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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ex-presidente da Portugália: Potencial comprador da TAP só pode ser chinês

João Ribeiro da Fonseca foi presidente da companhia fundada pelo Grupo Espírito Santo e vendida à TAP
1/2/2015, 12:12
Agência Lusa
Ana Suspiro
O ex-presidente da Portugália, João Ribeiro da Fonseca, não acredita que a tentativa de privatizar a TAP se concretize. Defende que só uma fusão com uma companhia chinesa interessa à empresa nacional.

O ex-presidente da Portugália, João Ribeiro da Fonseca, não acredita que a nova tentativa de privatizar a TAP se concretize e defende que apenas a fusão com uma companhia aérea chinesa serve os interesses da empresa portuguesa.

“[Um potencial comprador] só pode ser chinês, porque a China tem capital, tem estratégia e tem mercado. 
A China precisa de vir para o Atlântico, precisa de uma plataforma logística que lhe faça a distribuição para o Atlântico”, afirmou em entrevista à Lusa Ribeiro da Fonseca, que liderou os destinos da Portugália durante 16 anos e continua a presidir à assembleia da Associação Portuguesa de Transporte e Trabalho Aéreo (APPTA).

Defensor da privatização da TAP, Ribeiro da Fonseca recusou-se a fazer “avaliações individuais” aos potenciais interessados veiculados pela imprensa, estando convicto de que ainda não será nesta legislatura que a companhia vai deixar de ser pública.
”Não acredito que a TAP vai ser vendida. 
E não vislumbro em nenhum candidato o parceiro ideal” para a companhia portuguesa, declarou.

Para o gestor, a TAP precisa de capital, mercado e estratégia, considerando que apenas “uma aliança” com uma companhia aérea chinesa pode dar isso à transportadora nacional: “A China precisa de nós e nós precisamos de um chinês”. 
“Depois vêm dizer que os chineses vêm tomar conta disto e o que é que isso interessa? Nós não precisamos de dinheiro? 
Eles têm coisas ótimas para nós e nós muitas coisas boas para eles”, lançou.

Ribeiro da Fonseca foi presidente da PGA, a companhia regional fundada pelo Grupo Espírito Santo (GES) e que foi vendida à TAP em 2006 por 140 milhões de euros. 
A Portugália era uma empresa deficitária e a sua compra pela transportadora pública, tem sido um dos negócios questionados no quadro da comissão parlamentar de inquérito aos atos de gestão do Banco Espírito Santo e GES.

Na entrevista à Lusa, Ribeiro da Fonseca, mapeou o panorama do setor da aviação, considerando que “não há parceiros disponíveis na Europa”, porque “já todos acasalaram”, dando origem a três grandes grupos.

“Depois temos os EUA, mas estão interessados na Ásia e na América do Sul, que, por seu lado, não têm dinheiro nem força em termos de transporte aéreo. 
A América do Sul está num processo de recuperação e a sua grande prioridade é a América do Norte”, prosseguiu. 
Fica a faltar o Médio Oriente, que “tem muito capital e uma estratégia, mas não tem mercado, o que comporta um grande risco, porque compram e vendem no dia seguinte”, disse.

Na perspetiva do gestor, “resta a Ásia e, mais concretamente, a China”. 
Nesse sentido, adiantou, o Governo deveria “fazer um ‘roadshow’ bem preparado, uma apresentação como deve ser, porque é preciso mostrar a importância que Portugal tem estrategicamente para China, não só pela geografia, mas também pelas infraestruturas”, nomeando o porto de águas profundas de Sines e o aeroporto de Lisboa.

TAP está para ser privatizada há mais de 20 anos

Quando em 1991 assumiu a presidência da Portugália, Ribeiro da Fonseca foi informado – pelo então ministro dos Transportes Ferreira do Amaral — de que a TAP ia ser privatizada. “Estive lá 16 anos. 
Conheci pelo menos oito ministros dos Transportes. 
Passados 23 anos, a TAP continua à venda”, disse o deputado pelo CDS na assembleia municipal de Cascais, realçando que o adiamento da venda pode ser fatal para a companhia liderada por Fernando Pinto.

O responsável deixa uma chamada de atenção aos “gurus que dizem que a TAP é como a caravela dos descobrimentos e que é fundamental para o turismo”: “Se a TAP morrer amanhã, no dia seguinte aparecem outras [companhias] para a substituir”. 
“Temos que vender, mas não pode ser a qualquer um. 
E, se não houver nenhum [comprador], não vendemos. 
É preciso responsabilizar toda a gente e também os senhores dos sindicatos. 
Porque se não acontecer a companhia morre. 
Não vejo outra saída”, concluiu.

Em novembro último, o Governo decidiu relançar o processo de privatização da TAP, suspenso em dezembro de 2012, optando pela venda direta em duas fases — a primeira de até 66% do capital para avançar de imediato, devendo estar concluída ainda no primeiro semestre.

A capitalização é o primeiro de nove critérios para a escolha do futuro dono da TAP, seguido pelo valor da oferta e o projeto estratégico, segundo o caderno de encargos, que não fixa prazos para a manutenção do ‘hub’ [centro de operações] em Portugal.
5 Janeiro 2015 – por David Dinis

1. A privatização é uma decisão ideológica ou uma necessidade?

A posição do Governo é a de que a privatização é de uma importância capital para o futuro e sobrevivência da empresa.

