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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Sidónio, 100 anos depois do Presidente-Rei

RUI RAMOS
08 Dezembro 2017
A 8 de dezembro de 1917, há exatamente cem anos, Sidónio Pais subiu ao poder e mudou o regime, até ser assassinado um ano depois. 
O que foi o sidonismo e o que significou? 
Ensaio de Rui Ramos.

Há cem anos, a 8 de Dezembro de 1917, chegavam ao fim os mais duros combates de rua a que Lisboa assistira até então. 
A morgue da cidade terá recolhido, durante quatro dias de luta, uns 100 mortos. 
O derrotado tinha sido o chefe do governo, Afonso Costa, líder do Partido Republicano Português e dono da República desde 1910. 
O vencedor, “comandante das forças revolucionárias” concentradas no Parque Eduardo VII, chamava-se Sidónio Pais.

Muito pouca gente ouvira falar de Sidónio antes de Dezembro de 1917. 
Mas, a partir desse mês, e durante exactamente um ano, tudo em Portugal iria rodar à volta dele. 
Sidónio manteve o regime republicano, mas expulsou quase toda a sua elite política. 
Não apenas Afonso Costa, mas também o Presidente da República, Bernardino Machado, deposto e exilado, e os chefes dos outros partidos, remetidos à oposição. 
Tudo mudou na República. 
Em Abril de 1918, Sidónio Pais fez-se eleger Presidente da República numas eleições em que — pela primeira e única vez durante a I República — vigorou o sufrágio universal (ainda só masculino). 
O sistema político, até aí “parlamentarista”, passou a “presidencialista”, à americana, com um Presidente da República que era também chefe do governo.

Mas o mais espantoso sucedeu nas ruas e nas praças das cidades portuguesas, a começar por Lisboa. 
Enormes massas de povo juntaram-se à volta de Sidónio, aclamando-o como um salvador, naqueles que foram os anos mais duros do século XX em Portugal, conjugando guerra, fome e doença. 
Um dos contemporâneos impressionados pelo “sidonismo” foi Fernando Pessoa, que mais tarde, num poema, arranjou para Sidónio o título de “presidente-rei”. 
De facto, nunca mais houve outro Presidente da República com os seus poderes e a sua popularidade. 
Mas a ascensão à chefia do Estado deste até então discreto professor universitário — que não era um líder militar, nem um chefe de partido — não tinha sido prevista por ninguém, nem pelo próprio. 
Este é um dos episódios mais estranhos da história política portuguesa dos últimos cem anos, e provavelmente aquele que deu origem a mais equívocos.

1 Uma “personalidade insignificante”

A vida de Sidónio Pais antes de Dezembro de 1917 quase não tem história. 
Nascera em Caminha, no ano de 1872, filho e neto de tabeliães. 
O pai, com poucas posses e demasiados filhos (seis), morreu cedo (1883). 
Sidónio teve de seguir a carreira militar (1888), que conciliou com estudos na Faculdade de Matemática em Coimbra, onde se tornou professor. 
Manteve, no entanto, um teórico posto de oficial de artilharia, sem serviço nos quartéis, mas com promoções regulares (chegaria a major em 1916). 
Quem o conheceu nesta época, ficou a recordar um “moço de feições e linhas aristocratas, comedido nos gestos”, muito “sereno e correcto em todos os seus movimentos”. 
A sua vida, porém, girava muito à volta do jogo a dinheiro, em que se viciou, e dos namoros extra-conjugais. 
Em 1906, protagonizou um escândalo, ao abandonar a mulher e os cinco filhos para ir viver com uma amante, aliás mulher casada.

Desde jovem que era republicano, como muitos da sua geração. 
O movimento estudantil provocado pelo ultimato britânico de 1890 terá sido um factor, mas não o único. 
Sidónio vinha de uma família liberal. 
Não era religioso. 
O seu republicanismo parece ter derivado do mito de que uma ruptura com as tradições daria aos portugueses uma existência mais ética e produtiva. 
Nunca foi, no entanto, um activista do PRP, como Afonso Costa, António José de Almeida ou Manuel Brito Camacho. 
Mas em 1910, com a implantação da República, Sidónio arranjou uma oportuna iniciação maçónica e começou a acumular cargos: vice-reitor da universidade, presidente da comissão administrativa municipal de Coimbra, administrador da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, deputado à Assembleia Nacional Constituinte (1911), ministro do Fomento e das Finanças dos primeiros governos constitucionais (1911-1912) e finalmente embaixador na Alemanha (1912-1916).

Sidónio Pais discursa em dezembro de 1917

Nesta carreira, Sidónio deveu quase tudo à protecção de Manuel Brito Camacho, o chefe de um dos grandes partidos do novo regime, o Partido da União Republicana. 
Camacho foi, durante anos, o único a admirar-se com o talento de Sidónio. 
Poucos acompanharam Camacho nessa apreciação. 
O célebre escritor e político republicano João Chagas encontrou Sidónio em Paris, quando ele regressava a Portugal depois da declaração de guerra da Alemanha (Março de 1916). Ficou mal impressionado pela sua magreza, pelo seu mau francês e pelos rumores sobre a sua movimentada vida sexual. 
Não teve dúvidas: era uma “personalidade insignificante”. 
Mas o modo como era subestimado ajudou Sidónio na conjura em que acabou por se envolver em Lisboa no Verão do ano seguinte.


2 - A “revolução do Sidónio”

Entre 1916 e 1917, os governos dominados pelo Partido Republicano Português (PRP) de Afonso Costa arrastaram Portugal para a I Guerra Mundial e impuseram ao país um esforço militar sem paralelo desde o princípio do século XIX. 
A vida tornou-se dura. 
Os preços subiram e faltaram combustíveis e alimentos. 
Esta foi a época, no século XX, em que mais crianças com menos de um ano morreram em Portugal. 
Aos protestos e às queixas, Afonso Costa respondeu com violência, matando e prendendo. 
Nos meados de 1917, muita gente se convenceu de que alguma coisa teria de acontecer
Na Europa, governos e regimes ruíam em sucessão, sob o peso de três anos de guerra. 
Na Rússia, o império dos czares acabou em Março e a república democrática em Novembro, com a tomada do poder pelos bolchevistas.

Os pormenores da conspiração de Sidónio Pais nunca foram claros. 
Por volta de Agosto de 1917, Brito Camacho terá encarregado vários militares do seu partido de sondar as forças armadas, a fim de perceber a disponibilidade para uma insurreição contra o governo de Afonso Costa. 
Sidónio foi um deles. 
Com o apoio de um amigo lavrador, António Miguel de Sousa Fernandes, seguiu a receita tradicional para sublevar a guarnição de Lisboa, contactando oficiais de baixa patente, sargentos e voluntários civis. 
A polícia, a par dos seus movimentos, não o prendeu porque nunca lhe deu importância.

Ao fim da tarde de 5 de Dezembro de 1917, Sidónio juntou finalmente perto de 1500 homens, na maioria soldados, no lugar habitual de concentração revolucionária em Lisboa: a zona da actual praça Marquês de Pombal e parque Eduardo VII. 
Na cidade, tudo fechou e os transportes públicos cessaram. 
Lutou-se a sério, durante os dias 5, 6, 7 e 8 de Dezembro. 
Os navios de guerra, ao serviço do governo, fizeram fogo sobre a cidade. 
Ouviam-se tiros e explosões por todo o lado. 
Um avião foi abatido sobre o acampamento rebelde.

O PRP, como era seu costume, fez espalhar pela cidade que se estava perante um golpe “monárquico e germanófilo” contra a República. 
Nem isso, porém, galvanizou os militantes republicanos. 
Um dos combatentes do PRP espantou-se: “O povo republicano de outrora não apareceu”. 
Pelo contrário, apareceu outro “povo” que, mal soube da rendição do governo de Afonso Costa, assaltou e destruiu as casas e escritórios dos ministros e todas as sedes, centros escolares, cantinas e jornais do PRP em Lisboa. 
Multidões bailaram e cantaram à volta das fogueiras onde ardia o recheio dos edifícios saqueados:

“Tudo dança, tudo dança,
Tudo dança, tudo gosta,
Já caiu o Ministério,
Já morreu Afonso Costa”.

Sidónio Pais na varanda dos paços do concelho após a cerimónia de proclamação

Acreditou-se que Manuel Brito Camacho, o chefe do partido republicano na oposição a Afonso Costa, seria o novo senhor da política portuguesa. 
Mas desde Novembro, que Camacho se distanciara da conspiração, ou porque receasse complicações diplomáticas, ou porque a concebera apenas como um meio de pressão para negociar com o governo. 
Rapidamente se percebeu que aquela tinha sido a “revolução do Sidónio”. Comandara as tropas revoltadas no Parque Eduardo VII, ao princípio muito nervoso, depois com determinação implacável, competência técnica e bom humor, sempre a fumar e a comer chocolates. 
De presidente da Junta Revolucionária passou, a 11 de Dezembro, a chefe do governo.

Muitos apostaram então que não iria durar. 
De facto, um mês passado, a 8 de Janeiro de 1918, o PRP tentou encerrar o episódio sidonista com uma revolta da divisão naval. 
Lisboa viu então Sidónio Pais no Castelo de S. Jorge, a regular ele próprio, de binóculos, o tiro da artilharia contra os navios rebeldes. 
Ganhou mais uma vez. 
No rescaldo, prometeu: se fosse preciso, “iria vinte vezes ao parque Eduardo VII para combater a demagogia” (a “demagogia” era uma designação corrente do PRP). 
O povo começou a admirá-lo como um “teso”, um “valente”. 
A oligarquia política acreditou finalmente que ele falava a sério quando dizia que “não sirvo para ser o guarda temporário do país”. 
O homem discreto ia reinventar-se como um herói providencial.

