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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Militares na reserva querem dar o salto para a política

LULA DA SILVA
António Saraiva Lima
5 de Abril de 2018, 21:00 

Generais, coronéis e capitães na reserva estão a aproveitar crise política para conquistar espaço e influência junto do eleitorado brasileiro. 
Jair Bolsonaro é quem vai à frente.

A admoestação do general Eduardo Villas Bôas às instituições brasileiras, na véspera da votação no Supremo Tribunal Federal sobre o pedido de habeas corpus do ex-Presidente Lula da Silva, e o respaldo oferecido por outros militares àquela invulgar intervenção pública – via Twitter – puseram a classe debaixo dos holofotes, como há muito não se via no Brasil.

O comandante do Exército brasileiro disse que as Forças Armadas compartilham “o anseio de todos os cidadãos de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia” e que estão atentas “às suas missões institucionais”. A intromissão num tema de justiça, indissociável da política, tendo em conta o acusado e o ambiente em volta do julgamento, é inédita nos últimos 30 anos de democracia, num Brasil que entre 1964 e 1985 viveu sob uma brutal ditadura, que foi iniciada com um golpe militar contra um Presidente eleito.
Mas na realidade confirma uma tendência de disseminação do protagonismo dos militares no espaço político brasileiro, a partir de 2013 – com o início da crise política. 
A nomeação, em Fevereiro, do general Joaquim Silva e Luna para o cargo de ministro da Defesa de Michel Temer, na primeira escolha de um militar para esta pasta, é prova disso. 

Nem Villas Bôas, nem os generais Freitas, Miotto e Pinto Sampaio, que reagiram positivamente aos tweets do primeiro – Miotto garantiu mesmo estar com o comandante “na mesma trincheira” –, se mostraram disponíveis para ingressar na vida política. 
Mas o caso muda de figura quando se tratam de militares na reserva ou aposentados.
Muitos destes reservistas e reformados têm vindo a assumir nos últimos anos um papel activo, no seio de movimentos sociais associados com a direita brasileira, e feito uso das redes sociais, dos jornais e das televisões para comunicarem directamente com a população e exprimirem as suas opiniões sobre o papel do Estado, num ambiente político e social cada vez mais polarizado.

O El País Brasil refere que o prestígio de que gozam por terem feito parte de uma instituição na qual os brasileiros depositam bastante confiança, somado à inexistência das “amarras impostas pelo Exército brasileiro”, oferece-lhes uma “voz política” e um posicionamento de relevo no espaço mediático.

A reputação adquirida nos últimos anos através desta participação activa no debate público – e alimentada com as manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão de Lula da Silva – trouxe a classe militar de volta ao teatro político e com sérias possibilidades de conquistar papéis principais nas eleições gerais de Outubro. 
De acordo com a imprensa brasileira, há pelo menos 20 militares na reserva com intenções de se candidatarem.

Entre eles, destaca-se, claro, Jair Bolsonaro, o primeiro e único reservista eleito através do voto popular. 
O antigo capitão e deputado federal pelo Rio de Janeiro é pré-candidato à presidência do Brasil e é um dos responsáveis pelo crescimento do protagonismo dos militares na política brasileira.

O homem que lembra com saudade os tempos da ditadura militar e que na hora de votar a favor da destruição de Dilma dedicou o seu voto a Carlos Alberto Brilhante Ustra – o único condenado judicialmente pelos crimes de tortura e sequestros – surge em segundo lugar nas intenções de voto dos brasileiros, atrás de Lula, e tem trilhado o caminho que os militares querem agora percorrer. Se Silva e Luna chegou lá e se Bolsonaro pode lá chegar, porque não poderão os outros ingressar na arena política?

antónio.lima@público.pt

Lula da Silva considera mandado de prisão absurdo

LULA DA SILVA
Lusa
6 de Abril de 2018, 6:55 
Numa entrevista à rádio CBN, o ex-Presidente brasileiro disse estar a aguardar orientações dos advogados para decidir se vai ou não entregar-se às autoridades.

O ex-Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva considerou "absurdo" o mandado de prisão de que é alvo e acusou o juiz Sérgio Moro "de sonhar" com a sua detenção, disse numa entrevista à rádio CBN, nesta sexta-feira.

