sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Sidónio, 100 anos depois do Presidente-Rei

RUI RAMOS
08 Dezembro 2017
A 8 de dezembro de 1917, há exatamente cem anos, Sidónio Pais subiu ao poder e mudou o regime, até ser assassinado um ano depois. 
O que foi o sidonismo e o que significou? 
Ensaio de Rui Ramos.

Há cem anos, a 8 de Dezembro de 1917, chegavam ao fim os mais duros combates de rua a que Lisboa assistira até então. 
A morgue da cidade terá recolhido, durante quatro dias de luta, uns 100 mortos. 
O derrotado tinha sido o chefe do governo, Afonso Costa, líder do Partido Republicano Português e dono da República desde 1910. 
O vencedor, “comandante das forças revolucionárias” concentradas no Parque Eduardo VII, chamava-se Sidónio Pais.

Muito pouca gente ouvira falar de Sidónio antes de Dezembro de 1917. 
Mas, a partir desse mês, e durante exactamente um ano, tudo em Portugal iria rodar à volta dele. 
Sidónio manteve o regime republicano, mas expulsou quase toda a sua elite política. 
Não apenas Afonso Costa, mas também o Presidente da República, Bernardino Machado, deposto e exilado, e os chefes dos outros partidos, remetidos à oposição. 
Tudo mudou na República. 
Em Abril de 1918, Sidónio Pais fez-se eleger Presidente da República numas eleições em que — pela primeira e única vez durante a I República — vigorou o sufrágio universal (ainda só masculino). 
O sistema político, até aí “parlamentarista”, passou a “presidencialista”, à americana, com um Presidente da República que era também chefe do governo.

Mas o mais espantoso sucedeu nas ruas e nas praças das cidades portuguesas, a começar por Lisboa. 
Enormes massas de povo juntaram-se à volta de Sidónio, aclamando-o como um salvador, naqueles que foram os anos mais duros do século XX em Portugal, conjugando guerra, fome e doença. 
Um dos contemporâneos impressionados pelo “sidonismo” foi Fernando Pessoa, que mais tarde, num poema, arranjou para Sidónio o título de “presidente-rei”. 
De facto, nunca mais houve outro Presidente da República com os seus poderes e a sua popularidade. 
Mas a ascensão à chefia do Estado deste até então discreto professor universitário — que não era um líder militar, nem um chefe de partido — não tinha sido prevista por ninguém, nem pelo próprio. 
Este é um dos episódios mais estranhos da história política portuguesa dos últimos cem anos, e provavelmente aquele que deu origem a mais equívocos.

1 Uma “personalidade insignificante”

A vida de Sidónio Pais antes de Dezembro de 1917 quase não tem história. 
Nascera em Caminha, no ano de 1872, filho e neto de tabeliães. 
O pai, com poucas posses e demasiados filhos (seis), morreu cedo (1883). 
Sidónio teve de seguir a carreira militar (1888), que conciliou com estudos na Faculdade de Matemática em Coimbra, onde se tornou professor. 
Manteve, no entanto, um teórico posto de oficial de artilharia, sem serviço nos quartéis, mas com promoções regulares (chegaria a major em 1916). 
Quem o conheceu nesta época, ficou a recordar um “moço de feições e linhas aristocratas, comedido nos gestos”, muito “sereno e correcto em todos os seus movimentos”. 
A sua vida, porém, girava muito à volta do jogo a dinheiro, em que se viciou, e dos namoros extra-conjugais. 
Em 1906, protagonizou um escândalo, ao abandonar a mulher e os cinco filhos para ir viver com uma amante, aliás mulher casada.

Desde jovem que era republicano, como muitos da sua geração. 
O movimento estudantil provocado pelo ultimato britânico de 1890 terá sido um factor, mas não o único. 
Sidónio vinha de uma família liberal. 
Não era religioso. 
O seu republicanismo parece ter derivado do mito de que uma ruptura com as tradições daria aos portugueses uma existência mais ética e produtiva. 
Nunca foi, no entanto, um activista do PRP, como Afonso Costa, António José de Almeida ou Manuel Brito Camacho. 
Mas em 1910, com a implantação da República, Sidónio arranjou uma oportuna iniciação maçónica e começou a acumular cargos: vice-reitor da universidade, presidente da comissão administrativa municipal de Coimbra, administrador da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, deputado à Assembleia Nacional Constituinte (1911), ministro do Fomento e das Finanças dos primeiros governos constitucionais (1911-1912) e finalmente embaixador na Alemanha (1912-1916).

Sidónio Pais discursa em dezembro de 1917

Nesta carreira, Sidónio deveu quase tudo à protecção de Manuel Brito Camacho, o chefe de um dos grandes partidos do novo regime, o Partido da União Republicana. 
Camacho foi, durante anos, o único a admirar-se com o talento de Sidónio. 
Poucos acompanharam Camacho nessa apreciação. 
O célebre escritor e político republicano João Chagas encontrou Sidónio em Paris, quando ele regressava a Portugal depois da declaração de guerra da Alemanha (Março de 1916). Ficou mal impressionado pela sua magreza, pelo seu mau francês e pelos rumores sobre a sua movimentada vida sexual. 
Não teve dúvidas: era uma “personalidade insignificante”. 
Mas o modo como era subestimado ajudou Sidónio na conjura em que acabou por se envolver em Lisboa no Verão do ano seguinte.


2 - A “revolução do Sidónio”

Entre 1916 e 1917, os governos dominados pelo Partido Republicano Português (PRP) de Afonso Costa arrastaram Portugal para a I Guerra Mundial e impuseram ao país um esforço militar sem paralelo desde o princípio do século XIX. 
A vida tornou-se dura. 
Os preços subiram e faltaram combustíveis e alimentos. 
Esta foi a época, no século XX, em que mais crianças com menos de um ano morreram em Portugal. 
Aos protestos e às queixas, Afonso Costa respondeu com violência, matando e prendendo. 
Nos meados de 1917, muita gente se convenceu de que alguma coisa teria de acontecer
Na Europa, governos e regimes ruíam em sucessão, sob o peso de três anos de guerra. 
Na Rússia, o império dos czares acabou em Março e a república democrática em Novembro, com a tomada do poder pelos bolchevistas.