O argumento que tem usado é que a situação do Grupo TAP se agravou muito desde 2007 – devido a investimentos como na empresa de manutenção que detém no Brasil e por fatores externos -, o que levou a empresa para a falência técnica em 2008 – atingindo uma situação negativa de 381 milhões de euros em 2012.

A empresa precisará, assim, de um investimento forte – não apenas para equilibrar as contas, mas também para se manter a par da concorrência, de outras companhias de bandeira e das agora poderosas low-cost.

A TAP teve já um processo de recapitalização pública, com uma injeção de capital entre 1994 e 1997 que, a preços de hoje, representaria um valor superior a 1.300 milhões de euros, nas contas do Governo.

Até aqui, a questão é pacífica. 

As divisões surgem quanto ao método para essa nova injeção de capital: o Governo argumenta que só a privatização (de mais de 50% da empresa) é viável, devido à legislação europeia. 

Mas os partidos à esquerda e os sindicatos, por exemplo, argumentam que é possível o Estado intervir diretamente (ver mais à frente).


2. E porquê agora?

A resposta do Executivo é esta: foi quando se entendeu, pela avaliação que foi feita fazendo do mercado e dos potenciais candidatos, que estavam reunidas as condições para relançamento da operação.

Mas a verdade é que o processo começou antes. 
Em 2012 a privatização só caiu no último momento, quando o único candidato que se apresentou (Gérman Efromovich) não apresentou as garantias necessárias para a adjudicação.

Agora, a poucos meses das eleições legislativas, sindicatos e partidos da oposição contestam que o Governo avance com um modelo de privatização que não reúne consenso e que condicionará o próximo Executivo.

A seu favor, o Governo tem o argumento de que a TAP estava incluída no programa de empresas a privatizar que foi acordado com a troika – sendo que o PS já contra-argumentou que os objetivos quantitativos deste processo foram cumpridos e que o plano não obrigava a uma venda da maioria do capital. 
O Governo discorda. 
A leitura do texto permite as duas interpretações.

3. Por quanto é que pode ser vendida a empresa?

O Governo não adianta números – para não prejudicar a negociação. 
Mas a expectativa não é alta.

Este é o ponto de partida: o grupo fechou o ano de 2013 com capitais próprios negativos de -371 milhões de euros e uma responsabilidade de cerca de 1.000 milhões de euros pela dívida da TAP. 
O objetivo é que esta seja assumida pelo investidor privado na proporção da sua participação acionista, acrescentando-se um compromisso de capitalização da empresa.

4. Porquê vender 66% da empresa agora - e o resto depois?

А melhor resposta, nesta altura, é política: o Governo não quis avançar com a venda total da empresa, para não radicalizar posições. 
Há outra tese, nunca confirmada: a de que o CDS quis travar a venda da maioria do capital, aproximando-se das posições do PS, mas que o equilíbrio de posições no Governo levou a este meio-termo, contrariando os que – no PSD – defendiam que só uma privatização de 100% do capital permitia atrair as melhores propostas.

Oficialmente, o Governo diz que esta “é a melhor forma de salvaguardar o interesse público, sem condicionar à partida a posição do Estado ao longo do processo”. 
A privatização parcial (66%) numa primeira fase, permitirá (acredita a maioria) “garantir que todo o processo decorre conforme as condições acordadas, assim como fazer um acompanhamento da evolução da empresa”, permitindo avançar para a privatização total se as condições estabelecidas forem cumpridas até lá.

Há também outra hipótese: a de o Estado, no fim desse período, ficar com a opção preferencial de uma recompra da empresa caso o novo proprietário a queira vender – o que não pode acontecer nos primeiros cinco anos.

5. Mas qual é a vantagem? E as desvantagens?


Mas a privatização parcial desvaloriza o encaixe financeiro possível. 
E arrisca-se a receber candidaturas menos interessantes do que uma privatização a 100%.

O PS diz, por outro lado, que os 66% que são vendidos significam que o Governo perde o controlo da gestão, arriscando um serviço público fundamental.

6. Porquê a venda direta e não o concurso público?

O argumento que o ministro Pires de Lima e o secretário de Estado, Sérgio Monteiro, têm dado é que a venda direta é a que melhor assegura a seleção de um ou mais investidores de referência, “que propiciem à TAP as condições necessárias que lhe permitam manter-se como uma estrutura empresarial com uma posição competitiva à escala global”.

Dizem também que garante a “diversificação das fontes de financiamento das empresas nacionais”.

Dito de outra forma: o argumento é que o concurso público “deixaria, no limite, o Estado numa situação de ter privatizar a empresa ignorando o desenvolvimento estratégico do interessado que fizesse a melhor proposta financeira.”

Para termos um comparador, o PS propôs um modelo diferente, com um aumento de capital em bolsa, nas palavras do seu líder, António Costa.

O PSD e CDS têm argumentado contra, dizendo que isso seria “privatizar os lucros e ficar com o prejuízo — ficando os portugueses com os problemas da manutenção do Brasil para suportar, por exemplo”. 
Acrescentando que nenhum investidor estaria disponível para meter dinheiro na empresa sem que o Estado fizesse o mesmo, ficando além disso sem a gestão.