3 . A guerra

Em 1917, a principal questão em Portugal era a da guerra. 
A República Portuguesa mantinha um corpo expedicionário de 50.000 homens na frente ocidental, ao lado dos Aliados, contra a Alemanha. 
Por isso, quando se viu inesperadamente preso e depois exilado, Afonso Costa declarou-se vítima de uma conspiração alemã, de que Sidónio, regressado de Berlim, teria sido o agente. 
O objectivo era indispor os Aliados com o novo governo português. 
A França pareceu acreditar na invenção. 
Mas não a Inglaterra. 
Logo no rescaldo do golpe, a 10 de Dezembro de 1917, o representante militar inglês em Lisboa, o general Bernardiston, visitou o acampamento rebelde. 
Sidónio confirmou-lhe os seus “sentimentos aliadófilos”: “Podem os aliados contar absolutamente connosco”. 
Uns meses depois, em Maio de 1918, a Inglaterra anunciou a elevação da sua representação diplomática em Lisboa ao estatuto de embaixada. 
Nunca Londres mostrara tanta afeição a um governo republicano em Portugal.

Mas uma vez no poder, Sidónio não enviou mais tropas para França. 
Seria, por isso, acusado de “sabotar” o esforço de guerra português na Europa. 
Mas o que os seus inimigos omitiam é que esse esforço já havia sido interrompido antes dele, no Verão de 1917, pela mesma razão: a falta de capacidade da Inglaterra para transportar as levas mensais de 4000 soldados. 
Mas, também tal como o governo anterior, Sidónio não aceitou a oferta britânica de reduzir a frente portuguesa. 
Com o Corpo Expedicionário Português (CEP) estacionado num sector da frente que se manteve tranquilo até Março de 1918, ninguém se terá preocupado demasiado. 
A 9 de Abril, porém, uma súbita ofensiva alemã quase fez desaparecer o CEP, que perdeu metade da sua primeira linha, sofrendo cerca de 614 mortos e 6535 prisioneiros. 
Muito provavelmente, nenhum reforço teria feito diferença. 
Sidónio insistiu junto das autoridades inglesas para “reconstituir” o CEP, mas os transportes continuavam a ser uma dificuldade. 
Desde então, a guerra para Portugal reduziu-se à recepção dos soldados regressados de França e ao envio de encomendas para os prisioneiros de guerra na Alemanha.

Este “fim da guerra” não desgostou aos oficiais do exército. 
O exército português não era mais do que uma polícia — sem efectivos, organização ou armamento para enfrentar exércitos modernos. 
Os oficiais tinham consciência disso. 
Sentiram-se vexados com os revezes perante as forças coloniais alemãs em Angola e em Moçambique e receberam sem entusiasmo a ideia de combater na Europa, que interpretaram como uma jogada do PRP com âmbito meramente partidário. 
A expedição a França justificou alguma reorganização e reequipamento, mas tudo avançara de uma maneira improvisada e humilhante. 
Os oficiais ficaram incomodados pelo influxo de milicianos e ressentiram a notória desconfiança e até atitude de menosprezo do PRP para com os militares. 
Sidónio, pelo contrário, soube cuidar da auto-estima do exército. 
No dia 10 de Dezembro de 1917, encerrou o seu golpe em Lisboa com uma exibição maciça e disciplinada das tropas desfilando na Avenida da Liberdade. 
Era assim que, depois da sublevação, queria as forças armadas: “É num exército disciplinado que assentam as bases de uma sociedade que quer viver para o trabalho em boa paz e com ordem”. 
Sidónio aumentou os prés, melhorou o rancho e multiplicou as paradas militares, onde o exército pôde exibir um novo aprumo e o recente material de guerra. 
Fez do exército uma força disciplinada, motivada e eficaz, que passou a ser verdadeira base do seu poder em 1918.

4 . “Um regime novo em que monárquicos e republicanos possam viver”

O então jovem professor universitário Martinho Nobre de Melo, que falou muito com ele, nunca teve dúvidas: “Sidónio era um democrata”. 
Tal como António José de Almeida, Manuel Brito Camacho ou Afonso Costa, os líderes partidários da república, Sidónio era livre-pensador e anti-tradicionalista. 
Que queria ele então fazer à República?

Afonso Costa encabeçara uma autocracia violenta. 
Os parlamentos resultavam de eleições fraudulentas, o governo não era efectivamente limitado por nenhum outro poder do Estado (nem pelo Presidente da República, reduzido a um simples mestre-de-cerimónias constitucional, nem pelos tribunais), a imprensa estava submetida a censura prévia, e as oposições arriscavam a prisão ou o exílio. 
Por isso, o golpe de Sidónio foi vivido pelo país como uma libertação.

Em Dezembro de 1917, Sidónio não deixou nenhuma autoridade de pé: derrubou o governo, destituiu o Presidente da República, dissolveu o parlamento e substituiu as vereações municipais por comissões administrativas. 
Nas suas primeiras proclamações, anunciou ao país que o objectivo era libertar a república da “casta política” que “explorava” o Estado “em proveito próprio e com grave dano para o país”. 
Queria regressar à “pureza” do 5 de Outubro. 
Como prova desse retorno às origens, tinha ao seu lado Machado Santos, membro da Junta Revolucionária, e José Carlos da Maia, nomeado comandante da Divisão Naval, os principais heróis do 5 de Outubro e constantes inimigos de Afonso Costa desde 1910.
Sidónio Pais regressa a Belém acompanhado pelo secretário-geral da Presidência, Forbes Bessa, depois da cerimónia de proclamação

Sidónio aboliu a censura prévia à imprensa, soltou os sindicalistas presos, deixou regressar os monárquicos exilados e aliviou a pressão anti-clerical sobre a Igreja Católica. 
Em 1918, haveria de rever a Lei da Separação de 1911 (22 de Fevereiro), e reatou relações com o Vaticano (10 de Julho). 
A 15 de Maio de 1918, na sé de Lisboa, Sidónio foi o primeiro chefe de Estado republicano a assistir a uma missa (dedicada aos mortos da guerra). 
Sindicalistas e monárquicos também mereceram atenções e contactos. 
Delegados seus foram recebidos em audiência por Sidónio e convidados a colaborar. 
Aos monárquicos, Sidónio pediu que “ingressassem” na república, “em pé de igualdade com os republicanos”.

Esta foi a chave do sidonismo: até então, o poder e os seus benefícios tinham estado reservados aos militantes dos partidos republicanos; foi Sidónio quem eliminou esse exclusivismo e se propôs abrir as portas do regime a toda a gente, “sem olhar aos seus credos políticos ou religiosos”: “não se quer saber, nem venho perguntar, a que partido pertencem”. 
Aos que o acusavam de trair a república, garantiu que “diga-se o que se disser, agrade a quem agradar, o governo é republicano”
Ia “consolidar a república” fazendo dela “um regime novo em que monárquicos e republicanos possam viver”. 
Sidónio recorreu a católicos, monárquicos e indiferentes políticos para cargos directivos e de confiança na administração e no exército, porque sabia que nenhum desses grupos tinha força suficiente para, por si só, tomar o poder. 
Isto, no entanto, não dispensava uma fórmula política que integrasse e desse coerência a gente de tão diversas proveniências.

Mas congregar os “homens de bem” não bastava. 
Era preciso um “regime novo”. 
Desde cedo que Sidónio, nas suas intervenções, apontou o que ele chamou “regime parlamentar” como o maior problema da república. 
Ora, o regime parlamentar em Portugal desde o século XIX caracterizara-se sempre, segundo Sidónio, pelo monopólio do Estado por “partidos organizados com clientelas”, como tinham sido “o partido de Fontes Pereira de Melo” durante a monarquia, antes de 1910, e o PRP de Afonso Costa sob a república. 
Por isso, à “revolução feita com os tiros de canhão” teria de se seguir outra, “mais difícil”, com “base numa reviravolta de espíritos”. 
Sem sair da república, Sidónio ia romper com os partidos republicanos.

5 . “Sidónio Pais não existe!”

Sidónio não chegou ao poder com um plano. 
Em 1911, confessara não ter “opinião formada” no debate entre parlamentaristas e presidencialistas: já então estava convencido de que o “sistema parlamentar seria o regresso ao passado”, mas também duvidava do “regime presidencial americano, que a breve trecho transformaria entre nós o presidente num déspota”. 
A seguir ao golpe, ainda pediu ministros a Manuel Brito Camacho e até a António José de Almeida, os líderes dos partidos da “direita republicana”.

Mas com a vitória sobre o contra-golpe do PRP, a 8 de Janeiro 1918, algo mudou. 
Sidónio passou a ser vitoriado nos teatros de Lisboa. 
Viajou pelo país, de norte a sul. 
Foi recebido em ruas e praças cheias, entusiásticas. 
Percebeu que a população estava cansada dos chefes republicanos, intolerantes e suspeitos de corrupção. 
De regresso a Lisboa, a 18 de Janeiro, vinha exaltado. 
No dia seguinte, nas Necessidades, numa conversa com o representante de Portugal em Inglaterra, Manuel Teixeira Gomes, que mandara vir a Lisboa, abandonou todas as reservas: “referiu-se ao novo estado das coisas como ao acontecimento mais notável da nossa História moderna, em comparação do qual o 5 de Outubro pouco valia”. 
Mais: “já não era unionista”, “não tinha partido algum” – “o que havia era um partido nacional”. 
A 4 de Março de 1918, nos paços do concelho de Santarém, alargou o horizonte: “Já se destruiu a demagogia, mas ainda é preciso mais”.