Lula da Silva acusou Sérgio Moro de estar a agir politicamente para impedir o seu “direito à defesa”, de acordo com declarações à estação de rádio CBN, as primeiras desde que o Supremo Tribunal Federal negou um recurso para ficar em liberdade até à decisão final do processo.

O ex-Presidente declarou ainda que vai aguardar orientações dos advogados, para decidir se vai entregar-se, ou não, às autoridades, tal como foi decretado.

Na noite de quinta-feira, o juiz Sérgio Moro decretou a prisão de Lula da Silva, ao emitir um mandado no qual determinou que Lula da Silva deve entregar-se voluntariamente na sede da Polícia Federal em Curitiba até às 17h (21h Lisboa) de hoje.

Menos de 24 horas antes, o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil tinha negado um recurso de Lula, condenado em duas instâncias judiciais, para ficar em liberdade até à decisão final do processo.

A prisão do ex-chefe de Estado está relacionada com um dos processos da Operação Lava-Jato, o maior escândalo de corrupção do Brasil. 
Lula da Silva foi condenado por ter recebido um apartamento de luxo como suborno da construtora OAS em troca de favorecer contratos com a petrolífera estatal Petrobras e sentenciado a 12 anos e um mês de prisão.

Ao início da madrugada de sexta-feira (hora de Lisboa), Lula encontrava-se na sede do Partido dos Trabalhadores (PT), em São Bernardo do Campo, a cerca de 20 quilómetros de São Paulo, onde estavam concentradas centenas de pessoas, entre as quais a ex-Presidente Dilma Rousseff.

O que a defesa de Lula ainda pode fazer

LULA DA SILVA
Público
5 de Abril de 2018, 19:55 

A defesa de Lula da Silva pode ainda usar outros recursos para evitar o cumprimento integral da pena de 12 anos a que foi condenado.

  • Pode apresentar novos pedidos de habeas corpus

que foi agora rejeitado foi um habeas corpus preventivo, que pretendia evitar a prisão de Lula. 
Mas ele pode apresentar novas acções deste tipo depois de preso, com outros fundamentos. 
Não há limites, embora as possibilidades de sucesso tendam a diminuir. 
A defesa pode também pedir prisão domiciliar, embora tivesse mais hipóteses de sucesso se tivesse motivos de saúde – e o ex-Presidente tem-se gabado de estar em boa forma, frisa a BBC Brasil.
  • A sua condenação pode ser anulada pelos tribunais superiores

Lula pode recorrer ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal, para contestar não a matéria dos julgamentos, mas para verificar se houve ilegalidades nos processo, com o objectivo de obter a sua anulação.
  • O Supremo Tribunal Federal pode rever a sua posição sobre a prisão após condenação em segunda instância – que beneficiaria Lula

A posição dos juízes e a sua interpretação da Constituição tem variado. 
Ora existem duas acções neste tribunal a pedir que seja revisto o entendimento de 2016, que permite as prisões em segunda instância, e que se regresse à jurisprudência anterior, em que a pena só começa a ser cumprida após esgotadas todas as possibilidades de recurso. 
O agendamento do habeas corpus de Lula antes de serem votadas estas duas acções foi polémico: se o entendimento do tribunal fosse alterado antes de ser apreciado o caso do ex-presidente, o resultado podia ter sido diferente. 
E se for mudado, a defesa de Lula pode ter novas armas.

Sérgio Moro, o juiz de Curitiba que tem o futuro do Brasil nas mãos

LULA DA SILVA
Rita Siza
9 de Agosto de 2015, 9:17 
Para muitos brasileiros, Sérgio Moro é visto como um verdadeiro herói 
O juiz federal do Paraná responsável pela investigação judicial ao esquema de corrupção em torno da Petrobras conhecida como Lava Jato já tem grupos de fãs mas insiste em manter-se discreto. 
E determinado.

Ano e meio depois de ter saltado para a ribalta mediática, enquanto principal responsável pela investigação judicial ao esquema de corrupção em torno da Petrobras conhecida como Lava Jato, o juiz federal do Paraná, Sérgio Moro, já se acostumou às manifestações espontâneas de apoio e incentivo. 
Moro é frequentemente aplaudido na rua, quando vai a restaurantes, no supermercado e em salas de embarque de aeroportos. 
“Só quero agradecer-lhe tudo o que tem feito e mostrar-lhe que estou com ele, contra tudo isso que está acontecendo”, explicava aos jornalistas a dentista de 50 anos Cristiane Polo, depois de abordar o juiz numa livraria de São Paulo.