Os pormenores da conspiração de Sidónio Pais nunca foram claros. 
Por volta de Agosto de 1917, Brito Camacho terá encarregado vários militares do seu partido de sondar as forças armadas, a fim de perceber a disponibilidade para uma insurreição contra o governo de Afonso Costa. 
Sidónio foi um deles. 
Com o apoio de um amigo lavrador, António Miguel de Sousa Fernandes, seguiu a receita tradicional para sublevar a guarnição de Lisboa, contactando oficiais de baixa patente, sargentos e voluntários civis. 
A polícia, a par dos seus movimentos, não o prendeu porque nunca lhe deu importância.

Ao fim da tarde de 5 de Dezembro de 1917, Sidónio juntou finalmente perto de 1500 homens, na maioria soldados, no lugar habitual de concentração revolucionária em Lisboa: a zona da actual praça Marquês de Pombal e parque Eduardo VII. 
Na cidade, tudo fechou e os transportes públicos cessaram. 
Lutou-se a sério, durante os dias 5, 6, 7 e 8 de Dezembro. 
Os navios de guerra, ao serviço do governo, fizeram fogo sobre a cidade. 
Ouviam-se tiros e explosões por todo o lado. 
Um avião foi abatido sobre o acampamento rebelde.

O PRP, como era seu costume, fez espalhar pela cidade que se estava perante um golpe “monárquico e germanófilo” contra a República. 
Nem isso, porém, galvanizou os militantes republicanos. 
Um dos combatentes do PRP espantou-se: “O povo republicano de outrora não apareceu”. 
Pelo contrário, apareceu outro “povo” que, mal soube da rendição do governo de Afonso Costa, assaltou e destruiu as casas e escritórios dos ministros e todas as sedes, centros escolares, cantinas e jornais do PRP em Lisboa. 
Multidões bailaram e cantaram à volta das fogueiras onde ardia o recheio dos edifícios saqueados:

“Tudo dança, tudo dança,
Tudo dança, tudo gosta,
Já caiu o Ministério,
Já morreu Afonso Costa”.

Sidónio Pais na varanda dos paços do concelho após a cerimónia de proclamação

Acreditou-se que Manuel Brito Camacho, o chefe do partido republicano na oposição a Afonso Costa, seria o novo senhor da política portuguesa. 
Mas desde Novembro, que Camacho se distanciara da conspiração, ou porque receasse complicações diplomáticas, ou porque a concebera apenas como um meio de pressão para negociar com o governo. 
Rapidamente se percebeu que aquela tinha sido a “revolução do Sidónio”. Comandara as tropas revoltadas no Parque Eduardo VII, ao princípio muito nervoso, depois com determinação implacável, competência técnica e bom humor, sempre a fumar e a comer chocolates. 
De presidente da Junta Revolucionária passou, a 11 de Dezembro, a chefe do governo.

Muitos apostaram então que não iria durar. 
De facto, um mês passado, a 8 de Janeiro de 1918, o PRP tentou encerrar o episódio sidonista com uma revolta da divisão naval. 
Lisboa viu então Sidónio Pais no Castelo de S. Jorge, a regular ele próprio, de binóculos, o tiro da artilharia contra os navios rebeldes. 
Ganhou mais uma vez. 
No rescaldo, prometeu: se fosse preciso, “iria vinte vezes ao parque Eduardo VII para combater a demagogia” (a “demagogia” era uma designação corrente do PRP). 
O povo começou a admirá-lo como um “teso”, um “valente”. 
A oligarquia política acreditou finalmente que ele falava a sério quando dizia que “não sirvo para ser o guarda temporário do país”. 
O homem discreto ia reinventar-se como um herói providencial.

3 . A guerra

Em 1917, a principal questão em Portugal era a da guerra. 
A República Portuguesa mantinha um corpo expedicionário de 50.000 homens na frente ocidental, ao lado dos Aliados, contra a Alemanha. 
Por isso, quando se viu inesperadamente preso e depois exilado, Afonso Costa declarou-se vítima de uma conspiração alemã, de que Sidónio, regressado de Berlim, teria sido o agente. 
O objectivo era indispor os Aliados com o novo governo português. 
A França pareceu acreditar na invenção. 
Mas não a Inglaterra. 
Logo no rescaldo do golpe, a 10 de Dezembro de 1917, o representante militar inglês em Lisboa, o general Bernardiston, visitou o acampamento rebelde. 
Sidónio confirmou-lhe os seus “sentimentos aliadófilos”: “Podem os aliados contar absolutamente connosco”. 
Uns meses depois, em Maio de 1918, a Inglaterra anunciou a elevação da sua representação diplomática em Lisboa ao estatuto de embaixada. 
Nunca Londres mostrara tanta afeição a um governo republicano em Portugal.

Mas uma vez no poder, Sidónio não enviou mais tropas para França. 
Seria, por isso, acusado de “sabotar” o esforço de guerra português na Europa. 
Mas o que os seus inimigos omitiam é que esse esforço já havia sido interrompido antes dele, no Verão de 1917, pela mesma razão: a falta de capacidade da Inglaterra para transportar as levas mensais de 4000 soldados. 
Mas, também tal como o governo anterior, Sidónio não aceitou a oferta britânica de reduzir a frente portuguesa. 
Com o Corpo Expedicionário Português (CEP) estacionado num sector da frente que se manteve tranquilo até Março de 1918, ninguém se terá preocupado demasiado. 
A 9 de Abril, porém, uma súbita ofensiva alemã quase fez desaparecer o CEP, que perdeu metade da sua primeira linha, sofrendo cerca de 614 mortos e 6535 prisioneiros. 
Muito provavelmente, nenhum reforço teria feito diferença. 
Sidónio insistiu junto das autoridades inglesas para “reconstituir” o CEP, mas os transportes continuavam a ser uma dificuldade. 
Desde então, a guerra para Portugal reduziu-se à recepção dos soldados regressados de França e ao envio de encomendas para os prisioneiros de guerra na Alemanha.