Sidónio Pais recebe as aclamações populares da varanda dos paços do concelho

O que começara como o saneamento de Afonso Costa ganhava uma inesperada profundidade. 
Os seguidores de Brito Camacho tinham contado ser a maioria no parlamento que haveria de ser eleito para rever a Constituição e eleger um novo Presidente da República. 
Em Março de 1918, porém, perceberam que Sidónio tencionava desde logo alterar a Constituição por decreto do governo e fazer-se eleger Presidente por sufrágio directo. 
Os camachistas voltaram-se contra Sidónio, privando-o da caução de qualquer partido republicano. 
Mas Sidónio não recuou por causa disso. Ia agora provocar na vida pública portuguesa uma viragem tão importante como a revolução de 1910. 
Os decretos de 11 de Março e de 30 de Março de 1918 fizeram assentar a república no sufrágio universal masculino e deram-lhe uma feição aparentemente americana. 
O Presidente, que pela constituição de 1911 era eleito pelo parlamento, passou ser eleito directamente pelos cidadãos eleitores e a exercer a chefia efectiva do governo e ainda o comando operacional das forças armadas. 
O parlamento, até aí o órgão directivo do Estado, ficou confinado às funções de legislar e fiscalizar. 
Além da Câmara dos Deputados, com 155 membros, foi instituído um senado de 77 membros, integrado por 49 representantes das províncias e 28 delegados de associações patronais, sindicatos, serviços públicos, universidades e academias. 
Mas isto não era a Constituição. 
Era apenas uma situação. 
Às câmaras eleitas competiria discutir e votar um estatuto constitucional que definisse as relações entre os poderes do Estado e portanto a caracterização exacta do regime.

A lei eleitoral lembrava: “sem sufrágio universal não pode haver democracia”. 
Os chefes do PRP tinham-se limitado a fazer um apelo sectário aos “republicanos”. 
Sidónio, em contraste, dirigiu-se a toda a sociedade, ao “povo português”. 
Assim, atreveu-se a dar capacidade eleitoral aos homens maiores de 21 anos, ao contrário do que tinham feito os partidos republicanos, que em 1913 haviam restringido o direito de voto, sempre receosos das tendências conservadoras dos camponeses. 
Os partidos republicanos, escandalizados, avisaram que “o sufrágio universal só beneficiará os monárquicos”. 
Sidónio ignorou-os e avançou. 
A 28 de Abril de 1918, foi eleito presidente com 513.958 votos, o equivalente a 58,4% dos 880 000 recenseados. 
Declarou-se então “chefe de todos os portugueses”, “mandatário da nação”, legitimado tanto pelo sufrágio, como pelo facto de a sua “consciência interpretar milhões de consciências”. 
Convencera-se de que só ele podia unir o país. 
Deixou de se ver a si próprio como um indivíduo: “Sidónio Pais não existe! 
É, se o querem, o símbolo das aspirações da Pátria”. 
Acabara a “primeira república”. 
Começava a “segunda república”.

6. “Muito impróprio para um Presidente da República”

A partir daqui, Sidónio encenou habilidosamente a sua passagem pela presidência. 
Tal como os reis, foi aclamado na Câmara Municipal de Lisboa, na tarde de 9 de Maio de 1918, numa cidade em festa, toda embandeirada. 
Depois, a cavalo e de espada desembainhada, assistiu a uma enorme parada da guarnição militar da capital, enquanto dois aviões sobrevoavam a cidade. 
Nos dias seguintes, o Presidente teve sucessivos banhos de multidão. 
A imprensa notou, em particular, a excitação do público feminino. 
A 12 de Maio, por ocasião de uma tourada de gala no Campo Pequeno, o seu carro demorou duas horas a trazê-lo ao Rossio, tanta era a gente nas avenidas para o ver. 
Os jornalistas começaram logo a falar de “messianismo”. 
Sidónio, que durante anos não usara uniforme, passou agora a andar sempre fardado. Estabeleceu até um uniforme para os Presidentes da República: o mesmo dos oficiais generais, “com distintivos de estrelas de ouro”. 
Formou uma Casa Militar, com oficiais que “usarão como distintivo cordões e agulhetas douradas, pendentes do ombro direito”. 
O professor de matemática transformou-se numa encarnação mítica do Estado.

A carestia e escassez de abastecimentos e as epidemias serviram de pretexto para a expansão do Estado, através da assistência pública, dos serviços hospitalares e do controle administrativo da produção, distribuição e preço dos abastecimentos essenciais. 
O mesmo estava a acontecer noutros países e já se notava em Portugal antes de Sidónio. Mas Sidónio, à frente de tudo, deu uma dimensão pessoal a este processo. 
Com Sidónio, o poder político em Portugal passou a ter um rosto e um coração, tornou-se uma pessoa, a quem os portugueses podiam ver e apelar. 
Faltava açúcar e arroz em Lisboa por causa da lentidão burocrática da alfândega, e era o próprio Sidónio quem ia à alfândega e libertava as mercadorias. 
Os presos políticos no Porto queixavam-se de mais tratos e ele, comovido, ordenava que os soltassem imediatamente (18 de Maio de 1918). 
A imprensa do PRP aproveitou para censurar as “extraordinárias prerrogativas”, “pouco republicanas”, de um presidente que se comportava como “os reis absolutos, que de tudo dispunham”. 
Prudentemente, Sidónio lembrou que os presos não estavam a cumprir sentença judicial. Mas não hesitou em argumentar que, embora o chefe de Estado devesse respeitar “acima de tudo” a lei, não podia ser uma “estátua”: “A bondade é também, por vezes, uma forma de justiça”. 
No caso da tortura e dos maus tratos, costumeiros nas prisões republicanas desde 1910, estava convencido de que só “um exemplo retumbante” lhes podia pôr termo: “Era preciso gritar bem alto que hoje não se agride um preso”.

No Verão de 1918, Sidónio, que vivia em Belém, instalou-se no antigo palácio real da Pena, e entrou no convívio da aristocracia, refugiada em Sintra. 
Pela sua mão, duquesas e condessas voltaram à vida pública, colaborando com o presidente em iniciativas de beneficência. 
A aristocracia tratou-o com a mesma reverência que antigamente se dava aos reis. As senhoras começaram a levantar-se sempre que o presidente entrava na sala.
A condessa de Ficalho ficou particularmente impressionada com Sidónio. 
Visitou-o no palácio, para lhe falar de uma obra de assistência. 
A meio da conversa, deixou cair uma das suas pulseiras. 
Em vez de se levantar para a ir apanhar, como qualquer cavalheiro, o presidente tocou a campainha e chamou um ajudante, a quem ordenou que recuperasse a pulseira. 
Como um rei teria feito, segundo notou a condessa. 
Nas recepções, esperava sempre que lhe fossem falar: “Não dava um passo, estendia a mão, e eu naturalmente fazia-lhe uma mesura de corte”. 
Para a condessa de Ficalho, desvanecida, Sidónio era um “dominador”.

Ninguém, agora, reconheceria o homem “insignificante” descrito por João Chagas. 
Os seus admiradores falavam de um homem franzino, mas alto e aprumado, com um ar altivo e estranho, sedutor e imperioso, rodeado, como um príncipe, por uma corte de jovens dedicados e damas apaixonadas. 
Embora jurasse que “nunca procurei teatralidade para os meus actos”, tudo em Sidónio era de facto teatral, ritualizado, ou percebido como tal por um público fascinado. 
Nas salas de espectáculo, aparecia sempre da mesma maneira: “avançando até à frente do camarote, tendo ainda posta a capa que tirava com elegância e estendia no braço a um dos secretários, que a passava ao criado”. 
Sidónio foi a mais surpreendente transfiguração que o poder produziu em Portugal.

De facto, Sidónio não era como um rei. 
Os últimos reis haviam estado cercados por uma etiqueta severa. 
Não assim Sidónio. António Cabral, antigo ministro da monarquia, viu-o num domingo de Maio, no Rossio, no meio de “um agitado e ondulante mar de povo”, que batia palmas e dava vivas. 
De pé, no carro parado, Sidónio “falava, agradecendo aos que o cercavam”, o que escandalizou o antigo frequentador da corte: “Pareceu-me aquilo muito impróprio de um Presidente da República”. 
Teria sido pior se o visse entrar nos quartéis, interpelando os soldados com frases “plebeias” — “rapazes, estamos fixes?”

7 . O “pai do povo”

Mais do que de estilo, tratava-se de um sistema de poder. 
Sidónio pouco reunia o conselho de ministros. 
Em vez disso, como notou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, o futuro prémio Nobel da Medicina Egas Moniz, rodeava-se de “manifestações” populares, que “tinham uma grande influência nas suas decisões”. 
Tendo decidido que “é principalmente no meio do povo que eu me sinto bem”, dedicou-se a visitar bairros pobres, prisões e hospitais. 
Apareceu em festas para crianças e discursou na inauguração de centros de distribuição de refeições (as “sopas da assistência”). 
Durante as epidemias de tifo e de gripe, que mataram mais de 60.000 pessoas em 1918, desafiou o contágio, entrando nas enfermarias para consolar os doentes. 
As revistas ilustradas divulgaram as fotografias de Sidónio, de bata branca, debruçado sobre as camas.