7. A recapitalização não poderia ser feita pelo Governo?

Colocando a questão de outra forma: a questão de não poder injetar dinheiro na TAP é de facto uma proibição, ou é um argumento do Governo para abrir caminho à privatização?

Ao que diz o Governo, a questão coloca-se assim: as regras da União Europeia tornariam inviável uma injeção de capital público. 
Porquê? 
Vamos por pontos:

A TAP opera num mercado fortemente concorrencial. 
E a UE limita fortemente os auxílios do Estado a empresas públicas do setor por estes distorcerem a concorrência, dando vantagem competitiva a estas empresas públicas face aos concorrentes.
Para o Governo, assim, a capitalização não é impossível, mas as regras da Comissão Europeia para que o fosse eram “inaceitáveis”.
O exemplo que Sérgio Monteiro tem dado é o da Alitalia, a companhia de bandeira italiana, que passou exatamente por esse processo: separou-se a Alitalia em duas, o que teve como consequência o despedimento de milhares de trabalhadores a venda de aviões e a redução de rotas. 
Em janeiro de 2015, acrescentou outro à lista: a Cyprus Airways, condenada ao encerramento depois do Governo Cipriota ter injetado dinheiro da empresa, o qual foi considerado pela Comissão Europeia como uma ajuda de Estado ilegal.
 
Quem não concorda dá, porém, outro exemplo, vindo da Suécia e Dinamarca. 
A companhia escandinava SAS recebeu luz verde de Bruxelas para uma operação que teve apoio público e, ao mesmo tempo, dinheiro privado – fugindo assim ao mecanismo do auxílio de Estado. 
Mas para isso foi preciso convencer a Comissão de que, para os privados, o envolvimento do Estado não é uma condição essencial para investirem. 
O facto de a SAS ter capital privado, 50%, ajuda a reforçar esta tese.

Estes estados tiveram, assim, de provar que um investidor privado teria participado no apoio nas circunstâncias em que ele ocorreu e com condições semelhantes. 
Suécia e Dinamarca recorreram a consultores internacionais (a Goldman Sachs) para ajustarem o plano de reestruturação e de negócios às reservas de Bruxelas. 
Em causa estava a adoção de um conjunto de medidas exaustivas e consequentes que garantissem a viabilidade da empresa a médio e longo prazo e assegurassem um retorno convincente, pelo menos no papel.

O plano passou pelo corte do número de trabalhadores – segundo adiantou aqui ao Observador um porta-voz da SAS o efetivo diminuiu em dois mil funcionários e existem negociações para a venda total do handling, com cinco mil colaboradores, redução de custos, incluindo a revisão de acordos salariais e de pensões e a redução de benefícios, venda de ativos e reorganização das operações. 
Ou seja, a receita acabou por não ser assim tão diferente da imposta em caso de ajuda de Estado.

Daqui poderá concluir-se que nada proíbe uma via com investimento do Estado – mas que este tem necessariamente um preço para a empresa.

8. E como foi a recapitalização da TAP em 1994?

As regras da Comissão Europeia não são novas. 
Quando, em 1994, o Estado Português injetou capital na TAP (mais de 1300 milhões de euros a preços de hoje), também teve que submeter a empresa a um um plano de reestruturaçao , que incluía medidas como estas:

“Redução do pessoal através de programas de reforma antecipada, pré-reforma ou rescisões por mútuo acordo” – com o objetivo de ter menos 2.581 trabalhadores em cinco anos;
A regulamentação laboral deveria ser alterada para permitir uma maior flexibilidade;
Só podiam ser realizados investimentos nas áreas operacionais com uma incidência direta nos resultados – a TAP tinha, por exemplo, que encerrar as suas delegações na América do Norte, com exceção de Nova Iorque;
Seria racionalizada a rede, abandonando algumas rotas deficitárias (mesmo na Europa e EUA, com excepção de Nova Iorque) e concentrando a sua atividade noutras. 
Havia também obrigação de reduzir a frota, de 38 para 32 aviões até 1997.

9. Mas, nesse caso, o Estado não está impedido de recapitalizar a TAP?

Não está, de facto. 
Embora seja verdade que a história dos processos de recapitalização pública de companhias aéreas na Europa tenha sido feita de medidas de reestruturação rigorosas.

Por norma, implicam despedimentos, diminuição de rotas e diminuição de frota.

Para tentar demonstrar que tentar uma recapitalização sem medidas difíceis não é possível, o Governo PSD/CDS usa – em resposta ao Observador – um caso particular:

“No final de 2012 os bancos, por conta do processo de privatização da altura, deixaram de emprestar dinheiro à TAP. 
Nessa altura o Estado, através da Parpública, teve conceder um empréstimo de €100 milhões à TAP, com uma data de vencimento de 6 meses. 
Para que o Estado não fosse acusado de beneficiar a TAP, o empréstimo foi feito a uma taxa superior à do mercado normal. 
O spread, ou seja a margem desse empréstimo foi de 8%, para demonstrar à Comissão que era uma situação específica e que não estávamos a fazer um auxílio de Estado ilegal.