Este “fim da guerra” não desgostou aos oficiais do exército. 
O exército português não era mais do que uma polícia — sem efectivos, organização ou armamento para enfrentar exércitos modernos. 
Os oficiais tinham consciência disso. 
Sentiram-se vexados com os revezes perante as forças coloniais alemãs em Angola e em Moçambique e receberam sem entusiasmo a ideia de combater na Europa, que interpretaram como uma jogada do PRP com âmbito meramente partidário. 
A expedição a França justificou alguma reorganização e reequipamento, mas tudo avançara de uma maneira improvisada e humilhante. 
Os oficiais ficaram incomodados pelo influxo de milicianos e ressentiram a notória desconfiança e até atitude de menosprezo do PRP para com os militares. 
Sidónio, pelo contrário, soube cuidar da auto-estima do exército. 
No dia 10 de Dezembro de 1917, encerrou o seu golpe em Lisboa com uma exibição maciça e disciplinada das tropas desfilando na Avenida da Liberdade. 
Era assim que, depois da sublevação, queria as forças armadas: “É num exército disciplinado que assentam as bases de uma sociedade que quer viver para o trabalho em boa paz e com ordem”. 
Sidónio aumentou os prés, melhorou o rancho e multiplicou as paradas militares, onde o exército pôde exibir um novo aprumo e o recente material de guerra. 
Fez do exército uma força disciplinada, motivada e eficaz, que passou a ser verdadeira base do seu poder em 1918.

4 . “Um regime novo em que monárquicos e republicanos possam viver”

O então jovem professor universitário Martinho Nobre de Melo, que falou muito com ele, nunca teve dúvidas: “Sidónio era um democrata”. 
Tal como António José de Almeida, Manuel Brito Camacho ou Afonso Costa, os líderes partidários da república, Sidónio era livre-pensador e anti-tradicionalista. 
Que queria ele então fazer à República?

Afonso Costa encabeçara uma autocracia violenta. 
Os parlamentos resultavam de eleições fraudulentas, o governo não era efectivamente limitado por nenhum outro poder do Estado (nem pelo Presidente da República, reduzido a um simples mestre-de-cerimónias constitucional, nem pelos tribunais), a imprensa estava submetida a censura prévia, e as oposições arriscavam a prisão ou o exílio. 
Por isso, o golpe de Sidónio foi vivido pelo país como uma libertação.

Em Dezembro de 1917, Sidónio não deixou nenhuma autoridade de pé: derrubou o governo, destituiu o Presidente da República, dissolveu o parlamento e substituiu as vereações municipais por comissões administrativas. 
Nas suas primeiras proclamações, anunciou ao país que o objectivo era libertar a república da “casta política” que “explorava” o Estado “em proveito próprio e com grave dano para o país”. 
Queria regressar à “pureza” do 5 de Outubro. 
Como prova desse retorno às origens, tinha ao seu lado Machado Santos, membro da Junta Revolucionária, e José Carlos da Maia, nomeado comandante da Divisão Naval, os principais heróis do 5 de Outubro e constantes inimigos de Afonso Costa desde 1910.
Sidónio Pais regressa a Belém acompanhado pelo secretário-geral da Presidência, Forbes Bessa, depois da cerimónia de proclamação

Sidónio aboliu a censura prévia à imprensa, soltou os sindicalistas presos, deixou regressar os monárquicos exilados e aliviou a pressão anti-clerical sobre a Igreja Católica. 
Em 1918, haveria de rever a Lei da Separação de 1911 (22 de Fevereiro), e reatou relações com o Vaticano (10 de Julho). 
A 15 de Maio de 1918, na sé de Lisboa, Sidónio foi o primeiro chefe de Estado republicano a assistir a uma missa (dedicada aos mortos da guerra). 
Sindicalistas e monárquicos também mereceram atenções e contactos. 
Delegados seus foram recebidos em audiência por Sidónio e convidados a colaborar. 
Aos monárquicos, Sidónio pediu que “ingressassem” na república, “em pé de igualdade com os republicanos”.

Esta foi a chave do sidonismo: até então, o poder e os seus benefícios tinham estado reservados aos militantes dos partidos republicanos; foi Sidónio quem eliminou esse exclusivismo e se propôs abrir as portas do regime a toda a gente, “sem olhar aos seus credos políticos ou religiosos”: “não se quer saber, nem venho perguntar, a que partido pertencem”. 
Aos que o acusavam de trair a república, garantiu que “diga-se o que se disser, agrade a quem agradar, o governo é republicano”
Ia “consolidar a república” fazendo dela “um regime novo em que monárquicos e republicanos possam viver”. 
Sidónio recorreu a católicos, monárquicos e indiferentes políticos para cargos directivos e de confiança na administração e no exército, porque sabia que nenhum desses grupos tinha força suficiente para, por si só, tomar o poder. 
Isto, no entanto, não dispensava uma fórmula política que integrasse e desse coerência a gente de tão diversas proveniências.

Mas congregar os “homens de bem” não bastava. 
Era preciso um “regime novo”. 
Desde cedo que Sidónio, nas suas intervenções, apontou o que ele chamou “regime parlamentar” como o maior problema da república. 
Ora, o regime parlamentar em Portugal desde o século XIX caracterizara-se sempre, segundo Sidónio, pelo monopólio do Estado por “partidos organizados com clientelas”, como tinham sido “o partido de Fontes Pereira de Melo” durante a monarquia, antes de 1910, e o PRP de Afonso Costa sob a república. 
Por isso, à “revolução feita com os tiros de canhão” teria de se seguir outra, “mais difícil”, com “base numa reviravolta de espíritos”. 
Sem sair da república, Sidónio ia romper com os partidos republicanos.