Em Lisboa, o “povo” que muita gente se habituara a imaginar esquerdista revelou-se, subitamente, “sidonista”. 
Entusiasmou-se quando viu o governo, como na rusga de Julho de 1918, atacar os “novos ricos e açambarcadores”, fechando lojas e apreendendo mercadorias. 
Sidónio, “o pai do povo”, passou a percorrer as ruas da capital sempre rodeado de multidões excitadas, com toda a gente às janelas. 
Ao contrário dos outros chefes republicanos, apareceu em público entre mulheres e sobretudo crianças. 
Antes de 1910, os republicanos, em Lisboa, haviam usado o “povo” contra a elite liberal; agora, Sidónio recorria novamente ao “povo”, mas contra a elite republicana. 
Entretanto, pelo resto do país, os lavradores agradeciam-lhe uma política de preços muito mais favorável do que a de Afonso Costa, e o clero disfrutava uma tolerância inédita desde 1910.

Sidónio Pais no dia da sua proclamaçã, à entrada dos paços do concelho

Tal como Luís Napoleão Bonaparte na década de 1830, Sidónio descobrira que a democracia podia corporizar-se numa personalidade, um herói representativo, identificado com o bem comum e em suposto contacto directo com o povo. 
Fascinou muita gente, sobretudo pela sobranceria com que quebrou velhas convenções e preconceitos. 
Não tinha medo da novidade, do imprevisto: “eu nada receio”, disse várias vezes. 
Foi precisamente o que lhe criticou o seu antigo protector, Brito Camacho: o agora Presidente “queria que fossemos para o desconhecido, para o incerto, levados pela sua mão”. 
Temerário, Sidónio expandiu o leque do possível e do imaginável. 
Uns, como o escritor António Sérgio, ficaram fascinados pela possibilidade de uma administração honesta e efectiva, sem sectarismos; outros, como Martinho Nobre de Melo, catedrático de direito (e, embora republicano e maçon, ligado ao Integralismo Lusitano), deixaram-se seduzir pela demonstração de um poder puramente pessoal, sem o amparo das tradições históricas.

O sidonismo marcou também o advento político da juventude, dos “novos”, como então se dizia. 
O golpe de Sidónio fora a “revolução dos alferes”. 
Sidónio não hesitou em nomear ministro do Interior um alferes e estudante do Instituto Superior Técnico, Henrique Forbes de Bessa, com 23 anos. 
O ministro da justiça, o já referido Martinho Nobre de Melo, tinha 27 anos. 
No Serviço de Abastecimentos, o importante cargo de inspector geral da fiscalização coube ao alferes Jorge Botelho Moniz, de 20 anos. 
O governo do arquipélago de Cabo Verde foi entregue a mais um alferes, Teófilo Duarte, com 19 anos. 
Eram os “cadetes do Sidónio”. 
A classe política, hierarquizada e protocolar, ficou em estado de choque com esta desarrumação de carreiras e de escalas. 
Era a “fedelhocracia”, um país às ordens de rapazolas de 19 anos!

8. Discussões

Alguns dos simpatizantes de Sidónio reuniram-se num novo Partido Nacional Republicano (PNR). 
Eram sobretudo antigos republicanos da direita, decepcionados com Camacho e Almeida. O perfil sociológico do PNR era igual ao dos outros partidos republicanos, com muitos militares, advogados e médicos. 
Foi-lhes apenas pedido o “compromisso” de votarem uma “constituição presidencialista”. Nada mais ficou definido. 
Nas eleições legislativas de Abril de 1918, que decorreram ao mesmo tempo que as presidenciais mas com menos participação (38,8%), o PNR elegeu 108 deputados num total de 155. 
Além do PNR, ficaram representados na câmara dos deputados, através do sistema de lista incompleta, monárquicos (37 deputados, liderados pelo próprio “lugar-tenente” do rei exilado, Aires de Ornelas) e católicos (só 5 deputados).

Era um sinal de abertura e de apaziguamento. 
Em contrapartida, nenhum dos antigos partidos republicanos concorreu às eleições, embora continuassem a publicar jornais e a reunir-se. 
Os políticos mais conhecidos desapareceram dos lugares da frente da vida pública. 
Afonso Costa e Bernardino Machado permaneceram exilados; Manuel Brito Camacho e António José de Almeida entraram numa espécie de amuo. 
Era uma república que, ao não lhes garantir o monopólio do poder, eles decidiram não reconhecer como tal. 
No entanto, embora entre os embaixadores tivesse havido algumas demissões, quase todos os políticos republicanos se conservaram nos seus empregos no Estado, sem outro protesto do que o abstencionismo político. 
De resto, continuaram abertos canais para o governo, como o proporcionado pela solidariedade maçónica.

A 22 de Julho de 1918, o novo parlamento abriu, decidido a fazer esquecer as “reuniões de mal vestidos” do passado. 
A assembleia apareceu pejada de “comendas e dourados” e as galerias “atulhadas de mulheres formosas em belas toilettes”. 
No seu discurso inaugural, Sidónio insistiu: “Não é para a simples modificação de um artigo da Constituição, por importante que possa ser a sua influência, nem mesmo para a execução de um programa delimitado de reforma política, que uma revolução se põe em marcha”. 
Com a sua revolução, ele propunha-se mais: “Combater os erros e os processos viciosos que minavam os regimes anteriores e os conduziram à sua queda”. 
Basicamente, o que Sidónio procurava era uma fórmula que enquadrasse legalmente o seu poder pessoal. 
O presidencialismo tinha a vantagem de o colocar acima de qualquer partido, incluindo o PNR.

Na prática, Sidónio precaveu-se da maneira mais simples: nomeando coronéis e majores ditos “monárquicos” para os comandos militares. 
Os “monárquicos” tinham esta vantagem para Sidónio: ao contrário dos republicanos, não pertenciam a partidos. 
Eram, na sua maioria, individualidades por conta própria. 
Ao princípio, Sidónio exigiu-lhes a “adesão pública” à república. Logo percebeu que isso seria uma humilhação. 
Trocou essa condição pelo que mais lhe interessava: um compromisso pessoal para com ele. 
Todos aceitaram, até porque o rei exilado não parecia apostado numa restauração. 
O poder de Sidónio passou assim a ser defendido por uma espécie de feudalismo militar, feito de laços pessoais, fora de partidos e de organizações. 
Viu-se a sua eficácia em 12 de Outubro, quando o PRP tentou sublevar as guarnições militares em Coimbra e em Évora. 
Houve uma rápida concentração de forças governamentais que, quase sem combate, obrigaram os rebeldes a render-se.

Não havia, porém, mais estabilidade governativa do que antes. 
Ou melhor, por comparação com os governos controlados pelo PRP entre 1915 e 1917, houve até muito menos. 
Entre Dezembro de 1917 e Dezembro de 1918, Sidónio teve quatro ministros do Interior, quatro ministros da Justiça, quatro ministros das Finanças e quatro ministros da Guerra. Num ano, todas as pastas tiveram mais do que um ou dois responsáveis. 
O que havia era um poder pessoal, apoiado na força militar, sempre à procura de sustento político entre gente muito variada, o que contribuía para o ambiente de incerteza e conspiração, por entre boatos de restauração da monarquia ou de regresso à autocracia dos partidos republicanos.

9 . O fim

No fim de 1918, Portugal vivia em estado de sítio (desde 12 de Outubro). 
Havia, como no tempo do PRP de Afonso Costa, centenas de presos políticos. 
Desde Abril que voltara a funcionar a censura à imprensa. 
O novo regime sidonista recorreu também, como antes o PRP, a bandos de voluntários armados para intimidar críticos e inimigos. 
A 16 de Outubro, em Lisboa, uma transferência de 140 presos políticos acabou num tiroteio, com três mortos – foi a célebre “leva da morte”. 
O pior ainda estava para vir. 
Durante a guerra, o Estado interviera em toda a vida económica – não se podia exportar ou importar sem licença, a produção e a distribuição dos produtos eram controladas — e gastara à larga, recorrendo a linhas de crédito em Inglaterra e à emissão de notas do Banco de Portugal, alargada por um novo contrato entre o governo e o banco em 1918. 
Com a paz, receou-se a chegada da factura, agora sem a assistência financeira inglesa.

A queda de Sidónio, no entanto, não parecia provável. 
A 11 de Novembro de 1918, a guerra na Europa terminou subitamente: até ao Verão, a Alemanha parecera em vantagem; agora, sob pressão na frente ocidental e depois de os seus aliados austríacos entrarem em colapso, pedia um armistício, quase ao mesmo tempo que o regime imperial ruía. 
Nesse momento, Portugal já só tinha cerca de 30 mil homens em França, quase todos ocupados como meros auxiliares na retaguarda. 
A 12, Sidónio teve uma grande manifestação em frente do palácio de Belém. 
Em Lisboa, os sindicatos anarquistas tentaram lançar uma “greve geral” a 18 de Novembro. 
Fracassou, como os próprios organizadores confessaram depois, perante a “quase absoluta indiferença” dos trabalhadores. 
Serviu apenas para o governo agitar o espantalho do “bolchevismo”. 
Um negociante de jóias russo chegou a estar preso como agente de Moscovo. 
Para mostrar força, Sidónio organizou mais uma parada da guarnição militar no dia 20, na Avenida da Liberdade, e convidou a população a aderir, aparecendo com fitas verdes nas lapelas e chapéus. 
Foi um êxito.