A resposta da Comissão foi muito simples: ou bem que a TAP tem condições para, em mercado, reembolsar este empréstimo, na data do seu vencimento, ou se porventura a TAP não tiver essa capacidade (demonstrando que foi um auxílio que o mercado em condições normais não conseguiria fazer), abriria um processo de investigação.”

O PS não vê as coisas desta forma e tem usado uma declaração da nova comissária europeia em seu favor – ainda que esta seja contida sobre que solução em concreto

10. Qual é o calendário do processo até à privatização?

Será semelhante ao de 2012, mas o Governo admite que menos longo. 
“Será expectável ter uma decisão de até junho de 2015. 
A assinatura formal do contrato será uns meses depois, após obtidas todas as autorizações dos reguladores”, diz o Ministério da Economia ao Observador.

11. E depois? Haverá despedimentos?

Na negociação com os sindicatos, o Governo prometeu (e colocou já no caderno de encargos) um período de salvaguarda durante o qual ficará limitada a possibilidade de despedimento coletivo: dois anos e meio no máximo – ou enquanto o Estado tiver capital da empresa. 
O mesmo acontece para a denúncia dos atuais acordos coletivos de trabalho.

Depois disso, o proprietário da TAP terá na mão mudar o que entender na empresa – embora esteja assegurada a criação de um órgão nesta, por onde passam decisões estratégicas, onde os trabalhadores estarão representados.

Há um mas, neste caso: os sindicatos que não estiveram a negociar com o Governo não estão incluídos nesta proteção. 
Isto inclui o sindicato dos tripulantes, que tem peso nas operações da companhia aérea.

Já agora, aos trabalhadores da TAP foi também dada a possibilidade de ficar com 5% (máximo) de capital da empresa, estando para tal reservada uma oferta pública de venda.
 
 12. Até onde é possível defender o interesse público?

O melhor instrumento para isso é o caderno de encargos. 
Tal como em 2012, este prevê um conjunto de condições. 
Segundo o Governo, inclui as seguintes:
  • A manutenção da sede e direção em Portugal;
  • A manutenção do hub nacional,
  • Que a TAP continue a ser a companhia de bandeira
  • Que continue a assegurar rotas para a chamada “diáspora” e para mercados considerados importantes para as empresas (como Médio Oriente ou China), para além dos voos para os Açores e para a Madeira.
Estas são “obrigações interporias”, que vinculam quem vencer – a que acrescem outras, como a de a marca TAP se manter e de a administração ficar em Lisboa.

13. Quem é que já se mostrou interessado em apresentar propostas?

Que se saiba, são pelo menos quatro.

Uma notícia do Público do final do ano apontava para estes:
  • O português Pais do Amaral, que inicialmente tinha como parceiro o norte-americano Frank Lorenzo, mas que pode ter desistido – segundo noticiou o Económico em janeiro;
  • A Azul, do empresário brasileiro David Neeleman, que tem o senão de ter tentado aumentar o seu capital, sem sucesso;
  • Gérman Efromovich, o candidato único em 2012, que deixou o Governo pendurado na fase final;
  • A Air Europa, companhia espanhola, que já teve negócios com a TAP e que levanta receios pela proximidade estratégica – que pode por em causa o hub.
 Em dezembro o Expresso chegou a noticiar que a Azul era a mais bem posicionada – mas, claro, o Governo sobre isso nada diz. 
Apenas que terá a última palavra na escolha e que o dinheiro não é o único critério a ter em conta.

14. Não é mau sinal não haver uma proposta de um grande do setor?

Sim e não. 
Claro que não é o ideal – até porque todas as propostas até aqui conhecidas têm os seus senão. 
Mas o Executivo argumenta que isso é sinal também de que o caderno de encargos preparado faz com que a TAP “não seja atrativa para todos aqueles que não têm intenção em manter o hub em Lisboa, em fazer crescer o número de aviões, em aumentar rotas, etc“. 
É sempre uma questão de perspetiva.

15. Quais são os critérios de escolha fixados pelo Governo?

No essencial, são estes:
  1. O encaixe financeiro;
  2. A contribuição para o crescimento da economia – incluindo no que respeita à manutenção e ao desenvolvimento do atual hub nacional, como plataforma de crucial importância estratégica nas relações entre a Europa, África, América Latina e Regiões Autónomas;
  3. A apresentação de um adequado projeto estratégico, tendo em vista a promoção do crescimento da TAP enquanto operador de transporte aéreo à escala global nos mercados atuais, assim como em novos mercados;
  4. Será tida em conta a experiência técnica e de gestão no setor da aviação, a sua idoneidade e capacidade financeira.
16. Fernando Pinto vai ficar ou sair?

O Ministério da Economia dá a seguinte resposta a esta pergunta:

“O Governo tem contado com o Eng.º Fernando Pinto e não é previsível que o faça até ao final do processo de privatização. 
Concluída a privatização a manutenção da atual administração será uma questão que terá de ser discutida entre os futuros acionistas.”

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Yanis Varoufakis: Não...