Aos 42 anos de idade, Sérgio Fernando Moro, um dos maiores especialistas em crimes financeiros e de colarinho branco no sistema judicial do país, está transformado, aos olhos da opinião pública brasileira, no rosto do combate à corrupção, uma espécie de cruzado, um herói improvável da mesma casta do juiz britânico William Erle, o procurador norte-americano Eliot Ness ou o italiano Francesco Saverio Borrelli, entre outros personagens da galeria de famosos intocáveis e insubornáveis que não se amedrontam perante o crime organizado, o dinheiro ou o poder. 
A sua acção, interpretam os analistas, oferece uma réstia de esperança a uma população desconfiada e desiludida com as suas instituições, mas que não quer desistir nem deixar de acreditar no slogan do Brasil do futuro.

Segundo escrevia na sua edição de 4 de Julho a revista Época, Sérgio Moro, um juiz de primeira instância, é actualmente o homem mais poderoso – e seguramente o mais temido – do país. 
“Nenhum gabinete concentra tanto poder neste momento no Brasil quanto aquele no 2º andar da Avenida Garibaldi, 888. 
É de lá que despacha Sérgio Moro, o cérebro e centro moral da Lava Jato. 
A operação, na verdade, envolve dezenas de procuradores da República, delegados e agentes da Polícia Federal, equipes na Procuradoria-Geral da República, em Brasília, além do juiz do Supremo Teori Zavascki. 
Todos têm poder para definir, em alguma medida, os rumos das centenas – isso, centenas – de casos de corrupção investigados na Lava Jato. 
Alguns casos tramitam em Brasília, aqueles que envolvem políticos com foro no Supremo. Mas a maioria fica em Curitiba e de lá não sai”, assinala a revista.

Como líder máximo da investigação, cabe a Sérgio Moro definir a estratégia e tomar as decisões mais relevantes para conduzir o processo até ao chamado “bom termo”. 
A investigação inicial, que arrancou em Março de 2014 com a vigilância da actividade suspeita de uma bomba de gasolina detida por um “doleiro” (alguém que se encarrega de transferir divisas sem registo ao fisco) do Paraná, revelou um esquema de corrupção horizontal em torno da petrolífera estatal, e que se “alimentava” de dirigentes políticos, funcionários públicos, grandes empresários e diversos agentes, uma multidão de corruptores e corruptos que só da Petrobras desviaram mais de cinco mil milhões de euros.

Moro e a sua equipa continuam a desenrolar um novelo aparentemente interminável de crimes, ilegalidades e cumplicidades ilícitas, num escândalo que abala os fundamentos do sistema político e económico do Brasil. 
As acusações e as suspeitas recaem sobre algumas das figuras mais proeminentes do Partido dos Trabalhadores e outros integrantes da base aliada do Governo, os administradores das maiores empresas públicas e de dezenas de construtoras de projecção internacional. 
Do tronco da Lava Jato surgiram entretanto ramificações, dezenas de “desdobramentos” que surgiram dos depoimentos dos mais de 20 delatores oficiais que estão a colaborar com as autoridades na produção de prova, em troca de uma redução de pena.

Moro possui “virtudes raríssimas” para liderar a investigação, continua a Época: “Preparo jurídico, pensamento estratégico, inflexibilidade de princípios, coragem moral e disciplina de trabalho. 
Entra cedo, sai tarde e prossegue na lida mesmo de casa”, garante a revista. 
A IstoÉ, que o elegeu Brasileiro do Ano de 2014, destaca o seu “estilo reservado e hábitos simples”. 
“Moro faz parte de uma rara safra de juízes que encaram a magistratura como profissão de fé”.

Outras virtudes e traços distintivos de carácter que vêm assinalados em todos os perfis escritos sobre o juiz federal desde que assumiu o protagonismo na operação que está a deixar o Brasil em polvorosa: a humildade e até uma certa timidez, que sustentam a sua aversão à exposição pública e a sua quase obsessiva reserva da vida privada; o entusiasmo, energia e invulgar capacidade de trabalho que o distinguem ou ainda a total independência e ausência de aspirações políticas, que o terão levado a recusar uma promoção a desembargador.