Alguns dos companheiros dos primeiros tempos, como Machado Santos (entretanto saído do governo), exibiam agora dissidência. 
Também alguns políticos monárquicos se distanciavam. 
Sidónio ironizava: “Eu tenho hoje a hostilidade declarada das esquerdas ao mesmo tempo que a falta de apoio das direitas”. 
De facto, era a probabilidade de um atentado contra o Presidente que mais inquietava os seus colaboradores. 
Seria possível manter o sidonismo sem Sidónio? 
No Outono de 1918, todos os sidonistas começaram a preparar-se para essa eventualidade. 
Os oficiais do exército reuniram-se no que, à imitação do que acontecera em Espanha em 1917, chamaram “juntas militares”: associações informais, dispostas a tomar o comando das guarnições no caso de alguma “emergência”. 
Ninguém contestava a autoridade do Presidente. 
Mas, a 14 de Dezembro, Sidónio resolveu partir para o Porto, para esclarecer a situação com o comando militar local.
O major Sidónio Pais conversando com o doutor Moura Pinto no acampamento de Campolide

Sidónio já fora alvo de um atentado a 5 de Dezembro, durante as festas do primeiro aniversário da revolução. 
Quando saía de Belém, um aluno de pilotagem tentou alvejá-lo, mas a pistola encravou-se. Descobriu-se que o pai do candidato a assassino era maçon (como, aliás, o Presidente da República). 
Por isso, a 8, um bando sidonista saqueou o Grémio Lusitano, sede do Grande Oriente. 
No entanto, pouco se fez para impedir outro atentado. 
Na noite de 14 de Dezembro, José Júlio Costa, um dos militantes esquerdistas convencidos de que Sidónio ia restaurar a monarquia, esperou-o na gare do Rossio, em Lisboa. 
Deixara em casa um dossier com o título “A morte do Dr. Sidónio”. 
Havia polícia no local, mas Sidónio apareceu à frente, destacado da comitiva. 
O assassino não teve dificuldade em alvejar o Presidente com um revólver, atingindo-o a tiro no peito. 
Nos dias seguintes, discutiram-se as últimas palavras do defunto. 
Para uns, teria dito apenas, muito prosaicamente, quando o ampararam: “Não me apertem, rapazes”. 
Para outros, despedira-se com uma deixa mais teatral: “Morro bem, salvem a pátria”.

Na sequência do atentado, foi preso o grão-mestre do Grande Oriente, Sebastião Magalhães Lima, a quem o assassino falara uns dias antes. 
Foi Sidónio vítima de um ambiente que sugestionou um indivíduo isolado ou de uma conspiração que armou e instruiu um agente? 
No caso do homicídio do rei D. Carlos, em 1908, está documentado o enquadramento dos seus assassinos numa conjura política. 
No caso de Sidónio, é menos claro. 
Magalhães Lima admitiu ter sido visitado uma vez pelo assassino, mas brevemente e sem que tivesse tomado conhecimento das suas intenções. 
Parecera-lhe um homem “muito nervoso” e podia garantir que não era maçon. 
Este contacto é difícil de avaliar (se o grão-mestre era o mandante, porque é que José Júlio Costa lhe tentou falar em público e trazia no bolso uma carta para ele?). 
Mas não há dúvida que o assassino era um esquerdista e que a esquerda republicana festejou e aproveitou o crime.

O último esforço unido dos sidonistas foi a homenagem fúnebre ao Presidente. 
Decidiram sepultá-lo no Mosteiro dos Jerónimos, ao pé dos heróis máximos da nação, Vasco da Gama e Camões. Antes, o cadáver esteve em câmara ardente na Câmara Municipal de Lisboa, durante três dias. As fotografias mostram enormes multidões em fila para ver pela última vez o presidente. Nas ruas, miúdos vendiam retratos do “Dr. Sidónio Pais”. Nos meses seguintes, Sidónio continuou a suscitar actos excessivos de culto. Em Janeiro de 1919, regressou a Lisboa, vindo de Cabo Verde, Teófilo Duarte, um dos “cadetes” mais fiéis a Sidónio. Nos Jerónimos, decidiu que queria abraçar o cadáver do seu chefe e partiu com o punho da espada o tampo de vidro da urna.

Os órfãos do sidonismo depressa se voltaram uns contra os outros, com uma parte a tentar a restauração da monarquia. Em poucos meses, o poder era devolvido aos antigos partidos republicanos. A república, porém, não voltou a ser exactamente como antes. Afonso Costa nunca chegou a regressar e os seus seguidores perderam a confiança de antes de 1917. Sidónio pôs fim a uma época. Pagou por isso, tal como outros dos seus companheiros de governo, a quem a esquerda radical nunca perdoou. Por causa da sua colaboração com Sidónio Pais em 1918, os dois heróis da revolução do 5 de Outubro, Machado Santos (que já estivera para ser morto durante o golpe de 14 de Maio de 1915) e José Carlos da Maia seriam assassinados, como outros políticos da direita republicana, na “noite sangrenta” que se seguiu à revolução esquerdista de 19 de Outubro de 1921, ocasião em que, significativamente, foi libertado José Júlio Costa (morreria em 1946, internado no Hospital Miguel Bombarda).

10. Sidónio Pais revisto por Fernando Pessoa

Anos depois da sua morte, houve quem se convencesse de que o governo de Sidónio Pais antecipara o tipo de liderança carismática e a organização corporativa do fascismo italiano. É uma interpretação abusiva. O fascismo e o corporativismo foram fenómenos doutrinários, e não apenas situações de facto. Só por si, um caudilho carismático, como tinha havido muitos nas repúblicas da América do sul durante o século XIX, não faz o fascismo. Houve até quem tivesse lembrado de que em Agosto de 1918, o nome do professor Salazar, seu colega em Coimbra, tinha sido sugerido a Sidónio como possível ministro das Finanças. Talvez seja verdade, mas Salazar nunca foi convidado. A redução de Sidónio a um prenúncio do salazarismo é uma mistificação histórica, que serviu tanto à esquerda republicana como ao Estado Novo para se afirmarem como únicas opções disponíveis. Ora, Sidónio, que era um republicano e um maçon, representou precisamente a possibilidade de a alternativa à “ditadura parlamentar” do PRP ter sido outro regime que não o Estado Novo de um conservador católico como Salazar.

O sidonismo foi uma improvisação a que Sidónio se viu forçado para preencher o vazio político criado pelo colapso do poder de Afonso Costa e em que recorreu a não poucas ideias de que ele próprio tinha sido um crítico (como o presidencialismo). Foi, enquanto durou, mais uma situação do que propriamente um regime. Não se fundou no bom funcionamento das instituições representativas, nem no respeito pela lei, mas num poder pessoal sustentado pelo oficiais que Sidónio colocou à frente do exército. O que poderia ter sido a sua “República Nova”, se ele não tem sido assassinado, é algo que nunca saberemos. No parlamento, a 16 de Dezembro, um deputado confessou: “Há poucas horas, no quarto modesto onde jaz o cadáver do Sr. Dr. Sidónio Pais, eu senti — pela primeira vez senti! — e por isso mesmo com maior intensidade, que só o pulso firme dum homem de génio poderia realizar a obra de reconstrução, ou antes formação nacional”. Não poderia haver sidonismo sem Sidónio.

Fernando Pessoa, então empregado de escritório em Lisboa, tomou muitas notas para um ensaio a que deu o título “O Sentido do Sidonismo”. Segundo Pessoa, o sidonismo salvaguardara o que de fundamental os republicanos tinham feito – a expulsão da dinastia e a negação de um papel político ao clero católico –, mas tentara dar outro passo: a eliminação do tipo de “políticos profissionais, bacharéis e caciques” que governavam a república como já antes tinham governado a monarquia constitucional. Depois de 1910, haviam dominado Portugal enquanto chefes de uma “demagogia”, que Pessoa definiu como “um governo apoiado em forças ou classes populares e sistematicamente dirigido contra as opiniões, as tradições e os interesses das classes médias”. Sidónio tentara substituir os demagogos por “classes até ali não experimentadas como governantes”: em vez dos “políticos profissionais”, o exército; e em vez dos bacharéis, “comerciantes e industriais”. Quanto aos caciques eleitorais, mais difíceis de substituir, teria instalado um sistema que, pela separação do executivo e do legislativo, diminuía a sua influência no governo.

Fernando Pessoa escreveu um poema “À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, em 60 estrofes de cadência sebastianista

A questão política, para alguns, resumia-se assim a isto: seria possível ultrapassar os políticos profissionais, apelando às classes médias para intervir, e interessando o povo? Pouca gente acreditava nisso. Pessoa julgava ter sido esse o sentido do sidonismo. No entanto, Fernando Pessoa nunca concluiu o ensaio. A única coisa que acabou foi um poema “À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, em 60 estrofes de cadência sebastianista, publicado pela primeira vez no jornal Acção, em 1920. Preferiu, como toda a gente, o mito à análise:

“Quem ele foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A Vida fê-lo herói, e a Morte 
O sagrou Rei!
(…)
Flor alta do paul da grei, 
Antemanhã da Redenção,
Nele uma hora encarnou el-rei
Dom Sebastião.”

sábado, 2 de dezembro de 2017

O homem que viveu a fazer até ao fim

BELMIRO DE AZEVEDO (1938-2017)
MANUEL CARVALHO
29 de Novembro de 2017, 23:55
Belmiro Mendes de Azevedo morreu nesta quarta-feira no Porto aos 79 anos de idade. 
O seu legado concreto mede-se facilmente no universo empresarial que criou. 
O seu exemplo como gestor permanece alvo de devoções. 
Mas a voz dura do empresário inconformado, exigente e rebelde parece ter-se perdido.