5 . “Sidónio Pais não existe!”

Sidónio não chegou ao poder com um plano. 
Em 1911, confessara não ter “opinião formada” no debate entre parlamentaristas e presidencialistas: já então estava convencido de que o “sistema parlamentar seria o regresso ao passado”, mas também duvidava do “regime presidencial americano, que a breve trecho transformaria entre nós o presidente num déspota”. 
A seguir ao golpe, ainda pediu ministros a Manuel Brito Camacho e até a António José de Almeida, os líderes dos partidos da “direita republicana”.

Mas com a vitória sobre o contra-golpe do PRP, a 8 de Janeiro 1918, algo mudou. 
Sidónio passou a ser vitoriado nos teatros de Lisboa. 
Viajou pelo país, de norte a sul. 
Foi recebido em ruas e praças cheias, entusiásticas. 
Percebeu que a população estava cansada dos chefes republicanos, intolerantes e suspeitos de corrupção. 
De regresso a Lisboa, a 18 de Janeiro, vinha exaltado. 
No dia seguinte, nas Necessidades, numa conversa com o representante de Portugal em Inglaterra, Manuel Teixeira Gomes, que mandara vir a Lisboa, abandonou todas as reservas: “referiu-se ao novo estado das coisas como ao acontecimento mais notável da nossa História moderna, em comparação do qual o 5 de Outubro pouco valia”. 
Mais: “já não era unionista”, “não tinha partido algum” – “o que havia era um partido nacional”. 
A 4 de Março de 1918, nos paços do concelho de Santarém, alargou o horizonte: “Já se destruiu a demagogia, mas ainda é preciso mais”.

Sidónio Pais recebe as aclamações populares da varanda dos paços do concelho

O que começara como o saneamento de Afonso Costa ganhava uma inesperada profundidade. 
Os seguidores de Brito Camacho tinham contado ser a maioria no parlamento que haveria de ser eleito para rever a Constituição e eleger um novo Presidente da República. 
Em Março de 1918, porém, perceberam que Sidónio tencionava desde logo alterar a Constituição por decreto do governo e fazer-se eleger Presidente por sufrágio directo. 
Os camachistas voltaram-se contra Sidónio, privando-o da caução de qualquer partido republicano. 
Mas Sidónio não recuou por causa disso. Ia agora provocar na vida pública portuguesa uma viragem tão importante como a revolução de 1910. 
Os decretos de 11 de Março e de 30 de Março de 1918 fizeram assentar a república no sufrágio universal masculino e deram-lhe uma feição aparentemente americana. 
O Presidente, que pela constituição de 1911 era eleito pelo parlamento, passou ser eleito directamente pelos cidadãos eleitores e a exercer a chefia efectiva do governo e ainda o comando operacional das forças armadas. 
O parlamento, até aí o órgão directivo do Estado, ficou confinado às funções de legislar e fiscalizar. 
Além da Câmara dos Deputados, com 155 membros, foi instituído um senado de 77 membros, integrado por 49 representantes das províncias e 28 delegados de associações patronais, sindicatos, serviços públicos, universidades e academias. 
Mas isto não era a Constituição. 
Era apenas uma situação. 
Às câmaras eleitas competiria discutir e votar um estatuto constitucional que definisse as relações entre os poderes do Estado e portanto a caracterização exacta do regime.

A lei eleitoral lembrava: “sem sufrágio universal não pode haver democracia”. 
Os chefes do PRP tinham-se limitado a fazer um apelo sectário aos “republicanos”. 
Sidónio, em contraste, dirigiu-se a toda a sociedade, ao “povo português”. 
Assim, atreveu-se a dar capacidade eleitoral aos homens maiores de 21 anos, ao contrário do que tinham feito os partidos republicanos, que em 1913 haviam restringido o direito de voto, sempre receosos das tendências conservadoras dos camponeses. 
Os partidos republicanos, escandalizados, avisaram que “o sufrágio universal só beneficiará os monárquicos”. 
Sidónio ignorou-os e avançou. 
A 28 de Abril de 1918, foi eleito presidente com 513.958 votos, o equivalente a 58,4% dos 880 000 recenseados. 
Declarou-se então “chefe de todos os portugueses”, “mandatário da nação”, legitimado tanto pelo sufrágio, como pelo facto de a sua “consciência interpretar milhões de consciências”. 
Convencera-se de que só ele podia unir o país. 
Deixou de se ver a si próprio como um indivíduo: “Sidónio Pais não existe! 
É, se o querem, o símbolo das aspirações da Pátria”. 
Acabara a “primeira república”. 
Começava a “segunda república”.

6. “Muito impróprio para um Presidente da República”

A partir daqui, Sidónio encenou habilidosamente a sua passagem pela presidência. 
Tal como os reis, foi aclamado na Câmara Municipal de Lisboa, na tarde de 9 de Maio de 1918, numa cidade em festa, toda embandeirada. 
Depois, a cavalo e de espada desembainhada, assistiu a uma enorme parada da guarnição militar da capital, enquanto dois aviões sobrevoavam a cidade. 
Nos dias seguintes, o Presidente teve sucessivos banhos de multidão. 
A imprensa notou, em particular, a excitação do público feminino. 
A 12 de Maio, por ocasião de uma tourada de gala no Campo Pequeno, o seu carro demorou duas horas a trazê-lo ao Rossio, tanta era a gente nas avenidas para o ver. 
Os jornalistas começaram logo a falar de “messianismo”. 
Sidónio, que durante anos não usara uniforme, passou agora a andar sempre fardado. Estabeleceu até um uniforme para os Presidentes da República: o mesmo dos oficiais generais, “com distintivos de estrelas de ouro”. 
Formou uma Casa Militar, com oficiais que “usarão como distintivo cordões e agulhetas douradas, pendentes do ombro direito”. 
O professor de matemática transformou-se numa encarnação mítica do Estado.