REVISTA

PAULO PENA
01 de Fevereiro de 2015
Iconoclasta, irónico, culto, criativo. É assim que Yanis Varoufakis, o novo ministro das Finanças grego, é descrito por aqueles que o conhecem. Tem amigos chegados em Portugal, uma filha na Austrália, alunos devotos no Texas e muitos problemas para resolver em Atenas

Há uma diferença fundamental entre aquilo que nós dizemos e aquilo que a imprensa internacional diz que nós dizemos. 
Nós não queremos entrar em guerra com ninguém na União Europeia. 
Nós não fazemos bluff. 
Não ameaçamos ninguém. 
Nem sequer queremos negociar… 
Queremos deliberar em conjunto. 
Nós não queremos impor as nossas ideias ao resto da Europa. 
Somos demasiado pequenos, e demasiado falidos, para o fazer.” A declaração de Yanis Varoufakis, que contraria muitas das ideias que — à esquerda e à direita — têm prevalecido sobre a vitória do Syriza nas eleições gregas do passado domingo, foi feita ao telemóvel, olhando “pela janela do Parlamento grego”, numa curta pausa do frenético ritmo imposto pelos acontecimentos, na manhã de quarta-feira, 28 de Janeiro.

A curta entrevista, ao programa Late Night Live, do canal australiano ABC, tem uma razão emotiva. 
Yanis Varoufakis tem dupla nacionalidade (grega e australiana), viveu em Sydney e, mais importante, é lá que mora a sua filha. 
Quem o conhece sabe que tem certos dias, por mês, em que está “indisponível” para encontros, palestras ou reuniões. 
É a altura em que se junta a ela.

Mas não é só por razões afectivas que Varoufakis é ouvido, com atenção, a tantos quilómetros de distância. 
O apresentador da ABC compara-o a Obama, pela “esperança” que uma mudança política na Grécia pode trazer à Europa e ao mundo. 
Varoufakis rejeita a comparação.
A democracia grega escolheu hoje deixar de entrar docilmente na noite. A democracia grega decidiu odiar a luz que começava a morrer
Yanis Varoufakis
No seu blogue, na noite de domingo passado, depois de conhecida a vitória do Syriza (coligação da esquerda radical) nas eleições legislativas, ainda antes de ser confirmado como ministro das Finanças, escreveu citando expressões de um conhecido poema do galês Dylan Thomas: “A democracia grega escolheu hoje deixar de entrar docilmente na noite. 
A democracia grega decidiu odiar a luz que começava a morrer.”

A escolha do poema para epígrafe deste novo tempo não se destaca apenas por ser uma citação. 
“Ele tem uma grande cultura literária”, diz-nos Stuart Holland, seu amigo inglês há mais de dez anos, que passa a maior parte do seu tempo em Portugal.

Falamos a seguir de outra citação literária famosa no percurso político recente de ambos.

Holland e Varoufakis assinaram uma “Modesta proposta para resolver a crise da zona euro”, em Novembro de 2010. 
Havia uma “Modesta proposta...” original, de 1729, do escritor Jonathan Swift, só que não falava de euro, nem de finanças… Ou melhor, falava, mas não da forma como hoje essas coisas se discutem. 
O seu título completo é: Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República (tradução de Helena Barbas). 
O conteúdo da “proposta” de Swift, ao contrário da de Varoufakis e Holland, resume-se numa ideia, satírica: as crianças dos pobres da Irlanda seriam muito úteis para a economia se fossem vendidas como comida para os ricos. 
“A escolha do título de Swift é dele”, revela Holland.

A partir de Swift, a mera menção a qualquer “modesta proposta” é, imediatamente, vista como uma sátira. 
E não apenas como uma ligeira ironia, mas como uma completa, pesada, tremenda, e jamais-para-levar-a-sério solução burlesco-política. 
E, ainda assim, Varoufakis quis chamar à sua proposta “modesta”. 
Stuart Holland, que tem a sua quota de sentido de humor britânico, alinhou. 
E ninguém os tomou por humoristas.  

A proposta não pretendia “solidariedade” do Norte da Europa, nem implicava uma “mutualização” da dívida entre Estados (nenhum contribuinte europeu de um país “rico” teria de financiar dívidas de outros países da UE). 
Assenta num “aval” do Banco Central Europeu (BCE) até um limite de 60% da dívida face ao PIB dos Estados do euro (para cumprir as metas de Maastricht). 
Esse aval traduz-se numa “conta” que cada Estado abre no BCE e cujo valor tem de amortizar. 
A dívida mantém-se, mas garantida pelo “fiador”, o BCE.

Em Dezembro de 2011, encontrámo-los em Bruxelas, onde estavam precisamente a persuadir os grupos parlamentares europeus a seguir a sua ideia, no auge da chamada “crise da dívida soberana”, já depois das intervenções da troika na Grécia, na Irlanda e em Portugal, e quando se temia o “efeito de contágio” às mais poderosas economias de Espanha e de Itália.

Varoufakis e Holland sentaram-se connosco, numa barulhenta cantina do Parlamento Europeu, e começaram a explicar o que significava a parte “modesta” da sua ideia. Varoufakis acabara de regressar de uma viagem aos Estados Unidos, onde se reuniram com alguns representantes de fundos de investimento (o Pimco, por exemplo) e outros tubarões de Wall Street, para apresentar a proposta sobre a dívida europeia. 
Foi muito elogiado e recebido pelos responsáveis da Reserva Federal. 
“Quando vemos que a nossa proposta ganha adeptos tão diferentes, de grupúsculos comunistas à UBS, a Wall Street, a primeira coisa de que temos a certeza é que se trata de um plano racional. 
A segunda é que os problemas do euro são, afinal, mais simples de solucionar do que se supõe.”