“O problema de morrer tem mais que ver com quem fica e não com quem vai. Com a morte não se tem relação, nem se procura.” Em 2004, quando proferiu esta declaração desprendida, Belmiro Mendes de Azevedo tinha mais três anos de líder destacado da Sonae e mais 13 anos de vida. Nesta quarta-feira, o “problema” aconteceu. Depois de poucos dias de internamento, Belmiro faleceu, no Porto. Tinha 79 anos vividos quase sempre numa espiral interminável de actos de inconformismo e rebeldia. Contra a situação, contra o imobilismo, contra o comodismo, contra a inércia, contra os favores de uma sociedade cristalizada, que “se verga cedo de mais” como se a memória dos “reis” permanecesse incólume, contra uma maneira de fazer negócios previsível, conformada e subserviente aos poderes. Mais do que um empresário, Belmiro foi um exemplo de exigência permanente, um homem livre e corajoso, amigo do risco, da disciplina interior, da educação pela vida fora, da “ética rigorosa”. Foi um apologista de uma necessidade íntima de fazer e desfazer para voltar a fazer de novo, como se a realização pessoal dependesse dessa permanente contradição.

“Morre o maior empresário depois do 25 de Abril, a classe empresarial portuguesa estará de acordo com isto. Morre uma figura inspiradora para milhares de quadros. E morre uma voz que nunca baixou a cerviz”, diz Daniel Bessa, que trabalhou pela primeira vez com Belmiro “há mais de 40 anos”. Olhando o seu percurso de vida, todas essas características acabam por obedecer a um traço de temperamento que desde sempre marcou Belmiro. Foi a sua coragem física, a liberdade de dizer o que pensava e agir de acordo com o risco dessa atitude que o levou de uma pequena empresa industrial nos anos 60 do século passado à construção de um dos maiores grupos privados nacionais. Foi a sua permanente disponibilidade para o risco que o levou a definir as visões sobre os novos hábitos de consumo nos hipermercados ou a antecipação de um mundo onde as pessoas estariam permanentemente ligadas por um aparelho sem fios – o telemóvel. Foi a introdução da exigência na gestão e a aposta numa cultura meritocrática, cristalizada nos famosos dez mandamentos do “Homem Sonae”, que levaram centenas de jovens a entrar na Sonae ou a enveredar por carreiras de gestão. O movimento yuppie dos anos 90 deve-se a ele.

Belmiro Mendes de Azevedo nasceu em Tuías, nas imediações do Marco de Canavezes, no dia 17 de Fevereiro de 1938. Para ele, a origem sempre foi um privilégio e uma ponte. “Eu sou um homem do Marco, freguesia de Tuías. Depois, estou dentro de todos os outros universos: sou do Norte, sou de Portugal, sou da Europa e sou do mundo”, diria. Pela vida fora, o empresário gostaria sempre de sublinhar a sua origem humilde, embora nesse tempo de extremas privações os Azevedo fossem uma família de classe média. A mãe, Adelina, que o fascinará pelo rigor e pela devoção ao trabalho, era costureira e o pai, Manuel, carpinteiro. Mas as heranças tinham-lhes garantido ao menos terrenos de cultivo que nessa época eram capazes de separar uma vida de penúria de uma situação remediada. Sempre havia milho para panificar, vinho, leite e carne quando possível. Belmiro é o primeiro filho do casal e jamais abdicará desse estatuto. Sempre assumiu um papel complementar ao dos pais na educação dos seus irmãos.

Nada na sua primeira experiência escolar permitiria adivinhar o seu percurso académico. No primeiro ano, reprovou. Não por culpa dele, diria sempre, mas pelo laxismo e incompetência do seu professor, por sinal um amigo de caça do seu pai. Quando muda de professor e de escola, Belmiro muda também. Torna-se um aluno exemplar. O mérito, dirá, foi do seu professor, Carlos da Silva Andrade. “Ele era rigoroso, exigente e disciplinador e teve um grande impacto no meu carácter. Por sua influência fui sempre (e ainda sou) um leitor ávido e interessado nas grandes questões materiais e espirituais sobre a condição humana. Foi, na verdade, graças a ele que saí da província e me lancei no mundo. Sem esse impulso, seguramente não estaria aqui hoje”, diria Belmiro de Azevedo num discurso de reconhecimento à homenagem que a Ordem dos Engenheiros lhe fez há dois anos.

Seria, de resto, o professor do ensino básico a influenciar os pais para a necessidade de o primogénito continuar os estudos. Aos 11 anos, Belmiro parte para o Porto, para estudar no liceu. Por falta de condições, tem de ficar hospedado na casa do tio Belmiro da Mota, na altura fiscal nas obras de construção do Observatório da Serra do Pilar, em Gaia. Nesse encontro com o tio, Belmiro colherá a segunda experiência de vida que marcará indelevelmente outra das facetas marcantes da sua personalidade: um certo espírito libertário e irreverente. Belmiro da Mota era um velho republicano carbonário que guardara armas em casa, conhecera a perseguição da PIDE e a prisão no Aljube. Para o jovem vindo de Tuías, a sua cultura política, a sua dedicação aos livros e às ideias políticas tornaram-se uma revelação. “Era muito meu amigo. Vivemos juntos durante muito tempo. Era um filósofo, ateu. Ou agnóstico. Para ele, Jesus Cristo não era um líder religioso, mas um grande filósofo. Lia muito sobre aquilo, não tinha educação superior e passava a vida a explicar-me isso. Morreu com um enfarte violentíssimo, à uma da manhã, estávamos os dois em casa. Foi a primeira pessoa que vi morrer”, diria, em 2010, numa entrevista à Visão.

Após a morte do tio, Belmiro de Azevedo, com 15 anos, muda de novo de vida. Aluga um quarto na Rua do Bonfim, no Porto, perto do liceu Alexandre Herculano que frequentava ao lado de, entre outras figuras conhecidas, Rui Vilar, o chairman da Caixa Geral de Depósitos. As suas notas garantem-lhe mais tarde uma bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian. Mas tem de dar explicações para garantir a sua sobrevivência. “O maior investimento que fiz na minha vida foi quando aos 17 anos decidi ser empreendedor e comecei a dar explicações para financiar o meu curso. ‘Ginasticou-me o caco’ e o retorno do investimento tem sido infinito. Por isso, a formação é o melhor investimento que qualquer pessoa pode fazer”, explicou em 2001 ao Expresso.

Estava na hora de ir para a universidade. Os pais viriam em 1958 para o Porto, e Belmiro encontrou aí estabilidade e previsão. Entre explicações e noitadas a jogar cartas com os amigos, Belmiro de Azevedo licenciar-se-ia em Engenharia Química, com 16 valores. Houve anos em que arriscou em excesso e quase não fazia exames. Mas acabou com média suficiente para ser convidado para ser docente na Faculdade de Engenharia do Porto. Não era, no entanto, esse o caminho que queria seguir. Mal acaba o curso, em 1963, aceita um emprego num dos gigantes nortenhos da fiação, a Efanor. O mundo pareceu-lhe aí muito cristalizado. “Mandava toda a gente”, diria. Desse primeiro emprego ficaria uma ligação simbólica. Efanor é ainda a holding pessoal da família Azevedo.

Em 1965, Correia da Silva, o administrador delegado da Sonae, uma empresa do universo do banqueiro Afonso Pinto de Magalhães que se dedicava a produzir um aglomerado a partir do bagaço de uva, lança-lhe um desafio: mudar o sistema de produção da fábrica. Belmiro chegou como um vendaval. “A minha primeira tarefa como jovem engenheiro foi ter de mandar para a sucata metade dos equipamentos e mudar substancialmente as pessoas que lá estavam. Durante muito tempo trabalhava durante 24, 48, 72 horas seguidas de modo a cumprir a completa transformação”, explicaria numa memória para uma edição interna da Sonae. Mas essa transformação não se ficou pelas máquinas e pelos trabalhadores. Abrangeu o próprio produto. Em vez de estratifite, a Sonae passou a produzir laminite e saiu da crise grave em que se encontrava.

Logo no princípio da carreira Belmiro mostrara o traço fundamental do seu perfil de gestor. Para ele, não podia haver barreiras ao que entendesse como necessário para cumprir uma missão. À sua chegada à Sonae instalou o “caos organizado” que defenderia vida fora. Numa entrevista ao PÚBLICO em 1995 explicaria esse conceito inaugural do seu percurso: “Costumo dizer — e acredito nisso — que só funciono bem no caos organizado. É preciso saber gerir o caos. Uma empresa, para ter criatividade e competitividade interna, tem de, permanentemente, ser capaz de gerir num certo ambiente de desordem, o que significa mudanças permanentes. A nossa maneira de estar, a nossa estabilidade é sermos instáveis.”

Entre as tarefas na gestão da Sonae, Belmiro dedica-se a uma das paixões que conservará até ao limite da sua resistência física: o desporto. Quando era adolescente, causava espanto aos moradores de Tuías ao dedicar-se a longas corridas pela aldeia. Na universidade pratica, com reconhecido talento, andebol. Primeiro no clube desportivo da universidade, depois no seu clube de paixão, o FC. Porto. Aos 18 anos, na praia de Leça, conhece entretanto Maria Margarida Teixeira, que tinha à época 15. Nas suas primeiras saídas românticas, Belmiro recordaria um dia de 1958, ano da campanha de Humberto Delgado para as eleições presidenciais, quando, ao subirem a Rua 31 de Janeiro, teve de lhe pegar ao colo para a proteger do tumulto gerado num confronto com a polícia.

