda mais duro do que aquele que o que os gregos haviam rejeitado pouco tempo antes nas urnas.

Nesse programa, o Eurogrupo exigiu garantias e essas garantias vieram em forma de leis que ficariam muito além do final do resgate. 
Em 2017, o governo grego viu-se obrigado a aprovar cortes nas pensões na ordem dos mil milhões de euros, o 14.º corte desde 2010, mas que entram em vigor apenas em janeiro do próximo ano. 
Caso não aceitasse esta condição, a Grécia não receberia o dinheiro do resgate. 
Houve votações de mais de mil páginas de legislação no Parlamento, de uma só vez, tudo medidas que os credores exigiam à Grécia.

“Não é uma saída limpa. 
Na prática continuamos com um programa forçado, mas sem o dinheiro”, afirma George Pagoulatos, ex-diretor de estratégia do governo de Lucas Papademos e do governo interino de Panagiotis Pikrammenos.

Outra das medidas que o Governo já aprovou e vai ter de aplicar no próximo ano é a redução do valor do chamado mínimo de existência, a parte dos rendimentos que está isento do pagamento de impostos. 
Com isto, o governo grego vai colocar todos os gregos a pagar mais impostos e em troca tem de conseguir poupanças na ordem dos mil milhões de euros.

O Governo está ainda obrigado a avançar com uma lista de privatizações e as receitas têm de ser colocadas num fundo, para abater à dívida pública grega.

Com o fim do resgate, em teoria o governo grego teria nas suas mãos o poder para, juntamente com o Parlamento, decidir sobre esta matéria sem sequer ter de consultar as autoridades europeias. 
Bastaria alterar a lei que aprovou. 
No entanto, a questão está longe de ser tão simples.

Um incentivo recauchutado

Apesar de já não haver lugar ao pagamento de partes de um empréstimo, o Eurogrupo conseguiu garantir que tem incentivos suficientemente fortes para que a Grécia cumpra o que prometeu.

O primeiro deles é o pagamento dos lucros do Banco Central Europeu com a compra de dívida grega. 
Em maio de 2010, o BCE criou um programa para comprar títulos de dívida pública dos países do euro no mercado secundário como forma de aliviar a pressão sobre estes países e estabilizar as taxas de juro que estavam a ser exigidas pelos investidores nos novos leilões de dívida.

Essa dívida foi comprada a preço de mercado, ou seja, a desconto face ao que vale, e permaneceu no balanço do BCE até vencer, o que significa que, para além do lucro que tinha com a compra mais barata daquela dívida, o BCE também encaixava os juros que essa dívida rende todos os anos até vencer. 
Os lucros são, por sua vez, distribuídos aos bancos centrais nacionais.

Os países acordaram em 2012 abdicar destes lucros, que receberiam via dividendos dos bancos centrais, a favor da Grécia. 
Foi o único caso em que tal aconteceu. 
Mas para isto acontecer, a Grécia tinha de continuar a cumprir todas as revisões trimestrais com sucesso. 
O acordo expirou com o segundo resgate em 2015.

O novo acordo entre o governo grego e os credores é de que estes lucros vão voltar a ser distribuídos ao governo grego, entre 2018 e o junho de 2022, e só podem ser usados para reduzir as necessidades de financiamento gregas ou financiar investimentos que os credores aprovem previamente. 
Mas para isto, a Grécia tem de cumprir e implementar as medidas que ficaram acordadas no Eurogrupo de 22 de junho.

A lista é longa e estende-se a quase todos os sectores da economia, desde a reforma do sistema de pensões, das prestações sociais, à garantia de um saldo primário de 3,5% do PIB anualmente e à atualização de vários impostos todos os anos, como o imposto sobre a propriedade, que passou a ser cobrado anualmente e que rende aos cofres do Estado grego mais de 3 mil milhões de euros por ano.