A carestia e escassez de abastecimentos e as epidemias serviram de pretexto para a expansão do Estado, através da assistência pública, dos serviços hospitalares e do controle administrativo da produção, distribuição e preço dos abastecimentos essenciais. 
O mesmo estava a acontecer noutros países e já se notava em Portugal antes de Sidónio. Mas Sidónio, à frente de tudo, deu uma dimensão pessoal a este processo. 
Com Sidónio, o poder político em Portugal passou a ter um rosto e um coração, tornou-se uma pessoa, a quem os portugueses podiam ver e apelar. 
Faltava açúcar e arroz em Lisboa por causa da lentidão burocrática da alfândega, e era o próprio Sidónio quem ia à alfândega e libertava as mercadorias. 
Os presos políticos no Porto queixavam-se de mais tratos e ele, comovido, ordenava que os soltassem imediatamente (18 de Maio de 1918). 
A imprensa do PRP aproveitou para censurar as “extraordinárias prerrogativas”, “pouco republicanas”, de um presidente que se comportava como “os reis absolutos, que de tudo dispunham”. 
Prudentemente, Sidónio lembrou que os presos não estavam a cumprir sentença judicial. Mas não hesitou em argumentar que, embora o chefe de Estado devesse respeitar “acima de tudo” a lei, não podia ser uma “estátua”: “A bondade é também, por vezes, uma forma de justiça”. 
No caso da tortura e dos maus tratos, costumeiros nas prisões republicanas desde 1910, estava convencido de que só “um exemplo retumbante” lhes podia pôr termo: “Era preciso gritar bem alto que hoje não se agride um preso”.

No Verão de 1918, Sidónio, que vivia em Belém, instalou-se no antigo palácio real da Pena, e entrou no convívio da aristocracia, refugiada em Sintra. 
Pela sua mão, duquesas e condessas voltaram à vida pública, colaborando com o presidente em iniciativas de beneficência. 
A aristocracia tratou-o com a mesma reverência que antigamente se dava aos reis. As senhoras começaram a levantar-se sempre que o presidente entrava na sala.
A condessa de Ficalho ficou particularmente impressionada com Sidónio. 
Visitou-o no palácio, para lhe falar de uma obra de assistência. 
A meio da conversa, deixou cair uma das suas pulseiras. 
Em vez de se levantar para a ir apanhar, como qualquer cavalheiro, o presidente tocou a campainha e chamou um ajudante, a quem ordenou que recuperasse a pulseira. 
Como um rei teria feito, segundo notou a condessa. 
Nas recepções, esperava sempre que lhe fossem falar: “Não dava um passo, estendia a mão, e eu naturalmente fazia-lhe uma mesura de corte”. 
Para a condessa de Ficalho, desvanecida, Sidónio era um “dominador”.

Ninguém, agora, reconheceria o homem “insignificante” descrito por João Chagas. 
Os seus admiradores falavam de um homem franzino, mas alto e aprumado, com um ar altivo e estranho, sedutor e imperioso, rodeado, como um príncipe, por uma corte de jovens dedicados e damas apaixonadas. 
Embora jurasse que “nunca procurei teatralidade para os meus actos”, tudo em Sidónio era de facto teatral, ritualizado, ou percebido como tal por um público fascinado. 
Nas salas de espectáculo, aparecia sempre da mesma maneira: “avançando até à frente do camarote, tendo ainda posta a capa que tirava com elegância e estendia no braço a um dos secretários, que a passava ao criado”. 
Sidónio foi a mais surpreendente transfiguração que o poder produziu em Portugal.

De facto, Sidónio não era como um rei. 
Os últimos reis haviam estado cercados por uma etiqueta severa. 
Não assim Sidónio. António Cabral, antigo ministro da monarquia, viu-o num domingo de Maio, no Rossio, no meio de “um agitado e ondulante mar de povo”, que batia palmas e dava vivas. 
De pé, no carro parado, Sidónio “falava, agradecendo aos que o cercavam”, o que escandalizou o antigo frequentador da corte: “Pareceu-me aquilo muito impróprio de um Presidente da República”. 
Teria sido pior se o visse entrar nos quartéis, interpelando os soldados com frases “plebeias” — “rapazes, estamos fixes?”

7 . O “pai do povo”

Mais do que de estilo, tratava-se de um sistema de poder. 
Sidónio pouco reunia o conselho de ministros. 
Em vez disso, como notou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, o futuro prémio Nobel da Medicina Egas Moniz, rodeava-se de “manifestações” populares, que “tinham uma grande influência nas suas decisões”. 
Tendo decidido que “é principalmente no meio do povo que eu me sinto bem”, dedicou-se a visitar bairros pobres, prisões e hospitais. 
Apareceu em festas para crianças e discursou na inauguração de centros de distribuição de refeições (as “sopas da assistência”). 
Durante as epidemias de tifo e de gripe, que mataram mais de 60.000 pessoas em 1918, desafiou o contágio, entrando nas enfermarias para consolar os doentes. 
As revistas ilustradas divulgaram as fotografias de Sidónio, de bata branca, debruçado sobre as camas.

Em Lisboa, o “povo” que muita gente se habituara a imaginar esquerdista revelou-se, subitamente, “sidonista”. 
Entusiasmou-se quando viu o governo, como na rusga de Julho de 1918, atacar os “novos ricos e açambarcadores”, fechando lojas e apreendendo mercadorias. 
Sidónio, “o pai do povo”, passou a percorrer as ruas da capital sempre rodeado de multidões excitadas, com toda a gente às janelas. 
Ao contrário dos outros chefes republicanos, apareceu em público entre mulheres e sobretudo crianças. 
Antes de 1910, os republicanos, em Lisboa, haviam usado o “povo” contra a elite liberal; agora, Sidónio recorria novamente ao “povo”, mas contra a elite republicana. 
Entretanto, pelo resto do país, os lavradores agradeciam-lhe uma política de preços muito mais favorável do que a de Afonso Costa, e o clero disfrutava uma tolerância inédita desde 1910.