Margarida e Belmiro de Azevedo casar-se-iam em 1963, quando ela era ainda estudante de Ciências Farmacêuticas – Belmiro ganhava 5600 escudos na Efanor. Margarida foi talvez a pessoa mais influente na sua vida. Foi, pelo menos, a pessoa que desde sempre teve mais poder para controlar o lado mais impulsivo e tempestuoso do engenheiro. O filho que lhe sucedeu nos negócios da Sonae, Paulo, diria mais tarde numa reunião internacional com quadros do grupo que a Sonae tinha um CEO (chief executive office) – Belmiro – e uma CEO (chief emocional officer) – Margarida. Nunca ninguém teve o mesmo poder de dizer não ao gestor que a sua mulher. Belmiro reconheceria um dia numa entrevista à Visão, com humor e embevecimento, esse poder de influência. “[Margarida Azevedo é] a única que lhe diz não?”, perguntou a jornalista Cesaltina Pinto. Belmiro respondeu: “Ela?! É muito pior do que isso. Nem me deixa assinar os cheques da farmácia.”

Em 1971, Belmiro de Azevedo é já pai de três filhos. Nuno, o primeiro, nascera em 1963. Duarte Paulo, o segundo, em 1965. E Cláudia em 1970. Pouco antes de entrar numa fase de aceleração, ao adquirir a Novopan em 1971, e de se ter iniciado na produção das resinas industriais necessárias à produção de aglomerados após um conflito de preços com a poderosa Hoecht, a Sonae consolida-se como uma indústria de futuro na economia nortenha. Tem produto próprio, métodos inovadores, mercados externos e solidez financeira. A empresa entra na turbulência do 25 de Abril numa situação confortável. Isso seria reconhecido quando os trabalhadores fazem “uma greve ao contrário” – em defesa dos seus accionistas e da sua administração. Em 1978, na sequência de uma nacionalização parcial após o 11 de Março de 1975, o Estado tenta mudar a administração. Os trabalhadores paralisam e colocam-se ao lado de Belmiro. Durante quatro meses de instabilidade monta-se uma rede de cooperação entre trabalhadores e gestores que garante a actividade da empresa. Nesse período, todos os salários foram iguais.

Belmiro venceria o conflito. E torna-se o senhor Sonae, mesmo quando as acções da empresa ainda estão parqueadas no IPE, uma sociedade de capitais públicos em que ficou a titularidade das empresas nacionalizadas. Três anos depois, quando o Governo da AD descongela os anos da revolução, chegaria o momento de se saber quem mandava e quem detinha, de facto, a Sonae, na época uma apetecível empresa industrial que ocupava 45 mil metros quadrados. Belmiro e a equipa de gestão, em que se incluíam velhos companheiros de rumo como Jaime Teixeira, Romão de Sousa ou Fernando Carvalho? Ou o accionista, o banqueiro Afonso Pinto de Magalhães, que depois do 25 de Abril se exilara no Brasil?

Quando regressa a Portugal, em 1982, o banqueiro ensaia uma solução de compromisso. Faz um pacto com Belmiro, que na época considera a hipótese de regressar à universidade – falava-se também numa proposta para gerir um grupo brasileiro: ele ficaria, na condição de ser accionista e gestor. “Quando o senhor Pinto de Magalhães regressou do Brasil (eu tinha ficado aqui como ‘feitor’ a tomar conta da ‘quinta’ deles), eu quis voltar à universidade. Como ainda estavam bastante assustados e eu lhes tinha tratado bem dos negócios, ofereceram-me 20% das acções a um preço simbólico. Eu comprei, com um financiamento do Lloyds Bank, e depois fui comprando mais, com o pêlo do cão, como se costuma dizer”, recordaria o empresário. No ano seguinte, com a abertura do mercado de capitais, a Sonae entra na bolsa e Belmiro aproveita a onda. No final de 1984 era já o principal accionista, o que gerará uma vaga de ressentimento dos herdeiros de Pinto de Magalhães, falecido em 1983.

Com as rédeas na mão de Belmiro, a Sonae aceleraria a sua espiral de crescimento. Se os anos de 1960, com a integração de Portugal no espaço da EFTA, tinham sido propícios aos investimentos na indústria exportadora, nos anos de 1980 a liberalização da economia e as perspectivas da integração europeia abriam um novo mundo às empresas nacionais. Belmiro compreendeu-o como poucos. Em 1984 faz uma parceria com os franceses da Promodés para lançar o primeiro hipermercado em Portugal. A inauguração do Continente de Matosinhos foi uma revolução que atraía multidões de curiosos para conhecer uma loja onde se podia comprar tudo. Pelo meio, a Sonae adquiriu a Agloma, estreou o Porto Sheraton e lançou-se em Inglaterra com a Sonae UK para garantir a distribuição dos seus produtos industriais.

Estava na hora de criar uma cultura de grupo capaz de encaixar as vagas de crescimento que se antecipavam. Num tom meio apologético, meio influenciado pelo misticismo da auto-ajuda, Belmiro de Azevedo redige os dez princípios da “cultura Sonae” e os dez mandamentos do “homem Sonae”. Aí, aplica os seus próprios ensinamentos de vida e ajusta-os a uma estratégia de gestão de recursos na qual há espaço para o risco e para o fracasso, mas nunca para a indecisão, para o estatuto ou para a indiferença. “As elites verdadeiras não têm privilégios. Privilégio está conotado com favoritismo, nepotismo, favores de heranças, etc.(...) Os verdadeiros líderes são-no naturalmente. Não são impostos, impõem-se”, escreveria. Para depois afirmar, numa frase célebre, que “O ‘homem Sonae’ ou é líder ou candidato a líder.” Mas não o será a qualquer custo: “Deve ter um código ético e deontológico rigoroso”, e “tem de ser adulto no pensamento, firme, sem ser duro, na decisão, corajoso, sem ser aventureiro, na acção”.

Belmiro começava já a ser uma figura de projecção nacional. Não apenas pelas suas realizações empresariais, mas pela determinação e pela capacidade de enfrentar dificuldades. Tornara-se um bulldozer. “Sou heterodoxo e o grupo é motivado nesse sentido. Com ortodoxias não se vai a lado nenhum, apenas se faz mais do mesmo”, dizia. Ele não era assim. “Sempre gostei de fazer coisas diferentes. Portanto, quando uma área está consolidada e o método de trabalho está bem concebido, vou pregar para outra freguesia”, acrescentava anos mais tarde. Nortenho assumido, com costela de Tuías, preferia a realização pessoal do self made man à herança nobiliárquica. Quando, num congresso do PCP, Álvaro Cunhal se pronuncia contra a tríade dos capitalistas exportadores (os Mello, os Espírito Santo e Belmiro), o empresário protesta: “Sem querer estar aqui a insinuar que eu é que sou um gajo porreiro, eles formaram grupos em regime de benesses decorrentes do condicionamento industrial. Ora a posição da Sonae foi toda conquistada no mercado.” 

O mercado, por essa época, era generoso. A economia crescia rapidamente na segunda metade dos vertiginosos anos 80. A euforia da Bolsa atraía como nunca mais se viu as poupanças dos portugueses. O “gato por lebre” que o então primeiro-ministro Cavaco Silva sinalizara ainda não estava no horizonte. O Governo, com Miguel Cadilhe nas Finanças, estimulava com mecanismos fiscais as famosas OPV (ofertas públicas de venda).

Nesta euforia, Belmiro lança em 1987 não uma, mas sete OPV ao mesmo tempo – as da Agloma, Ibersol, Modelo Continente, Publimeios, Robótica, Selfrio e Viacentro. Miguel Cadilhe suspeita de “falta de transparência” no processo. O próprio Belmiro reconhece que as operações foram lançadas no limiar da legalidade, mas recusa qualquer irregularidade. “É verdade que nós jogámos com a lei”, admitiria Belmiro num depoimento a Magalhães Pinto, autor da sua biografia. Mais tarde os tribunais dariam razão à Sonae. As sete OPV, mesmo tendo implicado mecanismos financeiros que exploravam buracos na lei, não eram ilegais. O processo acabaria arquivado. E a Sonae tinha arrecadado quatro milhões de contos na venda de acções ao mercado.

Estava na hora de dar novos saltos. Enquanto a área da distribuição crescia, a Sonae investia no imobiliário, no turismo e na comunicação social. Em 1990, o PÚBLICO nascia. Belmiro tornara-se um personagem incontornável da vida nacional. “A Sonae tem, de vez em quando, de fazer algumas coisas que não têm ligação directa com a rentabilidade. E entendi, há dez anos, que fazia falta um diário de referência, que dignificasse o jornalismo, com meios, qualidade e independência – era um bom contributo para a sociedade portuguesa. O jornal nunca favoreceu a Sonae, nunca interferi na sua linha editorial, sempre me distanciei dele senão estava lixado”, explicaria em 2001 numa entrevista a José Carlos Vasconcelos, em 2001. O primeiro director do jornal, Vicente Jorge Silva, diria que o PÚBLICO era “a peninha” no chapéu de Belmiro. Leu-o diariamente até ao final da sua vida. O que mais o preocupava era a sua falta de rentabilidade – embora por vezes o apresentasse como um projecto de responsabilidade social. Não se conhecem vestígios de que alguma vez interviesse na sua linha editorial.

Os anos 90 foram fulgurantes para a economia e para a Sonae. O seu crescimento foi imparável: 200 milhões de contos de volume de negócios em 1991, 357 milhões em 1995, 615 milhões em 1998. Nem tudo correu, no entanto, de modo a justificar esta explosão nos resultados. Nessa década, Belmiro conheceu alguns dos seus principais problemas e teve de se confrontar com vários dissabores.