A primeira conclusão a que se chega, ao fim de poucos minutos de conversa com Yanis Varoufakis, é que ele gosta mesmo de rir. 
E de rir de si próprio, também. 
Gosta de contradições. 
“Sou um marxista-libertário. 
É uma contradição, eu sei…”, disse, já depois de eleito. 
Antes dissera-se um “marxista errático”. 
Ou um “economista acidental”. 
Como é ser ministro, perguntaram-lhe agora. 
“Estou absolutamente em choque. 
Isso só mostra o estado desastrado a que chegou o mundo.” 
Nós somos responsáveis por termos sido a primeira peça a cair, mas não pelo efeito dominó
No perfil divulgado no PÚBLICO, na quarta-feira, apontámos um aparente paradoxo. Varoufakis é, simultaneamente, um radical e um moderado. 
Os leitores do jornal reagiram mal, nas redes sociais. 
“O que é um radical moderado?”, perguntaram. 
Devolvemos a pergunta a Stuart Holland: “Qualquer pessoa devia ser radical, não apenas no que diz respeito ao desastre social e económico da Grécia, mas também ao que se passa na zona euro, que se deve não só a um pensamento económico desajustado, mas também ao estado de negação, e em certos aspectos à ignorância do que pode ser feito dentro das actuais regras dos tratados — e, nessa medida, ser também moderado.”

Yanis Varoufakis gosta de ilustrar a sua forma de pensar com imagens claras e raramente simplistas: “A Grécia é um país caracterizado por ineficiências, carências, corrupção, desde o século XIX. 
Mas só estamos a falar agora da Grécia porque há uma crise na União Europeia. 
Nós somos responsáveis por termos sido a primeira peça a cair, mas não pelo efeito dominó”, disse à rádio australiana.

A forma que encontrou, como vimos, de resolver o problema da peça passava por impedir a queda do dominó inteiro. 
A “modesta proposta” foi subscrita por políticos europeus tão influentes como Jacques Delors, Felipe González e Giuliano Amato. 
Mas nem só do centro-esquerda chegaram os seus apoios. 
Assinaram ainda o texto de Varoufakis o liberal Guy Verhofstadt (ex-primeiro-ministro belga), o conservador Giulio Tremonti (ex-ministro de Silvio Berlusconi) e até um actualmente céptico sobre a vitória do Syriza, o primeiro-ministro inglês, David Cameron, que chegou a pedir-lhe que desenvolvesse a ideia para que o Governo britânico a pudesse apoiar.

Para Varoufakis, tratava-se de “parar uma queda livre” e por isso era tão importante falar com todo o espectro político. 
“É o mais próximo a que chegamos de uma solução técnica que transcende a ideologia.”

A primeira reunião do novo Governo, no Parlamento, no dia 28 de Janeiro 
LOUISA GOULIAMAKI/AFP

Holland, de 74 anos, conheceu Varoufakis, 53, “há mais de dez anos”, em Atenas. 
Ficaram amigos. 
Yanis Varoufakis dirigia o departamento de Economia da universidade da capital grega e convidou o inglês para leccionar uma série de seminários. 
Stuart aceitou. 
Há 25 anos que se dedica, a tempo inteiro, ao ensino. 
Mas já esteve, como o amigo grego, no centro do furacão da política. 
Acabado de sair de Oxford, onde se formou em História e Teoria Política, foi contratado para assessor do primeiro-ministro Harold Wilson. 
Negociou com o Governo de De Gaulle uma segunda tentativa de adesão do Reino Unido à Comunidade Europeia. 
Wilson acabaria por se opor e Holland demitiu-se. 
Voltou a Oxford onde se doutorou em Economia. 
Foi o ministro-sombra dos trabalhistas para a área económica durante os anos de Margaret Thatcher. 
Acabou por abandonar Westminster para se dedicar ao ensino, dando aulas em várias universidades europeias até acabar por fixar residência em Coimbra, onde é professor visitante na Faculdade de Economia.

Talvez isso ajude a explicar o interesse com que Yanis Varoufakis segue a situação portuguesa. 
No seu blogue, no ano passado, explicou porque foi um dos 70 economistas estrangeiros que subscreveram o manifesto pela reestruturação da dívida portuguesa. 
Foi Francisco Louçã, um dos autores do texto (que juntava 74 economistas portugueses, do CDS ao BE), quem o contactou. 
“Mostrou logo imensa disponibilidade. 
Conhecia o seu trabalho. 
É muito criativo. 
O plano que trabalhou era engenhoso, mas agora vai confrontar-se com as limitações dessa proposta”, prevê Louçã.

Apesar de antever um limite para a criatividade de Varoufakis, que será o momento em que, para Louçã, a Grécia terá de decidir “pagar ou não pagar”, o economista português enviou-lhe, esta semana, uma tradução em inglês da sua proposta (em parceria com Ricardo Cabral, Eugénia Pires e Pedro Nuno Santos) de reestruturação da dívida portuguesa.