À margem da vida profissional, pouco se conhece da sua intimidade. 
É um filho pródigo do estado do Paraná: nasceu na cidade de Ponta Grossa, onde os pais eram professores, estudou na universidade estadual de Maringá (onde cumpriu mestrado e doutoramento antes de se especializar em Harvard, nos Estados Unidos), e tomou conta da 13º vara federal criminal de Curitiba. 
É casado com uma advogada, de quem tem dois filhos, e alegadamente um apaixonado por ciclismo.

“Não sou uma celebridade, sou uma peça dentro de um processo muito mais amplo”, corrigiu, durante uma sessão do Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo em Julho, em São Paulo. 
Até porque, por maior que tenha sido o impacto económico e político – e o alcance simbólico – das suas decisões, todas elas podem ser revertidas por tribunais superiores.

Com excepção das pronúncias no âmbito do processo, Sérgio Moro não fala publicamente sobre a Lava Jato. 
Mas não se tem coibido de discorrer sobre o tema da corrupção: ultimamente, tem falado longamente sobre a operação anti-corrupção Mãos Limpas que varreu a Itália durante a década de 90, e entrou para a História como a primeira tentativa séria para expurgar o Estado do domínio nefasto da mafia ou da maçonaria. O juiz de Curitiba tornou-se um estudioso desse processo, que conhece até ao mais ínfimo detalhe: tudo começou, como no Brasil, com as revelações de um delator, que viriam a contribuir para a dedução de quase 3000 acusações, contra empresários e parlamentares, incluindo quatro antigos primeiro-ministros.

Numa palestra promovida pelo Instituto dos Advogados do Paraná, no fim de Julho, Moro criticou o desfecho da mega-operação italiana, classificando as penas aplicadas nessa altura como demasiado ligeiras para a gravidade dos crimes. 
“Muitos dos que foram condenados e tinham grande responsabilidade acabaram cumprindo penas desproporcionais, como prestação de serviço ou prisão domiciliária. 
Não que eu defenda que a justiça seja implacável, mas tem de guardar uma certa proporcionalidade em cada crime”, considerou. Numa altura em que cada palavra de Moro é objecto de análise quase científica em busca de pistas sobre o processo da Lava Jato, a posição provocou calafrios em muitos dos suspeitos – os que já foram acusados e os que admitem poder vir a sê-lo em breve.

Menos mediáticos do que Sérgio Moro, outros nomes têm responsabilidades acrescidas na investigação. 
Na linha da frente estão o procurador Carlos Fernandes Lima, que estabelece as directrizes do Ministério Público Federal e concentra a “pasta” das delações, e o procurador Deltan Dallagnol, o coordenador da “força-tarefa” (a designação dos brasileiros para task force) da Lava Jato em Curitiba. 
Constituída em Abril de 2014, depois da primeira fase da operação policial, a força-tarefa já viu a sua missão prorrogada duas vezes e agora trabalha sem prazo. 
O seu trabalho resultou na abertura de mais de 20 acções penais, todas sob a responsabilidade do juiz Sérgio Moro, com mais de uma centena de arguidos.

A personalidade de Deltan Dallagnol contrasta com a de Sérgio Moro, mas os seus objectivos são os mesmos. 
Com 35 anos de idade, o procurador, que é um evangélico engajado da Igreja Batista, busca as luzes da ribalta, numa promoção incessante de um projecto de lei de iniciativa popular apresentado como um pacote de “10 medidas contra a corrupção”, que precisa de recolher 1,5 milhões de assinaturas para ser discutido no Congresso Sérgio Moro já assinou, mas não faz campanha pelo projecto.

Um outro grupo de promotores e procuradores foi destacado por ordem do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, para a investigação dos políticos envolvidos no escândalo de corrupção. O juiz relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, que detém a jurisdição sobre os inquéritos a parlamentares, já se comprometeu a levar os processos abertos contra mais de 50 indivíduos até ao fim.

Apesar de Sérgio Moro receber incomensuravelmente mais elogios do que críticas, o trabalho do juiz federal também tem os seus detractores – sobretudo advogados que contestam o alegado abuso da prisão preventiva, as tácticas empregues para pressionar suspeitos a firmar acordos de delação premiada ou a sua aparente tendência centralizadora das diferentes acções do processo.