Sidónio Pais no dia da sua proclamaçã, à entrada dos paços do concelho

Tal como Luís Napoleão Bonaparte na década de 1830, Sidónio descobrira que a democracia podia corporizar-se numa personalidade, um herói representativo, identificado com o bem comum e em suposto contacto directo com o povo. 
Fascinou muita gente, sobretudo pela sobranceria com que quebrou velhas convenções e preconceitos. 
Não tinha medo da novidade, do imprevisto: “eu nada receio”, disse várias vezes. 
Foi precisamente o que lhe criticou o seu antigo protector, Brito Camacho: o agora Presidente “queria que fossemos para o desconhecido, para o incerto, levados pela sua mão”. 
Temerário, Sidónio expandiu o leque do possível e do imaginável. 
Uns, como o escritor António Sérgio, ficaram fascinados pela possibilidade de uma administração honesta e efectiva, sem sectarismos; outros, como Martinho Nobre de Melo, catedrático de direito (e, embora republicano e maçon, ligado ao Integralismo Lusitano), deixaram-se seduzir pela demonstração de um poder puramente pessoal, sem o amparo das tradições históricas.

O sidonismo marcou também o advento político da juventude, dos “novos”, como então se dizia. 
O golpe de Sidónio fora a “revolução dos alferes”. 
Sidónio não hesitou em nomear ministro do Interior um alferes e estudante do Instituto Superior Técnico, Henrique Forbes de Bessa, com 23 anos. 
O ministro da justiça, o já referido Martinho Nobre de Melo, tinha 27 anos. 
No Serviço de Abastecimentos, o importante cargo de inspector geral da fiscalização coube ao alferes Jorge Botelho Moniz, de 20 anos. 
O governo do arquipélago de Cabo Verde foi entregue a mais um alferes, Teófilo Duarte, com 19 anos. 
Eram os “cadetes do Sidónio”. 
A classe política, hierarquizada e protocolar, ficou em estado de choque com esta desarrumação de carreiras e de escalas. 
Era a “fedelhocracia”, um país às ordens de rapazolas de 19 anos!

8. Discussões

Alguns dos simpatizantes de Sidónio reuniram-se num novo Partido Nacional Republicano (PNR). 
Eram sobretudo antigos republicanos da direita, decepcionados com Camacho e Almeida. O perfil sociológico do PNR era igual ao dos outros partidos republicanos, com muitos militares, advogados e médicos. 
Foi-lhes apenas pedido o “compromisso” de votarem uma “constituição presidencialista”. Nada mais ficou definido. 
Nas eleições legislativas de Abril de 1918, que decorreram ao mesmo tempo que as presidenciais mas com menos participação (38,8%), o PNR elegeu 108 deputados num total de 155. 
Além do PNR, ficaram representados na câmara dos deputados, através do sistema de lista incompleta, monárquicos (37 deputados, liderados pelo próprio “lugar-tenente” do rei exilado, Aires de Ornelas) e católicos (só 5 deputados).

Era um sinal de abertura e de apaziguamento. 
Em contrapartida, nenhum dos antigos partidos republicanos concorreu às eleições, embora continuassem a publicar jornais e a reunir-se. 
Os políticos mais conhecidos desapareceram dos lugares da frente da vida pública. 
Afonso Costa e Bernardino Machado permaneceram exilados; Manuel Brito Camacho e António José de Almeida entraram numa espécie de amuo. 
Era uma república que, ao não lhes garantir o monopólio do poder, eles decidiram não reconhecer como tal. 
No entanto, embora entre os embaixadores tivesse havido algumas demissões, quase todos os políticos republicanos se conservaram nos seus empregos no Estado, sem outro protesto do que o abstencionismo político. 
De resto, continuaram abertos canais para o governo, como o proporcionado pela solidariedade maçónica.

A 22 de Julho de 1918, o novo parlamento abriu, decidido a fazer esquecer as “reuniões de mal vestidos” do passado. 
A assembleia apareceu pejada de “comendas e dourados” e as galerias “atulhadas de mulheres formosas em belas toilettes”. 
No seu discurso inaugural, Sidónio insistiu: “Não é para a simples modificação de um artigo da Constituição, por importante que possa ser a sua influência, nem mesmo para a execução de um programa delimitado de reforma política, que uma revolução se põe em marcha”. 
Com a sua revolução, ele propunha-se mais: “Combater os erros e os processos viciosos que minavam os regimes anteriores e os conduziram à sua queda”. 
Basicamente, o que Sidónio procurava era uma fórmula que enquadrasse legalmente o seu poder pessoal. 
O presidencialismo tinha a vantagem de o colocar acima de qualquer partido, incluindo o PNR.

Na prática, Sidónio precaveu-se da maneira mais simples: nomeando coronéis e majores ditos “monárquicos” para os comandos militares. 
Os “monárquicos” tinham esta vantagem para Sidónio: ao contrário dos republicanos, não pertenciam a partidos. 
Eram, na sua maioria, individualidades por conta própria. 
Ao princípio, Sidónio exigiu-lhes a “adesão pública” à república. Logo percebeu que isso seria uma humilhação. 
Trocou essa condição pelo que mais lhe interessava: um compromisso pessoal para com ele. 
Todos aceitaram, até porque o rei exilado não parecia apostado numa restauração. 
O poder de Sidónio passou assim a ser defendido por uma espécie de feudalismo militar, feito de laços pessoais, fora de partidos e de organizações. 
Viu-se a sua eficácia em 12 de Outubro, quando o PRP tentou sublevar as guarnições militares em Coimbra e em Évora. 
Houve uma rápida concentração de forças governamentais que, quase sem combate, obrigaram os rebeldes a render-se.