A começar, um conflito com a família Pinto de Magalhães. Ao lançar um aumento de capital de 15 para 40 milhões de contos na Sonae, em 1992, Belmiro ameaçava reduzir a posição da família para níveis próximos dos 10% do capital da empresa – os Pinto de Magalhães não tinham forma de acompanhar o aumento de capital. As reacções não se fizeram esperar. O Tribunal Cível suspende o aumento de capital ao longo de 18 meses. O diferendo instala-se como uma novela na praça pública. “Se hoje a família tem dinheiro, deve-o aos trabalhadores da Sonae”, dizia Belmiro, lamentando “que só tenham sabido delapidá-lo”. Carolina Magalhães, viúva do banqueiro, responderia em declarações ao PÚBLICO: “Não gosto das atitudes dele e estou muito sentida. Acho que a família Pinto de Magalhães não merecia tanto aquilo que ele tem feito e procura fazer. É uma pessoa dura, não tem coração.”

Mas o desgaste com a família Pinto de Magalhães (e com outros accionistas minoritários que se queixavam da forma autocrática como geria os negócios) seria apenas uma ponta do icebergue dos problemas que viriam a seguir. Belmiro tenta controlar o processo de privatização do BPA e acaba por perder para o BCP de Jardim Gonçalves. Tenta o controlo do Totta e volta a perder, desta vez para José Roquette. O desfecho destes negócios intermediados pelo Estado leva-o a aumentar a sua suspeição sobre a isenção da política. Perder, para ele, não era uma tragédia – até porque no caso do BCP retirou-se com uma mais-valia estimada em três milhões de contos. “Isto tem muito que ver com a minha formação desportiva: ganhar, perder, receber e dar caneladas”, dizia. Mas a cada passo queixava-se da sua condição de outsider nortenho, distante do poder. “O Governo tem um discurso afirmando que não é de Lisboa, mas na prática verificamos que as decisões finais têm favorecido os grupos de Lisboa. Quanto a mim, em muitos casos, injustamente”, dizia em 1995.

O conflito com os políticos tornou-se então frequente. Belmiro mostra nesse atrito constante a sua aura temerária que lhe mereceu um boneco no Contra-Informação – “Belmiro Mete Medo”. “Tenho a cara um bocado vincada, marcada, do Mete-Medo, mas eu não meto medo a ninguém”, ironizaria. Mas, instado a prestar declarações no Parlamento, obrigou os deputados a ouvi-lo às oito da manhã. E ao longo do tempo foi distribuindo farpas. Marques Mendes? “Não dava nem para porteiro da Sonae.” Ministros da Economia? “O Pina Moura era como Estaline e o Carlos Tavares como o Brejnev e quase tivemos o António Mexia na Economia. Tivemos ainda o Fernando Castro e o Jorge Armindo, estilo Tchernenko e Gromiko.” A ida de Durão Barroso para Bruxelas? “Não há nenhum cargo internacional mais importante para um cidadão português que defender no seu país as suas ideias (…). A minha convicção é de campónio: quem foge ao combate é cobarde.” Santana Lopes? “É incompetente.” Cavaco Silva? “É um ditador. Mandou quatro amigos meus, dos melhores ministros, para a rua, assim de mão directa.” Referia-se a Álvaro Barreto, Teresa Patrício Gouveia, Miguel Cadilhe e Eurico de Melo.

Mas a maior animosidade era com Marcelo Rebelo de Sousa. “É um entertainer político que se diverte à custa dos desprazeres que provoca”, dizia. “O Marcelo é pluri-pluri. Tem dez respostas, todas boas, para a mesma pergunta. Não sofre de pensamento único”, ironizava. Marcelo tinha sido o principal instigador, em 1997, de um inquérito parlamentar ao alegado favorecimento de grupos económicos privados pelo Estado e o então líder do PSD avisara Belmiro de que “Portugal não é o faroeste nem é dominado por máfias”. Belmiro responderia com contundência: “Tenho seguramente o direito de exprimir um juízo sobre um líder político que, desafiando todas as probabilidades, acalenta o desejo de chegar a primeiro-ministro: no meu critério, não serve para tal lugar, como não serve para qualquer outro que recomende um mínimo de carácter e de sentido público. Di-lo-ei sempre que for necessário lembrá-lo. (…) Aqui tem, professor Marcelo Rebelo de Sousa. Por mim, escusamos de ficar por aqui: não me calo nem que Cristo desça à terra. E desengane-se: dito por mim, isto quer dizer realmente isso mesmo.”

Nesta animosidade contra a classe política, só Mário Soares parecia escapar. “A única pessoa que eventualmente pus no poder foi o Mário Soares. Foi a única vez em que declarei por antecipação em quem votava. Nunca mais fiz isso”, dizia. Mas não se vislumbra que Belmiro o tivesse feito por convicções ideológicas. Ao menos, Soares partilhava da sua rebeldia. De resto, Belmiro confessaria que o PSD fora o partido em que mais vezes votara, pelo menos até 1992. Definia-se como “um liberal com preocupações sociais” ou como “um social-democrata moderno” que desprezava a ideia de solidariedade “no sentido de dar” e gostava da ideia de criar emprego no quadro mais favorável do capitalismo para “dignificar a pessoa”.

Entre avanços e recuos, a Sonae continua a consolidar os seus focos de negócios com investimentos solenes como o Colombo, em Lisboa, alarga o retalho à moda ou aos electrodomésticos, torna-se o maior fabricante mundial de aglomerados de madeira depois de comprar a alemã Glunz e em 1998 lança a Optimus – os estudos de mercado derrotaram a escolha de Belmiro de Azevedo, que preferia o nome Amigo. Pelo meio, acalentava a ideia de se tornar “maior no Brasil do que em Portugal”. Em 2000 o universo Sonae dividia-se por cinco pólos: indústria, com 39 unidades industriais; turismo, com a Star, a Solplay e já com a Torralta; imobiliário, com os shoppings; telecomunicações com 17% quota de mercado com a Optimus a Novis e a Clix; distribuição: 350 lojas em Portugal e no Brasil, onde era o terceiro maior operador, com vendas acima dos 850 milhões de contos. Tinha já 60 mil trabalhadores.

Não era essa escala de sucesso que, porém, o levava a acomodar-se. Por essa altura, quando o país entrava no entorpecimento que o levaria a registar um dos piores crescimentos económicos do mundo, Belmiro lamentava que os portugueses fossem sedentários, viajassem pouco e se fixassem nas actividades tradicionais sem abrir novos horizontes. “As pessoas nascem, fazem xixi e morrem no mesmo lugar. Do ponto de vista da ginástica intelectual é mau”, notava. Ele, entretanto, cumpria na acção o que prometia por palavras. Nem os problemas de saúde que teve (uma úlcera calosa e uma pancreatite “daquelas que nunca se sabe como acaba”) lhe detiveram a marcha – embora nessa época tenha pela primeira vez reflectido sobre o problema da morte. “Tinha a minha vida toda organizada. É preciso estar sempre preparado para qualquer eventualidade, um acidente de viação, um acidente vascular”, diria mais tarde. Nesse momento, deixou cartas à família que permanecem secretas.

Belmiro recuperou em força. Na década passada, a Sonae evoluiu, sempre nos eixos da destruição criativa que o gestor lhe impusera desde que lá chegara. Em 2006 Belmiro, com o filho Paulo ao lado, anuncia ao país uma estratégia que ninguém ousara sequer imaginar: uma oferta pública de aquisição sobre a PT. A sorte dessa operação é conhecida. A sorte da PT e do seu principal usufrutuário, o BES, também. Os seus estilhaços judiciais andam ainda no ar a perturbar a vida pública. Como diria Belmiro: “É verdade que às vezes erramos e ‘estampamo-nos’ contra a parede. Mas não há nada que um bocado de tinta e uma ida ao bate-chapas não resolva. É melhor errar do que não decidir. Pelo menos aprende-se.” No caso da PT, mais evidente do que um eventual erro foi a aprendizagem.

Após a OPA, o fantasma da sucessão foi-se tornando nítido no grupo com o avanço da idade do “engenheiro”. Em 2001, ele avisara que esse não era um problema. “Falam-me muitas vezes do problema da minha sucessão. Não há problema nenhum. As coisas estão de tal modo organizadas, que só pode haver candidatos a mais”, dizia. Em 2007, numa célebre cerimónia de apresentação de contas, deu a notícia: o seu sucessor seria o seu filho Paulo Azevedo. Não houve dramas. Para muitos analistas avisados sobre os dramas com as passagens de testemunho nas empresas de raiz familiar, a transmissão do poder na Sonae foi exemplar. Paulo mudaria o estilo e refinaria o rumo do grupo, mas sem perder o esteio do crescimento. No ano passado, a Sonae facturou 5,1 mil milhões de euros.

Belmiro de Azevedo continuou a estar perto da gestão do filho pelo menos até 2015, quando se retirou em definitivo. Ocupava o seu velho gabinete na Maia, ao lado da fábrica que ainda conserva as máquinas que instalou há mais de meio século. Lia os jornais, analisava relatórios de gestão, continuava a dar trabalho às secretárias, esforçava-se a fundo por seguir. Empenhava-se em acompanhar a Porto Business School, um dos seus projectos mais empenhados. Mas não se ficava por aí. “Tendo saúde, vou-me ocupar sobretudo do sector primário em Portugal, onde há falta de gestão e sobretudo de investimento na floresta, agricultura e na pesca”, dizia. Na prática, continuava imparável entre visitas aos campos de nectarinas no vale da Vilariça ou ao armazém de kiwis no Marco.

Fazer era para ele uma forma de viver. E viveu fazendo até aos limites.