Mais incisivo, o coordenador da federação Nacional dos Petroleiros, Emanuel Cancella, assinou um artigo de opinião, publicado por vários órgãos brasileiros, onde põe em causa a independência do juiz federal e a sua legitimidade enquanto titular dos processos em curso. 
“A esposa do juiz Sérgio Moro, que está à frente da operação Lava Jato, advoga para o PSDB do Paraná e para multinacionais do petróleo. 
A denúncia foi publicada no Wikileaks”, refere o sindicalista, para quem os “principais interessados” e “grandes beneficiados” com a investigação são, precisamente, o partido social-democrata, maior força de oposição, e as petrolíferas estrangeiras interessadas numa eventual privatização da Petrobras. 
“A sociedade não deve nenhum respeito a um juiz que extrapola as suas funções e, sem nenhuma base jurídica, destrata a autoridade máxima do país”, conclui

Notícia corrigida no dia 10 de Agosto: Sérgio Moro frequentou a Universidade Estadual de Maringá, e não estadual, como por lapso se escreveu.

rita.siza@público.pt

Juiz dá ordem de prisão a Lula da Silva

LULA DA SILVA
Liliana Borges
5 de Abril de 2018, 22:15 actualizado a 5 de Abril de 2018, 23:41 
Supremo Tribunal Federal brasileiro rejeitou o pedido de habeas corpus esta quinta-feira. Lula da Silva ainda pode recorrer a dois tribunais para anular a pena.

Horas depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil ter rejeitado o pedido de habeas corpus de Lula da Silva, o juiz Sergio Moro emitiu ordem de prisão ao ex-Presidente do Brasil, condenado a 12 anos e um mês de cadeia no âmbito do processo Lava-Jato, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Lula da Silva tem até às 17h locais de sexta-feira (21h em Lisboa) para se entregar à Polícia Federal de Curitiba.

“Relativamente ao condenado e ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, concedo-lhe a oportunidade de se apresentar voluntariamente à Polícia Federal em Curitiba até as 17h do dia 6 de Abril de 2018, quando deverá ser cumprido o mandado de prisão”, informou Sérgio Moro, cita O Globo.

"Esclareça-se que, em razão da dignidade do cargo ocupado, foi previamente preparada uma sala reservada, espécie de Sala de Estado Maior, na própria Superintência da Polícia Federal, para o início do cumprimento da pena, e na qual o ex-Presidente ficará separado dos demais presos, sem qualquer risco para a integridade moral ou física", esclarece o despacho.

O juiz ressalva ainda que Lula da Silva não poderá ser algemado “em qualquer hipótese”.

A defesa do antigo Presidente brasileiro tentou evitar a prisão através de um pedido de habeas corpus, que foi rejeitado por seis dos 11 juízes do STF numa sessão que durou mais de dez horas.

Lula da Silva tem direito a um último recurso ao tribunal de segunda instância de Porto Alegre (TRF-4) que pode apresentar até 10 de Abril. 
No despacho, o juiz Moro diz que tais recursos são "uma patologia protelatória". 
"Hipotéticos embargos de declaração de embargos de declaração constituem apenas uma patologia protelatória e que deveria ser eliminada do mundo jurídico", lê-se no documento.

O advogado de Lula já reagiu e considera que esta é uma "decisão arbitrária". 
"Estão a contrariar a própria decisão do tribunal do dia 24, quando os três juízes desembargadores determinaram que a prisão só poderia acontecer depois de exaurida toda a tramitação em segunda instância. 
Estamos dentro do prazo. 
Ainda temos os embargos dos embargos e a possibilidade de recursos extraordinário ao Superior Tribunal de Justiça e extraordinário ao Supremo Tribunal Federal", afirmou Cristiano Zanin, em declarações à Folha de S.Paulo.

O ex-Presidente pode ainda recorrer ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal, não para contestar a matéria dos julgamentos, mas para verificar se houve ilegalidades nos processos, tentando assim obter a sua anulação. 
Desde o início do processo que a defesa nega todas as acusações. 
Lula diz estar a ser vítima de um processo político. 
O ex-Presidente já fez saber que se pretende regressar ao Palácio do Planalto a partir das eleições de Outubro, liderando as sondagens como candidato do Partido dos Trabalhadores — fez questão de reforçar o seu apoio a Lula.