Não havia, porém, mais estabilidade governativa do que antes. 
Ou melhor, por comparação com os governos controlados pelo PRP entre 1915 e 1917, houve até muito menos. 
Entre Dezembro de 1917 e Dezembro de 1918, Sidónio teve quatro ministros do Interior, quatro ministros da Justiça, quatro ministros das Finanças e quatro ministros da Guerra. Num ano, todas as pastas tiveram mais do que um ou dois responsáveis. 
O que havia era um poder pessoal, apoiado na força militar, sempre à procura de sustento político entre gente muito variada, o que contribuía para o ambiente de incerteza e conspiração, por entre boatos de restauração da monarquia ou de regresso à autocracia dos partidos republicanos.

9 . O fim

No fim de 1918, Portugal vivia em estado de sítio (desde 12 de Outubro). 
Havia, como no tempo do PRP de Afonso Costa, centenas de presos políticos. 
Desde Abril que voltara a funcionar a censura à imprensa. 
O novo regime sidonista recorreu também, como antes o PRP, a bandos de voluntários armados para intimidar críticos e inimigos. 
A 16 de Outubro, em Lisboa, uma transferência de 140 presos políticos acabou num tiroteio, com três mortos – foi a célebre “leva da morte”. 
O pior ainda estava para vir. 
Durante a guerra, o Estado interviera em toda a vida económica – não se podia exportar ou importar sem licença, a produção e a distribuição dos produtos eram controladas — e gastara à larga, recorrendo a linhas de crédito em Inglaterra e à emissão de notas do Banco de Portugal, alargada por um novo contrato entre o governo e o banco em 1918. 
Com a paz, receou-se a chegada da factura, agora sem a assistência financeira inglesa.

A queda de Sidónio, no entanto, não parecia provável. 
A 11 de Novembro de 1918, a guerra na Europa terminou subitamente: até ao Verão, a Alemanha parecera em vantagem; agora, sob pressão na frente ocidental e depois de os seus aliados austríacos entrarem em colapso, pedia um armistício, quase ao mesmo tempo que o regime imperial ruía. 
Nesse momento, Portugal já só tinha cerca de 30 mil homens em França, quase todos ocupados como meros auxiliares na retaguarda. 
A 12, Sidónio teve uma grande manifestação em frente do palácio de Belém. 
Em Lisboa, os sindicatos anarquistas tentaram lançar uma “greve geral” a 18 de Novembro. 
Fracassou, como os próprios organizadores confessaram depois, perante a “quase absoluta indiferença” dos trabalhadores. 
Serviu apenas para o governo agitar o espantalho do “bolchevismo”. 
Um negociante de jóias russo chegou a estar preso como agente de Moscovo. 
Para mostrar força, Sidónio organizou mais uma parada da guarnição militar no dia 20, na Avenida da Liberdade, e convidou a população a aderir, aparecendo com fitas verdes nas lapelas e chapéus. 
Foi um êxito.

Alguns dos companheiros dos primeiros tempos, como Machado Santos (entretanto saído do governo), exibiam agora dissidência. 
Também alguns políticos monárquicos se distanciavam. 
Sidónio ironizava: “Eu tenho hoje a hostilidade declarada das esquerdas ao mesmo tempo que a falta de apoio das direitas”. 
De facto, era a probabilidade de um atentado contra o Presidente que mais inquietava os seus colaboradores. 
Seria possível manter o sidonismo sem Sidónio? 
No Outono de 1918, todos os sidonistas começaram a preparar-se para essa eventualidade. 
Os oficiais do exército reuniram-se no que, à imitação do que acontecera em Espanha em 1917, chamaram “juntas militares”: associações informais, dispostas a tomar o comando das guarnições no caso de alguma “emergência”. 
Ninguém contestava a autoridade do Presidente. 
Mas, a 14 de Dezembro, Sidónio resolveu partir para o Porto, para esclarecer a situação com o comando militar local.
O major Sidónio Pais conversando com o doutor Moura Pinto no acampamento de Campolide

Sidónio já fora alvo de um atentado a 5 de Dezembro, durante as festas do primeiro aniversário da revolução. 
Quando saía de Belém, um aluno de pilotagem tentou alvejá-lo, mas a pistola encravou-se. Descobriu-se que o pai do candidato a assassino era maçon (como, aliás, o Presidente da República). 
Por isso, a 8, um bando sidonista saqueou o Grémio Lusitano, sede do Grande Oriente. 
No entanto, pouco se fez para impedir outro atentado. 
Na noite de 14 de Dezembro, José Júlio Costa, um dos militantes esquerdistas convencidos de que Sidónio ia restaurar a monarquia, esperou-o na gare do Rossio, em Lisboa. 
Deixara em casa um dossier com o título “A morte do Dr. Sidónio”. 
Havia polícia no local, mas Sidónio apareceu à frente, destacado da comitiva. 
O assassino não teve dificuldade em alvejar o Presidente com um revólver, atingindo-o a tiro no peito. 
Nos dias seguintes, discutiram-se as últimas palavras do defunto. 
Para uns, teria dito apenas, muito prosaicamente, quando o ampararam: “Não me apertem, rapazes”. 
Para outros, despedira-se com uma deixa mais teatral: “Morro bem, salvem a pátria”.

Na sequência do atentado, foi preso o grão-mestre do Grande Oriente, Sebastião Magalhães Lima, a quem o assassino falara uns dias antes. 
Foi Sidónio vítima de um ambiente que sugestionou um indivíduo isolado ou de uma conspiração que armou e instruiu um agente? 
No caso do homicídio do rei D. Carlos, em 1908, está documentado o enquadramento dos seus assassinos numa conjura política. 
No caso de Sidónio, é menos claro. 
Magalhães Lima admitiu ter sido visitado uma vez pelo assassino, mas brevemente e sem que tivesse tomado conhecimento das suas intenções. 
Parecera-lhe um homem “muito nervoso” e podia garantir que não era maçon. 
Este contacto é difícil de avaliar (se o grão-mestre era o mandante, porque é que José Júlio Costa lhe tentou falar em público e trazia no bolso uma carta para ele?). 
Mas não há dúvida que o assassino era um esquerdista e que a esquerda republicana festejou e aproveitou o crime.