Uma dívida praticamente para a vida

Outra das formas que os credores encontraram de garantir que a Grécia cumpre os seus compromissos foi empurrando com a barriga o problema da dívida grega.

As regras europeias exigem que a dívida pública, em percentagem do PIB, seja inferior a 60%. 
Quando a dívida supera os 100%, começam a colocar-se dívidas sobre a sua sustentabilidade. 
No caso da Grécia, a dívida pública já supera os 180% do PIB.

Durante os últimos nove anos de resgate, e graças à reestruturação da dívida pública detida por privados em 2012, 90% da dívida grega é detida pelos credores oficiais, ou seja, os países do euro, o Fundo Monetário Internacional e o BCE.

No primeiro resgate, a Grécia recebeu 73 mil milhões de euros. 
No segundo outros 153,8 mil milhões. 
No terceiro, mais 61,9 mil milhões de euros. 
Ou seja, um total de 288,7 mil milhões de euros que os países do euro e o FMI, que não entrou no terceiro resgate, emprestaram à Grécia.

A Grécia já pagou mais de metade do que devia ao FMI, mais de 20 mil milhões dos 32,1 mil milhões que devia. 
Aos 266,7 mil milhões de euros que ainda deve aos parceiros europeus e aos 12 mil milhões de euros que ainda deve ao FMI, a Grécia ainda deve outros 13 mil milhões de euros ao BCE, pela dívida que a instituição liderada por Mario Draghi comprou no mercado. 
Ou seja, só aos credores oficiais, a Grécia deve 291,7 mil milhões de euros, 90% de toda a sua dívida pública.

No entanto, as condições da dívida pública também são muito diferentes das dos restantes países do euro.

A Grécia só tem de começar a pagar os empréstimos bilaterais que recebeu dos países do euro no primeiro resgate em 2041. 
Os empréstimos restantes só começam a ser pagos ao Mecanismo Europeu de Estabilidade em 2034. 
Os primeiros pagamentos de juros só terão de começar em 2022. 
Mesmo os juros que estavam já contratualizados foram reduzidos e as margens financeiras do Mecanismo foram abolidas a favor da Grécia.

De acordo com o Mecanismo Europeu de Estabilidade, isto deve reduzir o rácio da dívida pública grega em 25 pontos percentuais do PIB até 2060.

No entanto, mesmo com estas mudanças, a dívida pública é considerada insustentável. 
Por essa razão, o FMI recusou entrar no terceiro resgate, participando apenas como consultor técnico.

“Já todos concordam que a dívida não é sustentável. 
Por isso [as autoridades] também encontraram um conceito mais viável de sustentabilidade de dívida pública” e começaram a centrar-se mais nas necessidades de financiamento, explica George Pagoulatos.

O acordo no Eurogrupo estipula já algumas medidas para entrarem em vigor e aliviarem o peso da dívida grega caso algum cenário inesperado se concretize.

A única garantia que o governo grego tem em relação à sua dívida é que as instituições europeias vão fazer uma nova avaliação da sustentabilidade dessa dívida em 2032, daqui a 15 anos, altura em que os empréstimos terão de começar a ser pagos. 
Nessa altura, o Eurogrupo pode vir a tomar mais medidas para reduzir a dívida grega, mas só se o governo grego cumprir as regras orçamentais europeias e os compromissos que assumiu para com os credores.

Controlo mais apertado sem fim à vista

Para além dos incentivos financeiros e das medidas que já conseguiram que a Grécia aprovasse, os credores europeus têm ainda à disposição outros mecanismos de controlo, mais apertados do que os que aplicaram a Portugal e à Irlanda.

Quando um país termina com sucesso um resgate, até pagar 75% do empréstimo, fica sujeito a missões de supervisão a cada seis meses. 
É o caso de Portugal, Irlanda, Chipre e Espanha.

No entanto, com a Grécia, a Comissão Europeia aprovou um regime mais restritivo, a Enhanced Surveillance Framework, que implica que as missões sejam a cada três meses – tal como acontecia durante o resgate –, e mais intrusivas.