Para além da condenação por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro agravada em segunda instância (inicialmente tinha sido condenado a nove anos e seis meses de cadeia), Lula da Silva enfrenta mais sete denúncias.

O despacho de Sérgio Moro abrange ainda as prisões de José Adelmario Pinheiro Filho (condenado a três anos, seis meses e 20 dias) e Agenor Franklin Magalhães Medeiros (um ano, dez meses e sete dias).

liliana.borges@público.pt

quinta-feira, 5 de abril de 2018

“A nossa Constituição foi rasgada”, diz Partido dos Trabalhadores

LULA DA SILVA
Público
5 de Abril de 2018, 8:19 actualizada às 11:11 
O partido de Lula da Silva defende a inocência de Lula. 
“A maioria do Supremo Tribunal Federal ajoelhou-se ante a pressão escandalosamente orquestrada pela Rede Globo”, escreveu.

O Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual Lula da Silva volta a candidatar-se à presidência do Brasil, já reagiu à decisão do Supremo Tribunal Federal que recusou o habeas corpus e autorizou a prisão do ex-Presidente. 
“Hoje é um dia trágico para a democracia e para o Brasil”, diz um comunicado publicado no site do partido.

“Não há justiça nesta decisão. 
Há uma combinação de interesses políticos e económicos, contra o país e sua soberania, contra o processo democrático, contra o povo brasileiro”, lê-se no comunicado
“A nossa Constituição foi rasgada por quem deveria defendê-la”.

Os seis votos contra o habeas corpus (e cinco a favor) do Supremo Tribunal abriram porta à prisão de Lula por 12 anos e um mês. 
O Partido dos Trabalhadores salienta, no entanto, que o julgamento no âmbito da investigação Lava Jato constituiu um “processo ilegal”, com “juízes notoriamente parciais” que “não conseguiram sequer caracterizar a ocorrência de um crime”.

“A maioria do Supremo Tribunal Federal ajoelhou-se ante a pressão escandalosamente orquestrada pela Rede Globo”, considera a Comissão Executiva do partido. 
Diz ainda que a presidente do Supremo Tribunal, Cármen Lúcia, cujo voto contra selou a decisão, abriu "mais um procedimento de excepção" e ignorou a "presunção da inocência como regra geral".

O Partido dos Trabalhadores reafirmou ainda que o ex-Presidente será candidato às presidenciais brasileiras mesmo que esteja a cumprir pena de prisão. 
“O povo brasileiro tem o direito de votar em Lula, o candidato da esperança”, sustenta o partido, acrescentando que vai defender esta candidatura “nas ruas e em todas as instâncias, até as últimas consequências”.

A Articulação de Esquerda – uma facção dentro do PT –  também divulgou uma nota de condenação à decisão dos juízes do STF e de reiteração do seu apoio a Lula da Silva. 
O grupo apela à “resistência colectiva” e propõe a formação de uma barreira humana para impedir a prisão do antigo Presidente.

“Queremos (...) informar publicamente a nossa decisão de resistir colectivamente à tentativa de prisão, através de barreira humana que proteja o Presidente Lula onde ele estiver: na sua residência, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, na sede do Partido dos Trabalhadores”, lê-se no comunicado. 
“Eleição sem Lula é fraude!!! 
Contra a tirania, o povo tem o direito e o dever da rebelião!!!”, defende a Articulação de Esquerda.

Do exemplo de Portugal à sobrelotação das cadeias, os argumentos dos juízes que decidiram o destino de Lula

LULA DA SILVA
Inês Chaíça
5 de Abril de 2018, 10:44 

Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal

A jurisprudência foi o tema central da discussão, mas o exemplo de Portugal, a sobrelotação das cadeias e os méritos de Lula também foram referidos na longa sessão do Supremo Tribunal Federal. Conheça os principais argumentos de cada um dos juízes.



Foi por uma margem estreita que o Supremo Tribunal Federal se decidiu contra o habeas corpus pedido em Janeiro por Lula da Silva. 
O ex-Presidente foi condenado a 12 anos e um mês de prisão pelo Tribunal de Porto Alegre, tribunal de segunda instância. 
Os juízes dividiram-se e acabaram por se decidir contra por seis votos a favor e cinco contra – a votação esteve empatada até que a presidente do colectivo, Cármen Lúcia, se pronunciar, em último lugar.