Mesmo nestes dias cheios de medidas económicas — desde que chegou ao Governo, na terça-feira, o Syriza já cumpriu algumas promessas eleitorais com impacto nas contas públicas, como a subida do salário mínimo de 580 para 750 euros —, Varoufakis tem tido tempo para falar com os amigos em Portugal.

“Temos mantido o contacto”, revela Holland. 
Também com Rui Tavares, o criador da rede Ulisses (para promover a ideia de um relançamento económico da Europa a partir do Sul), que Varoufakis integra, houve tempo para trocar algumas mensagens. 
Como aquela que respondia, em plena noite de vitória eleitoral, aos parabéns do português: “Obrigado, Rui. 
Agora é a tua vez.” 
Antes de rebentar a crise do euro, eu era apenas mais um professor de Economia, metido nos meus pequenos empreendimentos teóricos, escrevendo teses obscuras e livros esotéricos
Tavares conheceu Varoufakis em Bruxelas, quando era eurodeputado, e ficou conquistado pelas ideias pouco convencionais do grego. 
“Até então eu falava muito da mutualização da dívida. 
Depois de conhecer as propostas dele, passei a pensar de outra forma.” 
Mas não foi só de dívida, e de economia, que os dois falaram. 
Falaram muito, por exemplo, “de arte”.

Varoufakis tinha regressado a Atenas, depois de um longo interregno, quando a arte passou a fazer parte do seu dia-a-dia. 
Resumindo o seu currículo académico: licenciou-se em Matemática e Estatística, doutorou-se em Economia em Inglaterra (Essex), ensinou em Cambridge. 
E depois foi viver para Sydney, Austrália, onde se casou, foi pai e viveu, até ao divórcio, em 2000. 
Regressou, então, a Atenas. 
Um dia foi convidado para uma entrevista diferente. 
A artista plástica grega Danae Stratou preparava uma instalação e queria conversar com vários académicos sobre o projecto. 
A ideia era: os muros e as fronteiras estão a espalhar-se por todo o mundo, depois de uma fase em que pareciam condenados a ser uma relíquia do passado.

Danae convidara juristas, arquitectos e alguém lhe sugeriu aquele economista. 
Não se conheciam. 
Meses depois, estavam a viajar juntos: do Kosovo a Israel, do Egipto à Etiópia, dos Estados Unidos a Caxemira. 
Ela a fotografar e a filmar, ele a escrever. 
Além de uma instalação e de um livro (Globalising Walls), em 2008, a entrevista deu também um casamento.

E é então que se dá uma reviravolta ainda maior na já agitada vida de trota-mundos de Varoufakis. 
A crise financeira de 2007, que começou nos Estados Unidos, alastrou à Europa. 
A Grécia foi a primeira “peça do dominó”…

Yanis Varoufakis foi, durante dois anos (2004-2006), conselheiro do primeiro-ministro Giorgios Papandreou. 
Conhecia bem, e de perto, a realidade grega. 
Mas era, também, aquilo de que o resto do mundo precisava: um economista grego fluente em inglês (apesar do sotaque). 
Começa a ser um convidado cada vez mais regular das cadeias televisivas internacionais: CNN, Bloomberg, BBC. 
“Tornei-me uma celebridade menor”, escreve no seu blogue, mais uma vez rindo de si próprio. 
A 25 de Janeiro, dia de eleições, com a mulher, a artista plástica Danae Stratou, à porta da sede do         Syriza, em Atenas                                                                                                                                                                                                                                                                                      
“Antes de rebentar a crise do euro, em 2009, eu era apenas mais um professor de Economia, metido nos meus pequenos empreendimentos teóricos, escrevendo teses obscuras e livros esotéricos que apenas umas escassas centenas de casos clínicos (como eu) alguma vez iriam ler, terrivelmente satisfeito no meu casulo académico. 
Nessa altura, eu nunca poria a hipótese de não responder a um email.” 
Enfim, a sua vida, como diz, “transformou-se do dia para a noite”.

Um “efeito secundário” dessa transformação foi, precisamente, a quantidade inusitada de emails que passou a receber. 
Apagava-os, quando lhe soavam a disparate. 
Um deles não apagou, quase por acaso. 
Começava assim: “Sou o presidente de uma empresa de videojogos…”

Era um convite laboral, de uma empresa americana. 
Por sorte, Varoufakis e a mulher tinham viagem marcada para os EUA, onde iam falar sobre o seu livro conjunto. 
Fizeram um ligeiro desvio ao programa e marcaram dois dias em Seattle, onde iriam conhecer a misteriosa Valve, a tal empresa de videojogos. 
Logo ao primeiro contacto percebeu que aquele grupo de pessoas “não era apenas estranho, era maravilhoso”. 
E mais: a comunidade económica que tinha criado com os seus jogos era “o sonho concretizado de um economista”.

Usando a sua linguagem desbragada, Varoufakis explica porquê: “Encaremos o facto: a econometria é um travesti.” 
Ou seja, é uma disciplina que “finge” ter alguma ligação com a realidade, e com a estatística, mas no fundo não passa de “astrologia de computador”.