O último esforço unido dos sidonistas foi a homenagem fúnebre ao Presidente. 
Decidiram sepultá-lo no Mosteiro dos Jerónimos, ao pé dos heróis máximos da nação, Vasco da Gama e Camões. Antes, o cadáver esteve em câmara ardente na Câmara Municipal de Lisboa, durante três dias. As fotografias mostram enormes multidões em fila para ver pela última vez o presidente. Nas ruas, miúdos vendiam retratos do “Dr. Sidónio Pais”. Nos meses seguintes, Sidónio continuou a suscitar actos excessivos de culto. Em Janeiro de 1919, regressou a Lisboa, vindo de Cabo Verde, Teófilo Duarte, um dos “cadetes” mais fiéis a Sidónio. Nos Jerónimos, decidiu que queria abraçar o cadáver do seu chefe e partiu com o punho da espada o tampo de vidro da urna.

Os órfãos do sidonismo depressa se voltaram uns contra os outros, com uma parte a tentar a restauração da monarquia. Em poucos meses, o poder era devolvido aos antigos partidos republicanos. A república, porém, não voltou a ser exactamente como antes. Afonso Costa nunca chegou a regressar e os seus seguidores perderam a confiança de antes de 1917. Sidónio pôs fim a uma época. Pagou por isso, tal como outros dos seus companheiros de governo, a quem a esquerda radical nunca perdoou. Por causa da sua colaboração com Sidónio Pais em 1918, os dois heróis da revolução do 5 de Outubro, Machado Santos (que já estivera para ser morto durante o golpe de 14 de Maio de 1915) e José Carlos da Maia seriam assassinados, como outros políticos da direita republicana, na “noite sangrenta” que se seguiu à revolução esquerdista de 19 de Outubro de 1921, ocasião em que, significativamente, foi libertado José Júlio Costa (morreria em 1946, internado no Hospital Miguel Bombarda).

10. Sidónio Pais revisto por Fernando Pessoa

Anos depois da sua morte, houve quem se convencesse de que o governo de Sidónio Pais antecipara o tipo de liderança carismática e a organização corporativa do fascismo italiano. É uma interpretação abusiva. O fascismo e o corporativismo foram fenómenos doutrinários, e não apenas situações de facto. Só por si, um caudilho carismático, como tinha havido muitos nas repúblicas da América do sul durante o século XIX, não faz o fascismo. Houve até quem tivesse lembrado de que em Agosto de 1918, o nome do professor Salazar, seu colega em Coimbra, tinha sido sugerido a Sidónio como possível ministro das Finanças. Talvez seja verdade, mas Salazar nunca foi convidado. A redução de Sidónio a um prenúncio do salazarismo é uma mistificação histórica, que serviu tanto à esquerda republicana como ao Estado Novo para se afirmarem como únicas opções disponíveis. Ora, Sidónio, que era um republicano e um maçon, representou precisamente a possibilidade de a alternativa à “ditadura parlamentar” do PRP ter sido outro regime que não o Estado Novo de um conservador católico como Salazar.

O sidonismo foi uma improvisação a que Sidónio se viu forçado para preencher o vazio político criado pelo colapso do poder de Afonso Costa e em que recorreu a não poucas ideias de que ele próprio tinha sido um crítico (como o presidencialismo). Foi, enquanto durou, mais uma situação do que propriamente um regime. Não se fundou no bom funcionamento das instituições representativas, nem no respeito pela lei, mas num poder pessoal sustentado pelo oficiais que Sidónio colocou à frente do exército. O que poderia ter sido a sua “República Nova”, se ele não tem sido assassinado, é algo que nunca saberemos. No parlamento, a 16 de Dezembro, um deputado confessou: “Há poucas horas, no quarto modesto onde jaz o cadáver do Sr. Dr. Sidónio Pais, eu senti — pela primeira vez senti! — e por isso mesmo com maior intensidade, que só o pulso firme dum homem de génio poderia realizar a obra de reconstrução, ou antes formação nacional”. Não poderia haver sidonismo sem Sidónio.

Fernando Pessoa, então empregado de escritório em Lisboa, tomou muitas notas para um ensaio a que deu o título “O Sentido do Sidonismo”. Segundo Pessoa, o sidonismo salvaguardara o que de fundamental os republicanos tinham feito – a expulsão da dinastia e a negação de um papel político ao clero católico –, mas tentara dar outro passo: a eliminação do tipo de “políticos profissionais, bacharéis e caciques” que governavam a república como já antes tinham governado a monarquia constitucional. Depois de 1910, haviam dominado Portugal enquanto chefes de uma “demagogia”, que Pessoa definiu como “um governo apoiado em forças ou classes populares e sistematicamente dirigido contra as opiniões, as tradições e os interesses das classes médias”. Sidónio tentara substituir os demagogos por “classes até ali não experimentadas como governantes”: em vez dos “políticos profissionais”, o exército; e em vez dos bacharéis, “comerciantes e industriais”. Quanto aos caciques eleitorais, mais difíceis de substituir, teria instalado um sistema que, pela separação do executivo e do legislativo, diminuía a sua influência no governo.

Fernando Pessoa escreveu um poema “À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, em 60 estrofes de cadência sebastianista

A questão política, para alguns, resumia-se assim a isto: seria possível ultrapassar os políticos profissionais, apelando às classes médias para intervir, e interessando o povo? Pouca gente acreditava nisso. Pessoa julgava ter sido esse o sentido do sidonismo. No entanto, Fernando Pessoa nunca concluiu o ensaio. A única coisa que acabou foi um poema “À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, em 60 estrofes de cadência sebastianista, publicado pela primeira vez no jornal Acção, em 1920. Preferiu, como toda a gente, o mito à análise:

“Quem ele foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A Vida fê-lo herói, e a Morte 
O sagrou Rei!
(…)
Flor alta do paul da grei, 
Antemanhã da Redenção,
Nele uma hora encarnou el-rei
Dom Sebastião.”