A sessão de quarta-feira foi transmitida em directo pela TV Justiça e durou quase 11 horas, prolongando-se pela madrugada, até às 1h (4h em Lisboa). 
A tendência de voto da maioria dos juízes era conhecida, excepção feita a Rosa Weber, que votou de acordo com a jurisprudência apesar de não concordar com a rejeição do habeas corpus.

A decisão do Supremo Tribunal Federal abriu caminho para que o Tribunal de Porto Alegre possa decretar a prisão de Lula. 

Se houve juízes que salientaram a “injustiça” de uma decisão tomada sem provas, outros defendem que, com duas condenações em primeira e segunda instâncias, o caso está investigado e provado que Lula cometeu o crime de corrupção de que era acusado. 
Alguns ancoraram os argumentos no respeito pelos Direitos Humanos e outros optaram por elogiar os “êxitos económicos” do mandato de Lula.

Eis os argumentos de cada um dos 11 juízes:

Edson Fachin (contra o habeas corpus)
Fachin votou contra dizendo que não há justificações “teóricas ou práticas” para as alterações na jurisprudência. 
O juiz afirmou que a prisão depois da decisão da segunda instância não constitui uma ofensa aos Direitos Humanos nem sucumbe “aos anseios de uma criticável sociedade punitivista”.

Para sustentar o seu argumento, Fachin citou vários casos que estão ao cuidado da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, nos quais o Brasil foi condenado pela ineficiência na protecção penal de vítimas pelo tempo que demorou a apresentar soluções a crimes que violavam os Direitos Humanos.

Gilmar Mendes (a favor do habeas corpus)
Gilmar Mendes foi dos juízes que defenderam que Lula só deve cumprir pena de prisão depois de esgotados todos os recursos, tendo mudado o seu voto original. 
Falou em “demagogia barata” e “populismo vulgar” para descrever a decisão dos que votaram contra o pedido do ex-Presidente.

“Não conheço o lado da advocacia criminal dos ricos. 
Não. 
Conheço a realidade daqueles que não têm advogado”, disse o juiz. 
Apelou à revisão do texto jurídico que permite aplicar uma pena de prisão depois da decisão de segunda instância: “Aqui é notório que era preciso fazer uma revisão, porque estamos cometendo injustiças aos borbotões”.

Alexandre de Moraes (contra o habeas corpus)
Moraes salientou que a prática (a jurisprudência) é, desde 2016, o cumprimento da pena após uma condenação em segunda instância e não fere a presunção de inocência. 
Abrir a possibilidade de se rejeitar um habeas corpus como este, defende o juiz, fez muito pelo combate à corrupção porque agiliza os processos de julgamento. 
“É inegável que entre 2016 e 2018 o retorno desse posicionamento [de rejeição geral de habeas corpus] reflectiu muito no efectivo combate à corrupção”, disse o juiz durante o voto, citado pelo Globo.

Moares salientou ainda que na maioria dos países a execução da pena se dá após a primeira ou a segunda instância: “A jabuticaba [fruto natural do Brasil; expressão pejorativa usada para referir algo que só acontece no Brasil] seria o inverso: só começar a execução após transitado em julgado, depois de todas as possibilidades recursais”.

José Roberto Barroso (contra o habeas corpus)
Roberto Barreiro salientou o impacto negativo que teria a decisão a favor da liberdade de Lula no Brasil. 
Entre as consequências esperadas, elencou a prescrição de processos, a consagração da impunidade de quem tem bons advogados e o descrédito do sistema penal brasileiro. 
O juiz disse que a interposição de recurso atrás de recurso é um processo usado para “gerar artificialmente prescrições”. 
A decisão deste caso, para ele, foi entendida como um teste de “maturidade das instituições”.

Elogiou os “êxitos económicos” e políticos do mandato presidencial de Lula, especialmente no que respeita às medidas de “inclusão social”. 
“Mas aqui não vamos julgar o legado político de um Presidente, vamos aplicar a jurisprudência”, atalhou.

“Respeito todos os pontos de vista, agora, esse não é o país que eu gostaria de deixar para os meus filhos: um país de estupradores [violadores], corruptos”, disse.