Isto, explica Varoufakis, impede que os métodos da econometria permitam avaliar, em retrospectiva, um “se” muito importante: e se não tivesse havido New Deal
E se não tivesse havido injecção de dinheiro público na crise do subprime? 
O sistema actual de governo das empresas está obsoleto. Repleto de hierarquias que desperdiçam o talento e as energias, misturadas com finanças tóxicas
Num ambiente “virtual”, com a complexa teia económica criada pela comunidade de jogadores, Varoufakis podia fazer duas coisas, explica: “ultrapassar a fronteira entre economia ‘real’ e digital” e recolher importantes “lições de economia política”.

O acordo foi fechado: seria um dos primeiros “economistas residentes” numa empresa deste tipo (o primeiro foi o islandês Eyjólfur Guðmundsson, a quem Yanis agradeceu “por fazer crer que o meu nome é quase pronunciável”).

E não era uma empresa qualquer… 
A Valve tem uma organização flat, horizontal, na qual não existem hierarquias. 
A produção de videojogos não se faz a partir de nenhuma planificação central, com tarefas distribuídas. 
A empresa organiza-se em equipas, e é cada equipa que decide o que vai fazer.

É aquilo a que Varoufakis chama uma “ordem espontânea alternativa” que contrasta com a tradicional organização das empresas. 
“O sistema actual de governo das empresas está obsoleto. 
Repleto de hierarquias que desperdiçam o talento e as energias, misturadas com finanças tóxicas, dependentes de estruturas políticas que estão a perder legitimidade. 
Uma nova forma de empresa pós-capitalista, descentralizada, mais tarde ou mais cedo, vai surgir.” 

O eleitorado grego votou no plano do Syriza para “um new deal baseado no investimento público” MIGUEL MANSO

É esta a convicção do homem que vai entrar, pela primeira vez, no Eurogrupo. 
Um ministro que considera que o que precisamos, mesmo, é de “um new deal baseado no investimento público”, que ajude a combater as três crises: a da dívida, a do crescimento e a bancária.

Por falar nisso… 
“Precisamos de bancos chatos.” 
Chatos? 
A frase foi dita depois de Yanis ter feito uma quase directa. 
Dormiu três horas nessa noite. 
Foi a noite em que a Grécia quase teve um golpe de Estado, depois de o Governo de Samaras, o anterior primeiro-ministro, derrotado no domingo, ter decidido fechar a televisão pública (que o Syriza promete reabrir). 
Varoufakis tinha combinado com Rui Tavares que gravaria um depoimento para o documentário Ulisses. 
Mas os acontecimentos daquele dia 12 de Junho de 2013 impediram-no de comparecer à gravação. 
A equipa que filmava o documentário só podia no dia seguinte, às 8 da manhã. 
E lá apareceu. 
Gravou duas versões do que disse, uma em grego e outra em inglês. 
E lá explicou o que queria dizer com bancos “chatos”. 
São aqueles que recebem o nosso dinheiro, a um juro baixo, emprestam-no a empresas, estados e pessoas a um juro mais alto, e vivem bem assim.

E essa não é a única coisa na cabeça de Varoufakis que faz os mercados suspeitarem mais do seu “radicalismo” do que da sua “moderação”. 
A prioridade do seu Governo é combater “a crise social e humanitária”. 
Isso passa por aumentar o nível de rendimentos da população, mas também por um crescimento da despesa do Estado. 
Um choque frontal com a troika. 
E com prazos apertados: a Grécia tem de reembolsar 6,7 mil milhões de euros nos próximos dias 20 de Julho e 20 de Agosto.

Ele próprio costuma dizer que tem pelo frente uma “hidra”. 
“Corta-se uma cabeça e outra volta a nascer…”
Nós queremos abrir uma pequena porta para a luz de Dylan Thomas entrar
Isto tudo, quando tinha uma vida calma, afinal. 
Dava aulas no Texas, na Lyndon B. 
Johnson School of Public Affairs, onde os seus alunos o elegeram como “melhor professor”. Tinha uma actividade cívica e política importante, sim, mas que podia conjugar com o resto. Com as viagens à Austrália, para estar com a filha, e com o estudo. 
Até as suas polémicas intelectuais vão ter de ficar entre parêntesis, agora. 
Há poucos meses, destacou-se como um dos poucos economistas de esquerda a criticar o francês Thomas Piketty pelo seu Capital no Século XXI. 
Cheio de argumentos económicos, e com a sua verve habitual, acusou-o de ter “uma visão ultra-simplificada do capitalismo”.

Agora, o mundo vai estar sempre do lado de fora de uma janela, como a do Parlamento, quando falava por telemóvel para a Austrália, ou a das salas de reuniões de Bruxelas.

E, além dos problemas que terá de resolver, há um outro que não foi criado por ele nem por nenhum grego que o tenha antecedido, diz: “O fardo das expectativas…”

Yanis Varoufakis sabe que há muita gente que espera dele uma mudança real. 
À ABC australiana contou que, durante a campanha, deu uma entrevista a um jornal espanhol, que levava um intérprete grego. 
Esse intérprete, no fim, contou-lhe em grego, sem que os jornalistas ouvissem, que era, antes da crise, professor de línguas. 
Ficou desempregado. 
Perdeu a casa. 
Agora vive na rua e tem trabalhos esporádicos.

Talvez o fardo seja demasiado pesado. 
O que pensa o ministro das Finanças: “Nós queremos abrir uma pequena porta para a luz de Dylan Thomas entrar.”