O sistema permite assim às instituições europeias um maior controlo e monitorização da economia grega, em todas as suas dimensões. 
Esta é a primeira vez que a Comissão Europeia ativa este sistema desde que ele foi criado em 2013.

A Grécia estará também abrangida pelo Early Warning System do Mecanismo Europeu de Estabilidade, que implica o controlo dos técnicos do fundo enquanto a Grécia não pagar a totalidade dos empréstimos que deve ao fundo de resgate do euro.

Esta avaliação poderia ser mais pro-forma ou política, se não houvesse incentivos associados, como é o caso de Portugal. 
Mas no caso da Grécia, esta é outra pré-condição para que possa vir a beneficiar de medidas de alívio da dívida quando a situação voltar a ser revista em 2032.

Que margem para o futuro?

As medidas já aprovadas e as restrições que ficam do resgate colocam também questões importantes ao nível político.

Alexis Tsipras conseguiu sobreviver a vários contratempos e adaptar o seu partido às novas circunstâncias. 
Em 2015, deu uma volta de 180 graus e aceitou condições mais restritas do que as que havia rejeitado, e mesmo assim conseguiu vencer as eleições e limpar o seu partido das alas mais radicais, lideradas por Panagiotis Lafazanis, o ministro da Energia que tinha um plano para se apropriar das reservas de euros do banco central e retirar o país do euro), Yanis Varoufakis, o seu ministro das Finanças, e Zoe Konstantopoulou, a presidente do Parlamento grego.

Mas a vitória que conseguiu nessas eleições parece agora muito mais longe. 
Com eleições legislativas a acontecer, no máximo, até setembro do ano que vem, Alexis Tsipras não tem a vida facilitada. 
Depois de vários anos a tomar medidas impopulares, como os cortes de pensões que sempre rejeitou, os incêndios na zona balnear de Attica que levaram à morte de pelo menos 93 pessoas, estão a ter impacto na popularidade do líder do Syriza, tal como o acordo sobre a questão da Macedónia, que chegou a fazer cair um governo da Nova Demoracia.

A popularidade que Alexis Tsipras poderia conseguir com a saída do resgate, algo que o PASOK e a Nova Democracia não conseguiram, também pode ser afetada a partir de janeiro, quando o governo cortar novamente as pensões e aumentar os impostos, como resultado das medidas já aprovadas.

Ainda antes dos fogos e da questão da Macedónia, a Nova Democracia de Kyriakos Mitotakis já liderava nas sondagens por vários pontos. 
Em alguns casos, por mais de 10 pontos.


As sondagens mais recentes ainda não têm em conta os incêndios em Attica e o acordo sobre o nome da Macedónia, mas já colocam o Syriza em grande desvantagem face à Nova Democracia.

As sondagens mais recentes ainda não levam em conta os incêndios em Attica e o acordo sobre o nome da Macedónia, mas já colocam o Syriza em grande desvantagem face à Nova Democracia. 
O corte nas pensões é um tema sensível para Alexis Tsipras, e que afeta uma parte importante do seu eleitorado. 
“O governo tem tentado muito encontrar formas de adiar esse corte, é uma das suas principais prioridades, mas as autoridades europeias já disseram que não vão rever o que já está acordado”, explica George Pagoulatos.

“Tsipras tem vindo a ‘flirtar’ com a possibilidade de tomar uma decisão unilateral no caso das pensões, mas os credores conseguiram garantias de que isso não acontecerá assim tão facilmente”, explicou este especialista.

Com as opções limitadas, Alexis Tsipras arrisca-se a sair do poder por tomar as decisões que tanto criticou e que lhe permitiram ganhar as eleições em 2015, apesar de fazer o que nenhum dos outros cinco primeiros-ministros conseguiram antes dele: acabar com o programa de resgate. 
Pelo menos no papel.