Rosa Weber (contra o habeas corpus)
O voto da juíza era uma incógnita. 
Weber acabou por defender a jurisprudência (aceitar a prisão após a condenação em segunda instância), apesar de não ser essa a sua convicção pessoal. 
Afirmou que no passado já tinha votado pela prisão apenas depois de esgotados os recursos, mas que neste momento ia defender a lei. 
“As instituições do Estado devem proteger os cidadãos de incertezas desnecessárias referentes aos seus direitos”, argumentou. 
E, neste tipo de Tribunal, “as vozes individuais vão cedendo em favor de uma voz institucional”.

Luiz Fux (contra o habeas corpus)
Fux votou contra e justificou-se dizendo que o Supremo sairia enfraquecido caso decidisse de forma contrária ao acordado em 2016. 
Salientou que o poder judicial deve respeitar a própria jurisprudência e que se não o fizer “não pode exigir o respeito dos destinatários de suas decisões, que são a sociedade e o povo brasileiro”. 
“Não significa fazer pesquisa de opinião pública para julgar. 
Mas quando estão em jogo questões morais, razões de ordem pública, é preciso saber o que a sociedade pensa disso”, disse o juiz.

“A jurisprudência do Tribunal tem que ser íntegra, coerente e estável”, sublinhou.

Dias Toffoli (a favor do habeas corpus)
Segundo Toffoli, a execução da pena deve acontecer apenas após análise do Superior Tribunal de Justiça. 
Por isso, votou contra a prisão imediata de Lula.

No seu argumento, advogou ainda pela discussão da “regra de 2016”, argumentando que a jurisprudência não deve ficar “petrificada”: “Entendo que há a possibilidade de reabrir o embrulho e enfrentar a questão de fundo”, defendeu. 
“Não há uma decisão certa e uma errada”.

Ricardo Lewandowski (a favor do habeas corpus)
Lewandowski criticou que se fizesse da constituição uma “perfumaria jurídica” no que diz respeito à presunção de inocência: “O combate à corrupção, que é justo e necessário, não justifica flexibilizar essa garantia [constitucional de presunção de inocência]”, defendeu.

Argumentou que se votasse contra, estaria a correr o risco de rebaixar o “direito sagrado à liberdade” e que “a vida e a liberdade não se repõem jamais”. 
Salientou ainda o problema da sobrelotação das prisões no Brasil, país com a terceira maior população prisional do mundo.

Marco Aurélio (a favor do habeas corpus)
“Longe de mim o populismo judicial. 
Longe de mim a postura politicamente correcta, a hipocrisia. 
Creio que esta capa me atribui o dever maior, que é o dever de buscar a prevalência das leis da República”, disse Aurélio para justificar o seu voto.

Acrescentou que a justiça tende a demorar, mas que a Constituição (que deve ser respeitada) é clara e exige que o processo transite em julgado. 
Pede que o Estado se apresse a “entregar a prestação jurisprudencial a tempo e modo”, mas, afirma, “não se pode inverter a ordem natural das coisas”.

Celso Mello (a favor do habeas corpus)
Mello defendeu que a prisão cautelar “não pode representar a antecipação punitiva” de Lula porque “não se fundamenta em qualquer juízo de punibilidade”. 
Em suma, Lula não deve ir para a cadeia porque ainda não ficou provado que é culpado e que deve, por isso, transitar em julgado. 
Respondendo às críticas, o juiz defende que não é só no Brasil que isto acontece: em Itália e Portugal, “países de perfil claramente democrático”, também há essa previsão nas respectivas Constituições.

Aproveitou o tempo de antena para criticar Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército que pediu o fim da “impunidade” na véspera do julgamento, argumentando que o comentário constituía uma infracção clara “do princípio de separação de poderes” que “é inaceitável”, concluiu o magistrado. 
Reforçou o argumento recordando os anos de ditadura militar, de 1964 a 1985, uma “experiência que não pode ser ignorada nem por esta nem por gerações futuras”.

Cármen Lúcia (contra o habeas corpus)
A presidente do Supremo foi a última a votar e coube-lhe o desempate. 
Votou contra e argumentou que a presunção de inocência se extingue depois da decisão da segunda instância. 
“Ninguém pode ser considerado culpado, mas há fases que vão desde a investigação, a denúncia, a condenação e culpa com trânsito em julgado com consequências diferentes”, disse

“Tenho para mim que não há ruptura [com execução da pena após segunda instância] quando já exaurida a fase de provas porque, então, passa-se a discutir basicamente o direito”, defendeu.

inês.chaíça@público.pt